Gravadora: Banks/Prospect Park
Data de Lançamento: 6 de novembro de 2014
“212” foi um estrondo três anos atrás porque estabelecia uma lógica pop a partir de batidas eletrônicas, rimas de rap e appeal para as pistas. Se batesse a melancolia, em qualquer lugar que tivesse, era colocar a faixa e, pronto, tudo ficava animado.
O êxtase pop do single invariavelmente deu projeção imediata e gerou ânsia pelo álbum de estreia de Azealia Banks. No meio do caminho vieram os EPs 1991 e Fantasea, ambos de 2012, mais com o propósito de deixá-la em evidência que chacoalhar o cenário musical. Com exceção de “Liquorice”, a mencionada “212” e talvez “Atlantis”, do último EP, que lhe deu maior leque de produtores à disposição, Azealia ocultou qualquer carta de intenções de se manter no topo do disputadíssimo terreno pop.
O tão aguardado primeiro disco, Broke With Expensive Taste, supõe que o hit gerado por “212” foi mais acidental que devidamente planejado. E, já que teve notável eclosão, que assim seja! Nada mais oportuno que manter a faixa nessa empreitada, provando-se necessária conexão para que os ouvintes sintam-se atraídos pelo teor do álbum.
O disco reserva surpresas, mesmo sendo essencialmente pop. De cara, está longe de ser algo similar a uma fábrica de hits, como erroneamente algumas estrelas musicais delineiam seus discos. Tal abordagem prova que esses mais de cinco anos de lapidação em Broke… lhe deram know-how para mesclar e interpolar trejeitos técnicos e batidas envolventes e inovadoras. Sim, ela se distingue no pop em mais de uma frente, mas o que realmente cativa nessa distinção é sua ousada investida estética.
“Idle Delilah” mira o techno dos anos 1990 com elementos do naiji nigeriano. “Gimme a Chance” é funk até o osso, com produção ostensiva de metais de Enon e Oskar Kataya. “Desperado” tem base de um dubstep lento que dialoga com o que conhecemos como afrikan beatz, muito popularizado na Europa.
Não apenas nas três faixas iniciais, mas em todo Broke With Expensive Taste está deflagrada as reais influências de Azealia: a música de origem africana dançante, com pitadas das músicas dos clubes europeus. Tudo, claro, dentro do seu sotaque norte-americano do Harlem.
É uma perspectiva diferente de artista pop, principalmente pelo fato de reunir diferentes influências externas, não usuais ao que prepondera nas rádios e programas de TV.
A diversidade tão grande de produtores no álbum é entendida como a adequação musical dentro de um universo pop unicamente mantido por Azealia. A adequação pode ser praticamente indistinta, como “Idle Delilah”, ou mais drástica em “Ice Princess”, que dialoga melhor com o pop atual. “Heavy Metal and Reflective”, nesse esquema, brinca com a exacerbação, ponderando Artpop (2013) e Supa Dupa Fly (1997) em mesma rotação.
“Chasing Time” não esconde sua aura de clube europeu. Ao lado de Theophilus London, Azealia prova com sua inovadora abordagem porque é ‘mais legal, livre, de alto padrão e mais (e mais)’ em “JFK”, ideal para ser tocada nas avançadas horas da madrugada.
A transição de tempo musical de suas referências não tem cronologia, o que torna o exercício mais divertido. “Soda”, apesar de produzida por SCNTST, é típica produção SBTRKT. “Gimme a Chance” soma Aquemini (1998) com linhas de contrabaixo em ação sobreposta aos scratches. “Nude Beach a Go Go” é como se estivesse aloprando os Beach Boys.
Entende-se por que Broke With Expensive Taste demorou tanto para sair do papel. Se a função era deixar fresco aos ouvintes a captação e devolutiva dos elementos musicais externos no que a cantora entende de pop, o álbum não teme em ser sincero. Nesse ponto, o disco é crucial enquanto registro. Pois o ar novidadeiro que tanto se esperava de Azealia foi catapultado como fragmentos nesses quatro anos de atividade: “BBD”, “Yung Rapunxel” e a indissociável “212” estão riscadas nessa listagem atual, mas não deixam de ser importantes numa obra com potencial para revogar destaque no circuito pop. Nem a mensagem, tampouco as variações musicais entregam as reais intenções de Azealia Banks. A distinção é certeira; a reação, porém, permanece imprevisível.
