Gravadora: Cuneiform
Data de Lançamento: 27 de maio de 2014

Dois excelentes guitarristas pouco conhecidos darão motivos para reverência logo nos primeiros minutos de Tikkun. No produtivo cenário dark-ambient, os efeitos e pedais sobrepõem climatizações. O contexto roqueiro é subvertido ao maximalismo instrumental e virtuosismo flamejante, tão poderoso que se sobressai aos arroubos de noise.

Nem Richard Pinhas, nem Oren Ambarchi são guitarristas bem conhecidos, a não ser nos meios alternativos. Pinhas foi um dos membros fundadores da banda francesa de progressivo Heldon, nos anos 1970, colaborando com o filósofo Gilles Deleuze. A partir de 1977, porém, seguiu numa extensiva carreira solo, ora ou outra lançando discos com a Heldon.

Parte da turma barulhenta que inclui Fennesz, John Zorn, Merzbow, entre outros, Ambarchi também é baterista e artista visual. Colabora com o Sunn O))) desde 2004 e tocou com Pinhas em seu último disco solo, Desolation Row (2013), de onde veio o embrião de Tikkun.

O disco tem apenas três faixas, suficientemente estarrecedoras para mais de 1h de duração. Gravado dia 29 de outubro de 2013, no Les Instants Chavires, em Paris, Tikkun conta com importante apoio de mais quatro membros: Joe Talia em excelentes viradas na bateria com efeitos, com a ajuda de Eric Borelva; Masami Akita, do Merzbow, cuida dos loops, noise e efeitos em distorção; e Duncan Pinhas faz as sequências, efeitos e barulho de tudo quanto é tipo.

“Washington, D.C. – T4V1” inicia portentoso como um Van Halen até, aos poucos, assumir a veia Suicide e se entregar a uma barulheira semelhante ao Mainliner. São 30 minutos de nada de conversa e muitos amplificadores e efeitos distorcidos em ação. Como todas as demais, “Washington” é um teste para o ouvinte: se a sonoridade daqui for realmente a vibe, então Tikkun é o álbum do ano.

Ante qualquer ortodoxia que seja, Pinhas e Ambarchi fazem da técnica visceral que extraem de seus instrumentos um amálgama devotado ao barulho. A bateria de Talia entra na jogada com linhas semelhantes ao fusion. Forma o elo intensamente roqueiro de uma brincadeira para poucos.

Mais sinistra, “Tokyo T4V2” tem um pé no shoegaze, mas não demora nada até adquirir uma forma no-wave interestelar que põe Starless and Bible Black (do King Crimson) e Grotesque (do The Fall) numa mesma linha de influência.

“San Francisco T2V2” é a alternância das duas primeiras faixas. Sua estrutura é mais roqueira, sugerindo um Rush com Mahavishnu Orchestra sob a ótica Keiji Haino. Os efeitos de guitarra têm mais aparatos orientais que ocidentais e a cozinha se tempera fervorosamente, em ação ininterrupta. É de se perguntar como, humanamente, é possível chegar à toda essa explosão e não sair incendiado. Para comprovar, vale adquirir o DVD que vem no pacote com o CD. É de fritar o cérebro e rasgar a medula. Ensurdecedor, no melhor sentido.