Gravadora: Independente
Data de Lançamento: 3 de fevereiro de 2014

Download gratuito

Pra mim/Tudo mudou/Quando começaram/A me chamar de senhor’. Se é assim, então podemos dizer que Jair Naves é precocemente maduro. Pois esse verso foi mostrado ao público quando ele tinha 32 anos.

Seu disco de estreia, E Você Se Sente Numa Cela Escura, Planejando a Sua Fuga, Cavando o Chão com as Próprias Unhas (2012), mostrou um compositor de muitas andanças pessoais, que acumula para si tanto as amarguras (“Covil de Cobras”), quanto as belezas da vida (“Maria Lúcia, Santa Cecília e Eu”).

Felizmente, justiça foi feita: o ex-Ludovic pôde expurgar seus demônios e ser reconhecido, naquele ano, com o prêmio de melhor disco da Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA), além de figurar em listas de diversas publicações relevantes.

No segundo disco, a maturidade não iria lhe escapar. Para nossa alegria, temos um compositor à altura no meio do rock, em um nível de qualidade (e só no nível de qualidade) de Cazuza e Arnaldo Antunes, só que unilateralmente devotado à sua própria trajetória pessoal.

A narrativa de Jair Naves é cheia de mistérios, cheio de dissoluções improváveis. É Miguel de Cervantes com o empirismo literário de Marcel Proust, ambientado no difícil cenário pop brasileiro

Trovões a Me Atingir é o segundo capítulo de um quixotesco urbano que faz da memória, poesia. A narrativa de Jair é cheia de mistérios, cheio de dissoluções improváveis. É Miguel de Cervantes com o empirismo literário de Marcel Proust, ambientado no difícil cenário pop brasileiro (e no difícil cenário urbano de nossas metrópoles).

Se a complexidade das composições for a grande barreira para Jair Naves cobrar sua posição de líder no rock nacional, Trovões a Me Atingir soa como um agravante.

O desejo de “Resvala” não é de grandiosidade; talvez seja de paz consigo mesmo. O acalanto de Bárbara Eugênia em “B.” é confortante, mas as perguntas que um reles mortal faria são: qual a dimensão desse sofrimento? Por que não procurar outra perspectiva?

No fim das contas, o propósito de Trovões a Me Atingir é o mesmo que E Você Se Sente…. O que não quer dizer, claro, tratar-se de jornada semelhante ao anterior.

No primeiro disco, além de roqueiros terem a possibilidade de vislumbrar a complicada simbiose de letras inteligentes em português com sua base rítmica favorita, havia o difícil expurgo de um artista imponente – ainda que essa imponência não fosse calculada. Talvez fosse uma ilusão – ou não. Presenciar um show de Jair Naves é observar o desvanecer de cada um daqueles demônios.

Trovões a Me Atingir mostra, entretanto, que nem tudo é tão passageiro como ele desejaria em “Prece Atendida”. Prepondera o peso de uma alma que nunca vai atingir o grau utópico de felicidade – mas que, também, não quer que outrem incorpore sua blue mood, algo que ele mostra em “Deixe/Force”: ‘Só me parece um desperdício/Te ver se anulando para se enquadrar/A custo de tanta dor’.

Poderia ser o outro personagem sereno de Jair aconselhando o Jair ressentido e cinzento. Mas, mais factível é perceber que o conselheiro vivido e o sentimentalista desiludido são partes de um mesmo ser, demasiado humano.

Parafraseando o canto de “5/4”, Trovões a Me Atingir é o corpo de Jair voltando a ‘ter pulsação’.