Gravadora: Young God
Data de Lançamento: 12 de maio de 2014
Hoje, 20 de maio, completa-se exatos 270 anos do nascimento de Toussaint L’ouverture, líder da Revolução Haitiana que livrou seu país das colônias francesas ao lutar contra as forças do imperador Napoleão Bonaparte e diversas legiões polonesas. Assim, o Haiti foi o primeiro país das Américas a não só abolir a escravatura, como a ser governado por um líder negro que tinha um projeto de emancipação social próprio aos negros.
Exemplo maior de força e resistência, pelo menos no continente americano, não há.
Ao gravar a épica faixa de mais de 34 minutos com o título “Bring the Sun/Toussaint L’overture”, o Swans teve êxito ao refazer sonicamente o clima caótico de como deveria ter sido aquela situação: inúmeras tropas hegemônicas europeias, lideradas por um imperador que até então não conhecia a derrota versus a vontade de um povo que não aguentava mais sofrer se livrar das amarras da exploração e da opressão.
Os galopes de cavalo, o silêncio antes e depois da batalha, os momentos apreensivos: um formato de canção não seria o suficiente e o Swans não apenas catalisou isso muito bem. Fez desse momento épico na História um momento épico para a própria banda.
O termo épico, de fato, tem sido bem familiar ao grupo de Michael Gira. O Swans só tem acumulado acertos desde Soundtracks For the Blind (1996), cujo ápice ficou tabulado em The Seer (2012). A exemplo da grandiosidade da faixa dedicada a L’overture, To Be Kind não apenas prossegue esse ótimo momento: aponta novas direções, traz outras perspectivas com o mesmo (alto) índice de acerto que o disco que Gira “demorou 30 anos para fazer”.
Mais demasiadamente humano que o aclamado antecessor, To Be Kind põe em xeque as vicissitudes de nossa existência com uma potência ainda maior. O grau com que sentimos esse peso em “A Little God in Our Hands” e “Oxygen” é tão intenso, que identificamos com a proposta da banda. Ela quer nos fazer sentir o peso que é viver (enquanto em The Seer era o mistério da vida e nosso aspecto selvagem que ficava mais preponderante).
O fazer sentir é a principal e talvez única premissa de To Be Kind. Por mais que o disco tenha mais de 2h de duração, as percepções são colocadas de formas fragmentadas e não-específicas.
O canto de Gira é sintomático: geralmente ele não quer passar mensagem alguma. Em “Screen Shot”, faz um arremesso de elementos; “She Loves Us”, guiada pela volúpia, é um deleite pelo corpo. E, quando Gira fala ‘a-le-le- le-le- le-le- le-le- le-le-lu-iaaaaaa’, soa como o cara que transa com a mulher que desejava há um bom tempo: ‘fuck, fuck, fuck, fuck, fuck!’
Há pouco espaço para respiros e climatizações atmosféricas no disco. Mesmo em “Some Things We Do”, o que deveria ser um convite à reflexão é quase que imposto. Numa confluência naturalista, o ouvinte se situa numa espiral em que retoma todas as atividades de nossa vida: vemos, ouvimos, transamos, comemos. E outras coisas mais.
No mesmo clima melancólico, “Kirsten Supine” é declaradamente influenciado pelo filme de Lars Von Trier Melancolia (e pela atriz Kirsten Dunst, claro). Aqui a banda aborda o arrependimento e a resignação, tal qual a personagem de Justine ao vislumbrar o… sem spoiler! Aos poucos a canção vai adquirindo um aglomerado caótico, como se simulasse uma bomba ao horizonte se aproximando.
Seja diante do improvável, do difícil, do corriqueiro, do usual, dos desejos, de nossas crenças, nossos ímpetos, medos, desavenças, amores, mistérios… Viver é e sempre será foda!
O Swans martela e martela bem na única certeza e no maior mistério de toda a existência. Não necessariamente otimista e nada pessimista, o sentir proposto em To Be Kind é a forma mais plausível de conhecer e se aventurar pela complexidade que é o ato de manter-se vivo.
