Escrito por Tiago Ferreira em sexta-feira, setembro 16, 2011 4 Comentários

MarginalS, da dir. p/ esq.: Thiago França, Marcelo Cabral e Tony Gordin
“Fazer música instrumental/experimental: não tem nenhuma outra categoria mais difícil de fazer rodar”. A afirmação de Thiago França parece ser uma contradição sem precedentes quando o vemos assumir os instrumentos de sopro no MarginalS. O grupo vai do baião ao free-jazz, passando por funk, rock, soul e o que mais surgir no momento, como se tudo fosse fácil e viesse da forma mais natural possível.
Claro que toda essa dinâmica seria cronicamente inviável se não estivessem por trás do MarginalS músicos de competência indubitável, como o próprio Thiago (sax, flauta, EWI), Marcelo Cabral (contrabaixo acústico) e Tony Gordin (bateria).
O trio lançou no dia 12 de setembro o primeiro registro, que não possui nome nem de álbum, nem de faixas. Não pense que são requintes de marginalidade. “Como fazemos muito na hora, está mais para algo que estivesse marcando o momento que registramos”, confessa Tony. Em todas as apresentações, o MarginalS sai improvisando. Com o CD, ocorreu o mesmo. “Foi assim que fizemos no estúdio: chegamos e apertamos o REC e pronto”, revela Marcelo. Portanto, o compromisso maior é com essa atmosfera anárquica – não há descuidado algum.
Pouco tempo antes do trio disponibilizar o álbum, o Na Mira do Groove conversou com Thiago, Marcelo e Tony depois de uma apresentação visceral que trazia construções diferentes daquelas que você pode conferir no primeiro registro. É bem assim mesmo: nada é igual e, provavelmente, você não irá vislumbrar um show que obedece à risca os preceitos daquilo que está registrado em um disco ou na página do Facebook do grupo. Fala se isso não é legal?
Como surgiu o MarginalS?
Thiago França: Na verdade, o MarginalS não foi uma ideia muito premeditada. O Tony tinha uma data para tocar e me chamou. Aí eu falei pra ele chamar o Cabral. E, por conta de um monte de correrias, chegamos lá sem saber muito o que fazer. Eu tinha uma ideia na cabeça e falei pro Cabral: ‘vamos começar com um La B Mol, de resto a gente vê’. Isso virou a entrada para uma ideia de 40 minutos, tocamos sem parar. Pensamos: ‘tem alguma coisa aqui’. Tínhamos um mês inteiro pra tocar lá aos domingos e fomos sempre começando dessa ideia. Depois, quando voltamos pra fazer a temporada em novembro, já não precisávamos mais da primeira ideia para começar. Começamos completamente livres: um puxa e as ideias vão surgindo. E as coisas vão se encaixando, isso que é o legal. Mesmo quando estamos tocando, não tem aquela coisa de um dar uma cabeçada no outro e falar: ‘é agora’. É sempre uma fusão do que os três estão fazendo. As pessoas confundem a música improvisada com jam. Jam é você pegar um tema e ficar improvisando no sentido de solar em cima daquilo. Fazemos o contrário: partimos do zero para fazer uma coisa juntos. Diferente do jazz, quando o solista vai lá, toca e, quando termina o solo, para de tocar. Se eu estava tocando e parei é porque tem um sentido naquilo que todos estão fazendo. Tipo: ‘Essa ideia acabou’ e não que eu não possa retornar em seguida.
O silêncio também é importante na estrutura do som.
Thiago França: Exatamente. Porque a gente tem essa coisa de criar, pensar o som como uma estrada. Os shows sempre duram 1 hora. Ninguém cronometra nada. É uma coisa de conexão com o tempo – que não enxergamos, mas sentimos. Tem esses momentos de construir a dinâmica, vamos subindo, subindo e – pá! – tem aquele corte seco, de ficar apenas um integrante… tem a ver com tudo.
“A gente não tem produção nenhuma. Ligamos os instrumentos e começamos a tocar. Foi assim que fizemos no estúdio: chegamos e apertamos o REC, e pronto” – Marcelo Cabral
Cabral, você que tem experiência como produtor dos discos da Lurdez da Luz e do Criolo, deu muitas diretrizes sonoras para o CD do MarginalS?
Marcelo Cabral: A gente não tem produção nenhuma. Ligamos os instrumentos e começamos a tocar. Foi assim que fizemos no estúdio: chegamos e apertamos o REC, e pronto. Não tem nada depois, nada antes. Fizemos com o Fernando Sanches, lá no Rocha, então tem todo o conhecimento dele em fuçar mais algumas coisas. É uma coisa direta. Chegamos a organizar os tracks, mas poderia não ter. Deixamos porque é legal ter, para o público se situar e não se tornar um play único de 40 minutos, além de dar a oportunidade de o ouvinte definir os trechos que ele curte mais.
Então vocês gravaram o álbum em um take só?
Thiago França: Foi tudo de uma vez. É uma historinha que cada hora tem um capítulo. As pausas aconteceram de verdade. E aí acabou uma ideia, a gente parou e respirou. Tem uma hora lá que tem 5s de silêncio. Dá pra ouvir no fone eu colocando a flauta do chão, pegando o saxofone e colocando a alça pra tocar.
Como surgiu essa divisão das faixas?
Marcelo Cabral: É claro no momento em que estamos construindo alguma coisa. Tem uns momentos de criação. Quando partimos de uma coisa, vem o Thiago e dá uma nota a mais, e aos poucos o Tony sugere uma batida e a gente vai na dele… Pode ser a partir do que a gente quiser. Tem momentos que eu estou puxando a melodia, aí o Thiago sugere outra coisa no sax, sabe? O Tony pode ficar em silêncio, mas tem a função de cada instrumento. É até legal você poder quebrar isso, com os três conversando, o que seria o natural. Pode partir de qualquer um de nós. Mas o baixo é um instrumento de calçar o som. Eu curto pôr um groove e ficar espremendo, assim – aaah! – até cansar, e os caras fazendo o que eles quiserem. Ninguém tem comando disso. Não sei o que o Thiago ou o Tony vão improvisar.
Vendo ao vivo, não parece que o MarginalS faz sons divididos…
Thiago França: Aí é que tá! As faixas só estão ali, mas se você der um play e ir até o final, não vai saber onde elas estão. A ideia é essa. Por mais que não seja uma composição pré-preparada, serve para o ouvinte ficar só naquela ideia. As ideias são muito distintas: se você ouvir o CD, pode não entender todas as faixas que estão ali. Mas você vai ouvir e apontar: ‘aqui os caras concluíram uma ideia’.
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Ao contemplar o som do MarginalS, a impressão que se tem é que os músicos tocam juntos há pelo menos uma década. A sincronia e o encontro dos ritmos que vão do baião ao free-jazz flui como se fossem os batimentos de um coração passando por intensos distúrbios cardíacos: desce, sobe, pára, continua – nem sempre nessa ordem.
No entanto, o grupo tem apenas um ano de idade. Só que carrega a experiência de quase 60 shows durante esse tempo – ou seja, pelo menos uma vez por semana, Thiago, Marcelo e Tony se reúnem para uma apresentação do MarginalS. Thiago e Marcelo tocam juntos há cerca de dois anos, pois são envolvidos em outras empreitadas, como integrantes das bandas de apoio de Criolo e Rômulo Fróes, sem contar o projeto paralelo Sambanzo. Tony já é amigo de longa data do baixista.
Tony, quais são suas principais referências pra tocar?
Tony Gordin: Meu pai ouvia muito jazz, big band. Meu irmão [Lanny Gordin, guitarrista] tocou com diversos artistas daqui, mas sempre teve essas referências brasileiras e americanas, com meu pai sendo a fonte da coisa principal da nossa inspiração – Count Basie, Duke Ellington, Oscar Peterson, essas escolas um pouco mais tradicionais. Quando você começa a tocar em clubes à noite, é um outro tipo de relação com a arte. Pode ser que estejamos tocando pra 20 mil pessoas em um festival e no outro dia podemos estar tocando pra 15 – e vai ser a mesma coisa.
“O nome caiu perfeito pra ideia, porque fomos buscando a rua, do periférico ao tradicional da música instrumental” – Thiago França
Qual é o resultado que vocês esperam para o CD?
Tony Gordin: Como fazemos muito na hora, é mais algo marcando naquele tempo e naquele dia o que registramos. O que a gente espera é ter a bênção de tocar juntos e fazer o que fazemos. Esperamos poder fazer 30 mais CDs depois desse, que tenha o mesmo valor e a mesma forma, com um progresso natural – não uma meta de querer vender. A meta primordial é simplesmente evoluir para algo naturalmente que daria em um próximo CD, próximo show. Isso flui naturalmente.
Quando estão tocando, sempre vem em mente que deve ser algo próximo à marginalidade, para criar-se tal conexão?
Thiago França: Na verdade não, até porque o nome da banda só surgiu no terceiro mês [depois de iniciar o projeto]. O MarginalS aconteceu porque teve um primeiro lance de naturalidade ao sairmos tocando. Caminhamos por um lado não muito tradicional. A música instrumental tem um caminho que vai pelo lado camerístico, do som formatado, contido, uma coisa muito contemplativa – meio parnaso, da música pela música. Tem essa coisa de procurar por essa estética mais acadêmica, com acordes cheios de tensão. E a gente fez um caminho inverso, da rua. Cabral é skatista, nós somos maloqueiros, tocamos rap, toquei samba a vida inteira, toquei em banda punk.
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Além da dinâmica nos palcos, os integrantes do MarginalS tentam estabelecer essa relação familiar com o público que frequenta os shows. “Estamos na rua, vivendo, trocando ideias, conversando com as pessoas. Sabemos o que as pessoas querem ouvir, porque é o mesmo que queremos ouvir”, diz Thiago. “Não queremos holofote, queremos a rua, queremos as pessoas”.
Por que MarginalS?
Thiago França: O nome caiu perfeito pra ideia, porque fomos buscando a rua, do periférico ao tradicional da música instrumental. Fomos nos ligando no rap, free-jazz, na música improvisada, numa coisa meio funk urbana, com uma pegada rock’n roll, às vezes um baião de São Paulo bem conectado com a cidade, respirando esse ar podre e aceitando que somos do Terceiro Mundo… Tem melodia que penso naqueles maninhos tocando funk carioca no morro – naquela melodia que não fecha. Ao mesmo tempo, isso tem uma relação com a música destemperada árabe… E isso tudo vai se juntando.

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