Calças apertadas? Camisas de manga comprida xadrez? Nos anos 1990 isso era uma antítese às calças big, bumbojaco pra esquentar no frio, a indefectível bombeta que não saía da cabeça e as camisetas estampadas com nomes como Realidade Cruel, Face da Morte, Consciência Humana.

Na capital paulistana, ir para a Galeria do Rock, com os dois primeiros andares dedicados a roupas e lojas de disco focadas no universo hip hop, era pra poucos.

Em vez de Nevermind (1991) ou Backstreet Boys, legal mesmo era trocar fitas de Thaíde & DJ Hum, colar na estação São Bento pra ver a batalha de dança de break e ficar com a grana já guardada para quando saísse o próximo disco dos Racionais.

Vi, vivi e ouvi muito a cultura do rap nos anos 1990 – ainda que no finalzinho dele.

Enquanto o CD já era realidade, muitos grupos escondidos nas grandes periferias de São Paulo batalhavam para registrar suas rimas sobre o difícil cotidiano que enfrentavam.

Por isso mesmo, muito do rap registrado nesse tempo pode ter alguns ecos de estúdio ou gravações de baixa qualidade porque, afinal, nenhuma grande gravadora estava interessada em caras que xingavam o Faustão, criticavam o jornalismo superficial das grandes emissoras e pediam para que as pessoas pensassem muito bem antes de fechar o vidro para garotos pedintes nos faróis da cidade.

Claro, muita coisa mudou. A grana veio para o rap – enquanto, de certa forma, o público da periferia tenha se afastado dele com o passar dos anos.

Grupos conhecidíssimos como Racionais MC’s (em SP) e MV Bill (RJ) levaram a mensagem para outros estados e países, expandindo ainda mais o alcance de um gênero que muitos acreditavam que não ultrapassariam os muros de tijolo das favelas.

Por isso mesmo, quando fechamos o espectro nos anos 90, é importante salutar: a periferia vivia um clima de isolacionismo ainda maior que nos dias de hoje.

Havia ressentimento, imperava aquela sensação de ser excluído por tudo e por todos.

Infelizmente pouca coisa mudou em relação a isso, mas a globalização de certa forma ajudou a relativizar o problema. Hoje, grande parte dos locais mais afastados tem acesso à internet – ainda que seja de péssima qualidade. Isso faz com que os mais pobres também tenham mais voz ativa, embora a linguagem e a forma de se expressar seja bem diferente de 20 anos atrás.

O rap noventista, nesse caso, é crucial para entender como a comunicação se dava nas periferias naqueles anos. Fácil nunca foi, nem nunca vai ser. Mas, se a qualidade e o discurso do rap de hoje é amplamente propagada e aceita, devemos muito a essas dezenas de músicos que integram esta lista (ouça no player abaixo ou em formato playlist no YouTube).

Antes de prosseguir, algumas observações:

• Tentamos ser o mais diverso possível; cada música representa, pelo menos, um disco diferente;

• Com intuito de fazer com que o leitor conheça mais sobre cada artista, nomeamos gravadora e álbum. A ideia é que essa lista seja apenas um começo para uma exploração que vale muito a pena;

• Tentamos ser o mais completos possíveis nas informações. Infelizmente, nos esbarramos com um problema recorrente: a falta de documentação específica de várias canções citadas;

• Levamos a sério o recorte anos 1990: as canções daqui se encaixam no período estrito entre 1º de janeiro de 1990 e 31 de dezembro de 1999;

• Perceba que apenas um grupo se repete. Vamos adiantar logo: é o Racionais MC’s. Fizemos isso porque o grupo tem dois rappers bastante distintos – que é o caso de Edi Rock e Mano Brown. Uma música representa um, outra representa o outro. Afinal, ambos são de importância imensurável no rap nacional e merecem ser analisados isoladamente.

Para ouvir cada música, basta clicar no título de cada uma delas.

Agora sim, navegue, relembre, divirta-se. Com vocês, as 30 melhores músicas de rap nacional dos anos 1990:

30. “Dando Trabalho Pros Anjos”

DJ Jamaika

Gravadora: Discovery
Álbum: Utopia (1998)

Sonhe bem, pense bem, ajude alguém’. O rapper de Brasília criou uma versão ‘das ruas’ de “Knockin’ On Heaven’s Door”, de Bob Dylan, mostrando a dura realidade de quem vive de ‘esmola em esmola à procura do pão’. O clipe teve boa repercussão no Yo!, um dos poucos programas da MTV dedicado ao rap, que mostra DJ Jamaika como morador de rua, tentando criar distância da criminalidade, até que não tem escolha: acaba trocando tiros com policiais quando leva o filho para passear. A criança, infelizmente, é atingida. Uma crônica triste que já foi estampada como notícia quente de diversos jornais.

29. “Agora a Casa Cai”

Doctor MCs

Gravadora: Kaskata’s Records
Álbum:
Agora a Casa Cai (1998)

Falar do grupo da zona leste Doctor MCs é lembrar o já clássico bate-cabeça “U.B.C.”. Se ela não fosse lançada num disco de 2000, certamente estaria nesta lista. Mas, tudo bem: “Agora a Casa Cai”, do álbum de mesmo título, de 1998, supre a necessidade daquele som volumoso, agigantado, pronto pras festas mais cabulosas de rap (ainda espalhadas por aí). Da zona leste de São Paulo, $mokey Dee, Mc’A e Dog Jay compreenderam desde o início, dos tempos da São Bento, que o rap também era celebração. É pra casa cair mesmo!

28. “De Esquina”

Xis & Dentinho

Gravadora: 4P Discos
Álbum:
Seja Como For (1999)

Na primeira metade dos anos 1990, Xis foi um dos idealizadores do DMN, mas acabou ficando mais conhecido em carreira solo. Antes de ser contratado por uma grande gravadora, a Warner, em 2001, ele lançou alguns sons mais relax, como a inesquecível “De Esquina”, com os versos ‘Esquina paranoia delirante/Eu tô na paz’. Em parceria com o rapper Dentinho e sob uma base ancorada nos graves, selecionada por DJ Hum, o rapper da zona leste propôs respiração e chapação pros salões esfumaçados.

27. “Medo”

Rap Sensation

Gravadora: Independente
Álbum: Sólido (1993)

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O medo é uma faculdade humana’. Com essas palavras, uma das músicas mais icônicas do primeiro disco do Rap Sensation, Sólido, mostrava que não dava pra bater de frente com tudo. Cada um tem suas próprias neuras e seus próprios problemas pra resolver. Ela foi composta por Alan Beat e JR Blaw, que já morreu. A elasticidade da base funky, com trechos orquestrados, tornam a canção grandiosa, como se ela ajudasse cada um a desvendar os próprios… medos.

26. “Mundo da Lua”

S.N.J.

Gravadora: Independente
Disco: A Sigla (1998)

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Uma das melhores coisas que podem ter acontecido ao SNJ (sigla de Somos Nós a Justiça) foi ter reunido Sombra e Bastardo. Enquanto Sombra fazia aquelas interjeições alucinógenas – que, por sinal, caíram muito bem em “Mundo da Lua”, canção que tem o propósito de dar uma ideia dos efeitos nocivos das drogas – Bastardo era o fio condutor que interligava a seriedade à loucura. (O efeito é quase o de um Public Enemy, só que menos sério.) No final dos anos 1990 o grupo, que se dizia influenciado por Redman, ainda estava engatinhando: na primeira metade dos anos 2000, com o injustamente subestimado Se Tu Lutas, Tu Conquistas, o grupo fortaleceu-se.

25. “Eu Tiro é Onda”

Marcelo D2 part. Shabazz The Disciple

Gravadora: Chaos
Álbum:
Eu Tiro é Onda (1998)

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Foi um grande passo Marcelo D2 unir o rap nacional com o gringo ainda nos anos 1990. Seu primeiro disco solo, Eu Tiro é Onda, foi um divisor de águas no flerte que ele assumiu como meta estética: cruzar rap e samba. A faixa-título segue uma via mais clássica do rap, com samplers do The Meters e Barry Miles (fruto das produções de Zé Gonzales e DJ Nuts). Shabazz The Disciple, membro do Da Last Future, mostrou que o Brasil estava conectado aos preceitos do rap que regem o hip hop lá dos Estados Unidos. Naquela época, D2 ainda mantinha o Planet Hemp (que ainda iria lançar A Invasão do Sagaz Homem Fumaça), mas deu largo passo para sedimentar a bem-sucedida trilha solo.

24. “Filho”

Dina Di

Gravadora: Zâmbia
Álbum:
Escadinha – Brazil 1 – Fazendo Justiça Com As Próprias Mãos (1999)

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Um rap para consolar o filho que acredita na recuperação de um pai que pendeu pra criminalidade. Só Dina Di poderia escrever uma letra como essas nos anos 1990 – tudo bem, no finalzinho da década. Ela, que conhecia o sistema prisional como poucas, soube adequar a linguagem para falar sobre as mazelas do local. Em “Filho”, a rapper exerce um tom pedagógico. Ela dá esperança para acreditar: ‘Seu pai é um novo homem/Troquei a paz de um fuzil pela guerra de um microfone’. Apesar da música ser cautelosa, foi exatamente a falta disso, por parte dos médicos, a causa de sua triste morte. Dina Di morreu de infecção hospitalar após dar a luz à segunda filha, em 2003.

23. “Sou Negrão”

Posse Mente Zulu

Gravadora: Independente
Disco: Single

Rappin’ Hood sempre teve trânsito em todas as investidas do rap mais por sua inteligência musical que seu carisma (e você pode imaginar: ele deve ser fera, já que tornou-se uma das figuras mais ‘acessíveis’ do rap naquele período). Com o grupo Posse Mente Zulu, formado ao lado de Johnny MC e DJ Akeen, o grupo ficou bastante conhecido após o show em homenagem aos 300 anos da morte de Zumbi dos Palmares, em 1995, quando se instituiu o feriado de 20 de novembro como Dia da Consciência Negra. Não demorou muito para que “Sou Negrão” se tornasse um hino; citando caras que vão de Jamelão a Miles Davis, a música é a celebração da riqueza da cultura negra – que, infelizmente, ainda hoje, permanece.

22. “Mano de Fé”

Potencial 3

Gravadora: Independente
Álbum: Você Precisa Esquecer o Passado, Ignorar o Presente e Torcer para que o Futuro Seja a Mesma Merda (1999)

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O grupo de Hébano, Jotacê, James Lino e DJ Roger, das periferias de São Paulo, soube cruzar o rap com ritmos nacionais, principalmente samba e música popular, como se estivessem se divertindo com os amigos. “Mano de Fé” rememora “16 Toneladas” e é um chamariz para toda a banca cantar junto. Eles inovaram bastante a abordagem do hip hop, de certa forma tornando-o mais brasileiro e mais generoso até com seus ouvintes. “Mano de Fé”, assim como a reflexiva “Cabeça Torta” e a hilária “Carrapato”, deixaram claro que a simplicidade do Potencial 3 era algo dificílimo de perseguir – porque, só pensar nisso, já era um escape à naturalidade desses caras. Vinte anos depois de surgirem no rap, em 1993, eles continuam na ativa com a formação original: o último EP deles, EPP3, foi lançado em 2013.

21. “A Bola do Mundo”

De Menos Crime

Gravadora: Kaskatas
Álbum:
São Mateus Pra Vida (1998)

Ao colocar “A Bola do Mundo” automaticamente eliminamos “Fogo Na Bomba”, mas o motivo é justificável: ela é bem mais representativa para o grupo da zona leste que o famoso single dos maconheiros de plantão. O segundo disco do De Menos Crime, São Mateus Pra Vida, intercambia a dificuldade de morar na periferia com o bom humor. O grupo de Lerap, Mago Abelha e Mikimba soube externar como poucos excentricidade e agressividade: “A Bola do Mundo” representa um mix disso. A música fala sobre como saber chegar e a desconfiança generalizada de tempos violentos, mas faz isso pedindo acompanhamento de bate-cabeça, gingados, breaks. Se tem uma coisa que o D.M.C. fez muito bem foi levar o rap nacional às pistas. Além disso, “A Bola do Mundo” é a maturação de singles como “Somos De Menos Crime”, lá do primeiro disco, finalizado em 1990 e lançado nas ruas cinco anos depois.

20. “A Cor da Pele Não Influi em Nada”

Filosofia de Rua

Gravadora: Rythym and Blues
Álbum:
Movimento Hip Hop (1993)

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É importante em um gênero musical que enfatiza os problemas sociais e detrata o preconceito racial enfatizar a igualdade. Muitas vezes o Filosofia de Rua pregou a ‘união de raças’ – enquanto alguns outros pregavam o enfrentamento direto contra homens ricos e engravatados, usando a cor como mote para generalização. Somos um povo mestiço, e temos que conviver em paz: esta é a mensagem de “A Cor da Pele Não Influi em Nada”, um dos grandes destaques do primeiro disco em vinil de rap lançado no mercado: Movimento Hip Hop, de 1993 (que traria outra música do grupo: “Jurados de Morte”).

19. “Saudade“

Sharylaine

Gravadora: Kaskata Records
Data de Lançamento: Single (1992)

Encontre via SoundCloud

A história de Sharylaine vai lá pros primórdios do rap: com City Lee, foi uma das primeiras mulheres no gênero com o Rap Girl’s – que surgiu na cena em 1986, mas infelizmente penou para ser aceita mesmo dentro do rap. Para se ter uma ideia, ela teve carreira solo nos anos seguintes, representando uma figura contrastante: suas canções colocavam as dificuldades de ser mulher em cena, em tempos em que o machismo, preponderante desde sempre, seguia oculto nos círculos musicais da periferia. Ainda assim, temos a música “Saudade” como um dos poucos registros dela. Com levada melancólica e backing vocals de Junior e Neguinho, do Sampa Crew, Sharylaine fala dos tempos de criança, tornando-se figura empírica da dificuldade de ser mulher. Ela não cita, mas o ouvinte imagina quais sejam elas pelo tom adotado na canção. Felizmente, ela está de volta: em 2016, ano em que completa 30 anos de carreira, finalmente Sharylaine deve lançar o aguardado álbum de estreia.

18. “Dia de Visita”

Realidade Cruel

Gravadora: RDS Fonográfica
Álbum:
Só Sangue Bom (1999)

Disco na íntegra via YouTube

Rap é música sobre liberdade, mas foi, nos anos 1990, principalmente sobre prisão. Esta música do Realidade Cruel honrou o nome do grupo de Douglas, Keno, Flagrante e DJ Bolha. Eles focam no aspecto dramático: primeiramente, relatam a saudade da mulher, dos filhos e da família, para, na segunda metade, contar o que realmente os levou para lá. Assalto a banco, flagrante, tiros: ‘Bum atirei!’. O peso das consequências é duramente sentido, e a escolha da produção de Aliado G por “Please Don’t Go”, de KC & The Sunshine Band, deixa a música envolta de uma nostalgia que, para o personagem, aplica-se ao mundão fora das grades.

17. “Sem Você Eu Não Sou Nada”

NDee Naldinho

Gravadora: TNT Records
Álbum: Bem-Vindo ao Hip Hop (1995)

Muitos podem não saber, mas NDee Naldinho foi um dos rappers mais multifacetados de seu tempo. A ‘fase’ mais conhecida dele é a gangsta, de “O Quinto Vigia” e “Preto do Gueto” (já no início dos anos 2000). Claro, como esquecer da zoeira de salão em “Melô da Lagartixa”? Mas, no meio de tudo isso, existia também o NDee Naldinho emocional – e isso no meio de um gênero tão sisudo era um diferencial, talvez apreciado por poucos. Dessa seara, uma de suas melhores canções é “Sem Você Eu Não Sou Nada”, que encerra o disco Bem-Vindo ao Hip Hop. É uma base simples, uma pegada querendo ensaiar Sampa Crew – quando, na verdade, estamos diante de um homem comum, sem medo de dizer que está apaixonado.

16. “Malandragem Dá Um Tempo”

Thaide & DJ Hum

Gravadora: Humbatuque
Álbum:
Preste Atenção (1996)

Thaide foi um dos maiores porta-vozes do rap nacional, e isso vai muito além de ter apresentado o influente programa Yo! MTV, única possibilidade de ver os clipes do gênero na programação televisiva. Na música, ele foi do gangsta (ouça Hip Hop Na Veia, de 1990) ao ressentido – como a maioria de seus contemporâneos. Mas o perfil que pegou mesmo foi o de conselheiro, o gente boa, o influente que sabia muito bem que seus passos estavam sendo observados pelas próximas gerações. Tudo isso pode ser atribuído a “Malandragem Dá Um Tempo”: com sampler do Azymuth fornecido por DJ Hum, Thaide se mostra preocupado com o camarada que ‘parece não querer se ajudar’. O amigo caiu para a criminalidade, e ele faz o que se esperaria de alguém que gosta da gente: conversa serenamente, apresenta novos caminhos, relembra brincadeiras de infância, tenta redirecioná-lo a uma vida mais saudável. Muitos podem não ter compreendido dessa maneira, mas “Malandragem Dá Um Tempo” foi o puxão de orelhas necessário para quem achava que o rap nacional não pudesse ser fio condutor de bondade e gentileza.

15. “Isso Aqui é Uma Guerra”

Facção Central

Gravadora: Five Special Records
Disco: Versos Sangrentos (1999)

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Começa com uma sonzeira de Gene Page (“Jungle Eyes”), mas o que se apresenta é uma pancada. Falar de Facção Central nos anos 1990 era ter a plena certeza de se deparar com letras pesadas, com a realidade estampada como concreto na cara. “Isso Aqui é Uma Guerra” tornou-se um single emblemático do grupo da zona leste paulistana por retratar os planos de bandidos para invadir um banco. Mas, diferentemente de Ndee Naldinho ou “Eu Sou 157”, a música do Facção foi lançada num momento em que a televisão estava começando a dar abertura para o rap nacional. Naturalmente, seu clipe foi censurado por Carlos Cardoso, assessor de direitos humanos do Ministério Público estadual na época. A alegação: apologia ao crime, um “manual de instruções para a prática de assaltos, sequestros e homicídios”. O fato: a música era a visão de caras que cresceram em cortiços e se foderam com a transição econômica pós-Collor. Nem o horrorcore do Three 6 Mafia pode com o Facção Central.

14. “Chacina”

Pavilhão 9 part. Ratos de Porão

Gravadora: Paradoxx
Álbum:
Procurados Vivos ou Mortos (1994)

Encontre via Discogs

As ‘crias legítimas da terra do massacre’: o Pavilhão 9 não teve receio de trazer o peso dos riffs roqueiros pro seu rap, e esse crossover com o Ratos de Porão mostra como eles foram bem-sucedidos nisso. Pô, se punk e rap são músicas centradas e feitas na periferia, por que não recarregar as forças e devolver um som gutural, impactante pesado? “Chacina” é exatamente isso: com a brevidade dos 3 minutos (acredite: algo raro no rap), os mascarados mais sinistros do rap nacional externaram com a voz o teor destrutivo dos fundões da metrópole. No quesito beligerância, M.I.A. é fichinha perto disso aqui.

13. “Lembranças”

Consciência Humana

Gravadora: D.R.R.
Álbum:
Entre a Adolescência e o Crime (1997)

O grupo da zona leste de São Paulo Consciência Humana criou um dos mais emocionantes lamentos do rap nacional. “Lembranças” fala de saudades a partir de uma história bem triste: a perda de um amigo para o vício em crack. A música é diálogo de amigos: Preto Aplick fala das ‘lágrimas que corriam de preocupação’ quando o amigo passava por dificuldades, até falecer devido a uma overdose. W.G.I. faz o papel de consolador: ‘Hey Aplick, não é legal você ficar se martirizando’, ressaltando que devemos nos preocupar com os vivos. ‘Ele morreu e infelizmente e se foi/O destino que ele escolheu/Fora de tudo/Em um outro mundo/Deixou o subúrbio, acabou o consumo’. E, por fim, um conselho que muitos têm ignorado, mesmo depois de 20 anos: ‘Diga não ao crack’.

12. “Bem-Vindos ao Inferno”

Sistema Negro

Gravadora: Independente
Disco: Bem-Vindos ao Inferno (1994)

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Campinas não fica assim tão longe da capital paulista. Sendo assim, mal dá pra pensar em tirar o Sistema Negro do contexto periférico da maior cidade brasileira. Quando cantam ‘o inferno é aqui/Não existe outro lugar’ – que, inclusive, foi sampleado pelos Racionais em “Periferia é Periferia” – o grupo ambienta as favelas como um todo, um submundo afastado em que assuntos polêmicos como racismo e preconceito racial são recorrentes. ‘Meu destino é morrer nesse buraco’, canta o grupo, muito longe de oferecer um cartão de visitas à Vila Rica, bairro onde moram. Isso eles só fazem em outra música, “Verão na V.R.”, lançada posteriormente.

11. “Soldado do Morro”

MV Bill

Gravadora: Independente
Álbum:
Traficando Informação (1999)

Antes de Falcão: Meninos do Tráfico, documentário que chocou a audiência do programa “Fantástico”, o rapper MV Bill já havia feito de “Soldado do Morro” verossímil documentação das movimentações, ações e comportamentos de quem fica de vigia nas favelas – seja como aviãozinho ou como gerente do tráfico. Quem criou tudo isso? A sociedade, como enfatiza em dezenas de estrofes.

10. “Real Periferia”

RZO & Negra Li

Gravadora: Independente
Disco: Todos São Manos (1999)

Difícil extrair um som só de um disco tão importante quanto Todos São Manos, mas nenhuma ‘envelheceu’ tão bem como “Real Periferia”. O clima soturno não deixa de ser a sonorização do ressentimento: o RZO contextualiza a diferença de classes e a repressão policial sem recorrer à verborragia. Embora a fluência de Helião e Sandrão mantenham a firmeza da canção, é a entrada de Negra Li, ainda uma rapper promissora no segmento ‘linha dura’ do rap, que torna esta uma joia irreparável do grupo de Pirituba. E a frase final de Helião – ‘Seja útil a quem te ama, cumpadre’ – é sem igual em nosso rap.

9. “A Vingança”

Face da Morte

Gravadora: Sky Blue
Álbum:
Quadrilha de Morte (1998)

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Infelizmente Casa Grande & Senzala ainda foi a realidade de muitas domésticas que vieram de outras regiões para tentar a vida na cidade grande. No clássico livro, Gilberto Freyre criou uma etnografia dos ‘mamelucos’ – nem preto, nem branco, de filhos que nasceram de escravas negras muitas vezes estupradas ou seduzidas por senhores de engenho nas grandes fazendas. Embora o Face da Morte não cite a obra do pernambucano, “A Vingança”, traduzida para a realidade das ruas, exemplifica caso semelhante, em que uma doméstica é estuprada pelo patrão, perde o emprego, é obrigada a criar o filho sozinha e passa por inúmeros perrengues, até que a criança cresce, cai no mundo do crime, descobre quem é seu pai e faz o possível para buscar sua vingança. A música, claro, é um tema ficcional, mas é um retrato verossímil de como a usurpação contribui para a criminalidade e a violência. Porque o descaso lá de cima gera uma revolta lá embaixo.

8. “H. Aço”

DMN & Edi Rock

Gravadora: Atração Fonográfica
Álbum: Single (1998)

Antes do verso ‘inacreditável mas seu filho me imita’, de “Negro Drama”, “H. Aço” foi ainda mais rígido nessa linha de raciocínio: ‘Marginal tem estilo, ninguém consegue imitar’. Tudo bem, foi um membro dos Racionais MC’s também que surpreendeu com uma das rimas mais controversas do rap daquele período. Ao lado do grupo da zona leste paulistana DMN, Edi Rock chega bombástico, trazendo um plus a uma canção que reúne com sagacidade abrasiva um emaranhado de problemas nas periferias. As arranhadas de DJ Slick quebram o clima predominantemente cinzento, como bem propagou o clipe. Apesar da música ter sido registrada no álbum Saída de Emergência (2001), foi como single que deu ao grupo grande projeção – inclusive um prêmio Hutuz de melhor canção, obviamente merecido.

7. “Pule ou Empurre”

RPW

Gravadora: BMG
Álbum: Single (1993)

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A história do bate-cabeça no rap nacional não pode ser escrita sem mencionar o RPW. A dupla de MCs formada por W-Yo e MC Rúbia tinha como foco todas as tribos ligadas à periferia e à cultura hip hop: ‘skatista, punk, rap: não pega nada’. “Pule ou Empurre” era um manual básico para os não-manjadores, mas, acima de tudo, um motivo a mais para curvar a coluna, levantar a barra da calça, se entregar ao grave e pular até suar que nem louco nas pistas. Som essencial de uma época em que o rap era, ao mesmo tempo, gênero e comunidade musical.

6. “Mágico de Oz”

Racionais MC’s

Gravadora: Cosa Nostra
Álbum: Sobrevivendo no Inferno (1997)

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Num período de mais ou menos cinco anos, Edi Rock evoluiu mais que qualquer um dos integrantes dos Racionais. Isso pode ser constatado nas músicas que registrou em Sobrevivendo no Inferno. “Rapaz Comum” e “Periferia é Periferia”, por exemplo, nem parecem vir do mesmo cara que deixou que o ressentimento e a revolta se confundissem com a exaltação de estereótipos em músicas como “Mulheres Vulgares” e “Negro Limitado”. Mas foi a partir de “Mágico de Oz” que o rapper da zona norte de São Paulo engrandeceu. Ao contar a história de um garoto que pede dinheiro na rua para comprar drogas, o rapper mapeia as desesperanças. O final é bem intrigante: ‘Às vezes fico pensando se Deus existe mesmo, morô? Porque meu povo já sofreu demais, continua sofrendo até hoje’. Mas ele reforça a fé que tem. Porque a fé, talvez, seja a única forma de suportar a derrocada de pessoas tão jovens para o submundo.

5. “Confidências de Uma Presidiária”

Visão de Rua

Gravadora: Produções Nosso Som Fonográficas ‎
Disco: Single (1994)

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Na primeira metade dos anos 1990 um grupo de rap falar sobre a situação dos presídios nacionais era bem chocante. Agora, imagine quando uma mulher, Dina Di, de Campinas, passou a falar de perrengues após sair do cárcere e contou histórias de diversas outras que estavam na mesma situação que a dela? Mano Brown que me perdoe, mas seu “Diário de Um Detento” não foi tão revelador quanto o single do Visão de Rua, porque o rap, enquanto expressividade de quem viveu atrás das grades, foi uma arma maciçamente utilizada por homens. Mulheres que cantavam rap, falando sobre violência e criminalidade, e com a sagacidade de Dina Di (vide também “Irmã de Cela” e “Marcas da Adolescência”)… Infelizmente, foram poucas.

4. “Periferia Segue Sangrando”

GOG

Gravadora: Só Balanço/New Generation
Álbum:
Prepare-Se! (1996)

Prepare-Se! já era o quarto disco dos brasilienses do GOG. Já com quase uma década na estrada, o coletivo de Genivaldo Oliveira Gonçalves, Dino Black, Manomix e Japão tinha bastante respeito na cena paulistana. Adepto às participações, o disco tinha Paula Lima, Thayde e Xis nos créditos. Entretanto, o som que pegou mesmo foi “Periferia Segue Sangrando”. Misturando samplers de Commodores (“Cebu”) e dos Racionais, o DJ Tydoz criou uma ginga com barulhos de bass numa das composições mais verborrágicas de GOG. ‘Mano, aposente o cano’, clama, após enumerar cenas de assassinato e ‘hemorragia interna’ nas ruas mais pobres do país.

3. “Nós Somos Negros”

Face Negra

Gravadora: Independente
Álbum:
Single (1992)

No final dos anos 1980, Ivo presenciou a abordagem policial que fez com que seu primo entrasse no camburão para nunca mais voltar. Esse foi o mote do Face Negra e a sua faixa mais emblemática, “Nós Somos Negros” começa com um enquadro em que o fardado diz: ‘entra aí seu negro sujo’. Mais que enfatizar a pigmentação da pele, o Face Negra criou essa música com intuito de evitar que se multiplicasse casos em que hoje identificamos como Amarildos, ou como qualquer outro rapaz negro e pobre que, a cada batida policial, corre risco de vida. Infelizmente, 25 anos depois, nada mudou.

2. “Millenium”

Z’África Brasil part. Zampa & Zona Blu

Gravadora: Vibrarecords
Álbum: Conceitos de Rua (1999)

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Só pelo crossover com rappers italianos, o EP Conceitos de Rua já marcaria com negrito a história do rap nacional. Mas, quando se fala em Z’África Brasil, pense em multiculturalismo, em diferentes expressões personificadas por cada um de seus MCs: Gaspar, Funk Buia e Pitchô (sem esquecer o DJ Tano). Difícil escolher apenas uma das 6 canções deste trabalho que ainda precisa ser mais tocado, mas fico com “Millenium” pela modernidade das batidas e do formato em que a parceria foi feita. Ela começa internacional, busca a lentidão e chega a se tornar antropofágica. Essas transições de flow não eram muito exploradas naquela época. Hoje, talvez, devamos encarar a globalização sonora de caras como Criolo e Emicida a partir do ponto de partida iniciado pelo Z’África Brasil, grupo da zona sul de São Paulo envolvido em movimentos sociais que favorecessem comunidades indígenas, quilombolas e de direitos humanos.

1. “Homem na Estrada”

Racionais MC’s

Gravadora: Boogie Naipe
Álbum:
Raio X Brasil (1993)

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Quando for posta a discussão sobre o melhor disco dos Racionais MC’s, leve Raio X Brasil em consideração. É o disco que traz o pior e o melhor do grupo de Mano Brown, Edi Rock, KL Jay e Ice Blue. Se por um lado pode-se questionar a abordagem de “Parte II”, do outro lado da balança impera o peso de algumas das melhores canções já feitas pelo grupo (e não importa quantos discos mais ainda venham). Falo de pesos pesados como “Fim de Semana no Parque” e a inesquecível “Homem na Estrada”.

Com sampler de “Ela Partiu”, de Tim Maia, o Racionais não inovou na temática ou na forma de colocar a periferia no epicentro das coisas. Mas ninguém, ninguém mesmo domava rimas com a cortante eloquência de Mano Brown. É daí que começou um estilo que passou a ser muito copiado no rap: compor as canções como se fossem thrillers, dando ao ouvinte uma suposição imagética de cada situação, cada morte, cada treta envolvendo polícia, ladrão e morador de favela.

Numa entrevista à Revista Cult, Mano Brown disse que tanto “Homem na Estrada” como “Fim de Semana no Parque” foram divisores de água em sua carreira. “Foi quando a gente mudou os temas, parei de falar só do movimento negro pra falar mais da periferia”, contou. ”Homem na Estrada”, segundo ele, “estava perto do que eu calculei naquela época”. A partir de então, os índices de acerto desses cálculos aumentaram exponencialmente (financeira e qualitativamente). E os Racionais dispararam na linha de frente do rap.

Errata:

• Na primeira versão deste artigo, “Hey Boy” e “Mulheres Vulgares” foram descritas como músicas do álbum Raio X Brasil. Na verdade, elas integram o disco Holocausto Urbano, de 1988.
• A gravadora do disco de DJ Jamaika é a Discovery, e não como estava anteriormente (Independente).