O Na Mira acompanhou os últimos 10 anos bem de perto. O site foi criado em maio de 2010 com o objetivo de mapear o que rolava de interessante na cena musical.
Posso dizer tranquilamente que ouvi mais de 1.000 álbuns desse período. Resumir uma década inteira em 30 discos é mais que uma tarefa difícil; é injusto.
Com certeza devo ter esquecido obras importantíssimas lançadas nesse tempo. Não mencionei, por exemplo, Flower Boy (Tyler, the Creator) ou qualquer um dos grandes discos de St. Vincent. Também foi difícil deixar nomes como Richard Dawson, Scott Walker e Sharon Van Etten de fora. O processo para escolher o disco que representaria David Bowie na seleção também foi doído.
Mas, como já disse muitas vezes, listas estão passíveis a erros e ao gosto pessoal dos criadores.
Ao contrário do que estava fazendo nos últimos anos, decidi separar nacionais e internacionais (também deve ter uma de jazz, fique atento!).
Você pode ler a resenha completa de cada disco clicando no link do título (a grande maioria dele teve análise no Na Mira; aos discos que não mencionei, linkei para sites exteros, com resenhas esclarecedoras).
Se optar por comprar um dos discos pelo link da Amazon citado em cada disco, o Na Mira pode ser comissionado.
Antes da lista, ouça playlist com uma música de cada disco mencionado. Siga o Na Mira no Spotify e confira nossa biblioteca de playlists.
Confira abaixo a lista dos 30 melhores discos internacionais lançados entre começo de 2010 e final de 2019. Ficou faltando algum disco? Qual? Pode registrar nos comentários!

30. Garden of Delete
Oneohtrix Point Never
Gravadora: Warp
Data de Lançamento: 13 de novembro de 2015
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Daniel Lopatin foi se aprimorando aos poucos na forma com que lê intensidade, principalmente quando nos confrontamos com aquilo que mais tememos. Nesse aspecto, Garden of Delete é um suprassumo. Você se assusta, pira, fica tenso e, por fim, sai diferente a cada audição.
O Oneohtrix Point Never pega pesado em “Ezra”, mas surpreende ainda mais quando cria uma narrativa dark em “Sticky Drama”, que classificaria como um horrortechno. Há momentos em que Lopatin entrega-se para a ambient, mas sempre com uma queda para o imprevisível, da curta “SDK” ao thriller de “Lift”.
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29. Anti
Rihanna
Gravadora: Westbury Road Entertainment/Roc Nation
Data de Lançamento: 27 de janeiro de 2016
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O disco já começa com uma pedrada: “Consideration”, ao lado de SZA, que surpreenderia o universo pop no ano seguinte com Ctrl (2017). E aos poucos ela vai nos apresentando Rihannas de outras facetas: a sedutora, em “Kiss It Better”; a madura, em “Work”; a carente, em “Desperado”; a descolada, em “Same Ol’ Mistakes”.
Nessas mudanças, é fácil se deixar perder pelos loopings emocionais de Rihanna. Anti não só é seu disco mais criativo; é, também, o testamento de uma cantora que passeia por moods como pouquíssimas atualmente, ampliando seu público e comprovando um carisma irresistível.
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28. The Road From Memphis
Booker T. Jones
Gravadora: ANTI-
Data de Lançamento: 10 de maio de 2011
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Entenda como sobrevivência de mercado o fato de um dos organistas mais influentes de soul/R&B de todos os tempos recorrer a canções atuais como “Crazy” (Gnarls Barkley) e contar com a consagrada banda indie The National em (“Representing Memphis”) num disco de inéditas.
Se são as participações que intrigam, bom, vale a pena conferir Lou Reed oferecendo seu vocal tedioso-troglodita em “The Bronx”. Quanto à técnica do organista Booker T. Jones? Continua impecável, principalmente em momentos solo, como “Walking Papers”, ou até mesmo quando arrisca no vocal, em “Down in Memphis”.
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27. Superimpositions
Lorenzo Senni
Gravadora: Boomkat Editions
Data de Lançamento: agosto de 2014
Adquirir via Boomkat
Qualquer tentativa de associar o trance a algo metafísico seria mera bobagem, caso o italiano Lorenzo Senni não fosse tão habilidoso em utilizar sua expressão sônica para criar estruturas em que o tempo musical faz paralelo com o tempo imaginado e real.
Straight-ahead demais? Não, se você pega gancho na tremeluzente “Elegant, and Never Tiring”, que se desvencilha do contexto raver em busca de sua própria beleza – não de sentido filosófico, mas certamente de sentido enigmático, que hora pende pro emocional, hora pende pro racional. De fato, essa dicotomia permeia e engrandece um dos melhores álbuns da eletrônica na década.
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26. How I Got Over
The Roots
Gravadora: Def Jam
Data de Lançamento: 22 de junho de 2010
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Projeto de covers com John Legend, o conceital undun (2011), diversas parcerias proporcionadas pelo programa de Jimmy Fallon… The Roots foi uma das bandas que mais duro trabalhou pelo hip hop (apesar de nem tudo que fazem ser considerado hip hop).
Apesar dos louváveis experimentos, o disco mais pop do Roots mereceria menção só pelas parcerias, que vão de Jim James a Joanna Newsom. “Dear God 2.0” é a grande canção sobre fé no século XXI. “The Fire” puxa o que John Legend raramente solta com competência em seus registros solo e a faixa-título teve alcance suficientemente notável para que passassem a dar atenção a esses grandes músicos da Filadélfia.
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25. Die Lit
Playboi Carti
Gravadora: AWGE/Interscope
Data de Lançamento: 11 de maio de 2018
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O que torna a música de Playboi Carti instigante é a forma com que ela exala juventude. Apesar de ter surgido como um dos nomes do trap, este jovem de 23 anos trouxe criatividade para a cena. Suas letras são curtas e as batidas, em sua maioria, sinistras.
Migos e Future podem ser os grandes nomes, mas nenhum disco deles conseguiu soar tão envolvente como Die Lit. Dá pra dizer, sem medo, que todas as parcerias aqui foram certeiras: da desilusão conjunta de “Love Hurts”, com Travis Scott, passando pela viciante “Shoota” (com Lil Uzi Vert) até o feature chavoso com Nicki Minaj, em “Poke It Out”, Playboi Carti é ostentação, diversão, maluquice. A melhor lembrança que o trap poderia nos deixar em um álbum.
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24. Broke With Expensive Taste
Azealia Banks
Gravadora: Prospect Park
Data de Lançamento: 7 de novembro de 2014
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Nos últimos anos tem sido difícil tragar algumas bobagens ditas por Azealia Banks – entre elas, chamando brasileiros de “anormais do terceiro mundo”. O grande interesse do mainstream por seu trabalho já passou, mas o efeito de Broke With Expensive Taste foi bem duradouro.
Quem achava que sua criatividade se resumia a “212” se surpreendeu com a freneticidade de “Heavy Metal and Reflective” ou sua capacidade de unir o cristalismo da música indie com os avanços do groove africano, em “Chasing Time”. O álbum é rico em trazer novas abordagens para batidas pop. Mais de 5 anos depois, poucos DJs beberam dos grandes achados que caras como AraabMuzik (um dos produtores) trouxeram em “Ice Princess”, por exemplo. O melhor de tudo é que Azealia sabia muito bem como ajustar o tom certo para a diversidade de grooves, incluindo até uma pitada de rock em “Nude Beach a-Go-Go”, com produção de Ariel Pink.
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23. I’m New Here
Gil Scott-Heron
Gravadora: XL
Data de Lançamento: 8 de fevereiro de 2010
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O álbum que recolocou Gil Scott-Heron no mapa ganhou uma conotação poética e sombria. Não são retratos de tempos fáceis, visto que o grande ‘padrinho do rap’ permanecia esquecido após a aclamação crítica de discos importantes nos anos 1970, como Pieces of a Man (1971) e Free Will (1972).
Scott-Heron ainda estava preso quando o chefe da XL, Richard Russell, o apadrinhou e o convenceu a trabalhar com violão (“I’m New Here”) e batidas minimalistas de eletropop, que resultaram numa abordagem ainda mais enigmática de “Me and the Devil”, de Robert Johnson, e dilatante de “I’ll Take Care of You”, de Bobby Bland – que, pouco tempo depois, serviria de pano de fundo para releitura de Jamie xx e dueto de Rihanna e Drake.
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22. Let England Shake
PJ Harvey
Gravadora: Island
Data de Lançamento: 14 de fevereiro de 2011
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Pouco se fala da Primeira Guerra Mundial. E, sempre que este assunto vêm à tona, geralmente está associado ao contexto da Segunda Guerra, que domina a discussão inteira. PJ Harvey, por sua vez, quis fazer diferente: das derrotas, cinzas e incertezas do primeiro momento de duros combates do século XX a cantora pincela uma Grã-Bretanha que tende ao isolamento. Seria forçado dizer que Let England Shake iria prever o Brexit e antecipar o primeiro grande impacto da disseminação de notícias falsas.
Os fatos, porém, deram um peso ainda maior a canções como “The Words That Maketh Murder” e “On Battleship Hill”. Embora elas pincelem um local com corpos arrasados e soldados à deriva, seu tom e sua musicalidade exibem destroços que parecem ter sido escondidos pra debaixo do tapete. “PJ Harvey entende claramente que o horror não precisa de embelezamento”, escreveu o crítico Alexis Petridis ao The Guardian. “O jeito dela parece infinitamente mais chocante e afetante do que todos os efeitos de metralhadora do mundo”.
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21. We Got It From Here… Thank You 4 Your Service
A Tribe Called Quest
Gravadora: Epic
Data de Lançamento: 11 de novembro de 2016
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Mal anunciou o retorno, A Tribe Called Quest já teve que se dar por encerrado por um motivo indiscutível: a morte do integrante Phife Dawg, peça fundamental ao lado de Q-Tip para a formatação de um dos grupos mais influentes da história do hip hop. Assim, We Got It From Here… já chegou com a tristeza de uma despedida.
Pelo menos, foi um adeus pra lá de honroso: um álbum duplo, com várias canções que vieram pra somar pesado ao melhor do seu repertório. “We The People…”, “Dis Generation”, “Kids” (com a marcante participação de Andre 3000) são só algumas delas. A participação de Elton John, em “Solid Wall of Sound”, dá uma pincelada a mais de emoção. E aí tem também “Black Spasmodic”, “Conrad Tokyo” (com a participação de Kendrick Lamar), a instigante “Movin Backwards”, com Anderson .Paak… Não dá pra ficar triste com tanta música boa em um disco só.
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20. The Suburbs
Arcade Fire
Gravadora: Merge/City Slang/Mercury
Data de Lançamento: 2 de agosto de 2010
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Eis o disco que fez do Arcade Fire uma banda gigante. The Suburbs é ambicioso porque abraça nostalgia sem soar piegas. A banda canadense celebra a infância e a adolescência criando um túnel próprio do tempo. Muito antes de Stranger Things materializar a ideia de uma infância emocionante, The Suburbs gerou uma conexão saudável com nosso passado (e o clipe da faixa-título, dirigido por Spike Jonze, contribuiu bastante pra isso). Tudo isso em um ambiente notavelmente urbano, aconchegante o suficiente para nos perdermos por horas a fio captando o que aconteceu de melhor em nossas vidas.
Interessante como o Arcade Fire mapeou o amadurecimento de muitos jovens adultos: das inseguranças de “Modern Man” e “Empty Room” às aventuras de “Half Light I”, a banda nos ensina que temos muito mais a contar do que histórias narrativas de anos atrás, resgatando aprendizados, percepções e conhecendo aos poucos as nuances que nos fazem ser quem somos.
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19. Give The People What They Want
Sharon Jones & The Dap-Kings
Gravadora: Daptone
Data de Lançamento: 14 de janeiro de 2014
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O sucesso foi uma conquista a longo prazo para Sharon Jones. Uma pena que somente 7 anos após o importante I Learned the Hard Way (2010) a cantora faleceria – deixando uma fenda aberta no universo das cantoras de soul-music.
Porém, se for elencar o melhor disco de Sharon Jones, vá fundo em Give The People What They Want. Aqui, ela concretiza suas ambições musicais, mantendo a energia sempre em alta voltagem. Começa com o doo-wop funkeado de “Retreat!”, passando pela chamuscante “You’ll Be Lonely”, o clássico R&B de “Now I See” e a instigante “People Don’t Get What They Deserve”, certamente uma das melhores músicas de Sharon Jones.
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18. Black Terry Cat
Xenia Rubinos
Gravadora: ANTI
Data de Lançamento: 3 de junho de 2016
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Após perder o pai por complicações do mal de Parkinson, a cantora Xenia Rubinos trancafiou-se por semanas e focou em um disco que preza por diversos tipos de expressões da soul-music. Sua música tem traços de um R&B energizado pela pulsação jazzística, e isso reflete num tipo de desconstrução saborosa.
Ela quebra ritmos, mas evoca a empatia do ouvinte em faixas como “Don’t Wanna Be” e “Right?”. Piano, baixo e bateria soam tão criativos quanto seus sombreamentos vocais – tanto que ela permite puxar referências diretas do jazz, como na intro de “Lonely Lover” (com os chocalhos de Sketches of Spain, de Miles Davis) ou o contrabaixo em pulsação ditando os caminhos de “Mexican Chef”.
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17. Splazsh
Actress
Gravadora: Honest Jon
Data de Lançamento:8 de junho de 2010
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Quando lançou o disco Untrue (2007), o Burial marcou o ponto de inflexão do dubstep, que partiria para duas vertentes extremas: o maximalismo de caras como Skream e Skrillex; e o minimalismo, em que o também britânico Actress se encaixaria. Splazsh, porém, marca uma intersecção do dubstep com todo o peso da eletrônica: house, R&B, trilha sonora de games, Kraftwerk, hip hop, enfim, um universo inteiro está condensado em um dos álbuns mais abrangentes da eletrônica de toda a década.
Em músicas como “Always Human”, por exemplo, temos um pouco de tudo isso. Splazsh é um disco que começa intenso em faixas como “Hubble” e “Lost”, até se abrir para um campo magnético (em “Futureproofing”), que assimila sentimentos de tensão (“Maze”), criatividade (“Let’s Fly”) e muita experimentação (o que é a faixa “Supreme Cunnilingus”, haha). Darren Cunningham, o DJ e produtor por trás do Actress, chamou essa distinta abordagem da eletrônica de “R&B concrète” e, dada sua influência ao longo dos anos seguintes, dá pra dizer que influenciou muita gente, de James Blake e Laurel Halo aos malucos do Shabazz Palaces.
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16. Take Me Apart
Kelela
Gravadora: Warp
Data de Lançamento: 6 de outubro de 2017
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Nunca um disco de vaivém amoroso ganhou tanto significado. Tem um pouco de biografia e muita experimentação no álbum de Kelela. Ela consegue transparecer intensidade com elementos sintéticos da eletrônica: você consegue sentir a dor do rompimento em um ambiente cataclísmico, como na faixa-título, ou o relato de um relacionamento que durou pouco tempo no quase monólogo de “Better”.
Take Me Apart tem a sonoridade de um R&B futurista, tangenciado por flutuações emotivas. Por mais que você se depare com ambient, avant-garde, enfim, elementos típicos de vanguarda, o potencial de Kelela está na forma com que descreve seus sentimentos. Entre picos emocionais de decepções e momentos felizes, Kelela celebra a vida como ela é: passível de rompimentos, preenchida de diversos relacionamentos e muito, muito intensa.
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15. Field of Reeds
These New Puritans
Gravadora: Infectious
Data de Lançamento: 10 de junho de 2013
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Um disco que proporciona uma paz intrigante. Ao ouvir Field of Reeds, me imagino em um campo aberto em que as coisas tendem a acontecer na velocidade dos meus desejos mais simplórios. Se penso em desenhar uma árvore, é como se ela concretizasse ali. Penso em alguém como companhia, ela aparece, fica comigo, e desaparece num passo de mágica.
O 3º disco do These New Puritans foi feito sob medida para fãs de Talk Talk e David Sylvian, muito pela redescoberta melódica do magnetic resonator piano, um instrumento híbrido acústico e eletrônico que favorece notas longas. Porém, não é só um instrumento que faz um disco. Vozes soam como ecos, batidas acompanham a intensidade das nossas vidas e, logo, percebemos uma nova forma de encarar o mundo em lindezas como “Fragment Two” ou “Organ Eternal”.
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14. Yeezus
Kanye West
Gravadora: Def Jam
Data de Lançamento: 18 de junho de 2013
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O mundo testemunhou Kanye West se destacando dos demais rappers com seu tino para a produção e suas letras endeusando a si próprio a partir de My Beautiful Dark Twisted Fantasy (2010). Foi em Yeezus, porém, que todas essas qualidades se tornaram uma epifania – exagerado demais para ser realidade, embora não faltem provas de que ele realmente acredite ser a lenda viva na Terra.
Olha, não é difícil deixar tudo isso de lado. Kanye West pode ser problemático em muitos aspectos, mas… como ele consegue fazer discos bons! De todas as suas investidas ao longo da década, Yeezus se destaca por sua criatividade ao se conectar com o que considera divino. Eletrônica ultrassaturada, imponência que salta aos olhos já nos títulos de “I’m a God” e “New Slaves”, fechando com a abordagem R&B que só Kanye sabe fazer, em “Bound 2”. Direto e reto, Kanye bagunça as noções de mundano e sagrado num pico absurdo de criatividade.
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13. The Electric Lady
Janelle Monáe
Gravadora: Bad Boy/Wondaland
Data de Lançamento:
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A intensidade da música de Janelle Monáe encontra seu ponto de ebulição em The Electric Lady. Seu disco antecessor, The ArchAndroid (2010), foi um dos testamentos mais importantes do afrofuturismo na década, mas foi aqui que a mensagem realmente foi espalhada.
As parcerias com gigantes como Prince (“Give’ Em What They Love”), Erykah Badu (“Q.U.E.E.N.”) e Esperanza Spalding (“Dorothy Dandridge Eyes”) comprovaram a atemporalidade da cantora que abraça rock, futurismo e R&B como nenhum outro. Até mesmo o que parece ser um inocente college pop se torna mais interessante vindo de Janelle, vide “Dance Apocalyptic”. Em um disco que apresenta suítes de um R&B orquestral – com o suporte da ótima Wondaland ArchOrchestra – Janelle interliga fantasia, consciência social e individualidade com talento, positivismo e muita criatividade.
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12. The Next Day
David Bowie
Gravadora: ISO/Columbia
Data de Lançamento: 8 de março de 2013
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Os anos 2010 foram marcantes e intensos para os fãs de David Bowie. Apesar das várias compilações e bootlegs relançados, foram apenas dois discos de inéditas, marcantes de diferentes formas. Se The Next Day selou o retorno à velha forma, encapsulando as diversas fases ao longo de sua carreira, Blackstar (2016) materializou o seu adeus como jamais ousaríamos imaginar: um jazz sombrio, uma releitura bíblica de um personagem que construiu um legado à parte de qualquer outro movimento da música pop.
São dois discos brilhantes e diferentes, como se esperaria de Bowie. Para a nossa seleção, porém, vamos de The Next Day por ser o álbum que melhor reflete seu último lampejo de alegria. “The Stars (Are Out Tonight)”, “Valentine’s Day”, a própria faixa-título: são diversos os exemplos de singles marcantes que se somam às dezenas de clássicos de um dos músicos mais inventivos do século XX – e do século XXI também.
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11. A Seat at the Table
Solange
Gravadora: Columbia
Data de Lançamento: 30 de setembro de 2016
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Solange despontou como um dos principais nomes do R&B da década de 2010 por falar sobre feminismo de forma direta e, ao mesmo tempo, enigmática. Ela conquistou esse amadurecimento após conectar-se às suas próprias raízes no seu 3º disco de estúdio. A Seat at the Table é fruto de uma longa pesquisa de seus antepassados. Ela escreveu a maioria das canções do disco em uma casa situada em uma plantação de Louisiana que continha escravos. “Então, havia muitas ligações de forma que realmente, realmente me empoderou”, disse a cantora à rádio NPR.
Essa conexão deu gás para uma liberdade criativa sem precedentes. No disco, ouvimos Solange divagar pelas nuvens (“Cranes in the Sky”) e se autoafirmar positiva tanto em “Mad” (com participação de LIl’ Wayne), como em “Don’t Touch My Hair” (com Sampha). Destaque também para a intensa “F.U.B.U.” e o invejável dueto com Kelela, em “Scales”.
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10. Random Access Memories
Daft Punk
Gravadora: Columbia
Data de Lançamento: 17 de maio de 2013
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Foi difícil entender quando Random Access Memories saiu. De repente o grupo francês que sempre se apoiou em batidas sintéticas e vozes robotizadas veio clamando para ‘encontrar um sentido de vida à música‘. Parecia pegadinha – ainda mais com músicas chiclete, como “Get Lucky” e “Lose Yourself to Dance”. Você pode não aguentar mais as colaborações com Pharrell, mas deixar de ouvir as pancadas daqui é um desperdício.
Apesar da longa intro, “Giorgio by Moroder” suga uma das principais influências do grupo e devolve um dos grandes bangers do EDM dos últimos anos. O Daft Punk parece ter feito uma redescoberta de como trabalhar melodias sinfônicas. Dessa seara, a dobradinha “Beyond” e “Motherboard” soam como um acalanto diante de petardos como “Give Life Back to Music” e a excelente “Contact”, que fecha o disco com chave de ouro. Ah, “Touch” é exemplo de um som que está envelhecendo bem: quem assistiu à 3ª temporada de Mr. Robot viu o que é explorar o potencial de uma música que muitos não deram nada.
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9. Atrocity Exhibition
Danny Brown
Gravadora: Warp
Data de Lançamento: 28 de setembro de 2016
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Ser diferente de todos os rappers a seu redor faz de Danny Brown um tipo especial. Seu ar esquizofrênico, a forma com que consegue criar distinção para sua(s) voz(es) e a habilidade de rimar em tempos distintos são o suficientes para colocar no panteão da cena. Atrocity Exhibition é o álbum em que ele melhor conseguiu reunir seus muitos elementos de unicidade: seu lado amalucado é potencializado em pedradas como “When It Rain” e “Dance in the Water”, sem falar nas chapantes de derreter o cérebro “Downward Spiral”, que abre o disco, e a parceria certeira com B-Real, em “Get Hi”.
Neste disco, o iconoclasta rapper de Detroit também surpreende ao dominar melodias mais lentas, como em “Tell Me What I Don’t Know” e na bela parceria com Kelela, em “From the Ground”. Se ainda assim não ficou convencido em dar o play em Atrocity Exhibition, comece pela banger “Really Doe”, que reúne a nata da nata do rap norte-americano em um único single: Ab-Soul, Earl Sweatshirt e o inconfundível Kendrick Lamar.
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8. The Seer
Swans
Gravadora: Young God
Data de Lançamento: 28 de agosto de 2012
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The Seer (2012) ou To Be Kind (2014), eis a questão. Por ser mais representativo como o retorno triunfal do Swans a uma execução sinfônico-apocalíptica de canções que raramente possuem menos de 7 minutos, The Seer provou ser o melhor desafio que um ouvinte pode impor a si próprio.
Tão longo quanto um filme da saga O Poderoso Chefão, The Seer tem momentos de espiritualidade (“Song For a Warrior”, com parceria certeira de Karen O), pungência (“Mother of the World”) e questionamentos existenciais estruturados numa longa trilha aventureira (faixa-título).
Trinta anos depois, o Swans ensinou ao mundo como usar a experiência artística, tao ignorada no circuito pop, a favor da inventividade. Resultou não apenas no melhor trabalho da carreira do grupo; mas, também, no disco definidor de uma década.
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7. SYRO
Aphex Twin
Gravadora: Warp
Data de Lançamento: 22 de setembro de 2014
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Richard D. James pode ter se tornado o ícone hispter da eletrônica, mas quando se trata de encontrar as mais improváveis soluções para os padrões ambient que imagina, ninguém, ninguém mesmo, reúne aspectos tão divergentes quanto este irrequieto irlandês. Nenhuma faixa tem um título reproduzível, talvez porque não há muito o que se justificar. É botar, deixar rodar, pirar, se surpreender com os loopings e perder-se em emoções e viagens.
Aphex Twin consegue flutuar entre melodias e arranjos com destreza ímpar. Os slaps de baixo de “4 bit 9d api+e+6 [126.26]” trazem para os anos 2010 a vibe retrofuturista. “CIRCLONT14 [152.97][shrymoming mix]” tem um beat tão poderoso, que parece que vemos o tempo avançar décadas e séculos em uma viagem ultraveloz.
É atravessando gerações e conectando batidas imprevisíveis que SYRO causa diferentes tipos de arrepio a cada audição. Desnecessário complementar que, em mais de 30 anos de carreira, Aphex Twin continua com tudo!
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6. RTJ2
Run the Jewels
Gravadora: Mass Appeal
Data de Lançamento: 27 de outubro de 2014
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O que parecia ser um bom match não demorou para se tornar o principal projeto de Killer Mike e El-P. O primeiro disco denotou o potencial da dupla, mas foi em RTJ2 que a dupla fez barulho pra valer, tornando-se a trilha sonora de um compêndio irado de raiva e inconformismo contra estado, racismo e até símbolos da cultura pop, citando a série Mad Men (em “All My Life”) e como o mundo é perigoso e cheio de amarras (“Angel Duster”).
A participação de Zack De La Rocha, em “Close Your Eyes (And Count to Fuck)”, é marcante – mas a imagem que realmente bate é a do clipe de A.G. Rojas, que não tem receio de explorar o incômodo da batalha sem fim entre policiais brancos e civis negros nos Estados Unidos.
Não era bem uma ‘previsão’ do que aconteceu com George Floyd em 2020; o Run the Jewels capturou o estado das coisas tal qual ela já é há muito tempo.
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5. Simple Songs
Jim O’Rourke
Gravadora: Drag City
Data de Lançamento: 19 de maio de 2015
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Conhecido por fazer muito barulho em projetos com Oren Ambarchi, Thurston Moore, Mats Gustafsson e muitos outros, o guitarrista Jim O’Rourke também se destaca por seus projetos acústico solo, geralmente lançados pela Drag City. De uma seara muito bem feita, incluindo Eureka (1999) e Insignificance (2001), O’Rourke fez muita coisa até voltar a seus projetos que enfatiza seu lado cantor e compositor.
Nesse sentido, Simple Songs é mais que um retorno à velha forma: o músico de Chicago estabelece um diálogo franco com o ouvinte sobre crise de identidade (“Half Life Crisis”) e sobre momentos difíceis da vida – como em “End of the Road”, em que diz que ‘até o capitão precisa de descanso‘.
O bem-sucedido encontro com melodias e a orquestração excepcional mostra que, na real, não há nada de simples aqui: nem nos temas, nem na complexidade musical. Um disco para pensar nas incertezas da vida. Nada mal para os tempos atuais, né?
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4. Black Messiah
D’Angelo
Gravadora: RCA (Sony)
Data de Lançamento: 15 de dezembro de 2014
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As coisas ficaram complicadas nos Estados Unidos: os assassinatos de jovens negros por policiais brancos em Ferguson e State Island desencadearam em protestos violentos contra o racismo. D’Angelo pensou nesse momento quando lançou, repentinamente, Black Messiah.
“1000 Deaths” reflete o caos, o burburinho, a movimentação em prol de uma causa. Mas é nas emocionantes “Betray My Heart” e “Another Life” que a mensagem do soulman é mais certeira. D’Angelo pede que o sentimento seja ouvido antes de qualquer decisão drástica; não haveria ocasião mais oportuna para quebrar um silencio que perdurava há 14 anos desde Voodoo (2000).
O melhor de Black Messiah é soar igualmente intenso ao externalizar paixão e ouvir o clamor das ruas. A opacidade sonora e o groove torto que permeiam o disco deixam claro que a música também engloba a multidão e sua causa de justiça social. Parece que estamos falando de dois tipos de utopias diferentes, mas que ajudam a guiar quem somos e o que queremos.
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3. The Idler Wheel
Fiona Apple
Gravadora: Epic
Data de Lançamento: 19 de junho de 2012
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Sentimentos fustigados formam uma arma musicalmente poderosa, especialmente à Fiona Apple, desde jovem uma cantora que fez da fragilidade o seu grande trunfo. Sete anos após Extraordinary Machine (2005), ela abraçou a crueza: piano e bateria conduzem o ouvinte a uma jornada dura de difíceis relacionamentos, transas truncadas e pouca falácia.
Com pouco, Fiona conseguiu impressionar com suas composições ainda mais intrigantes que o usual. A dor da perda está na música dela, mas não de forma lamuriosa. Ela devolve com uma violência que somente as palavras poderiam mensurar.
Não ter guitarras ou qualquer outro instrumento de distorção só enfatiza a força de sua repulsão. Dor, raiva, decepção… Fiona nunca foi lá de falar de amor, mas aqui suas emoções parecem saltar de tão expostas!
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2. To Pimp a Butterfly
Kendrick Lamar
Gravadora: Aftermath/Interscope (Top Dawg Entertainment)
Data de Lançamento: 16 de março de 2015
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To Pimp a Butterfly é daqueles discos que muitos vão prestar atenção, se inspirar, colocar pra ouvir com a galera. Alguns poucos até se influenciaram por seu processo criativo (incluindo David Bowie, com o derradeiro Blackstar), mas a grande força do sucessor de good kid m.A.A.d city (2012) está na mensagem.
De repente, o rapper de Compton apadrinhado por Dr. Dre tornou-se uma das vozes mais representativas da música negra norte-americana.
Nesse processo, Kendrick não demorou para se reinventar. Ao se reunir com talentos como Robert Glasper, Thundercat, Kamasi Washington e tantos outros, o rap expandiu seu alcance e juntou-se à soul-music, cosmic-funk, jazz, R&B. Talvez seja o disco que melhor representa a abrangência da música negra dos tempos atuais.
Em 2015, as ruas dos Estados Unidos já protestavam contra a violência policial – lembra dos casos de Ferguson e Staten Island? “For Free?”, “King Kunta”, “Hood Politics”… E o que é a sórdida poesia do clipe de “Alright”, que ilustra muito bem o confronto dos policiais brancos e cidadãos negros norte-americanos? Assista, e você vai entender porque milhões de pessoas têm se revoltado no mundo inteiro após o assassinato de George Floyd.
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1. Lemonade
Beyoncé
Gravadora: Parkwood/Columbia
Data de Lançamento: 21 de abril de 2016
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A músicas de Beyoncé estavam mais questionadoras. O mundo não só acompanhou; também aprendeu sobre sexismo, feminismo, empoderamento. Beyoncé confrontou seu poderoso arquétipo de cantora pop e cantou sobre como é ser mulher negra nos Estados Unidos: é passar pelo crivo de olhos que estão te condenando na maior parte do tempo.
Lemonade carrega esse peso, só que com a densidade emocional de um relacionamento que estava prestes a desmoronar.
Muitos podem ter encarado o disco como a contradição de um discurso que proclamava a independência da mulher. De repente, ela estava claramente enfurecida com JAY Z, falando sobre traição e rejeição de forma raivosa (“Don’t Hurt Yourself”) ou sobre como reconstruir os cacos da vida (“Sandcastles”).
Coragem é pouco para o que Beyoncé trouxe em Lemonade: nem o fã mais assíduo poderia suspeitar do que viria após o estrondo que foi o álbum homônimo de 2013.
Lemonade é um disco de reconstrução pessoal: vemos a existência sendo dilapidada, confrontada e reconstruída. Tudo isso vindo de uma mulher em que não se esperava menos que a perfeição.
De “Hold Up”, passando por “Sorry”, o apoio familiar de “Daddy Lessons” ao hino “Formation”, Beyoncé não teve medo de ser vulnerável e imperfeita em um disco sincero. Nem mesmo a maior cantora pop possui controle de suas emoções. Por mais complexo e intenso que seja, Lemonade clama para que cada um busque sua verdade própria, por mais que isso doa, cause estranheza ou decepção. Não é nada fácil, mas aprendemos uma lição importante: é libertador.
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