Como temos feito desde 2015, separamos uma lista à parte para discos de jazz. Já nem é mais preciso explicar, né?
Então, vamos direto ao ponto: a abordagem política no gênero, fenômeno presente desde sempre, com alguns picos de variação, tem sido mais direta. Ambrose Akinmusire, por exemplo, diminuiu o uso de notas de seu trompete e chamou um MC para abordar a violência policial e um novo polo de separação entre brancos e negros na América. Idris Ackamoor chegou a fazer homenagem a Michael Brown, negro morto por policiais brancos, e os brasileiros do Radio Diaspora foram mais efetivos em sua voracidade política, unindo colagens a solos bagunçados de metais e eletrônicos.
Estruturalmente, as mulheres bandleaders me soaram mais inovadoras: Nicole Mitchell propôs um novo tipo de síncope, Jaimie Branch deixou a sonoridade de seu trompete ainda mais catártica, com o Anteloper, e Mary Halvorson redefiniu o papel da guitarra no jazz contemporâneo.
E não podemos esquecer das big bands, muito bem representadas por Captain Black Big Band (foto), liderada por Orrin Evans, e a 14 or 15 Kestra: Agg, do mestre Henry Threadgill – que chegou a vir ao Brasil este ano com seu grupo compacto, o Zooid.
Muitos dos discos que compõem a lista foram mencionados na coluna Groovin’ Jazz, que traz atualizações mensais de 10 dos melhores lançamentos de jazz. Atualizamos a playlist oficial da coluna com uma música de cada álbum – com exceção de Dirt… And More Dirt, indisponível nos serviços de streaming.
Leia também:
• Os 30 melhores álbuns de 2018 (nacionais e internacionais)
• As 30 melhores músicas de 2018 (nacionais e internacionais)
Confira a lista dos 30 melhores discos de jazz de 2018:

30. Origami Harvest
Ambrose Akinmusire
Gravadora: Universal/Blue Note
Data de Lançamento: 12 de outubro de 2018
Ouvir via Spotify
Já renomado como um dos grandes trompetistas da atualidade, Ambrose Akinmusire vem experimentando novas linguagens em seus discos solo. O anterior, The Imagined Savior is Far Easier to Paint (2014), traçou um novo tipo de proximidade com folk e soul-music, algo intensificado em Origami Harvest, que evoca as raízes da música negra para protestar contra uma nova era de separação entre brancos e negros na América.
É um conceito tão bem solidificado quanto o clássico Blood On the Fields (1997), que rendeu um Pulitzer a Wynton Marsalis, com a diferença de que as expressões cultivadas funcionam como um crossover de música clássica e música contemporânea. Akinmusire se inspira com belas notas e fraseados, muitas vezes em intersecção com violoncelo e violinos. Já a poesia urbana é entoada por Kool A.D., rapper conhecido no cenário alternativo por integrar o Das Racist (e que foi acusado no fim de 2017 pela ex-mulher de cometer violência sexual).
Leia também: Saiba mais sobre Origami Harvest na seção Groovin’ Jazz

29. Alabê KetuJazz
Alabê KetuJazz
Gravadora: Tratore
Data de Lançamento: 10 de agosto de 2018
Ouvir no Spotify
O saxofonista Glaucus Linx e o percussionista Antoine Olivier captaram a música dos terreiros e externalizaram parte do rico aprendizado com os Orixás pelo jazz. O resultado é uma música paciente, muito bem demarcada e com a bênção do mestre Dofono de Omulú, homenageado no intenso fraseado que marca “Opanijé Xaxará”.
Apesar das belas construções de notas de Glaucus, o disco de estreia do Alabê KetuJazz é pontuado pela direção musical dos tambores e diversos instrumentos percussivos. A improvisação de Glaucus (e o nome do grupo, claro) trazem o jazz como referência-mor, mesmo que soe mais ameno, espiritual e contido. Não há estouros; existe uma compreensão melódica e harmônica que transmitem sabedoria e, principalmente, paz.
Leia também: Entrevista com Alabê KetuJazz sobre o álbum de estreia

28. Blue Voyage
Raul de Souza
Gravadora: Selo Sesc
Data de Lançamento: 30 de novembro de 2018
Ouvir no Spotify
Em mais de 60 anos de carreira, Raul de Souza não precisou se esforçar muito para se tornar o melhor trombonista brasileiro. Versátil, ele trabalhou diferentes esquemas rítmicos em seu novo disco de inéditas, Blue Voyage, em que atinge novos picos melódicos, com malemolência à brasileira (embora tenha sido gravado em Paris) e várias baladas memoráveis.
Raul também aproveita para homenagear feras como Sonny Rollins (em “To My Brother Sonny”, em que toca sax-alto) e as diversas ramificações do samba, da gafieira (“St. Martin”) à bossa-nova (“Chegada”, com ótima performance dos pianistas Leo Montana e Alex Correa). Em todos os temas, compostos e arranjados por Raul, prepondera uma visão otimista e simples da vida, repleto de ótimos e emocionantes momentos.

27. Scandal
Joe Lovano & Dave Douglas Sound Prints
Gravadora: Greenleaf
Data de Lançamento: 6 de abril de 2018
Ouvir no Spotify
Joe Lovano consagrou-se como um dos maiores saxofonistas do bop atual por soar tão ágil quanto profundo em suas notas. O trompetista Dave Douglas fez escola na cena downtown de Nova York, experimentando diversas possibilidades angulares. A junção dos dois, ao lado do Sound Prints, não poderia ser menos enérgica: fraseados, solos, construções e desconstruções rítmicas surgem às vezes em um mesmo tema, e o resultado soa impressionante não importa de onde você comece Scandal.
A baixista Linda May Han Oh, o pianista Lawrence Fields e o baterista Joey Baron sustentam a harmonia, mas na maioria das vezes improvisam em curtos espaços de tempo, seja ao refazer “JuJu” (de Wayne Shorter) ou engrandecer a melodia de “Full Sun”, com a clássica estrutura de um bop inspirador, que reúne a força coletiva à individualidade virtuosa de cada músico.
Leia também: Scandal, de Joe Lovano e Dave Douglas, na seção Groovin’ Jazz

26. Eleven
Igor Lumpert & Innertextures
Gravadora: Clean Feed
Data de Lançamento: 16 de fevereiro de 2018
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O sax-tenorista Igor Lumpert reside em Nova York, mas toca como se tivesse a fúria escandinava. O free-jazz é parte de suas referências, mas em Eleven vemos o músico em busca de algo mais místico, mais transcendental – e muito disso é transmitido pelos belos achados melódicos. Por mais que os temas tenham altos momentos de fuga, Igor faz questão de manter a chama acesa e compensar com performances catárticas a cada momento em que achamos que ele vai se perder.
Greg Ward (sax-alto) forma uma dupla excepcional ao seu lado, apimentada pela bateria nervosa de Kenny Grohowski. Em meio a tantos arremates, o jazzista esloveno traz o encanto do folk do leste europeu e um pouco do groove latino em temas como a faixa-título. Como os metais são a grande força de Eleven, Igor fez muito bem em chamar o trompetista Jonathan Finlayson para dois temas (“Poseidon” e a faixa-título) e o clarinetista John Ellis em “Brela”, um take calmo com busca de vários eixos sonoros diferentes.
Leia também: Eleven, de Igor Lumpert & Innertextures, na seção Groovin’ Jazz

25. Chinese Butterfly
Chick Corea & Steve Gadd Band
Gravadora: Concord
Data de Lançamento: 19 de janeiro de 2018
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Piano e bateria soam diferentes quando se tem no comando o globalizado Chick Corea e o dinâmico Steve Gadd. Em Chinese Butterfly, 40 anos depois de tocarem juntos em My Spanish Heart (1976), a dupla une seus conhecimentos de grooves do mundo – latino, ibérico, africano, oriental – criando diversos exemplos de como o jazz pode soar elegíaco quando compreende manifestações artísticas de distintos lugares.
O guitarrista Lionel Loueke cria ponte entre metais e percussão com a afinação opaca que já tornou-se marca registrada. Outro membro importante é o saxofonista Steve Wilson, que retoma a função de elo conector potente do sax-soprano à lá Wayne Shorter, seja na abstração da faixa-título ou em busca de novos ritmos, como em “Chick’s Chum”, que traz um solo delicioso de Corea no piano elétrico.
Leia também: A sintonia multicultural de Chick Corea e Steve Gadd em Chinese Butterfly

24. The Hands
Fire!
Gravadora: Rune Grammofon
Data de Lançamento: 26 de janeiro de 2018
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Ouvir o novo disco do Fire! é como testemunhar uma passeata com mamutes gigantes conquistando novamente seu espaço. Se o sax-barítono já é conhecido por seu peso descomunal, Mats Gustafssonscat faz questão de dar ainda mais toneladas às suas notas, rasgando-o com força total. O tema pode ser lento, como “When Her Lips Collapsed”, mas o que realmente vai impactar é a hipertrofia sonora de um dos músicos mais inquietos do jazz europeu hoje.
Ao lado de Johan Berthling (baixo) e Andreas Werliin (bateria), Gustafsson criou uma jornada por novas buscas sonoras, testando ritmos tribais (“Washing Your Heart In Filth”) e flertando com o post-rock, caso de “To Shave The Leaves. In Red. In Black”, sinfonia de peso mastodôntico surpreendentemente sustentada por um trio pra lá de power.
Leia também: Fire! e a proposta ‘acessível’ de free-jazz com The Hands

23. Folia de TReis
Edu Ribeiro, Fábio Peron & Toninho Ferragutti
Gravadora: Blaxtream/Tratore
Data de Lançamento: 7 de setembro de 2018
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O que diferencia Folia de TReis de outros discos que celebram e apontam novas direções para gêneros regionais, como choro, baião e até valsa, é a capacidade de quebrar seus tempos musicais e partir para algo mais veloz e visceral.
O baterista Edu Ribeiro é o grande visionário nesse sentido: enquanto o acordeonista Toninho Ferragutti e o bandolinista Fábio Peron fincam essa proximidade com o ouvinte habituado a conhecer as muitas naturezas da arte brasileira, Edu capta o melhor momento para dar novo direcionamento ao tema: é de “O Guarani da Palhoça”, por exemplo, que sai a sinergia assíncrona que forma a seguinte “Vinheta”. “Tá Sobrando Carisma” já institui de cara a quebra rítmica, e se pensa que Toninho e Fábio se perdem, ouça e contemple a riqueza harmônica construída em uma das melhores canções de Folia de TReis.
Leia também: Folia de TReis, de Edu Ribeiro, na seção Groovin’ Jazz

22. The Journey
Lionel Loueke
Gravadora: Aparté
Data de Lançamento: 28 de setembro de 2018
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Lionel Loueke deixou a guitarra de lado para focar nas dezenas de influências que permeiam seu trabalho. Ele é do Benim e, de lá, traz um tipo de blues esparso, que parece ser celebrado em reuniões à noite próximo a uma fogueira. Ritmos místicos estão em cada scat, atonalidade nas guitarras e nos diferentes ângulos percussivos, seja com apoio do brasileiro Cyro Baptista ou na linda forma de Dramane Dembélé entoar a flauta (vide “Mandé”).
Assim como a música brasileira, a influência da região do Togo, Gana e Benim é bem sincopada. Como adicional, Loueke sabe como injetar a eletrificação de guitarras e órgãos junto a palmas, violinos e ramificações sonoras que parecem ter sido captadas junto ao Rio Nilo. Se Loueke já era celebrado por ser um dos mais distintos guitarristas do jazz atual, com The Journey mostra-se mais completo do que imaginava – e ele tem muito a agradecer à riqueza musical da região de onde veio.
Leia também: Saiba mais sobre The Journey, de Lionel Loueke, na seção Grandes Álbuns

21. Contradiction of Happiness
Sarah Buechi
Gravadora: Intakt
Data de Lançamento: 16 de fevereiro de 2018
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Imagine o folk escandinavo com uma paisagem que une a dramaticidade da música clássica europeia e o dinamismo do jazz. Este é o cenário criado pela suíça Sarah Buechi, que reúne crônicas bem amarradas sobre amores e belezas em espaços confinados. A sutileza musical é endossada por arranjos sublimes, em que as notas soltas do piano de Stefan Aeby parecem extravasar da bela junção de viola (Isabelle Gottraux) e violino (Estelle Beiner).
O estilo de composição de Contradiction of Happiness remonta a uma Joanna Newsom com capacidade de trazer o meio-termo entre jazz e música clássica, mas o canto de Sarah soa mais naturalista, mesmo que a sonoridade adquira a grandiosidade de um romance de Jane Austen.
Leia também: Contradiction of Happiness, de Sarah Buechi, na seção Groovin’ Jazz

20. Again
The Thing
Gravadora: Trost
Data de Lançamento: 18 de maio de 2018
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Mais um dos projetos de Mats Gustafsson (sax) na lista. E, aqui, ele está ao lado da sua contraparte na bateria: o também inquieto Paal Nilssen-Love, que soa mais raivoso a cada álbum que participa (e não esqueçamos do baixista Ingebrigt Håker Flaten, que adora solar com ranhuras de cordas).
A robustez sonora aqui é elevada à potência de um furacão intermitente. Fanáticos pelo que chamam hoje de brutal-jazz vão ficar fascinados com os mais de 20 minutos de “Sur Face”, pancada fenomenal do grupo que só não é superada pela briga metálica entre Gustafsson e o trompetista John McPhee, ilustre convidado em “Decisions in Paradise”. A liberdade atonal sempre caiu muito bem ao The Thing e, com a contínua evolução de seus membros, que participam de dezenas de outros projetos, tudo o que mais se espera é que este trio continue nervoso como sempre.
Leia também: Again, de The Thing, na seção Groovin’ Jazz

19. City Animals
Yuhan Su
Gravadora: Sunnyside
Data de Lançamento: 26 de outubro de 2018
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A tonalidade do vibrafone costuma ser pacífica: ele ressoa como algo alegre, algo lúdico – pelo menos para a cultura ocidental. Yuhan Su conhece as muitas ramificações do instrumento, mas quis enfatizar positividade e esperança ao compor City Animals, que reflete sobre a vida agitada de Nova York, cidade em que passou a morar após estudar na Berklee College.
Mas, claro, como toda cidade grande, há momentos de caos e estresse, e para isso Yuhan instiga Matt Holman (trompete, flugelhorn) e Alex LoRe (sax-alto) a confundirem o ouvinte com a intensa confluência de metais, num tipo de free-jazz que se abre para uma melodia mais bop, como ocorre em “Viaje”. Evitando seguir uma escola específica, ter uma metrópole como pano de fundo permitiu que Yuhan Su fizesse o vibrafone soar tanto como um instrumento de cordas, como se fosse percussão – algo de grande valia para uma bandleader que se mostra cada vez mais versátil.
Leia também: City Animals, de Yuhan Su, na seção Groovin’ Jazz

18. A Circle Has No Beginning
Sameer Gupta
Gravadora: Independente
Data de Lançamento: 16 de fevereiro de 2018
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O baterista e percussionista Sameer Gupta faz questão de enfatizar que pertence à escola moderna de jazz, ao mesmo tempo em que cria novas percepções para a música indiana clássica. A Circle Has No Beginning é exatamente o ponto de fricção dessas duas frentes: temos a estética oriental, com tabla, flauta bansuri e todo o envolvimento ‘sedutor’ das cordas pontuado pela linguagem jazzística, com suas explosões, intersecções melódicas e improvisação.
Sameer é da cena musical do Brooklyn, e sentimos a pulsação efervescente do local em “Innocence in Harlem” ou mesmo na epopeia criada em “Come Take Everything”. A busca da essência do distante a partir da linguagem local não só aproxima, como fortalece a expressão da música indiana e do jazz. A valorização da melodia de um e o andamento musical do outro fazem de A Circle Has No Beginning um dos exercícios multiculturais mais originais de 2018.
Leia também: A Circle Has No Beginning, de Sameer Gupta, na seção Groovin’ Jazz

17. Kudu
Anteloper
Gravadora: International Anthem
Data de Lançamento: 20 de abril de 2018
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As possibilidades de compor com trompete e, ao mesmo tempo, brincar com melodias eletronizadas fascinam Jaimie Branch, que se destaca por solos inspiradores em que mal dá pra perceber a continuidade de notas, do tanto que variam a partir de pequenos detalhes. Com o projeto Anteloper, ao lado do baterista Jason Nazary, Jaimie valoriza aquele clássico trabalho em duo: temos a suntuosidade de seus solos junto às baquetas intempestivas de Jason, mas o que realmente agrada é a quebra de barreiras entre orgânico e sintético.
Os efeitos vão do psicodélico ao flamejante, sempre operando a favor do que os músicos atingem com seus instrumentos. Em “Oryx”, a comunhão trompete e bateria é acompanhada por um som semelhante a um órgão, enquanto Jaimie e Jason rasgam à sua maneira. A suíte de “Ohoneotree” é uma sinfonia destrutiva, repleta de contornos que ligam o free-jazz mais intenso à ficção científica. Em meio a poeiras e caos, Jaimie surge com notas espaçadas e conduz o ouvinte a esperar por uma performance arrebatadora. Se ela atinge as expectativas? Cara, ela surpreende…
Leia também: Detalhes da união de Jaimie Branch e Jason Nazary para a formação do Anteloper

16. Vortex
Wayne Escoffery
Gravadora: Sunnyside
Data de Lançamento: 26 de janeiro de 2018
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A formação clássica em quarteto atinge seu pico quando tem um propósito. No caso do sax-tenorista Wayne Escoffery, acompanhado por David Kikoski (piano), Ugonna Okegwo (baixo) e Ralph Peterson Jr. (bateria), a ideia é protestar contra a opressão direcionada a minorias e imigrantes. No lugar da fala, ritmos cheios de vapor e solos intensos. Também há momentos mais reflexivos, como “February”, blues que remonta à melancolia da luta dos escravos no final do século XIX.
Os melhores temas de Vortex são repletos de vigor. Já de cara, ele impressiona com uma pegada atropeladora, ao estilo charmoso e enérgico de Joe Henderson. “Acceptance” inicia com um chamamento, até que as percussões ajudam a criar um ambiente de apoio coletivo e Wayne sole a partir de uma joia melódica. Destaque também para a linda homenagem à esposa, em “Tears For Carolyn”, e “To the Ends of the Earth”, provas de que o quarteto sabe soar vulcânico, preciso e melodicamente criativo em temas, digamos, mais emocionantes.

15. Heaven & Earth
Kamasi Washington
Gravadora: Young Turks
Data de Lançamento: 22 de junho de 2018
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Tinha que começar épico. Os primeiros acordes de “Fists of Fury” são grandiosos quanto o choir da mais frequentada igreja de uma cidadezinha da Costa Oeste norte-americana. E, assim como o álbum que o consagrou, The Epic (2015), Kamasi Washington preparou uma nova epopeia que atualiza o conceito de jazz espiritual, subgênero do qual já é considerado sucessor de mestres como John Coltrane e Pharoah Sanders.
O intenso desenrolar rítmico e harmônico de Heaven & Earth agrada ouvidos pouco habituados ao jazz por formar uma conexão imediata. O protagonismo do sax-tenor é sempre antecipado por uma elaborada justaposição estética, com muitas percussões, entradas ocasionais de um piano marcante e as cordas geralmente puxando um lado mais funky. No segundo lado do disco, Kamasi expõe outra influência contemporânea: os games. Das brincadeiras vocais de “Vi Lua Vi Sol” (influenciada por sua passagem no Brasil) à pancada de “Street Fighter Mas”, o músico eleva sua técnica à imagem palpável de um jazzista talentoso que curte o que a gente curte e é gente da gente.
Leia também: Heaven & Earth, de Kamasi Washington: novas aspirações, mesmo appeal

14. The Other Side of the Air
Myra Melford’s Snowy Egret
Gravadora: Firehouse 12
Data de Lançamento: 2 de novembro de 2018
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Myra Melford sola com seu piano nos detalhes. Melhor ainda: instiga os demais instrumentistas do Snowy Egret, formado por Ron Miles (corneta), Liberty Ellman (guitarra), Stomu Takeishi (baixo) e Tyshawn Sorey (bateria), a confundirem os tons com entradas sutis e esquisita manutenção rítmica, que nos faz pensar em um universo recriado de acontecimentos fora do padrão que não conseguimos acompanhar.
The Other Side of the Air é o tipo de free-jazz primoroso por seu conjunto criativo e pela exuberância técnica evidenciada a cada segundo de seus 10 temas. O quinteto inventa ritmos, apresenta solavancos distintos em cada instrumento e navega suavemente por melodias cristalinas – seja através dos diversos exemplos de pontilismo de Myra, seja pelas ágeis quebras rítmicas de Tyshawn Sorey.
Leia também: The Other Side of the Air, de Myra Melford’s Snowy Egret, na seção Groovin’ Jazz

13. Lebroba
Andrew Cyrille, Wadada Leo Smith & Bill Frisell
Gravadora: ECM
Data de Lançamento: 2 de novembro de 2018
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Dois dos mais experientes músicos em seus instrumentos – Wadada Leo Smith no trompete e Bill Frisell na guitarra – uniram-se ao veterano baterista Andrew Cyrille (famoso por tocar com Cecil Taylor) numa jornada que parece adentrar cantos que reproduzem variadas estações. O trio sabe como reproduzir quentura, e nem precisa se esforçar muito pra isso: as notas esticadas de Wadada, junto às notas permeadas de efeitos de Frisell, revelam um duo chamuscante, mas é Cyrille quem controla esse fogo todo com esperto uso dos chimbais e moderadas puxadas pelos bumbos.
O silêncio é um elemento importante em Lebroba. Em “Pretty Beauty”, vem a partir dele um blues que remonta à fase de Miles Davis na gravadora Prestige. “Worried Woman” é um free mais esparso, com entradas efêmeras em que se percebe pouca repetição de notas – fruto de décadas de criatividade de cada instrumentista. O trio também homenageia Alice Coltrane em “Turiya”, momento que começa sutilmente reflexivo e vai adquirindo uma expressividade espiritual de forma progressiva.

12. Science Fair
Allison Miller & Carmen Staaf
Gravadora: Sunnyside
Data de Lançamento: 21 de setembro de 2018
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Desde que começaram a tocar juntas, a baterista Allison Miller e a pianista Carmen Staaf desenvolveram um senso de integração em que duas particularidades formam uma só. Em Science Fair, Carmen dedica longos minutos às suas propostas rítmicas: suas notas fornecem conforto, mesmo em momentos em que se empolga com ataques no instrumento. Allison toca como se mantivesse uma barreira para os demais instrumentistas – inclusive para o baixista que as acompanha, Matt Penman.
Science Fair não é bem o disco de grupos compactos de jazz que se esperaria. Isso porque Carmen e Allison brilham de maneiras distintas: a técnica no piano é bem perceptível, mesmo quando convidados como o trompetista Ambrose Akinmusire e a sax-tenorista Dayne Stephens dão o ar da graça; quanto à bateria, é preciso direcionar a atenção para a riqueza do background musical construído em cada tema, o que propõe um exercício interessante: pôr no repeat um disco que se mostra mais sofisticado a cada audição.

11. Uncharted Territories
Dave Holland / Evan Parker / Craig Taborn / Ches Smith
Gravadora: Dare2
Data de Lançamento: 11 de maio de 2018
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Este talvez seja um dos discos mais importantes de improvisação livre dos últimos anos. Pesa muito a experiência do baixista Dave Holland e do saxofonista Evan Parker – e a exuberância técnica de Craig Taborn e Ches Smith. Mas o que realmente surpreende em Uncharted Territories é a linguagem em comum estabelecida do começo ao fim.
São mais de 20 temas, que incluem períodos silenciosos geralmente quebrados por efeitos e notas alongadas. Atenção para estes momentos. O quarteto cria um próprio senso temporal em que construções harmônicas fluem organicamente. A criatividade de Uncharted Territories contempla do vazio ao total preenchimento de espaços. Em temas assim, é instituído um groove híbrido que capta da intensidade do blues à efervescência do free-jazz. Um disco completo, que mexe com percepções e provoca novas experiencias a cada audição.
Leia também: Uncharted Territories, de Dave Holland, na seção Grandes Álbuns

10. Beloved of the Sky
Renee Rosnes
Gravadora: Smoke Sessions
Data de Lançamento: 6 de abril de 2018
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O hard-bop soa mais familiar quando se tem a pianista Renee Rosnes no comando. Em mais de 30 de experiência, esta canadense capta a urgência da contemporaneidade, sugerindo fluxos calmos contra o estresse e arrancadas espetaculares – neste caso, a presença do saxofonista Chris Potter é uma grata surpresa, vide logo de cara o estouro de “Elephant Dust”.
Os temas de Beloved of The Sky são serenos, de uma fluidez plácida que engrandece as investidas melodias de Potter e exibe Renee como um elo de ligação tal qual o encontro de duas límpidas nascentes – tanto que uma das músicas mais bonitas do disco chama-se “Rhythm of The River”, alegre como o colorido da natureza.
Leia também: Beloved of the Sky, de Renee Rosnes, na seção Groovin’ Jazz

9. An Angel Fell
Idris Ackamoor & The Pyramids
Gravadora: Strut Records
Data de Lançamento: 11 de maio de 2018
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A música de Idris Ackamoor é fantasmagórica, e ele reproduz isso de forma aviltante com seu sax-tenor. Em contrapartida, na hora de dar peso, segura as estribeiras. Como líder de um renovado The Pyramids, Idris tem sido mais seletivo com as entradas e sucessões de notas de seu sax. Isso porque An Angel Fell possui a aura de um mensageiro que vem de um lindo paraíso, para nos avisar que a beleza terrena está prestes a eclodir.
Trata-se de um disco pretensioso, que discute assuntos como violência (“Soliloquy For Michael Brown”) com a mesma intensidade em que convida o ouvinte para um ritual coletivo (vide a envolvente “Warrior Dance”). Do afro-beat à psicodelia, do latin-jazz à música carnática, An Angel Fell tem muitas veias pulsantes, trazendo ainda mais misticismo e diálogos entremundos na proposta de spiritual-jazz, algo que o grupo domina desde os anos 1970.
Leia também: An Angel Fell, de Idris Ackamoor & The Pyramids, na seção Groovin’ Jazz

8. Intuitivo
Itiberê Zwarg & Grupo
Gravadora: Selo Sesc
Data de Lançamento: 10 de agosto de 2018
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Parceiro das antigas de Hermeto Pascoal, o baixista Itiberê Zwarg tem sua própria visão de ‘música universal’. Da maneira que apresenta Intuitivo, ela engloba nossas festas e a alegria coletiva das várias expressões populares. O melhor é que elas já nascem com a gênese miscigenada do nosso povo e cativam o ouvinte logo de cara. Impossível não dançar do começo ao fim logo na primeira faixa, “Partiu”, ou dar umas boas gargalhadas com os inúmeros cantos de galo que surgem no tema seguinte.
Ouvir Intuitivo é dar um passeio em looping pelo que há de mais bonito na grandeza do Brasil: a mistura de raças, os diálogos entre ritmos e a confluência de distintas paisagens, da casinha de um interior árido a comunidades ribeirinhas que se reúnem em dias festivos. Essa percepção resulta em uma música ágil, rica, cheia de energia e com toda a síncope envolvente que a faz ser tão amada mundialmente.
Leia também: Intuitivo, de Itiberê Zwarg & Grupo, na seção Groovin’ Jazz

7. Blues for Memo
David Murray & Saul Williams
Gravadora: Motema
Data de Lançamento: 16 de fevereiro de 2018
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David Murray ficou fascinado ao ver Saul Williams recitando a poesia de Amiri Baraka em seu funeral, em 2014, e convidou-o para um disco de blues. Murray tem investido em solos com maior profundidade nos últimos anos, absorvendo a fúria dos demais instrumentistas para devolver um som mais pacífico. Mas, quando entra a violência poética de Saul, Murray não se contém: acompanha e incita a agressividade, ampliando a voz de revolta do interlocutor.
Apesar de Baraka ser o elo que liga Murray a Saul, Blues For Memo é uma homenagem ao empresário turco Mehmet Uluğ, responsável por apresentar diversos instrumentistas à cena europeia, como Pharoah Sanders e Sun Ra. Entre fraseados intensos, Murray sabe como quebrar lindas construções melódicas com solos rasgados de seu sax e expressar gratidão e, ao mesmo tempo, nostalgia de tempos idos. Não à toa, é um dos maiores saxofonistas vivos.
Leia também: Blues For Memo, de David Murray e Saul Williams, na seção Groovin’ Jazz

6. Maroon Cloud
Nicole Mitchell
Gravadora: FPE Records
Data de Lançamento: 10 de agosto de 2018
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‘Maroon’ é um termo que liga criatividade à luta de povos negros que escaparam da escravidão no Caribe. Dentro do som da flautista de Nicole Mitchell, significa uma extensa jornada de resistência. Ela fez questão de tirar as percussões, talvez para dar impressão de ser um trajeto mais cansativo, cheio de provações e muitos receios. Ela baseia a síncope dos temas nas extensões de notas da flauta e nos ostinatos de piano de Aruan Ortiz. Desse modo, as entradas abruptas do violoncelo de Tomeka Reid formam o elemento máximo de tensão do álbum.
A cantora Fay Victor é uma narradora tão convincente, que parece encarnar as muitas histórias vividas em passados obscuros contra o tráfico de escravos. Em “Vodou Spacetime Kettle”, temos o melhor exemplo de um spiritual moderno, contornado por um solo espetacular da flauta de Nicole, que tem apresentado um novo universo a um instrumento diversas vezes mal categorizado. Nicole é quem sustenta a ‘névoa’ musical com essas histórias e incríveis assimilações do gospel e das chants antigas, unindo-se a Matana Roberts e Christian Scott na redescoberta dos antepassados sonoros.
Leia também: Contra a distopia, vem a criatividade e a resistência de Nicole Mitchell em Maroon Cloud

5. Presence
Captain Black Big Band
Gravadora: Smoke Sessions
Data de Lançamento: 21 de setembro de 2018
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2018 foi um ano excelente para o pianista Orrin Evans: além de tocar em alguns dos melhores discos de jazz do ano (incluindo Never Stop II, com The Bad Plus, que não surgiu por pouco na lista, e Blues For Memo, de David Murray), seu 3º disco à frente da Captain Black Big Band trouxe duas certezas: estamos não só diante de um exímio pianista e compositor, mas de um bandleader gigante.
Enquanto outras big bands exploram caminhos como o afrofuturismo ou o spiritual, Presence carrega todo o ensinamento dos grupos pós-II Guerra com o bop atualizado do século XXI. Da mesma forma que há entradas demarcadas, invariavelmente entram explosões de metais. Orrin toca como um Don Pullen, sabe como trazer insights percussivos à lá Thelonious Monk e investe pesado nos arranjos dos graves, interligando décadas de ensinamentos e muitos formatos de orquestra jazzística.
Leia também: Como Orrin Evans deu um salto criativo para a Captain Black Big Band, em Presence

4. Your Queen is a Reptile
Sons of Kemet
Gravadora: Impulse!
Data de Lançamento: 30 de março de 2018
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As verdadeiras rainhas são aquelas que lutaram, foram perseguidas por seus ideais e não foram condecoradas por coroas. Mulheres como Harriet Tubman, Angela Davis e Yaa Asantewaa, todas elas homenageadas no álbum mais inspirador lançado pelos britânicos do Sons of Kemet, liderados pelo sax brutal de Shabaka Hutchings. É um afro-beat tão combativo como os melhores temas de Fela Kuti, com a diferença de que possui uma característica mais ‘conectiva’ com outros gêneros, como dub e dancehall (“My Queen is Mammie Phipps Clark”) ou a música do Mali (“My Queen is Nanny of the Maroons”).
Your Queen is a Reptile é um exercício de compreensão das várias liberdades buscadas ao longo dos anos. Cada música apresenta esperança de união de forma diferente. Ante o sofrimento, o blues. Da aventura de Harriet Tubman, que lutou na Guerra Civil Americana, o grupo entrega uma pancada sonora, que capta a violência e a coragem de quem ajudou a libertar escravos por conta própria. O grupo fez questão de nomear as homenageadas, instigando o exercício do ouvinte em conhecer mulheres que deveriam ter mais espaço na história do mundo. Mas, se o caso é somente ouvir música… o Sons of Kemet superou-se em um dos discos mais expressivos que você vai ouvir em 2018.
Leia também: Sons of Kemet questiona quem são as verdadeiras rainhas em Your Queen is a Reptile

3. RD3
Radio Diaspora
Gravadora: Sê-lo Netlabel
Data de Lançamento: 20 de novembro de 2018
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Desde que iniciaram a parceria com o Rádio Diáspora, o trompetista Romulo Alexis e o baterista Wagner Ramos usaram colagens de discursos, programas jornalísticos e até comícios com explícita proposta política. Em ano de eleições, a dupla fez questão de ser mais insistente. Contra a escravidão, a fome e contra a moralização demagógica dos setores mais conservadores, a dupla fortalece a busca por representatividade negra, citando lugares metropolitanos e a estética da música de origem africana.
Os efeitos do trompete de Romulo são convites que se estendem para uma confluência caótica. Mesmo com esse pano de fundo, RD3 dá mais atenção à eficácia do som junto ao discurso, tanto que traz mais solos, mais intrepidez, mais agressividade – e, também, mais saudações aos mestres, como Naná Vasconcelos (“Ecos de Naná”) e Fela Kuti (“Felakutagem”).
Leia também: RD3, do Radio Diaspora, na seção Groovin’ Jazz

2. Dirt… And More Dirt
Henry Threadgill 14 or 15 Kestra: Agg
Gravadora: Pi Records
Data de Lançamento: 11 de maio de 2018
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Ao longo dos anos, a maestria técnica de Henry Threadgill expandiu os horizontes dos instrumentos de sopro. Sax-alto e flauta continuam tendo protagonismo em sua obra, mas é como compositor que este músico de Chicago (EUA) tem levado o jazz a ares inimagináveis. Dirt… And More Dirt propõe um naipe de metais com destaque para trombones, trompete e tuba, convergindo a todo momento com as cordas (cello, violão e piano). A harmonia é saltitante e o ritmo, fragmentado. Não há muito espaço para longos solos, mas entradas arrebatadoras que vêm de um background em ebulição a todo o momento.
Threadgill valoriza a unicidade de cada instrumentista e compõe pensando em momentos em que cada um possa brilhar. Mas é a fricção entre todos eles que gera mais fascínio – tanto que os tons e microtons se atropelam propositalmente, gerando um caos controlado. É nítida a complexidade técnica de Dirt, mas o principal atrativo da música de Threadgill é perceber como se irrompe uma dinâmica criativa que conecta distintas expressões musicais, do Romantismo à livre improvisação.
Leia também: A experiência de Henry Threadgill em dois grandes discos lançados em 2018

1. Code Girl
Mary Halvorson
Gravadora: Firehouse 12 Records
Data de Lançamento: 30 de março de 2018
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Mary Halvorson pode se considerar a grande guitarrista de jazz atual, numa linha do tempo que inclui Pat Metheny e Bill Frisell. Mas, Code Girl não se trata apenas de exuberância técnica no instrumento. Primeiramente, ela fez questão de subverter seu modus operandi: Mary escreveu as linhas vocais para Amirtha Kidambi, que divaga sobre o que fazer com o tempo e narra paisagens com crianças e borboletas em locais reimaginados.
Foi depois desse processo que ela pensou as entradas, wah-wah, solos, eletrificações, riffs, slides… Tudo o que você pode imaginar com uma guitarra, geralmente subvertendo os compassos melódicos e harmônicos dos demais integrantes: Ambrose Akinmusire (trompete), Michael Formanek (baixo) e Tomas Fujiwara (bateria).
Narrativas sobre ex, amigos, nostalgia e passeios estranhos fazem parte do teor enigmático propositalmente construído por Mary, mostrando que seu campo de inovação vai muito além das possibilidades de um instrumento. “É uma mudança total porque fui a fundo em um conceito totalmente novo”, disse a compositora à NPR. Imprevisível, Mary Halvorson prova que a linguagem jazzística tem muito a explorar a partir da abstração e de experiências pessoais. Antes de compreender, é preciso ouvir. Garanto que vai se surpreender.
Leia também: Code Girl, de Mary Halvorson, na seção Groovin’ Jazz
