Gravadora: Paisley Park
Data de Lançamento: 10 de maio de 1988
A vida dá dessas. Você passa a adolescência inteira venerando Purple Rain (1984), se dedica a entender a complexidade de Sign O’ The Times (1987), fica fascinado com a aventura sonora do proibido Black Album (1988) e termina com uma incógnita: onde entra Lovesexy nesse balaio?
Lovesexy foi a resposta de Prince, a tentativa de suavização diante da lascívia do Black Album, cultuado por suas letras transgressoras.
Se o anterior era o demônio, e devia ser proibido, Lovesexy era a noção de paraíso que Prince oferecia para redimir de seus pecados. Tanto que é a partir daqui que surgem as primeiras devoções ‘deus é amor’ – sob guitarras com efeitos psicodélicos e vocais que simulam anjos que rodeiam a todo o momento sob o ouvinte (em “Anna Stesia”).
Prince: sexualidade e mistério no pop
Nos anos 1980, tudo que envolvia Prince e sexualidade era um mistério. A androginia de David Bowie não chegava nem ao dedo mindinho do appeal daquelas dancinhas, dos solos testosterônicos e daqueles falsetes esquisitos.
Todos os discos de Prince dos anos 1980 apresentaram conceitos inovadores ao pop naquela época, mas se a epifania era uma delas, talvez Lovesexy tenha ido longe demais.
Controversy (1981) falava de sexo? Bah, Lovesexy propunha um tipo de experiência de sexo espacial, uma liberação que letra nenhuma ousaria explicar. Tá tudo ali, naquele emaranhado de 9 faixas não separadas, num tipo de fuzarca sinfônica que engloba funk, rock, Jimi, Rick, Sly, Clinton… Show business, roupas despidas, movimentos estranhos quando se está sozinho…

Lovesexy: mixtape cósmica
Sinais dos tempos? Tava tudo uma loucura mesmo, e Lovesexy compreendia tudo isso, por mais que se baseasse em uma pretensão utópica.
O andamento do disco hoje é encarado como uma mixtape, porque não se sabe onde uma faixa começa e termina (não existe separação entre elas). Uma mixtape de alguém que criou um lugar idílico onde sentimentos ligados ao amor, à amizade e ao sexo estão atrelados.
De certa forma, são bases que se sustentam, diria algum terapeuta. Mas não é disso que Lovesexy se trata.
Filosofia do amor
Existe uma filosofia que desprende a separação que Santo Agostinho fez lá atrás do pecado original, em que o homem/mulher precisa fugir a todo momento de seus impulsos sexuais para se desviar das tentações do diabo.
Os toques no corpo que Prince propõe em “When 2R in Love”, por exemplo, não impedem que o ser humano chegue ao puro contato com deus.
São manifestações distintas de amor – e, por ser amor, é bom, é puro.
Como pontuou o The Quietus: “Por ‘amor’, ele não se refere apenas ao conceito, se refere à ação. Sexo é adoração. Como você enfrenta o demônio? (Aqui caracterizado em “Spooky Electric”.) Fodendo, principalmente”.
Parece irônico que, anos depois, Prince tenha se convertido à Testemunha de Jeová. Se Lovesexy fosse apresentado num processo de aceitação, ele seria banido de cara. Isso porque é complicado aliar idiossincrasia, religião e liberação sexual.
A transgressão está na imersão sonora do disco – transgressão para nós, reles mortais, que associamos sexo à coibição.
Viveríamos em um mundo ideal se Lovesexy fosse melhor entendido é assimilado? Minha utopia diz que sim. Amor (e sexo) para todos nós!
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