
Confira também: 20 álbuns essenciais de 1971 (parte 1)
Na primeira parte desta seleção, você conferiu discos que fizeram história. Registros imperdíveis de Gil Scott-Heron, Caetano Veloso, Chico Buarque, Fela Kuti etc.
Confira agora a segunda parte de álbuns essenciais que completaram 40 anos de idade em 2011:
***

Mahavishnu Orchestra
The Inner Mounting Flame
Gênero: Fusion Jazz
Gravadora: Columbia
Depois que Miles Davis estabeleceu o fusion com os discos In A Silent Way e Bitches Brew, o jazz viu um novo abrigo para conquistar os jovens sem cair para a anarquia sonora do free-jazz. John McLaughlin, que tocou nesses dois discos de Miles, aproveitou a onda e criou o Mahavishnu Orchestra, para explorar outras possibilidades sonoras a partir de seus riffs ágeis e catárticos na guitarra. Para formar um grupo que recriasse essa urgência elétrica, o britânico McLaughlin estabeleceu contatos com músicos de diversas partes do mundo (muitos deles conhecidos através das turnês com Miles): o excelente baterista Billy Cobham veio do Panamá; o pianista Jan Hammer, da Tchecoslováquia (Rep. Tcheca); o pungente violinista Jerry Goodman veio de Chicago; e o baixista Rick Laird, da Irlanda. Este é o primeiro e talvez o melhor disco do grupo.
“Meeting the Spirits”

Marvin Gaye
What’s Going On
Gênero: Soul
Gravadora: Motown
Também já escrevi sobre este importante disco na seção #Grandes Álbuns. A história é mais ou menos assim, resumidamente: a Motown era uma gravadora que produzia música negra, mas no sentido de comercializá-la ao público branco. Por isso, não admitia que tons confessionais que exaltassem a pigmentação da pele de seus músicos arriscasse uma derrapagem nas vendas. Marvin Gaye já tinha história na gravadora, mas decidiu que queria gravar a música “What’s Going On” de qualquer jeito. Afinal, por mais que ela refletisse de maneira positiva sobre a posição do homem no mundo, ela colocava o fraco, o deslize em questão. Não tinha nada de dançante ou de contemplativo. O chefão da gravadora, Berry Gordy Jr., odiou a ideia e a rejeitou aos gritos com o músico. Mas não teve jeito: uma hora ele caiu na real (motivado pelo subchefe Smokey Robinson e sua esposa Anny Gordin, que era irmã de Marvin). E foi a melhor coisa que ele fez: o single virou um sucesso, a canção tem lindos arranjos (coordenados pelo próprio compositor) e a Motown estourou mais uma vez. Se houvesse uma lista dos melhores álbuns de toda a década de 1970, provavelmente o Na Mira do Groove iria colocá-lo no topo.
“What’s Going On”

Miles Davis
Live-Evil
Gênero: Fusion Jazz
Gravadora: Columbia
O mais perfeito de todos os álbuns de fusion. De início, Miles queria que este disco fosse uma espécie de diálogo com o revolucionário Bitches Brew, lançado um ano antes. Mas, quando foi aos estúdios, percebeu que a atmosfera era outra. Aqui, a banda era um pouco diferente da antecessora: Gary Bartz veio pro soprano e Michael Henderson encheu o contrabaixo de um groove selvagem (aqui, John McLaughlin soa mais livre em seus solos de guitarra). Sem falar nas presenças dos brasileiros Airto Moreira (percussões) e Hermeto Pascoal, que compôs os temas de “Little Church”, “Nem Um Talvez” e “Selim”. Os temas de Hermeto são mais calmos e ligados à natureza, representando o lado ‘vida’ (‘live’), enquanto a destreza nos instrumentos supõem algo diabólico (‘evil’), algo tão anárquico que fica quase impossível de acompanhar nas faixas “What I Say” e “Inamorata and Narration” (ambos com mais de 20 minutos de duração). O disco é magistral: mais um dos muitos pontos altos da carreira do trompetista.
“Sivad”

Os Mutantes
Jardim Elétrico
Gênero: Tropicalismo/Rock Psicodélico
Gravadora: Polydor
Nem tão revolucionário como o álbum homônimo, de 1968, ou tão transgressor como A Divina Comédia ou Ando Meio Desligado (1970), Jardim Elétrico é produto de uma época frutífera d’Os Mutantes, o grandioso grupo que quebrou barreiras musicais ao formatar a estética do rock nacional. Tudo bem que quase ninguém seguiu a cartilha com o empenho praticamente niilista do grupo de Rita Lee e os irmãos Sérgio e Arnaldo. Há um flerte com o acústico em “Tecnicolor” e violões hispânicos em “El Justicero”, mas os pontos altos são a faixa-título, com um acid rock fervendo os caldeirões, e a anarquicamente desprezível “It’s Very Nice Pra Xuxu”, uma anti-música que hoje explica a devoção de alguns fãs por Jupiter Maçã.
“Jardim Elétrico”

Sly and Family Stone
There’s a Riot Goin’ On
Gênero: Soul/Funk
Gravadora: Epic
Quem acompanhou a ascensão e queda do movimento hippie entre 1967-1970, provavelmente deve ter pensado que Sly Stone sucumbiria a qualquer momento, assim como aconteceu com os seus parceiros musicais Jimi Hendrix e Janis Joplin. Anteriormente, Sly falava de dançar não importa as circunstâncias (“Dance to the Music”), além de trocadilhos como chapar com o parceiro em “I Get High On You”. Mas tudo isso uma hora iria acabar. There’s A Riot Going On poderia ser descrito como uma ressaca de tudo isso: não representa a volta por cima, mas evidencia a maleficência que tomou conta do cenário com suas guitarras mais cruas e, ao mesmo tempo, anacrônicas. “Just Like a Baby” e “(You Caught Me) Smillin” são bad trips que enganam o groove contido nelas. “Family Affair” pode soar positivista, mas esconde as lamúrias de um Sly Stone afetado por tudo o que vinha acontecendo. O título dialoga com o disco de Marvin Gaye citado acima, mas traz uma perspectiva anticomercial, lúgubre e até mesmo cansada. Mas ainda assim é funk. E um puta de um disco!
“Family Affair”

The Allman Brothers Band
At Fillmore East
Gênero: Blues/Southern Rock
Gravadora: Capricorn
Eis aqui o disco de despedida daquele que, segundo a Rolling Stone, é o segundo maior guitarrista de todos os tempos: Duane Allman. A simbiose de Duane com o guitarrista Dickey Betts moldou todo o rock sulista norte-americano, partindo como principal ponto de referência para Lynyrd Skynyrd e ZZ Top. O blues aqui é a força motriz da impactante “Statesboro Blues” ou na releitura da clássica “Stormy Monday”, composta por T-Bone Walker por volta de 1947 e gravada por milhões de artistas. Este álbum trouxe muito sucesso para o Allman Brothers Band e fez com que o público voltasse os olhos para a excelente técnica de slide guitar de Duane. Mas, infelizmente, o guitarrista faleceu tragicamente no mesmo ano, em um acidente de moto.
“Statesboro Blues”

The Rolling Stones
Sticky Fingers
Gênero: Rock
Gravadora: Rolling Stones Records/Atlantic
Os Rolling Stones estavam passando por uma fase transitória naquele período: não havia mais contribuições de Brian Johnson e Mick Taylor se impôs como um membro efetivo do grupo, trazendo uma pegada mais funky que, segundo o baterista Charlie Watts, era ‘muito parecido com o que os guitarristas brasileiros vinham fazendo’. Tal sinergia com o rock and roll da banda atinge o ápice em “Bitch”, mas clássicos como “Brown Sugar” e “Can’t You Hear Me Knocking” cravam os riffs de Keith Richards aos ouvidos. O country de “Wild Horses” mostra uma exuberância impecável nos vocais de Mick Jagger e “Dead Flowers” tem uma letra sarcástica que jamais estaria associada ao ritmo que se apoia: ah… country.
“Bitch”

The Velvet Underground
Loaded
Gênero: Rock
Gravadora: Cotillion
Loaded é o último disco do Velvet Underground com Lou Reed nos vocais. Talvez seja um dos melhores registros do grupo, guardadas as devidas proporções: o revolucionário The Velvet Underground & Nico (1967) mudou toda a estética do gênero num período em que o acid-rock estava dominando a indústria jovem. As temáticas sobre prostituição, vício em drogas e homossexualismo em meio a riffs ligeiros e uma interpolação absolutamente experimental no baixo/violino de John Cale e na voz sisuda de Nico deram origem a um tratamento lancinante que originaria o punk. Por outro lado, Loaded mostra bem os caminhos que Lou Reed gostaria de seguir livremente, sem os pitacos de Andy Warhol. Ele injetou poeticidade com suas composições faladas em “Sweet Jane”, fez uma espécie de country psicodélico com “Train Round the Bend” e trafegou livremente pelo rock’n roll clássico com seus riffs em “Rock & Roll” e “Head Held High”. Foi a partir dessa inspiração que Lou Reed gravou, no ano posterior, a obra-prima de sua carreira solo: Transformer.
“Rock & Roll”

The Who
Who’s Next
Gênero: Rock
Gravadora: Track/Decca/Polydor
Depois de gravar Tommy (1969), o guitarrista e principal compositor do grupo, Pete Townshend, estava sem ideias para iniciar uma nova jornada instrumental. De tanta canseira, decidiu pegar algumas ‘sobras’ das sessões de 1968-69, e começou a trabalhar em cima delas. Quem esperaria que, daí, saísse um dos melhores discos de rock de que se tem notícia? De “Baba O’ Riley” a “Won’t Get Fooled Again”, não há um momento questionável sobre o vigor e qualidade da banda. Em 1995, eles relançaram o álbum com pérolas registradas ao vivo, como “Naked Eye” e “Water”, um take alternativo de “Behind Blue Eyes”, a dinâmica ácida de “Pure and Easy” e mais duas canções que não devem em nada às outras nove originais do disco: “Too Much of Anything” e “I Don’t Even Know Myself”. (Já escrevi sobre este disco aqui.)
“Bargain”

Tim Maia
Tim Maia
Gênero: MPB/Soul/Disco
Gravadora: Polydor
Tim Maia era um cara de imposição: impôs o soul no Brasil, impôs o seu estilo ‘cornológico mela-cueca esquenta-sovaco’ e impôs a black music em nossas terras. Em seu segundo disco, esta autoridade musical estourou com os sucessos de “A Festa de Santo Reis” (Márcio Leonardo), “Não Quero Dinheiro” e o crescendo irresistível de “Você”, canção que o próprio Tim relega como hit de cornos. Tem aquele descompromisso do brasileiro com o trabalho em “Um Dia Eu Chego Lá” e o desabafo do cantor em “Meu País”, relembrando os tempos difíceis de estadia nos Estados Unidos: ele fala do estampado preconceito que dominava o país norte-americano, dizendo que ‘aqui, somos como irmãos’. Também tem duas canções em inglês: o funk-balada “I Don’t Know What to Do With Myself” (escrito com Hyldon) e a dinâmica na bateria de Paulinho esquentando a descompromissada “I Don’t Care”, última faixa deste discaço.
“Não Quero Dinheiro”
