Em 8 de março celebramos o Dia Internacional da Mulher. Para prestar homenagem a esse ser tão delicado e maravilhoso, o Na Mira fez uma pequena seleção de 12 discos essenciais de mulheres nos vocais.

Claro que isso não representa nenhuma lista definitiva; é apenas um pequeno guia para você se deleitar com os vocais macios ou agudos, tristes ou desdenhosos, lentos ou vigorosos de cantoras que tanto nos encantam.

Provavelmente serei criticado por deixar de fora alguns registros – e, para isso, existe a caixa de comentários -, mas confesso que a seleção foi realizada daquela forma arquetípica, onde colocamos o que vêm a cabeça.

E é exatamente isso que faz essa lista ser tão especial. Repare que tentei fugir de cantoras que abalaram o cenário pop recentemente (Adele, Amy Winehouse, Lana Del Rey), apesar de ainda indicar algumas novidades. Se estão na lista é porque, na opinião deste que vos escreve, transcenderam de alguma forma.

A vocês, mulheres, segue em ordem alfabética uma lista de 12 álbuns essenciais:

3naMassa

Na Confraria das Sedutoras

Gravadora: Deckdisc
Ano: 2008

A inspiração vem de Chico Buarque e Serge Gainsbourg. Na produção, Rica Amabis (Instituto), Dengue e Pupillo (ambos do Nação Zumbi). Mas o disco é um deleite sobre o universo feminino. Tanto que ele é cantado por 13 vocalistas em 13 faixas, por cantoras (ou não) que vão de Leandra Leal a Lurdes da Luz – passando por Pitty, Alice Braga, Céu, Nina Becker… Cada canção tem um quê de isolacionismo que parece refletir as sensibilidades de cada uma das cantoras envolvidas. É um verdadeiro brinde, com taças de vinho, ao amor e ao sexo – na ordem que você preferir.

Ouça: “Enladeirada (O Seu Lugar)”, com Thalma de Freitas

Billie Holiday

Lady in Satin

Gravadora: Columbia
Ano: 1958

É um disco bem triste, isso é verdade. Um jazz levado por orquestrações na produção de Irving Townsend que reforçam o teor tristonho e maduro de uma cantora que já estava prestes a falecer. Ela fala de amor em “You Don’t Know What Love Is” de forma tão soturna, que é impossível não recorrer aos lenços. Billie, que já tinha elevado sua potencialidade vocal ao máximo na década de 1940, quis se entregar às sentimentalidades num disco que carrega o máximo do confessionalismo. Essa fórmula funciona para as cantoras até hoje, vide Amy e Adele.

Ouça: “You Don’t Know What Love Is”

Carole King

Tapestry

Gravadora: Ode Records
Ano: 1971

Costumo dizer que é o melhor disco que uma cantora poderia ter gravado. Carole não tem vocais excepcionais, mas aqui percebemos como suas composições têm tudo a ver com o seu estilo. Aretha Franklin e The Shirelles, duas potências femininas, já haviam gravado suas canções, mas foi ela quem deu a soltura para que o esquema voz e piano funcionasse tão bem. Tapestry já vendeu mais de 25 milhões de unidades pelo mundo e bateu recordes na Billboard. De “I Feel the Earth Move” à faixa-título, difícil citar um erro deste disco. É botar pra rodar e relaxar…

Ouça: “I Feel the Earth Move”

Céu

Vagarosa

Gravadora: 2009
Ano: Six Degrees

Apesar de ter lançado seu terceiro disco só recentemente, em menos de uma década essa cantora quebrou paradigmas ao enveredar por novos caminhos musicais desde cedo. No primeiro disco, tínhamos Beto Villares. Aqui, ela já está mais solta e passeia por produções de dub/eletrônico e outras raízes musicais na excitante “Cangote” e na descompromissada “Bubuia”, com participações de Anelis Assumpção e Thalma de Freitas. No jornal inglês The Guardian, Vagarosa teve cotação máxima. Tá bom?

Ouça: “Cangote”

Elis Regina

Falso Brilhante

Gravadora: Philips
Ano: 1976

Bom, não ter um álbum aqui da maior de nossas cantoras seria um erro incorrigível. Escrever enquanto se ouve o disco até emociona: ela, que já cantou muito contra a Ditadura Militar, reaviva a testosterona jovem de lutar pelos seus direitos em “Como Nossos Pais”, uma das canções que tornou o compositor Belchior bem conhecido. A direção e os arranjos musicais de César Camargo Mariano, com produção de Mazzola, foram essenciais para um disco que, além de mostrar novos capítulos biográficos de sua carreira, explicitou o estado de ânimo dos brasileiros perante um regime opressor. Mais que protestante, é um disco de emoção. “Tatuagem”, canção de Chico Buarque e Ruy Guerra que ficou conhecida na voz de Maria Bethânia, ficou ainda melhor neste registro glorioso.

Ouça: “Como Nossos Pais”

Elizeth Cardoso

Canção do Amor Demais

Gravadora: Festa
Ano: 1958

Paira uma certa injustiça com este disco: muitos o denominam o marco inaugural da bossa nova por conta dos violões de João Gilberto em “Chega de Saudade” e “Outra Vez”, e acabam esquecendo das belas interpretações de Elizeth em “Serenata do Adeus”, “Medo de Amar” e “Modinha”, só para citar algumas. Todas as canções foram escritas por Tom Jobim e Vinicius de Moraes, mas é a beleza rasgante no canto de Elizeth que faz de Canção do Amor Demais algo além de memorável.

Ouça: “Outra Vez”

Erykah Badu

Mama’s Gun

Gravadora: Motown/Puppy Love
Ano: 2000

Erykah Badu tem uma forte aproximação com o hip hop por ter trabalhado com produtores de alto calibre – ?uestLove, J Dilla – mas ela já havia se encontrado nesse segundo disco após o lançamento do impactante Baduizm, que colocou o gênero neosoul em cena. Aqui, as letras de Badu falam de amor e papos-cabeça (“Cleva”) de modo que seduzem o ouvinte por suas palavras, mais ainda do que sua voz. Para comprovar, vide as produções adocicadas de “… & On” e “Kiss Me On My Neck”. Este é um disco para mulheres que gostam tanto de atitudes ousadas, como palavras inteligentes e nada convencionais ao pé do ouvido. Delícia pura.

Ouça: “Kiss Me On My Neck”

Marisa Monte

Verde, Anil, Amarelo, Cor-de-Rosa e Carvão

Gravadora: Phonomotor/EMI
Ano: 1994

Falar de Marisa Monte sempre causa burburinhos, ainda mais quando se menciona o início de sua carreira. Poderia indicar MM ou Mais, mas é neste terceiro registro onde vemos ela trabalhar melhor com as diversas possibilidades da música brasileira, como o xote forrozeiro em “Segue o Seco”. Foi o primeiro disco produzido pela cantora e, nele, ela não teve medo de arriscar. Chamou Gilberto Gil para interpretar a bonita composição “Dança da Solidão”, de Paulinho da Viola (a versão de Marisa é considerada uma das melhores das muitas já gravadas). Até o Velvet Underground entrou no alvo da cantora: com uma síncope baiana e violões bossanovistas, mandou muito bem na interpretação de “Pale Blue Eyes”.

Ouça: “Segue o Seco”

Nina Simone

In Concert

Gravadora: Philips
Ano: 1964

Uma das cantoras mais influentes do século passado tem um catálogo extenso de músicas e discos de estúdio. Mas é ao vivo que dá pra perceber como a insanidade, em sua voz, parecia ser a mais natural das coisas. De inocência, essa mulher não tinha nada. E este disco é considerado o momento em que Nina Simone dedicou parte de sua carreira para vociferar a favor dos direitos civis. “Pirate Jenny”, um spoken-word teatral ao piano intensificado por notas monossilábicas, é um protesto irônico tirado de uma peça de Bertold Brecht e Kurt Weill. “Mississipi Goddam”, uma de suas composições mais notáveis, é prova de que Nina, além de cantora iconoclasta, era uma ativista de muito bom humor.

Ouça: “Mississipi Goddam”

Patti Smith

Outside Society

Gravadora: Columbia/Arista/Legacy
Ano: 2011

Uma das pioneiras do punk rock tem uma discografia tão vasta, que seria injusto listar aqui Horses e Radio Ethiopia e não falar de Trampin’, de 2004. Por isso, opto por indicar esta bela compilação de todo o seu trabalho, lançada no ano passado. Tem toda a letargia dos bons tempos de “Gloria” e “Ain’t It Strange”, mas suas faixas mais recentes também não poderiam ficar de fora: falo de “Trampin’” e “1959”. Apesar do punk estar intrínseco à sua carreira, Patti Smith sempre trouxe referências da literatura e contextualizou sua música conforme o que acontecia ao nosso redor. Ela pode envelhecer, mas sua música jamais irá se desgastar.

Ouça: “Ain’t It Strange”

PJ Harvey

Rid of Me

Gravadora: Island
Ano: 1993

Quando lançou este disco, em 1993, PJ Harvey era uma das grandes promessas do rock. No entanto, o gênero era apenas uma brincadeira para ela. Tudo bem que ela transformou “Highway 61′ Revisited”, de Bob Dylan, em um rock garageiro mimetizado por baterias funkeiras. E meteu violinos em “Man-Size Sextet”, buscando a estética de um cinema quarentista. Mas sua voz ofegante, sua improbabilidade musical e seus trejeitos expressivos quase iconoclastas influenciaram toda uma nova geração de mulheres dentro do contexto roqueiro.

Ouça: “Legs”

Sleater-Kinney

Call the Doctor

Gravadora: Chainsaw
Ano: 1996

Quem disse que punk rock é coisa só de garotos? Se você entrar na onda de Corin Tucker e Carrie Brownstein, principais integrantes do Sleater-Kinney, as mulheres têm muito mais a reivindicar do que os machos. No segundo disco delas, a verve crua do hard core era intensificada pela ligação entre anarquia e feminismo que trespassa qualquer rebeldia adolescente. “I Wanna Be Your Joey Ramone” pode ser confundida como uma composição lésbica, mas não é nada disso. Elas reclamam um lugar justo no meio musical: querem a coroa do rock’n roll. Call the Doctor poderia ser uma insanidade, mas sua audição justifica a possibilidade desse direito.

Ouça: “I Wanna Be Your Joey Ramone”

E aí, curtiu a lista? Faça a sua nos comentários também!