Muita gente já ouviu falar, mas poucos conhecem a obra de Captain Beefheart além do insano Trout Mask Replica, já considerado pela Mojo Magazine o álbum mais experimental de todos os tempos.
Que este é um bom disco, não há dúvidas. (Caso ainda não esteja convencido, comece lendo este post da seção #Grandes Álbuns.)
Em toda a carreira, Captain Beefheart & The Magic Band registraram 12 discos.
Don Van Vliet formou a primeira The Magic Band em 1965, revelando o potencial de Ry Cooder, que não aguentou e pulou fora após a frustração de ver o líder não conseguir segurar uma grande audiência.
Na verdade, a Magic Band já revelou e desertou muitos músicos impressionantes em suas incontáveis reformulações. Dela, saiu Bill Harkleroad (que até hoje carrega a injustiça de não ser mencionado em nenhuma lista de melhores guitarristas de todos os tempos), Arthur Tripp (o tal do Ed Marimba na bateria), Moris Tepper (guitarra), Eric Drew Feldman (baixo, piano, sintetizador)…
Os músicos eram tão bons, que há de se fazer uma lista das melhores faixas instrumentais feitas pelo grupo (encaixe aí o próprio Beefheart, que fazia da intrepidez virtuosismo no saxofone e na gaita).
Uma boa palavra-chave também associada a Beefheart é Frank Zappa: eles cresceram juntos, além de terem colaborado um com o outro em alguns registros. Mas o principal fato, que talvez alguns não saibam, é que eles disputavam egos. Esporadicamente, um atacava o outro verbalmente. O ápice da briga se deu quando o próprio Zappa segurou, por sua gravadora, as tapes das canções que formariam Bat Chain Puller no final dos anos 1970 – que só foram liberadas no ano passado após muitas desavenças (assunto para outro post).
Enfim, a ideia é fazer um passeio cronológico pela discografia do músico através de 10 importantes canções. Confira, ouça, antene-se e se divirta:
“Electricity” (1967)
Safe As Milk é um grande debut, mas ele engana o ouvinte. A capa e mesmo a produção se relacionam com o acid-rock, algo que Van Vliet iria renegar durante toda a carreira. A produção não é tudo isso, mas “Electricity” é o primeiro ensaio da verve experimental que se tornaria o grande trunfo da banda. Eis um belo começo para se adentrar na obra de Captain Beefheart. Do disco, ainda vale prestar atenção em “Sure ‘Nuff ‘N Yes I Do” e na macabra psicodelia de “Autumn’s Child”.
“Beatle Bones ‘N’ Smokin’ Stones” (1968)
A música manifesto para quem não aguenta mais aquele argumento enfadonho de que Beatles e Rolling Stones são os maiorais. E, realmente, Van Vliet renegava qualquer possibilidade de cruzamento musical com as bandas hypes. Se por um lado o compositor revela sarcasmo e bom-humor, por outro exibe sua preferência por uma poesia intrincada com referências nada óbvias (‘Strawberry Caterpillar strawberry butterfly strawberry fields’ – provavelmente a denúncia de corporativismo na lisérgica canção dos Beatles). Tudo a ver com um disco que se chama Strictly Personal – também mal produzido.
“Ella Guru” (1969)
Trout Mask Replica precisa ser digerido aos poucos. Quando falei sobre o disco na seção #Grandes Álbuns, recomendei aos neófitos iniciarem pelas canções mais blueseiras, como “Moonlight On Vermont”, “Steal Softly Thru Snow” e esta “Ella Guru”. Foi neste disco que Van Vliet colocou em xeque sua inventividade – ainda que por meios autoritários. “Ella Guru” é a canção que melhor resume esta fase por conter o lado freaky-insano nos vocais de Vliet, ter um viés blueseiro totalmente transfigurado e, ainda assim, ser catártica. (PS: considerem-se leitores de sorte por não ter colocado “Pena” aqui, rárárá.)
“Space Age Couple” (1970)
Lick My Decals Off, Baby é o disco que mostra uma evolução no caminho dodecafônico sugerido em Trout Mask Replica. Mesmo depois de se aposentar nos anos 1980, Van Vliet disse que considerava este o seu melhor trabalho. É de se concordar com tal afirmação. O álbum é mais bem resolvido e exibe os músicos mais ‘adeptos’ às técnicas e descrições criptográficas do compositor (descrições do tipo: ‘toque como se fosse um passarinho livre querendo entrar na gaiola’). “Space Age Couple” é um rechaço à lisergia dos anos de Woodstock: ‘Por que vocês não enterram essa tolice ‘cool’/E arremessam suas joias desagradáveis?/Cultivem o terreno/Eles são os únicos em torno dele’.
“I’m Gonna Booglarize You Baby” (1972)
A capa que mostra Van Vliet em um elegante terno contornado por um efeito brilhoso revela uma busca mais ‘pop’ do grupo. Beefheart já estava cansado de ser catalogado como ‘difícil’; ele realmente achava que sua música tinha potencial para abraçar um grande público. The Spotlight Kid foi a redenção do músico: ele decidiu abandonar aquele atropelamento de melodias e ritmos e foi por um lado mais blueseiro. A ideia era que o público finalmente ‘digerisse’ sua obra. Bill Harkleroad afirmou que este álbum é uma ‘merda’, críticos detrataram a pretensão comercial de Beefheart… Mas a verdade é: The Spotlight Kid é um ótimo disco! “I’m Gonna Booglarize You Baby” exibe pela primeira vez a incursão pelos falsetes vocais; aquela coisa de ensaiar uma explosão vocal, o querendo-ir-mas-não-vai. As guitarras se entrecruzam, sim, mas soam bem mais palatáveis aos ouvidos que as canções dos discos anteriores. Faixas como “White Jam” e “Kiss Me” até sustentam críticas negativas ao disco. Mas quem pode falar mal de um trabalho que contém “Blabber ‘N Smoke”, “Grow Fins” e a explosiva “Alice in Blunderland”?
“Nowadays A Woman’s Gotta’ Hit a Man” (1972)
Clear Spot é o disco que Captain Beefheart claramente dedicou às mulheres. Apesar de tê-lo feito à sua maneira, a mensagem geral é que Van Vliet defendia uma superioridade feminina que quase nenhum homem tem a capacidade de enxergar. Fazendo isso, ele consegue soar doce e gentil – como mostra “Too Much Time”, capaz de agradar qualquer fã de Otis Redding. Mas é em “Nowadays A Woman’s Gotta’ Hit a Man”, sob gaitas e belos riffs de guitarra, que Beefheart convence melhor tais argumentos. Ele não desvencilha de suas raízes musicais e assegura com clarividência: ‘I’m talking about WOMEN, man!’.
“This is the Day” (1974)
Os álbuns The Spotlight Kid e Clear Spot, apesar de serem muito bons, foram uma tentativa forçada de buscar o hype, e isso desagradou e muito os integrantes da The Magic Band. Depois de marcar algumas apresentações, um a um os músicos foram deixando o grupo, alegando também que não aguentavam as insolências e exigências do líder. Unconditionally Guaranteed é a prova deste cansaço: percebe-se que os músicos estão ali só por estar, não há expressividade de guitarras, marimbas, baterias… Mas é interessante apontar a fase mais comportada de Beefheart, bem catalisada em “This is the Day”, prova de que não era apenas a estranheza que caberia à obra do cantor. Muitos veem como um fracasso terrível. “This is the Day” é um momento raro que pode ser visto como fardo negativo, abertura comercial, intimismo praguejado… Mas até que não é uma canção ruim.
“When I See Mommy I Feel Like a Mummy” (1978)
Foi preciso um tempo de reclusão para que Beefheart voltasse à cena após a decepção de Unconditionally Guaranteed e Bluejeans & Moonbeans. O destino quis que ele se reencontrasse com Frank Zappa e gravasse com ele Bongo Fury que, se por um lado lhe deu visibilidade mais uma vez, por outro agravou a fricção com o amigo-rival de infância (a causa? Todo aquele problema de dois ególatras criativos). Foi aí que veio a briga de Bat Chain Puller, cujas tapes ficaram com a gravadora de Zappa. Sabendo que tinha um ótimo disco em mãos, Beefheart tentou refazer algumas canções numa nova sessão. Há quem argumente que Shiny Beast sofra de uma dispersão após uma grande ideia. Mas foi graças a este disco que Captain Beefheart estava de volta, com uma Magic Band totalmente reformulada.
“Dirty Blue Gene” (1980)
Taí um disco que precisa urgentemente ser redescoberto: Doc At the Radar Station. Por mais que a voz de Van Vliet soe mais grave e menos poderosa, este é o álbum mais coeso de Captain Beefheart desde Lick My Decals Off, Baby. Longe de ser desanimado ou retrato de um artista quando velho, Doc At the Radar mostra uma banda afiada e composições deliciosamente complexas, como Van Vliet sabia fazer bem. “Dirty Blue Gene” brinca com os radicalismos de tempos musicais: começa com guitarras ágeis, para, e logo a bateria faz o serviço ácido novamente. Van Vliet canta como um ancião exasperado numa tempestade no deserto, passeando como ventania por múltiplas linhas de guitarra.
“The Past Sure is Tense” (1982)
Todo jogador de futebol sonha em encerrar a carreira de forma divina. Talvez esta não fosse a pretensão de Captain Beefheart ao fazer Ice Cream For Crow, mas a bem-sucedida trajetória na pintura falou mais alto no campo artístico. Bom, pelo menos ele deu adeus à música de forma majestosa neste disco, ótima sequência do ótimo Doc At the Radar Station. Já começa pelo título do disco: ‘sorvete para urubu’. Quer nome mais insano? No disco, Van Vliet se aprofunda ainda mais na raiz blueseira e até se mostra com uma força vocal mais preparada que no trabalho anterior. “The Past Sure is Tense” traz uma sincronia espetacular entre as guitarras de Moris Tepper e Gary Lucas, sem deixar de notar a ‘gaita asmática’ de Beefheart numa sobra das sessões de The Spotlight Kid/Clear Spot que foi devidamente retrabalhada.
Para ouvir a playlist completa, sem interrupções, divirta-se no player abaixo:
Guia: 10 músicas para entender Captain Beefheart & The Magic Band by Tiago Ferreira on Mixcloud
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