Não faltam exemplos de resenhas ainda piores que os discos que pretendem argumentar como bons. A máxima que se pode dizer hoje em dia é que, estranhamente, os críticos estão se afastando do gosto do público.
Isso acontece a nível mundial. Pegue os discos mais bem cotados no Metacritic, que relaciona a maioria das críticas feitas por blogs e sites especializados, e relacione com as paradas da Billboard 200: da lista dos 20 melhores discos ranqueados pelos críticos até julho de 2014, nenhum batia com os 20 mais vendidos. Ultraviolence, o álbum mais vendido da semana analisada (3 de julho), tinha uma pontuação de 74; ou seja, 15 pontos a menos que o primeiro colocado do Metacritic no período: St. Vincent.
Essa dicotomia público versus crítica é histórica. Não faltam exemplos de discos, hoje considerados clássicos, que tomaram boas chineladas de jornalistas quando foram lançados. Jimi Hendrix, Led Zeppelin, Black Sabbath e mais um punhado chegaram a ser classificados como ‘medianos’ pela publicação que hoje mais idolatra tais bandas: a revista Rolling Stone. (Vale conferir o ranking do Rate Your Music.)
É inevitável. Sabemos que nenhum crítico é dono da razão e que nenhuma publicação consegue ser fidedigna à qualidade das músicas lançadas a cada ano. Mas há casos em que os ditos ‘especialistas’ forçam a amizade. Querem transformar em clássicos discos pedantes de tão ruins. Querem forçar o pop a aceitar canções ainda piores que as que circulam nas rádios populares. Ou nos fazer acreditar que o mundo seria melhor se prestássemos mais atenção nos argumentos enfadonhos para descrever tais obras.
A seguir, 10 exemplos do que não escrever sobre discos que não merecem as altas notas que receberam. Percebam que fechamos em trabalhos recentes, pós-anos 2000, para mostrar como a dicotomia que mencionamos permanece atual. Incluímos um equívoco nosso – pode haver outros, basta navegar por aqui – porque também nos julgamos críticos e porque, às vezes, deixamos a emoção tomar conta da nossa razão, algo que acontece e sempre aconteceu na crítica de música pop.
Que fique registrado: não são os piores textos sobre os discos mencionados. Nem mesmo o professor Pasquale Cipro Neto teria paciência para lidar com a grande quantidade de resenhas mal escritas, seja nas blogosferas, jornais, revistas ou sites especializados. As balelas estão nos argumentos.
Talvez os leitores tenham afeições positivas sobre os álbuns desta lista. Isso é pessoal, claro. Mas não derruba a prerrogativa de que, o que escreveram sobre eles, são de teor duvidoso.
A lista está em ordem alfabética de artistas. As traduções dos sites estrangeiros foram feitas livremente. Divirtam-se:

Sung Tongs (2004)
Animal Collective
Pitchfork: “No entanto, mesmo que os doentios, sofridos adultos possam alongar os dias perdendo tempo precioso e esquecendo lições preciosas, a maioria deles não iria voltar ao relógio se fosse dada a chance. Juventude não é desperdiçada nos jovens como um todo, porque somente as crianças em dias de feriado poderiam dar ao luxo de deixar seus corações expostos por muito tempo, para cantar tão alto e com tanta gratidão. Pelo contrário, a sabedoria é desperdiçada na velhice”.
A real: Querer justificar a complexidade da juventude tem sido um dos maiores erros dessa geração de críticos. Quando o disco em questão é de hardcore, falam de jovialidade. Quando o disco em questão é folk, taca-lhe jovialidade. Até mesmo quando um disco é ininteligível e com melodias mais toscas que tortas – caso deste disco tiro-no-pé do Animal Collective – usam a jovialidade para justificar.
Tudo bem que Sung Tongs possa ter certo conceito de ingenuidade fluida em suas canções, mas isso não exclui o fato de ser um disco piegas, quase inaudível.
É experimental? Bruce Haack e Don Van Vliet teriam vergonha de assumi-los na mesma prateleira. Se, como o Pitchfork diz, ‘a sabedoria é desperdiçada na velhice’, a partir de Sung Tongs temos a juventude como desperdício de criatividade. Rasura das feias na discografia da banda.

AM (2013)
Arctic Monkeys
NME: “Não é, no entanto, o trabalho de uma banda operando em seu auge absoluto – que ainda está por vir. É o trabalho de uma banda que continua a crescer, ainda refinando, ainda aprendendo a experimentar; uma banda que não vai olhar para trás neste disco como uma carreira em alta, mas como o momento em que deixou de ser definida por gênero e, em vez disso, tornou-se artista. Não é uma banda de rock, definitivamente não é uma banda indie, mas de artistas. Pense Bowie, Beatles, Stevie Wonder e Bob Dylan. Deste ponto em diante, Arctic Monkeys pode fazer o que quiser, o som como quiser, e ser sempre Arctic Monkeys”.
A real: Não é uma banda indie que toca “R U Mine?” Não vem do rock todo o contexto bêbado de “Why You Only Call Me When You High?” Uma banda como Beatles, Stevie Wonder e Dylan? Ah vá…
Todos os cânones mencionados são questionáveis, assim como o quinto disco do Arctic Monkeys, que serviu de mote para a tal ‘salvação do rock’ que a NME não cansa de apregoar aos leitores alienados. AM é melhor produzido e tem letras de um adulto bem resolvido que procura uma vida derrotista. Mas não passa do divertido, dos que animam festinhas indie.
Quanto à resenha? Parece de fã-clube presidido por um adolescente virgem.

CSS (2005)
Cansei de Ser Sexy
Folha de S. Paulo (Lúcio Ribeiro): “No entanto, mais do que o revolucionário lançamento de um disco (um disco, não: dois! Dois discos, não: três!!!), o interessante é perceber que o CSS já há algum tempo botou em curso um involuntário plano de… dominação mundial.”
A real: Tive que destacar o nome de Lúcio Ribeiro, porque quando se fala de qualquer banda associada ao indie o produtor/jornalista assume uma boçalidade vergonhosa para validar faixas/artistas que, convenhamos, nem sempre têm a ver com indie. Muito menos com música boa.
No caso do CSS, ele achou o que queria. Só que isso, nem de longe, torna a banda revolucionária. Por deus, o que há de excelência em assumir o ridículo de certas letras e se tripudiar nos palcos? Só porque o suplemento britânico The Observer deu destaque?
Para o bem ou para o mal, o tempo mostrou que o CSS nada mais foi que uma bomba-relógio com os dias contados desde que surgiu. Estourou com a saída de Adriano Cintra. Os cacos resultaram em Planta (2013).

Chico (2011)
Chico Buarque
Na Mira do Groove: “Talvez o único argumento para fazer uma crítica negativa ao álbum Chico, de Chico Buarque, é a sua brevidade. (…) Ainda que o músico carioca possa se sentir à vontade no seu confortável divã poético, Chico preza pela sutileza dos sentimentos mais pequenos – aqueles mais difíceis de se fincar na memória.”
A real: Divã? Desde quando algum artista deve se permitir a isso? Não só nos enganamos em colocar os argumentos do último disco de Chico Buarque, como caímos na amarra de aceitar sua falta de poeticidade, falta de criatividade e falta de renovação. Nem de longe Chico se equipara ao bom Carioca (2006), este sim mais rude e melancolicamente agressivo como nos bons tempos do compositor.
Chico Buarque tem menos discos bons do que teorizam e Chico só faz comprovar uma máxima: melhor que ele continue apenas no futebolzinho semanal e na produção literária mesmo…

American Idiot (2004)
Green Day
Mojo Magazine: “É um trabalho emocionante, o tipo de disco que estabelece novos parâmetros do que pode ser possível a uma banda punk rock do século XXI”.
Collector’s Room: “Certas bandas são estigmatizadas, e o Green Day é uma delas.(…) Todo este preconceito transformou o Green Day, que já está na estrada há mais de vinte anos, em uma banda subestimada, o que é uma pena, pois muita gente certamente deixou de ouvir American Idiot justamente por isso.”
A real: Quantas bandas não gostariam de ser ‘estigmatizadas’ como o Green Day! Por mais que se discorra sobre sua obra mais conceitual, espécie de ópera-punk, faixas como “Boulevard of Broken Dreams” e a própria faixa-título só mostram que o gênero abraçou de vez o capitalismo.
Produções soberbas e análises pseudointelectuais, além de fugir de todo o niilismo que caracteriza o que chamamos de punk, mostraram um rumo nefasto a uma banda outrora empolgante. Punk rock do século XXI? Às favas, melhor que voltemos aos jurássicos.

Mallu Magalhães (2008)
Mallu Magalhães
Rolling Stone Brasil: “É preciso entender que não há armação no case Mallu, mas circunstâncias pontuais que a beneficiam, da boa estrutura familiar ao aumento da importância dos sites de relacionamento, à necessidade de o pop brasileiro ter um fenômeno local da internet para chamar de seu. Mais importante de tudo, é que Mallu, a garota certa da hora certa, cumpre muito bem seu papel nesta história, e com luz própria, ainda que nem sempre saiba para onde direcionar o facho. Seu disco de estreia é apoiado nas canções eficientes de formato básico que os fãs já conhecem, mas não se limita aos tchubarubas adocicados que a consagraram repentinamente”.
A real: O que a importância dos sites de relacionamento tem a ver com a necessidade de se ouvir Mallu Magalhães? Uma das maiores chatices a se pintar na música popular brasileira, as canções e letras deste disco soam ainda mais pedantes a cada audição. Garota certa da hora certa? Tomem tento, ela não teve sorte alguma na condução de sua carreira. Foi graças à teimosia de poderosos e à capacidade de alguns críticos suportarem as melodias frufru que daqui emanam que Mallu obteve mais espaço do que mereceria na cena brasileira.
Claro que hoje em dia a garota cresceu e abraçou a maturidade de forma mais natural do que se conspiram (não, ela não foi precocemente madura). Não anima muito saber que ela está com novo projeto ao lado do parceiro Marcelo Camelo, mas pode ser que Mallu ainda acerte um bom disco. Uma coisa é certa: pior que este certamente não haverá de ser…

Feito Pra Acabar (2010)
Marcelo Jeneci
Folha de S. Paulo: “O compositor paulista tem pudor do sucesso. Salvos Rita Lee, Guilherme Arantes, algumas bandas de rock dos anos 1980 e poucos outros, são raros os filhos desta cidade que, de 30 anos para cá, topem seduzir um público grande escancarando o coração sem culpa e vergonha, sem medo da catarse. Quando ousa pisar nesse terreno, o compositor paulista disfarça o “pecado” escondendo-se sob máscaras da ironia, da crítica. Só se permite falar de sentimentalidades se vierem devidamente processadas pelo cérebro. Feito pra Acabar, trabalho de estreia do compositor paulista Marcelo Jeneci, corre justamente na contramão de tudo isso”.
A real: Diversas heranças musicais brasileiras se entrecruzam no trabalho de Marcelo Jeneci, acordeonista dos bons, produtor admirável, mas como cantor… Deixa bastante a desejar. As sentimentalidades devidamente processadas pelo cérebro, que o jornalista diz estar ausente em Feito Pra Acabar, me parecem bem evidentes em uma faixa como “Por Que Nós?”, por exemplo.
Esse tal coração sem culpa e vergonha tem muito a ver com Roberto Carlos e, se essa realmente é a premissa do álbum, a complexidade dos arranjos e as justaposições musicais, tecnicamente bem colocadas, acabam por colocar a proposta artística do disco em contradição. Não que este seja seu maior defeito.
O que pena bastante em Feito Pra Acabar é sua exacerbação melancólica e falta de espontaneidade, algo intrínseco a todo grande nome do bastião pop. Jeneci pode figurar em novelas da Globo, mas raramente conseguirá entrar no imaginário de sua geração. As composições deste disco são de difícil memorização. Não é assim que se faz pop…

Oracular Spectacular (2008)
MGMT
The Guardian: “Este é o primeiro grande disco pop do ano, uma bomba de cereja chiando que brilha com a energia, ideias e um enorme amor pela música em todas as suas formas. (…) Toda esta energia de alguma forma vem junto como um só, fazendo com que todo o pacote amigável às rádios praticamente beije sua antena”.
A real: Quando o segundo disco do MGMT saiu, já se pensava em neo-psicodelia com forte pegada pop. As injeções caleidoscópicas em faixas como “Electric Feel” e “4th Dimensional Transition” deram origem a uma idolatria precoce de uma banda que logo mostraria suas amarras. Onde elas estavam? Na execução ao vivo!
Foram raras as vezes em que a banda convenceu nos palcos e, se havia alguma pretensão pop no trajeto, ela acabou sendo derrocada. Pensando por um lado bom: talvez as rádios ficassem mais chatas se ficassem repetindo “Time to Pretend”, com aquela guitarrinha safada… Ouvir “Kids” já deu no saco, não?

The xx (2009)
The xx
A.V. Club: “’Basic Space’ não é apenas uma música do debut do The xx; é também uma filosofia sônica. (…) Não é usual às bandas empreender organizadamente produção e instrumentações mínimas, mas outra coisa é iniciar um disco com sua sonoridade mais barulhenta e em seguida pegar as peças uma a uma de cada vez. (…) Este é um minimalismo épico.”
A real: Há muito o que se discutir sobre a forma com que o minimalismo meandra na música pop. O The xx trouxe essa discussão com seu primeiro álbum – menos por sua qualidade e mais por seu contexto. Esteticamente, Young Marble Giants já havia feito melhor e com mais argúcia em Colossal Youth – há mais de 30 anos!
O A.V. Club também cita o início de carreira do Portishead, mas uma coisa deve ser dita: nem de longe The xx se equipara às suas influências.
Quanto ao debate do minimalismo é válido afirmar que não soa mais que uma reação à exacerbação pop, cada vez mais extrema com o passar dos anos. Os britânicos ainda o celebram como um dos melhores atos musicais desde o britpop. Talvez essa reação seja mais global que regional (ora bolas, o que é mais barulhento que funk carioca por essas bandas?). Mas pensar que a economia de acordes com trejeitos indie, em pleno século XXI, é base suficiente para chamá-lo de ‘minimalismo épico’ seria o mesmo que dar bofetadas indesculpáveis em La Monte Young, Philip Glass e Laraaji.

Goblin (2011)
Tyler the Creator
Entertainment Weekly (EW): “Desde o início da carreira de Eminem não há um rapper que entrega composições tão viciantes, cuspindo graficamente maldades de estupro (”Fish/Boppin Bitch”) e assassinatos (”Yonkers”). É uma pena que Kanye West – também fã – já tenha usado o título, porque Goblin é uma Beautiful Dark Twisted Fantasy (bonita fantasia negra retorcida)”.
A real: Uma coisa é certa: não há nada de bonito no disco de estreia de Tyler, the Creator. O cara é um prodígio: dirige bem tanto clipes infames, como clipes surpreendentes (“Yonkers” é uma obra-prima audiovisual pós-anos 2000, fazendo muito com pouco).
A relação com Kanye West não tem nada a ver, muito menos a comparação com Eminem. Goblin carece de qualquer senso de viciante, a não ser pela forma mais opressiva que você possa imaginar. As canções bombam em nossas mentes como se fossem vomitadas por um adolescente que faz da violência rebeldia. Tudo bem, a proposta de Goblin não é de apreciação – pelo contrário, é de confronto. Mas é um confronto movido pela radicalização de um discurso que já soou mais efetivo nas vozes de outros rappers. Se fosse colocar um comparativo, diria que Tyler reúne o que há de pior de Chuck D e Flavor Flav.
Quais discos destes últimos 10 anos vocês consideram superestimados? Liste os seus nos comentários!
