Planet Hemp - SP 14-11 (Créditos - Eduardo Ramos)

Incêndios de um show explosivo

Planet Hemp relembrou a discografia em três atos. Saiba como foi a primeira apresentação no Estância Alto da Serra – e, também, como foi o show de abertura do Elephant Club

Dividido em três atos, o show do Planet Hemp foi…

Não, não, peraí. Antes, é necessário criar o cenário do show de 14 de novembro, no Estância Alto da Serra.

Carros enfileirados na velha estrada de Santos davam a entender que estávamos se aproximando de um grande festival, do porte de um SWU ou de uma micareta.

Para quem não sabe, o Estância Alto da Serra é tradicionalmente um local de shows de música sertaneja.

Apesar de estar localizado em São Bernardo do Campo (SP), o público que ali estava para ver o Planet Hemp era majoritariamente da capital.

Ao contrário do que alguns poderiam imaginar, a maior parte do público é bem mais jovem e provavelmente não deve ter vivenciado os perrengues dos anos iniciais da banda, tampouco ter comparecido nos shows tresloucados da Rádio Mix – algo que surpreendeu um Marcelo D2 nostálgico que pediu pro pessoal ‘das antigas’ levantar a mão. À molecada, emendou: “fala pra eles que Planet é peso, porra!’, com “100% Hardcore” na sequência.

A casa de shows, bem reticente, anunciou que o evento teria início às 21h. O aglomerado de carros, organização, chegadas e saídas anteviam uma apresentação pra lá das 2h da manhã – motivo de cansaço para muita criancinha que deve ter confundido vodca com água na tentativa de entrar na ‘chapação’ Planet.

“Esperei por essa porra minha vida inteira”: comentário disparado por muitos dali.

A fumaça era algo natural, mas bem que houve alguns seguranças que tomaram um baseado ou outro de junkies desprevenidos. Havia três reações óbvias: ou tentava se proteger dos bate-cabeças formados nas inúmeras rodinhas; ou empunhava-se o baurete irredutível; ou caía na porrada dessas rodinhas – apesar dos muitos boladinhos mal-intencionados que não cantavam nada, só esperava um rostinho vulnerável pra descer o sarrafo.

Bom, vamos ao show:

Dividido em três atos, o show do Planet Hemp iniciou como uma explosão e terminou como incêndio. Não houve nenhum show no palco principal, portanto a expectativa do público já tinha que ser dissipada logo nas primeiras músicas.

Começou com aquele slap no baixo de Formigão em “Não Compre, Plante!”, a primeira música do disco Usuário (1995) que, até pelo que se sabia, seria tocado na íntegra naquela apresentação.

Sem muita conversa seguiram-se trincas e mais trincas nervosas, com “Legalize Já”, “Maryjane” e “Dig Dig Dig (Hempa)” (que, inclusive, teve bis no final do show).

O público estava bem eufórico – uma mistura de antigos fãs com os novos, que provavelmente vieram na esteira do trabalho de Marcelo D2, bem exposto na MTV com a carreira solo.

O segundo ato mostrou que a banda queria fazer um passeio pela carreira. Uma boa oportunidade, já que o Planet tinha à exposição um público de mais de 15 mil pessoas, o maior de todos os shows dessa reunião que dá ares de ir mais longe do que se especula.

Mais guitarras e, consequentemente, mais fumaça surgiram com as canções de Os Cães Ladram Mas a Caravana Não Pára (1997), o álbum mais hardcore da banda. “Queimando Tudo” era suave perto de pancadas como “Seus Amigos”, a já mencionada “100% Hardcore” e a funky “ZeroVinteUm”. Ápice do quebra-pau, mais ou menos o momento em que o autor destas linhas tomou um soco no queixo e abandonou o bate-cabeça.

Com projeção que ilustrava uma pequena história por trás da capa de A Invasão do Sagaz Homem-Fumaça (2000), último disco de estúdio da banda, o terceiro ato tinha que começar com a emblemática… “Ex-Quadrilha da Fumaça”. Apesar da memorável frase da música, quem não adivinhou já tinha comprovado faz tempo que o Planet Hemp estava de volta na praça ‘botando pra fuder e sem sair de cima’! Desse ato, estavam inclusos “Raprockanrollpsicodeliahardcoreragga” (com uma velocidade estarrecedora dos vocais de BNegão), “Stab” e, obviamente, a clássica “Quem Tem Seda”, com a rapa empunhando isqueiros e os king sizes adquiridos na porta do Estância.

Na apresentação, Marcelo D2 alertou o público sobre a violência que tem assolado e amedrontado muita gente em São Paulo. E aproveitou também para homenagear o músico Chico Science, cantando uma versão de “Samba Makossa”.

Quase 2h de show, agito, energia de palco e, como não poderia deixar de ser, muita fumaça no ar. Foda!

Elephant Club
Na extremidade esquerda do Estância, perto da entrada, há um espaço mais contíguo após um nada pequeno lance de escadas, com uma decoração de madeira que lembra vagamente a estrutura da choperia do Sesc Pompeia.

Lá, às 0h30 teve início o show do Elephant Club, grupo de Sorocaba que mistura rap, reggae, ragga, rock e samba com vigor de sobra.

Se, por um lado, muitos não conseguiam acompanhar as letras de músicas como “Lá no Morro” e “Rimas Afrodisíacas”, por outro viram na apresentação um ótimo ‘esquenta’ pra explosão que viria com o Planet.

O público que viu a apresentação não representava nem 1/10 da galera que colou para ver a atração principal – muitos com medo de não garantirem bons lugares na multidão. Perderam, porque os sorocabanos mostraram segurança, presença de palco e boa capacidade de conquistar a plateia com petardos como “Neguim”, “Objetivo” e “Baseado em Samba”.

Cada integrante da banda parece representar um gênero musical diferente, que vem para agregar no caldo sonoro: os dois MCs Ricko Castelli (rap) e Poft de Paula (reggae, ragga), com o suporte essencial de bateria, percussão, cavaquinho, guitarra e baixo.

Na mesma linha do Planet Hemp, clara influência da banda, muita menção ao ganja e às curtições da vida, sem deixar de conscientizar e chamar atenção para problemas sociais em canções como “Lá no Morro” e “Neguim”.

Provavelmente o Elephant Club ganhará projeção maior após a ótima apresentação, e logo você vai rodar alguma canção dos sorocabanos no seu mp3, carro e/ou fone de ouvido.

Segundo show do Planet Hemp – para saber como foi a apresentação extra da banda em São Paulo, confira a resenha do Floga-se.
 

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Tiago Ferreira

Jornalista bem-humorado. Gosto mesmo é de música torta, amalucada, fora de contexto e ritmo, mas também me emociono com Aretha, Ella, Elis, Nina, Otis, Marley, Bowie, Miles... Além do site Na Mira do Groove, estou à frente, junto com a sócia Beatriz Silva, do serviço Na Mira Assessoria, destinado a novos artistas e bandas musicais.

  1. Gab 24 novembro, 2012 at 23:51 Responder

    Cresci ouvindo Planet Hemp com o meu pai, esperei muito por esse show que praticamente foi no quintal de casa (dava até para ouvir o show de casa, segundo a minha mãe). Foi uma vibe incrível. Vou poder dizer aos meus filhos que fui no show desses caras, E FOI FODA !

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