
01 Amerigo 02 Fuji-san 03 April Fool 04 This is the Girl 05 Banga 06 Maria 07 Tarkovsky (The Second Stop is Jupiter) 08 Mosaic 09 Nine 10 Seneca 11 Constantine’s Dream
12 After the Gold Rush
Gravadora: Columbia




Patti Smith é como um holograma: tem aquele lado punk de “Rock’n Roll Nigger”, o lado em que tenta buscar algo de bom para a humanidade de Dream of Life e o lado em que se devota a pagar tributos a ídolos idos, como fez de forma sincera em Gone Again.
E tem também aquele lado poético-experimental, intimista, abstrato, erudito e por vezes indecifrável, como ela mostrou ao público com o impactante álbum de estreia Horses.
Os tempos passaram, Patti Smith fez muita coisa, eternizou canções que vão da obscura “Ain’t It Strange” à mercadológica “Because the Night”.
Mas, talvez muitos pensassem que Horses fosse coisa do passado. Daqueles debuts de poucas vendas que marcaram uma ruptura estética e um momento passado de uma cantora que, com o passar dos anos, assimilou como a dinâmica do rock e do entretenimento influenciaram sua carreira a partir de então.
Não existe linearidade na carreira de Patti Smith – vide sua tortuosa discografia, que apresenta alguns recessos de oito, nove anos entre algum disco e outro.
Ela nunca foi de nenhum nicho. Nem mesmo do punk, movimento em que muitos a inserem por ter tocado ao lado dos Ramones e do Television no CBGB – quando percebe-se semelhanças mais aproximadas com Leonard Cohen ou Bob Dylan.
Certo, e onde Banga entra nisso? Aqui, Patti Smith deixa de lado a acessibilidade de sua música e se entrega à poesia, ao campo aberto da abstração. E aí você percebe seu poder de composição. Ela está em um terreno só dela, onde é a única rainha suportada por velhos súditos: os músicos Lenny Kaye (guitarra), Jay Dee Daugherty (bateria, percussão) e Tony Shanahan (baixo, teclados), que fornecem um pano de fundo que só reforça o hibridismo de suas canções.
Já pra recauchutar alguns desavisados, não tem muita coisa pop em Banga não. Se procurava isso, contente-se com “April Fool”, uma canção de fazer inveja aos iniciantes do indie rock por sua camada simplista e uma composição que deve ter nascido como brincadeira para Patti e seu possível companheiro: “Quando nossas almas sentirem-se mortas/Com risos iremos nos sentir estimulados/E voltaremos à vida novamente”.
Calma, não se assuste: dá pra cantar a melancólica “This is the Girl” e até mesmo a faixa-título, que fica ainda mais interessante quando se descobre que a cantora narra a saga de um cachorro que mantém-se fiel e ortodoxo momentos antes de ser crucificado. O cachorro era de Pôncio Pilatos, inspirado pela novela O Mestre e Margarida, do escritor russo Mikhail Bulgákov.
Referências aos mestres da arte e da literatura não faltam. Ela dedica a etérea “Tarkovski” ao cineasta de mesmo nome (que inclui um solo de Sun Ra da canção “The Second Stop is Jupiter”), homenageia Amy Winehouse em “This is the Girl”, traz referências de Gógol em “April Fool”, cita “Ring of Fire” (Johnny Cash) de maneira brilhante em “Mosaic”, Neil Young em “After the Gold Rush”…
Banga também nos devolve aquela Patti Smith de estranha espirituosidade teatral, como ela faz questão de mostrar na longa “Constantine’s Dream”, que faz uma ligação entre São Francisco de Assis, Constantine, o pintor Piero della Francesca e o desbravador Cristóvão Colombo a partir de um sonho com o fim do mundo.
Ela chegou a afirmar que estudou por mais de um ano todas as imagens que viu em uma capela que encontrou como refúgio para desvendar tal sonho. O resultado é apocalíptico e denso. Tão poético como Patti Smith.
Banga se mostra uma obra reflexiva, de sensível inteligência, com ideias borbulhantes. Soa como se não tivessem passados mais de 35 anos desde o debut que revolucionou a forma lírica de composição dentro do rock.
Patti é um caldeirão. Caso se sinta intimidado em prová-lo, saiba que o tempero (Kaye, Daugherty, Shanahan) é muito bom. O resto é poesia.
Melhores Faixas: “April Fool”, “Banga”, “Mosaic”, “Constantine’s Dream”.
