Na primeira metade dos anos 70, Iggy Pop passava por difíceis complicações devido às insanidades cometidas enquanto frontman dos Stooges, banda de proto-punk e rock de garagem que foi essencial para a formação da cena de 1977 (com Sex Pistols e The Clash). Estava viciado em heroína, contraiu gonorreia ao transar com Nico (The Velvet Underground) e, antes da gravação de Raw Power, em 1973, enfrentava uma crise financeira com as péssimas vendas dos dois primeiros álbuns lançados, The Stooges e Fun House.

Foi nesse contexto que o andrógino David Bowie conheceu seu ídolo Iggy e o ajudou a direcionar seu trabalho para a música. Antes disso, porém, o iguana passou por um período de recuperação em uma clínica psiquiátrica na Universidade da Califórnia para tentar se recuperar. E acabou deixando um registro nesse tempo com a gravação do álbum Kill City, gravado em um único dia de 1975 em parceria com o guitarrista James Williamson, que tocou em Raw Power no lugar de Ron Asheton (que assumiu o baixo). O trabalho estava engavetado e só agora ganha uma edição remasterizada.

A decisão de gravar um álbum partiu do iguana mesmo. Ele já estava em fase de recuperação e muniu sua característica niilista de composição explorando ritmos diferenciados, deixando o rock menos cru e trazendo elementos de R&B e até mesmo um pouco de jazz (resgatando as incursões de Fun House).

Na faixa-título, os indícios de urgência são evidentes com os riffs punk de Williamson e os versos: “Eu moro em uma cidade de matança/onde os detritos se encontram com o mar“, recheados de uma lucidez passiva, como se estivesse apenas relatando algo que já está intrínseco ao cotidiano de Iggy há muito tempo.

David Bowie também não podia deixar de incrementar suas influências. “Sell Your Love” começa com metais jazzísticos tal qual o clássico “Young Americans” do andrógino, uma das canções mais emblemáticas da década. Os Rolling Stones também se fazem presente: seja em “I Got Nothin’”, onde Iggy se inspira em Mick Jagger em oníricos momentos melódicos selando o contraste com a voz estridente e uma pungência roqueira. Mesmo Williamson dá uma de Keith Richards, com um solo mais blueseiro e alinhado ao ritmo.

Iggy Pop & James Williamson: “Sell Your Love”

“Johanna” é mais experimental e trafega pelo free jazz com a intercalação entre as guitarras, os teclados de Scott Thurston (The Heartbreakers) e o sax de John Harden; “Consolation Prizes” bebe na fonte do rock’n roll (olha os Stones de novo aí) em uma animada sessão que serviu de pontapé inicial para o sucesso de Lust for Life, lançado em 1977 e considerado um dos melhores trabalhos da carreira de Iggy; e “No Sense Of Crime” é bem sincrética, com percussões africanas e uma devoção dylanesca que dá profundidade à letra.

Por mais que seja subestimado como um trabalho inferior, Kill City deu estabilidade na caminhada de Iggy e mostrou que os primeiros indícios de mudança estavam aparecendo aos poucos. É como se o álbum fosse a avaliação final de seu tratamento e provasse para todos os incrédulos que o iguana estava de volta e muita coisa ainda iria mudar naquela década.

Iggy Pop & James Williamson: “Consolation Prizes” e “No Sense of Crime”