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Na Mira: entrevista com Nees Ees

João Moura falou sobre o projeto de música eletrônica que passeia por techno, downtempo e progressivo

Ficou decepcionado com o novo disco do Daft Punk? Não tem problema, eis um substit…

Wow, você gostou do novo disco do Daft Punk? Não tem problema também.

O Nees Ees está longe de ser um seguidor da música produzida pelo duo francês, mas pode agradar quem gosta de ouvir música de qualidade nas pistas (ou as imagina deitado em casa, indo pro trabalho, pegando metrô etc).

Apesar do nome estranho (e ‘google friendly’: “você digita no campo de pesquisa e só dá isso como resultado”), o projeto tocado unicamente por João Moura, de Nova Friburgo (RJ), trabalha diferentes nuances da música eletrônica, incluindo techno, downtempo, old school e um progressivo bem calcado em melodias.

“O Nees Ees nasceu dessa minha descoberta dos programas de música eletrônica”, disse o músico em entrevista exclusiva ao Na Mira. “Comecei a fuçar porque já estava cansado de somente fazer música no violão”.

Os antenados sobre a verdadeira música eletrônica sabem que o Brasil vive um momento criativo. Nomes como Pazes, Felguk e Tropkillaz estão difundindo novas possibilidades no gênero a partir da herança musical de nosso País, para sair da mesmice que pairou após o sucesso comercial de DJ Marky, Patife e, mais recentemente, Gui Boratto.

Ainda assim, João afirma não dialogar com essa cena: “Do Brasil, das que eu conheço de eletrônica, destaco Luciano Scheffer e o Kogoi”, confessou.

O primeiro disco homônimo do Nees Ees foi colocado na rede no final de março e conta com oito faixas. Mesmo com diversas referências citadas, as canções (todas com títulos em português) se dialogam entre si e têm linearidade. (Ouça na íntegra no player abaixo.)

Para conhecer um pouco mais sobre o Nees Ees, eis a entrevista:

De onde veio o nome Nees Ees?
É um nome abstrato, que eu achei bacana e é ‘Google friendly’ (você digita no campo de pesquisa e só dá isso como resultado). Eu havia pensado em várias possibilidades: quase saiu German Jamaicans, que eu acho legal também, mas que é um nome, digamos, ‘divertido’ e que poderia me restringir a um certo tipo de atitude. Mas, sei lá… não fiquei 100% satisfeito com Nees Ees, não. Foi na verdade um processo muito difícil a escolha do nome.

Todo o trabalho foi realizado em casa, com computadores e samples? Como ocorreu a ideia de gravar o primeiro disco homônimo?
Não quero que pensem que sou um cara preguiçoso, mas fiz todo o disco deitado na minha cama, usando meu laptop. Só na hora de masterizar que usei umas caixas de som que eu tinha adaptado à minha escrivaninha. Agora, já estou usando caixas profissionais, e as próximas músicas vão soar bem melhores — espero.

O Nees Ees nasceu dessa minha descoberta dos programas de música eletrônica. Comecei a fuçar porque já estava cansado de somente fazer música no violão. E aí foi aquele universo que se abriu diante de mim, e virou uma coisa obsessiva. Passei, então, a voltar todo dia do trabalho e ir para o computador fazer alguma coisa.

Pretende levar o trabalho às pistas? (Ou já está levando?)
Estou agora trabalhando em uma música voltada para isso; ela tem uns 12 minutos, bem techno, progressiva, old school anos 90. Vamos ver… Dessas do disco de estreia nenhuma eu fiz pensando em pista de dança, mas acho que “A Vida é Sonho” pode funcionar, dependendo do contexto, claro.

Havia alguma pretensão de dialogar com a nova música eletrônica brasileira, que inclui nomes como Felguk, Tropkillaz, Pazes etc?
Esses mencionados eu ainda não os conheço. Estou ouvindo Pazes nesse momento e curtindo muito.

No SoundCloud rola um encontro e diálogo muito bacana entre músicos. Do Brasil, das que eu conheci de eletrônica eu destaco o Luciano Scheffer e uma banda que eu conheci há pouquinho tempo, mas que curti muito, que é o Kogoi. (Com certeza estou me esquecendo de mó galera…)

Você usa colagens tanto de sons de música clássica e downtempo (“Arvoredo”), como canções que pairam no imaginário de quem frequenta pistas de dança. Acha que existe um diálogo nisso tudo? Como foi feita essa sua ‘construção musical’?
“Arvoredo” não é colagem não, é original. Eu estava explorando os sintetizadores virtuais e aí achei um som, um timbre, que me inspirou a fazer aquela melodia. Eu trabalho assim: vou criando, indo atrás, mas também tropeçando e descobrindo coisas interessantes pelo chão, pegando caminho errado que leva pra um lugar legal, mas até então desconhecido.

Sobre a ‘unidade da obra’ ou ‘conceito’, não sei definir muito bem ainda. As músicas saem assim, não é muito pensado — porém a ordem delas, sim. Eu sempre admirei a versatilidade de bandas como Ween, por exemplo. White Pepper (2000) é um disco fantástico não somente pela qualidade das músicas em si, mas também pelo fato de elas estarem ali juntas no disco, naquela ordem, sendo tão diferentes entre si.

Vi que na canção “Tutoriais” você encaixou um trecho de O Alienista, livro do Machado de Assis. Qual era a intenção?
Eu queria vozes no disco, e queria ao menos uma em português. Aí me deparei com a Librivox, que tem vários audiolivros em diversas línguas — todos livres de copyright; é só pegar e usar. O Alienista é uma ótima obra, mas o sampler está ali somente porque caiu bem na música.

Ao procurar um nome para essa música, pensei em incluir o significado do trecho literário com algo de maior abrangência. Daí, um dia deu o estalo: tutoriais! Os tutoriais foram de fundamental importância pro meu trabalho — eu jamais teria aprendido tanto em tão pouco tempo sem o trabalho de todos aqueles caras que os publicam no YouTube. E acho que isso está rolando pra todo tipo de coisa — está havendo uma transformação muito grande na nossa relação com o conhecimento.

Pretende lançar o disco em formato físico?
Seria um sonho, mas está sendo difícil fazer tudo sozinho. Quem sabe, vamos ver…

Artistas Nees Ees

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Tiago Ferreira

Jornalista bem-humorado. Gosto mesmo é de música torta, amalucada, fora de contexto e ritmo, mas também me emociono com Aretha, Ella, Elis, Nina, Otis, Marley, Bowie, Miles... Nada de acomodar-se ao conforto; prefiro combater o desconforto e provocar a discussão do que me conformar com as intempéries mundanas. Além do site Na Mira do Groove, estou à frente, junto com a sócia Beatriz Silva, do serviço Na Mira Assessoria, destinado a novos artistas e bandas musicais.

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