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G. Álbuns: Baden Powell & Vinicius de Moraes | Os Afro-Sambas (1966)

Terreiros de candomblé, um LP e incontáveis litros de whisky influenciaram na mudança de rumos da música popular brasileira

Gravadora: Forma
Data de Lançamento: 1966

Tudo começou quando o baiano Carlos Coqueijo Costa entregou um LP para Vinicius de Moraes. O LP: Sambas de Roda e Candomblés da Bahia. Como era de se esperar, o disco continha músicas afro, de candomblé, terreiro, atabaque, percussão fervorosa.

O desafio era como aplicar aquela batida envolvente na música popular brasileira, que Vinicius ajudou a evoluir na linha de frente alguns anos antes ao compor, ao lado de Tom Jobim, alguns dos maiores clássicos da bossa nova e MPB.

O LP fez Vinicius pensar em uma autorreciclagem. Deve ter cogitado chamar Jobim para essa empreitada, mas o pianista estava envolvido demais com o estrondo que foi a bossa nova. Então, chamou o violonista Baden Powell, que se familiarizou com essa estética afrobrasileira ao visitar terreiros de candomblé na Bahia.

Com pouco mais de 30 minutos, Os Afro-Sambas, segundo disco da parceria Baden-Vinicius, faz uso da musicalidade fervorosa de umbanda e o coloca em união à cadência sambista – ao mesmo tempo em que o violão de Baden atinge notas fora de ritmo, complexas, tensas, escapistas.

Para compor as canções do disco, Vinícius se trancafiou com Baden em um apartamento por cerca de três meses, chapando de whisky e destilando criatividade

Para compor as canções do disco, Vinícius se trancafiou com Baden em um apartamento por cerca de três meses, chapando de whisky e destilando criatividade – como é fácil de perceber no disco, que foi elaborado em 1962 e gravado só em 1966.

A prova dos nove surge logo na primeira faixa, “Canto de Ossanha”. No melhor estilo amador, a dupla chamou uma horda de amigos íntimos – como Eliana Sabino, Bety Faria e Teresa Drummond – para celebrar um rito onde as atitudes dos homens são o centro das atenções: “O homem que diz ‘dou’/Não dá/Porque quem dá mesmo/Não diz“. Ossanha, a ‘mais misteriosa das deusas‘, tem o dom de manipular as ervas que, segundo a letra, detêm a ‘alquimia do amor‘.

Xangô é um orixá conhecido por punir severamente seus malfeitores. Em “Canto de Xangô”, Vinicius vê o amor como uma das maiores punições para o homem: ‘Mas amar é sofrer/Mas amar é morrer de dor/(…)Ah, me faça morrer/Mas me faça morrer de amar/Xangô, meu Senhor, saravá!‘.

“Tempo de Amor” é uma pérola reluzente em Os Afro-Sambas. Aqui, Baden e Vinícius criaram um samba que fala de amor e dor em uma mesma proporção: ‘Mas tem que sofrer, mas tem que chorar, mas tem que querer, pra poder amar‘. Ou seja, a linha entre a felicidade e a miséria é muito tênue quando observada pelo prisma sentimental. E o amor te faz conhecer esses dois lados da moeda.

Os atabaques, percussões, instrumentos de sopro, as cordas improváveis do violão de Baden, os backing vocals femininos, as referências à umbanda, candomblé, o apoio da banda Quarteto em Cy… Tudo isso junto culminou em um disco que mudou as fronteiras da música popular, trazendo um pouco mais da Bahia em um terreno que era dominado pela musicalidade carioca.




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Tiago Ferreira

Jornalista bem-humorado. Gosto mesmo é de música torta, amalucada, fora de contexto e ritmo, mas também me emociono com Aretha, Ella, Elis, Nina, Otis, Marley, Bowie, Miles... Além do site Na Mira do Groove, estou à frente, junto com a sócia Beatriz Silva, do serviço Na Mira Assessoria, destinado a novos artistas e bandas musicais.

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