
Gravadora: Urban Jungle/Universal





Maria do Céu tem uma relação bacana com viagem em seus discos: no primeiro, alçou voo com uma espécie de world music, com forte influência do reggae. Essa verve foi intensificada em Vagarosa, numa viagem que segue uma lentidão reflexiva que foi muito bem interpolada pelas produções de Beto Villares e Gustavo Lenza (a própria Céu também auxiliou na produção do segundo disco). Agora, em Caravana Sereia Bloom, o sentido da palavra viagem tem uma ligação mais estética, que reflete mudanças, novas possibilidades.

01 Falta de Ar 02 Amor de Antigos 03 Asfalto e Sal 04 Retrovisor 05 Teju na Estrada 06 Contravento 07 Palhaço 08 You Won’t Regret It 09 Sereia 10 Baile de Ilusão 11 Fffree 12 Streets Bloom
13 Chegar em Mim
Confira também: Faixa a faixa do álbum Caravana Sereia Bloom, da Céu
A começar, Beto e Lenza não assinam mais a produção; Céu chamou o marido Gui Amabis para esse feito. Por si só, aí já existe uma ruptura grande: ao invés de traçar uma relação maior com gêneros universais, a cantora tenta voltar pro cangaço pegando sonoridades mais cruas – entre elas, o rock. Tal ritmo se mantém, bem é verdade, por conta da guitarra de Fernando Catatau.
Entretanto, não pense que a cantora negou tudo que vem de outrora. Chega a bater uma certa nostalgia ao ouvir “Asfalto e Sal”, um hino quase praieiro, e “You Won’t Regret It”, um ska da dupla Lloyd Robinson e Glen Brown que bebe muito da fonte que melhor inspirou os singles mais conhecidos da Motown – uma bonita miscelânea entre Jamaica, Brasil e Brooklyn, com direito a uma inspirada sessão de sopros.
Outra característica mantida em Caravana foi o gosto pela unidade, ligada pelas vinhetas que, aqui, trespassam fronteiras nacionais, como se o disco fosse rodado em uma longa turnê pelo país por lugares desconhecidos, contabilizando aí Amapá, Tocantins, Maranhão, Paraná… tipo uma estrada Transamazônica. No total, são três vinhetas: “Teju na Estrada”, “Sereia” e “Fffree”.
“Amor de Antigos”
A melhor canção que reflete essa quase-obsessão por estrada é “Contravento”, que exibe um contraste estético com batidas e atabaques em choque com trompetes e barulhos emitidos pela produção de Amabis. Seria quase um free-jazz autoexplicado pela cantora, que diz arremessar ‘tudo pela parede’.
Mas, de todas as coisas boas que poderíamos falar de Caravana, o que mais surpreende são as composições da própria Céu. “Amor de Antigos” tem propulsão para se tornar o próximo single da cantora por seu lindo flerte com a música caipira.
“Retrovisor”, uma composição para entrar no panteão, carrega o ponto de partida vital para aqueles que querem virar a página: lembra o passado com intensidade, para que ele não venha a interferir no futuro. A levada instrumental é quase um prog-rock graças ao solo inspirado de Catatau Dustan Gallas. (Lembra até um pouco a linda “Miopia”, em projeto com o Sonantes.)
“Baile da Ilusão”
E temos também “Baile da Ilusão”, provavelmente uma das melhores músicas já gravadas pela cantora. Tem um aspecto dançante com uma levada brega, como se a cantora estivesse quitando débito com sua ancestralidade musical que, de tão ampla, vai de Odair José a Roy Orbison.
Céu viajou, e viajou lindo em Caravana Sereia Bloom. Seria muito bom se ela voltasse a fazer o que fazia, mas quem pode impedi-la de se dar bem em novas incursões musicais?
Melhores Faixas: “Asfalto e Sal”, “Retrovisor”, “Contravento”, “Baile da Ilusão”, “Chegar em Mim”.
