Livro: Dorival Caymmi, O Mar e o Tempo (Stella Caymmi) - Na Mira do Groove
Dorival Caymmi na praia

Dorival Caymmi: grandeza da imensidão do mar

Biografia escrita pela neta Stella Caymmi tem deslizes, mas é importante documento da obra do compositor baiano

Se você tivesse um avô que muitas vezes figurou no auge da carreira musical e hoje é tido como uma lenda, o que escreveria sobre ele?

Bem, esse foi o maior desafio de Stella Caymmi, autora da biografia Dorival Caymmi: O Mar e o Tempo, publicado originalmente em 2001 pela Editora 34.

Sim, a obra escorrega em deslizes típicos de artista retratado por um familiar. Em muitas vezes, o livro fecha em um ciclo onde mais importa falar sobre ocorrências de dentro de casa do que fora dela – ou o ambiente artístico, que realmente importa para os fãs e ouvintes. (Se bem que nesse quesito há informações valiosas, como o fato de Dorival ficar sem falar com Nana Caymmi por mais de três anos por ela ter se separado do primeiro marido.)

Este é um caminho perigoso a seguir. Porque dá a impressão de que Stella dá margem a uma visão datilografada do avô, que ainda estava vivo no momento da publicação. Sobre isso, ela justifica logo no prólogo: “Não [foi fácil], porque um biógrafo que não seja da família, por mais envolvido que esteja, e se emocione, e se identifique com as venturas e desventuras do seu biografado, dificilmente viverá o sofrimento de um mergulho psicanalítico, atávico mesmo”.

Sendo assim, o leitor sente falta de contrapontos possíveis em relação ao artista. Fica tudo naquela bolha de ‘amigos próximos’, alvo fácil para babações e mais babações.

Um exemplo de lacuna biográfica: antes de namorar e casar com Stella Maris (nome artístico de Adelaide Tostes, que a partir de então foi ‘abandonado’ por Stella), sua primeira e única esposa, ela era um dos grandes destaques como cantora na Rádio Nacional, por volta de 1938. Dorival passou a fazer parte da programação e ligeiramente atraiu-se pela bela cantora.

Depois de namorarem e, pouco tempo depois, se casarem, Stella, que tinha uma bela voz de acordo com músicos da época (inclusive João Gilberto, que tentava a todo custo fazê-la voltar a cantar), desistiu da carreira de cantora. De acordo com a biógrafa, foi uma opção da própria Stella Maris. Mas não há uma investigação profunda que dê vazão à possível suspeita de que o próprio Caymmi era quem não a queria mais como cantora – inclusive esse era o boato que circulava nos rádios e na imprensa.

Frequentador da badaladíssima ‘noite carioca’ dos anos 1940 e 50 e um dos artistas mais celebrados em apresentações em hotéis e casas noturnas, Dorival Caymmi conheceu e despertou atração em muita gente considerada ‘importante’ e ‘chique’ na época devido à sua beleza natural: cabelo de corte social, curto, bigode bem feito, sorriso jovial, simpatia pra todo canto.

Nos primeiros anos no Rio de Janeiro, era conhecida a fama de ‘garanhão’ de Caymmi. Até mesmo o magnata Assis Chateaubriand reconhecia que ele ‘pegava todas’. No entanto, a biógrafa evita entrar em detalhes nos affaires do avô, possivelmente com medo de botar lenha na fogueira em assuntos ‘pesados’ para uma família.

Alguns amigos próximos como Jorge Amado e Antônio Maria dão pistas de que Dorival era um típico ‘come quieto’, mas nenhum caso polêmico chega a ser atestado.

A música na voz de Dorival Caymmi fluía com imensa naturalidade, virtude que lhe rendeu a alcunha de grandioso músico popular

Por falar em entrevistados, os depoimentos em sua maioria são centralizados no personagem principal, Dorival, suprimindo espaço de contraventores de sua obra. (Aliás, quando isso acontece, o fardo de ‘neta’ pesa mais, e ela de forma ou outra acaba se posicionando a favor do biografado: compreensível, porém enfadonho.)

40 entrevistados falam sobre o músico, incluindo Caetano Veloso, curtos depoimentos de Chico Buarque e João Gilberto, histórias reveladoras de Cauby Peixoto, Jorge Amado e João Ubaldo Ribeiro, além de ‘pitacos’ bem-vindos de especialistas como Jairo Severiano e Sérgio Cabral.

Mas, calma, longe de dizer que O Mar e o Tempo é um livro dispensável. Longe disso.

Por ele temos ideia de como o músico chegou ao auge. Descendente de italianos do norte, Dorival começou a se interessar por violão graças ao pai, Durval Caymmi, que o escondia do filho com medo de danificá-lo. (Nas décadas de 1920-30, vale lembrar que o instrumento era visto como sinônimo de vadiagem.)

Após malsucedidas tentativas de se firmar como jornalista e comerciante, Dorival foi tentar carreira musical no Rio de Janeiro. Chegou a trabalhar nos Diários Associados, período em que conheceu os magnatas Assis Chateaubriand e Samuel Wainer, e pretendia se formar em Direito para exercer a profissão de jornalista.

Passou por alguns perrengues financeiros, mas, com sua simpatia e musicalidade, fez boas amizades e logo foi indicado pelo compositor Assis Valente (conhecido por “Brasil Pandeiro”, famoso na voz dos Novos Baianos) para uma apresentação na Rádio Mayrink Veiga, uma das maiores do país naquele momento. Lá, Dorival tocou uma de suas primeiras composições, “No Sertão”, no programa de César Ladeira, que o ignorou alegando falta de recursos financeiros.

Esse foi um pequeno passo, mas importante para que pouco tempo depois apresentasse a bela “Noite de Temporal” (“minha primeira canção praieira”, disse Caymmi) no programa de Lamartine Babo, na Rádio Nacional, no início de 1938. Daí para o sucesso de “O Que é Que a Baiana Tem”, na voz de Carmen Miranda, tudo aconteceu muito rápido.

Era muito fácil impressionar-se com Caymmi. Seu vozeirão já era reconhecido a léguas de distância mesmo nos anos iniciais de carreira, sem deixar de mencionar sua forma diferente de tocar violão – ao invés de criar melodias rítmicas, elas eram mais atmosféricas dentro de um contexto baiano. Tal característica era latente tanto em sua fase ‘praieira’ – de canções como “A Jangada Voltou Só” e “O Bem do Mar” – quanto sua fase mais urbana – “Maracangalha”, “João Valentão”.

A música na voz de Dorival Caymmi fluía com imensa naturalidade, virtude que lhe rendeu a alcunha de grandioso músico popular. Isso, de certa forma, lhe prendia de expandir alguns horizontes.

Conto melhor.

Por volta de 1943, em um programa especial das emissoras dos Diários Associados de Chateaubriand, Caymmi teve a oportunidade de cantar “Acalanto” (canção de ninar que compôs para que a então pequena filha Nana dormisse logo), com o Coro dos Apiacás e sua esposa Stella em um de seus raros momentos musicais pós-casamento com Caymmi. Depois disso, ele resolveu que tinha que estudar música para ler partituras e conhecer novos arranjos.

Quem dá os detalhes é a biógrafa: “[Dorival] Surpreendeu-se quando [o renomado maestro Heitor] Villa-Lobos e [o maestro/arranjador] Radamés Gnatalli o dissuadiram da ideia. Temiam que Caymmi perdesse sua espontaneidade de compositor popular. Em vista disso, ele desistiu até dos estudos que havia começado a fazer em casa por conta própria”. Uma vez autodidata, autodidata para sempre.

Dorival Caymmi é merecidamente um dos maiores da nossa música – algo amplamente enfatizado por Stella -, mas não dá pra dizer que O Mar e o Tempo seja a sua obra definidora. Talvez seja por enquanto

No caso de Caymmi, o talento musical era nato, algo que pode ser comprovado com fatos genealógicos: seu pai era violonista, bandolinista e pianista, enquanto sua mãe vivia a cantarolar pela casa – sem falar que todos os seus filhos são músicos: Nana Caymmi, grande cantora; Dori Caymmi, produtor e músico de renome; e Danilo Caymmi, exímio flautista que já participou de discos de Edu Lobo, Francis Hime, Sarah Vaughan, entre muitos outros. E a geração prossegue.

A narrativa objetiva e sem muitas firulas de Stella dão ritmo ao livro. O desenrolar dos fatos é o que mais desperta atenção no leitor. Isso até o momento em que a bossa nova entra em cena (início dos anos 1960). A partir daí, vemos que os ‘novos artistas’ da música brasileira dizem renegar tudo – menos a obra de Caymmi, (corretamente) hipervalorizada por ser um artista de gênero único e inimitável. Isso dá vazão para depoimentos e narrações contemplativas em relação ao biografado, contribuindo para um endeusamento precoce de sua obra.

Alguns relatos de sua amizade com Tom Jobim e Vinicius de Moraes são instigantes (como o fato de participar ativamente da ‘internacionalização’ da bossa e das descrições da gravação de Caymmi Visita Tom Jobim e Leva Seus Filhos Nana, Dori e Danilo, LP de 1964), mas, com o envelhecimento de Dorival, a própria escritora cai no erro de supervalorizar sua obra pós-anos 1970, que são irrisórias diante de pérolas como Canções Praieiras (1954), Eu Vou Pra Maracangalha (1957) e Eu Não Tenho Onde Morar (1960).

Dorival Caymmi é merecidamente um dos maiores da nossa música – algo amplamente enfatizado por Stella -, mas não dá pra dizer que O Mar e o Tempo seja a sua obra definidora. Talvez seja por enquanto. Somente o tempo mesmo deva trazer uma obra que se aprofunde mais no campo artístico e intelectual de um de nossos maiores músicos.

Por outro lado, o livro é um documento imprescindível para se mergulhar na obra do compositor baiano: enumera todas as suas 120 composições (número pequeno para um músico que vivenciou mais de 70 anos de carreira), cita sua discografia, revela um grande acervo de fotos e de suas obras como pintor, menciona os intérpretes de suas músicas… Um apanhado riquíssimo para pesquisadores, acadêmicos e jornalistas – e, nisso, o mérito é todo de Stella Caymmi, responsável por organizar essas valiosas informações.

No entanto, ainda há muito que se discutir sobre a vastidão e o verdadeiro impacto da obra de Dorival Caymmi na música brasileira. Dizer que ele é importantíssimo é muito fácil, mas o mestre merece uma imersão ainda maior em seu legado, que foi definidor em movimentos artísticos que revolucionaram a nossa música no passado e ainda hoje se faz presente na voz de consagrados e novos artistas brasileiros.

Jornalista bem-humorado. Colaborou com publicações como Scream & Yell, Revista da Livraria Cultura e Revista Brasileiros. É o cara que mantém o Na Mira do Groove.
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