30 Melhores Discos Nacionais de 2014

Do rap espacial à música torta, o melhor exemplo de criatividade permanece fora da grande mídia e do público médio

*Arte sobre a capa do disco Paraíso da Miragem, de Russo Passapusso


2014 foi um ano bem mais produtivo no cenário nacional que internacional. Foi um ano ótimo principalmente para o rap. Primeiro de tudo: teve disco dos Racionais MCs, 12 anos após o celebrado Nada Como Um Dia Após o Outro Dia (2002). Também teve o esperado sucessor de Nó na Orelha (2011), o álbum de estreia de Projota (depois de 4 mixtapes), o retorno do Elo da Corrente, um trampo admirável do MOVNI.

Os outros gêneros também foram beneficiados dessa boa safra. Na música pernambucana, o Nação Zumbi afastou-se ainda mais da tag ‘manguebit’ e o Mombojó surpreendeu com a ousada empreitada de Alexandre – ainda que de forma controversa

Lucas Santtana tornou sua música mais acessível em termos globais, Luiz Melodia lançou um disco de inéditas (algo que não fazia desde Retrato do Artista Quando Coisa, de 2001) e até os Ratos de Porão deram as caras, com a agressividade de sempre.

Assim como no ano passado, o Na Mira observou que gêneros ainda considerados marginais permaneceram frutíferos. Sim, estamos falando da tal Música Torta Brasileira, que segue firme e forte, com novos trampos dos já conhecidos expoentes Cadu Tenório, Chinese Cookie Poets e Bemônio. Todavia, há mais sendo desvendado, e é aí que captamos melhor ranço de criatividade e transgressão.

Com vocês, a lista dos 30 melhores álbuns nacionais de 2014. Boa viagem:

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30. Laboratório


MOVNI

Gravadora: Independente
Gênero: Rap espacial
Data de Lançamento: 1º de setembro de 2014

Doctor Zumba, Nauí e Afroragga quiseram levar as rimas do rap ao espaço, e o resultado é um bem-sucedido disco de estreia. Laboratório sugere conexões do humano com extraterrestres mas, principalmente, uma mudança abrupta no campo das ideias. Estamos cada vez mais fustigados de senso-comum e, para isso, o MOVNI sugere ótimos caminhos em “Células Mortas”. Pouco do que se conhece de space-rap invariavelmente esbarra com o trabalho do Shabazz Palaces – que neste ano lançou o ótimo Lese Majesty – mas o que o MOVNI apresenta não é bem um formato estranho de narrativa, como os norte-americanos. Nesse quesito, Laboratório é bem mais acessível. Também revela diálogos que, pelo menos no rap nacional, ainda persistem paradigmáticos: é o caso da junção com o metal, base da potente “Ciborgue” (com participação de Diogo Loko).

Ouça: “Células Mortas”


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29. Nação Zumbi


Nação Zumbi

Gravadora: SLAP/Som Livre
Gênero: Pop-rock
Data de Lançamento: 5 de maio de 2014

A cada trabalho o Nação Zumbi vem amainando sua sonoridade. Isso não quer dizer que esteja decaindo. Este álbum homônimo sugere uma nova aurora (como diz a canção). Declaradamente mais sentimental, Nação Zumbi até pode dialogar melhor com o público que vem frequentando seus shows com mais assiduidade (garotas de bairros nobres e alguns titios). Mas também é um indicativo de que cada integrante permanece fidedigno ao seu momento pessoal e artístico. “Bala Perdida”, “Cuidado” e “Pegando Fogo” são provas de que seus hits cáusticos não saíram da receita. Mais vontades são evocadas em “Um Sonho” e em “A Melhor Hora da Praia”, com participação de Marisa Monte (a quem a banda acompanhou em turnê). O manguebit talvez seja uma premissa que se distancia da banda. Que venham os novos ventos.

Ouça: “Novas Auroras”


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28. Canções de Passagem


Cervelet

Gravadora: Independente
Gênero: MPB/Folk
Data de Lançamento: 2 de abril de 2014

Download pelo site oficial

De Jabuticabal (SP), o Cervelet criou uma interessante jornada sentimental que carrega traços do folk e da MPB. Não demora muito para que os ouvintes comecem a incorporar as letras de Guto Cornaccioni, como se testemunhassem as reviravoltas de seu personagem que não esconde resquícios de simpatia e um tantinho de ingenuidade. Canções de Passagem é um respiro, a fugacidade de quem sonha pegar uma estrada vazia em busca de alguma maravilha perdida – ou uma jornada que valha a pena trilhar. Num ano tão turbulento como este 2014, Canções de Passagem pode ser a vedete de suas férias, o relaxamento necessário, o ar puro diante da onipresente poluição.

Ouça: “Abril”


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27. Hymnos


Barulhista

Gravadora: Independente
Gênero: Ambient/Eletrônica
Data de Lançamento: 28 de março de 2014

Download via Bandcamp

Diversos músicos consagrados mandaram e-mails com sons para o mineiro do Barulhista: André Abujamra, Tiago Capute, Marcelo Yuka (ex-O Rappa)Matheus Barsotti (Tratak), César Lacerda, Sabrinna Rauta e mais foram reunindo referências musicais que vão do samba ao ambient. Por isso, ele nomeou Hymnos um ‘álbum colaborativo’, mas os créditos dessa reunião sônica são todos dele. Da cuíca ao wurlitzer, temos uma noção do dinamismo na produção atual com a milimetria de quem estuda e acompanha de perto esse processo de continuada renovação na produção musical.

Ouça: “Andarilho”


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26. Sobre Noites e Dias


Lucas Santtana

Gravadora: Diginois
Gênero: MPB Eletrônica
Data de Lançamento: 11 de agosto de 2014

Sem Nostalgia (2009) foi relevante na música brasileira, mas seu principal feito foi catapultar a música de Lucas Santtana ao status de global. Veio O Deus Que Devasta Mas Também Cura (2012), a fim de eliminar as turbulências pessoais do compositor. Não havia quebras estéticas, mas a credibilidade construída nas turnês pela Europa lhe deu ainda maior projeção. Sobre Noites e Dias dialoga melhor com essa audiência estrangeira, pois sentencia um Brasil eclético em seu momento musical – algo que o baiano revoga bem em faixas como “Funk dos Bromânticos” e “Let the Night Get High”, centralizadas em duas cenas distintas da música atual (funk e o eterno baião). Experiente em estabelecer pontes entre as muitas expressões musicais brasileiras, sejam as músicas em inglês ou em português, Lucas é sentença de que as coisas mudaram muito desde as rupturas estéticas que não cansam de ser propagadas todas as décadas. Não percebe quem não quer.

Ouça: “Let the Night Get High”


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25. Tempos


Panço

Gravadora: Independente
Gênero: Rock
Data de Lançamento: 27 de julho de 2014

Download via Bandcamp

Leonardo Panço toca desde os anos 1990 no rock underground do Rio de Janeiro. Desde então, aprimorou bem a técnica de criar riffs de guitarra que vão do peso à extravagância, valorizando mais o peso que a alternância de notas. É com essa característica que ele chamou diversos convidados para tocar em seu primeiro disco solo, Tempos, que não registra nada de sua voz. A cantora Karina Utomo, da Indonésia, canta três (“Blood Secret”, “Broken Heart” e “Far Right”), Kayo Iglesias, do Spektro e do Reconquista, aparece em duas (“Uma Vez Mais” e “Desorgulho”) e tem até participação dos bem falados do Far From Alaska (“Sincerely”). O forte do disco está na não unidade, pois mesmo os riffs parecem divergir bastante entre uma faixa e outra. É por isso mesmo que Tempos faz prevalecer a menção: a vontade de ter um trampo solo e contar com a ajuda de grandes amigos rende, sim, algo valoroso e pra ouvir no talo, sempre.

Ouça: “Desorgulho”


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24. B1620-25i


A Espiral de Bukowski

Gravadora: Sinewave
Gênero: Ambient/Drone/Experimental
Data de Lançamento: 12 de março de 2014

Download via Sinewave

Cesar Zanin (sintetizador, processador de efeitos, sampler, loop station) e Mariana Cetra (teclado com pedais, acordeon, escaleta) são marido e mulher e tentaram vingar, em São Paulo, um espaço contíguo dedicado à música experimental, nos moldes de como rolou o Audio Rebel, no Rio de Janeiro. Infelizmente o Espaço Walden não deu certo, mas, pelo menos, serviu de testemunha de uma das viajeiras sônicas mais intensas de 2014. B1620-25i tem como base um som minimalista interferido por ambiências. Há barulhos naturais e artificiais, mas a escola mais bem percebida é o post-rock – ou post-rock espacial, se preferir. O disco cairia muito bem como trilha de um próximo filme de sci-fi ambicioso, pois encontra meio-termo entre drone, dark-ambient, eletrônica e doom-jazz, com destaque para sons extraídos de guitarras, escaleta e timbres do Casiotone. Ouça e mentalize um lugar no espaço repleto de estrelas, sem pressa de avistar nada de concreto no meio do caminho.

Ouça: “Pitagoras Visitam Matusalem Antes da Gramatica Universal – parte 1”


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23. Ordep


Ordep

Gravadora: Comando S Discos
Gênero: MPB/Rock/Manguebit
Data de Lançamento: 14 de agosto de 2014

Ordep Lemos está em cena desde os anos 1980. Ganhou notoriedade em Salvador nos anos 1980 a frente do Utopia. Passou por Treblinka, Saci Tric, Orelha de Van Gogh e fez turnê internacional com os Lampirônicos. Solo, Ordep exibe maior versatilidade. Seu trabalho é metalinguístico, já que dialoga com o punk (“Você Disse Adeus”) na mesma medida em que dá novo panorama ao latin-rock (“Batuqueiro”). Morador de São Paulo, Ordep foi concebido pelo Programa de Ação Cultural do Estado de São Paulo, com patrocínio da Ambev. Traz muita influência da cultura afrobrasileira (bem evidente em “Alafiá”) e indica que a causa do manguebit ainda deve ser permanecida, como percebemos em “Computador”.

Ouça: “Batuqueiro”


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22. Concêntrico

Nanã Parú & Michel Munhoz

Gravadora: Mansarda
Gênero: Free-jazz/Experimental/Improviso/Música Torta Brasileira
Data de Lançamento: 2 de outubro de 2014

Download gratuito via Mansarda Records

Todos os lançamentos da Mansarda Records costumam ser esfuziantes, quando não excêntricos. Concêntrico não é diferente nessa perspectiva. Mostra que há outras maneiras de expressar uma naturalidade musical dentro do contexto artístico brasileiro. Ora, já não se sabe que há massiva produção de música torta, noise, experimental, dark-ambient, free-jazz e drone? Nanã Parú e o irrequieto Michel Munhoz (que divide diversos projetos, todos hospedados na mesma Mansarda) respiram a atmosfera desse universo há um bom tempo; por isso, Concêntrico nada mais seria que uma resposta natural. Virtuosismo, técnica, precisão, devaneios… tudo se junta e se anula ao mesmo tempo, dentro de uma dinâmica que, antes de ser compreendida, deve ser assimilada ao contexto da música nacional.

Ouça: “I”


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21. Despertador


Léo Cavalcanti

Gravadora: Independente
Gênero: MPB/Alternativo/Rock
Data de Lançamento: 11 de abril de 2014

A música alegre brasileira vive numa espécie de ostracismo criativo porque, quando não se apoia em pontapés carnavalescos como o axé, recorre à ostentação do funk ou à senilidade da MPB ‘dita tradicional’. O segundo disco do cantor Léo Cavalcanti é contente sem ser piegas, e isso graças à inseparável melancolia que também permeia tal momento. Isso aufere maturidade ao sentimento, soando menos forçado e bem mais identificável com o estado de espírito de quem irá deparar com seu som pela primeira ou segunda vez. Despertador é recheado de efeitos de sintetizadores, estética bem-sucedida indicada pelo parceiro Fábio Pinczowski. Synth-pop-futurista muito bem executado, Despertador convence de sua alegria em “Sua Decisão (Ser Feliz e Contente)” e brinca com argúcia com o lúcido em “Só Digo Sim”. A grande probabilidade após Despertador? Não importa a largura, haverá um sorriso sincero no rosto.

Ouça: “Só Digo Sim”



 

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Tiago Ferreira

Editor do Na Mira desde 2010 – que, além de site, também é canal do YouTube e Embaixador Spotify. Já trabalhei como redator de comunicação interna, produtor de conteúdo da B2W (Americanas, Submarino e afins) e repórter de entretenimento, ciência e tecnologia no Vix.com. Também sou colaborador eventual da Revista da Cultura (da Livraria Cultura).


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  1. Igor França 27 dezembro, 2014 at 17:28 Responder

    engraçado que você deu 8.5 na crítica tanto pra ‘cores & valores’, ‘lupe de lupe’ e ‘encarnado’ quanto pra ‘sobre noites e dias’, e deixou este lá atrás na lista.

    adorei. alguns não tinha ouvido ainda (inclusive o primeiro da lista). na minha lista alguns aí não entravam, mas suas referências são ótimas, sempre considero.

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