10 Melhores EPs de 2014

Porque os EPs revelam muito sobre a andança da música atual, principalmente no Brasil

*Arte sobre a capa de Vazio, de E a Terra Nunca Me Pareceu Tão Distante


Pra ser direto e reto: na escolha dos melhores EPs do ano, focamos mais na produção nacional que tudo.

Isso faz muito sentido: ao contrário da produção estrangeira, bem mais focada em álbuns que trabalhos mais curtos, a música independente daqui se sente livre para disponibilizar o que for preciso em sites como SoundCloud e BandCamp.

O motivo principal? Há poucas gravadoras majors no comando, e elas preferem divulgar funk, música sertaneja e pop ao invés de olhar o que está sendo feito de melhor nas garagens e quartos velhos espalhados pelas cidades do País.

Ainda assim, o leitor verá dois nomes estrangeiros na lista (um bem conhecido; o outro, de Portugal, ou seja, quase daqui).

A escolha foi pautada por aquilo que não escapou dos ouvidos do editor do Na Mira, portanto, obviamente, há muito a se desvendar pelos EPs brasileiros. Tanto, que a partir deles é possível ter uma pequena ideia da música que realmente prevalece no Brasil. Acredite, é mais impressionante do que você imagina.

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Confira a seleção dos 10 melhores EPs de 2014:

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10. Recycle


Castelan

Gravadora: NAS
Gênero: Eletrônica/Acid-house/Chillwave
Data de Lançamento: 16 de junho de 2014

Download via Bandcamp

O selo NAS foi uma das grandes surpresas musicais de 2014, por unir música urbana e experimental com forte nuance criativa. O EP Recycle pode não ter sido um dos grandes destaques do selo (que trouxe vários trabalhos de DUZ e um inspirado EP de Vinolimbo), mas causou enquanto pode nos fones de ouvido por aqui. Imagine um drum’n bass convergindo com chillwave. Ouvindo o trabalho é possível mentalizar uma paisagem serena, daquela que existe em nossos melhores sonhos, pronto para abrigar as melhores coisas que gostaríamos, mas não temos tempo de fazer. É eletrônica com gostinho de orgânica, com força de sobra pra agradar as pistas europeias.

Ouça: “Easy Livin (Rewind)”


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9. Selfish


Frabin

Gravadora: Independente
Gênero: Rock/Dreampop
Data de Lançamento: 28 de julho de 2014

Download via Bandcamp

Victor Fabri já acumulou experiência musical com o Rascal Experience, mas com o seu projeto Frabin mostrou mais ousadia em sua empreitada por um dreampop muito bem produzido. Guitarras cristalinas, vocais arrastados, uma neblina misteriosa no ar… Já é comum o indie brasileiro querer soar assim; o difícil, claro, é conseguir, como Victor conseguiu, em faixas como “The Tide” (um dos grandes achados de Selfish) e nas guitarras que permeiam “Half Words”. O EP foi gravado no requisitado The Ranch Mastering, o mesmo de Plastic Beach (Gorillaz), Humbug (Arctic Monkeys), entre outros.

Ouça: “The Tide”


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8. Liquid Amber


DJ Shadow

Gravadora: Liquid Amber
Genero: Eletrônica/Breakbeat
Data de Lançamento: 12 de agosto de 2014

Duas faixas e um remix podem ser pouca coisa, principalmente quando se fala de DJ Shadow. Mas não dá vontade de tirar Liquid Amber do repeat uma vez que o play é pressionado. “Ghost Town” é o hip hop das madrugadas macabras tomando as pistas de assalto; “Mob” adiciona acid-house ao bass viajante do músico, com vocais que parecem ter sido esmurrados por um indigente qualquer da rua. Pra fechar, o DJ deixou um remix de “Six Days”, uma das mais conhecidas faixas do Machinedrum. Total de 10 minutos de boas eletrodoses musicais.

Ouça: “Ghost Town”


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7. Street Hop


Sacik Brow

Gravadora: Illegal Promo
Gênero: Rap
Data de Lançamento: 15 de abril de 2014

Download via Soundcloud

Se ainda não está por dentro da cena do rap português, eis um bom nome para começar. Sacik Brow e sua “escrita irreverente” dão o ar de seu segundo EP, Street Hop que, além de acumular bons produtores como LG Experience, ConfidenceBlastah Beatz, traz rimas que encaram a vida como uma batalha diária que pode ser vencida com respeito e bom humor. Apesar do sotaque, é possível traçar paralelos com a produção brasileira (pode pensar em Elo da Corrente e Amiri neste aspecto). São 6 faixas que revelam um verdadeiro ‘repórter da rua’, munido de sagacidade para enfrentar adversidades e inteligência para contornar situações complicadas.

Ouça: “Aparências”


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6. The Weak Shall Inherit The Earth


Superalma Project

Gravadora: Independente
Gênero: Eletrônica/IDM/Dark-ambient
Data de Lançamento: 9 de outubro de 2014

Download via Bandcamp

IDM e soundtrack de horror andam lado a lado na empreitada dos mineiros do Superalma Project – na verdade, algo em sua maioria desenvolvido por um único mineiro, Igor Almeida. Neste EP há influências da música afrobrasileira (“What Once Was a Soul”), drone (“Memento”) e dark-ambient (“The Voice’s Loss of Innocence”), numa hora se aproximando de Goblin, noutra de Vangelis, noutra do contemporâneo Cadu Tenório… Há muitos caminhos desvendados e supostos no EP – todos, em sua maioria, misteriosos e sonicamente aventureiros, como se fosse a trilha de um filme sério e bem feito de suspense/terror.

Ouça: “A Dream Denied”


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5. Nuances Bizarras Sobre Condições Adversas


DIAZ

Gravadora: Polidoro Discos/Transtorninho Records
Gênero: Rock psicodélico/Shoegaze/Experimental
Data de Lançamento: 19 de novembro de 2014

Download via Bandcamp

Psicodelia e shoegaze flertam na música nacional independente como se fossem irmãs. No projeto solo do ex-guitarrista da banda Sin Ayuda, tais gêneros se destilam – ou, como costumam dizer, derretem. Happy Mondays e Spiritualized são algumas das lembranças que surgem, mas o que realmente interessa é a versatilidade de DIAZ em colocar o peso das guitarras tanto na melancolia (“OFF”) como na doideira (“Fudido Não Tem Vez”). Se você não precisa de alucinógenos para ficar chapado, acredite, Nuances Bizarras… parece ser ainda mais forte que qualquer um que você já ouviu falar.

Ouça: “Fudido Não Tem Vez”


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4. Expressar-me é Preciso no Meu Tempo Precioso


Attöm Dë

Gravadora: Independente
Genero: Rock
Data de Lançamento: 14 de julho de 2014

Download via Bandcamp

Quatro faixas, todas com menos de quatro minutos. O Attöm Dë é um grupo nervoso, cabal e absurdamente influenciado pelas destrezas da vida. O líder do grupo, Eduardo H. Lopes, passou pelo aperto das obrigações financeiras depois de ter um filho, em 2012, e viu suas frustrações artísticas se acumulando com o passar dos dias. O título, claro, evidencia essa energia do compositor. Do hardcore ao funk-rock, com muito pogo, Expressar-me é Preciso no Meu Tempo Precioso é apenas um aperitivo, que deixa gosto de quero mais. Dá pra imaginar como deve ser o show de uma banda tão flamejante como o Attöm Dë: direto e visceral.

Ouça: “Pedreira de Saturno”


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3. Vazio


E a Terra Nunca Me Pareceu Tão Distante

Gravadora: Sinewave
Gênero: Post-Rock
Data de Lançamento: 24 de novembro de 2014

Download via Sinewave

Apesar do post-rock ter se tornado um dos gêneros favoritos da ala independente, ninguém o executa tão bem quanto o grupo E a Terra Nunca Me Pareceu Tão Distante. Se existe alguma história por trás, o enredo é épico. Se é na estrutura que devemos atentar, difícil não se abismar com a forma cataclísmica que a banda prepara suas canções. A banda paulistana tem acumulado elogios nestes últimos dois anos, e eles só tendem a aumentar após a audição do EP Vazio, que não podia ser lançado por outro lugar que não a Sinewave. São quatro faixas que somam quase 30 minutos de construção e desconstrução do belo como pouco se vê. Eis um bom motivo para celebrar o post-rock brazuca…

Ouça: “Janela Aberta”


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2. Banquete

Cadu Tenório & Márcio Bulk

Gravadora: Independente
Gênero: Experimental
Data de Lançamento: 24 de outubro de 2014

Download via Bandcamp

Há mais participações que faixas neste ousado projeto de Cadu Tenório Márcio Bulk. Com inspiração no formato samba-canção, principalmente de tons melancólicos, a dupla convidou nomes como Michele Leal (“Café Expresso”), César Lacerda (“Electric Fish”), instigou belo dueto de Alice CaymmiBruno Consentino (“Estela”) e, para finalizar, nos entregou uma das faixas mais intensas de 2014: “Em Transe”, com vocais sórdidos de Livia Nestrovsi, uma erupção de sentimentos amorosos perdidos, desencontrados e ressentidos (o vídeo da canção capta muito bem o reflexo desse momento). Prato cheio de experimentalismo, densidade e, acima de tudo, qualidade musical.

Ouça: “Em Transe” (part. Livia Nestrovski)


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1. Bon Appetit, Sucuri


Baby Lixo

Gravadora: Independente
Gênero: Rock Experimental
Data de Lançamento: 19 de julho de 2014

Difícil saber o que falta para que Heitor Dantas tome de assalto a música nacional de forma avassaladora. Ao escutá-lo, sentimos essa necessidade. Ele é visceral, poético, complexo e criativo como poucos. Digo isso de sua obra como um todo. Com o Baby Lixo, ele deixou que as guitarras roqueiras florescessem com sabor de juventude. A escolha se justifica: as canções foram escritas entre 2007 e 2011 e também reúnem recortes de seriados e desenhos de TV. Claro que não é a primeira vez que Heitor faz isso (algo percebido de cara, logo em “Singulário”). Entre os anos 1990 e 2000, ele manteve a banda Dorothy, onde a raiva era alimentada pela vontade de quebrar todas as estruturas lírico-musicais possíveis.

Ainda assim, Bon Appetit, Sucuri permanece diferente. A cada audição, o ouvinte se vê preso num jogo de desconstruções, verdades, ficções, situações e impressões nada convencionais. “A Cabeça do Óbvio” inverte a imagem do que seria uma princesa, uma notícia ou uma ‘cabeça quadrada‘. “De Dentro da Paisagem” é moderno como os melhores rocks de nossa geração e a melancolia que paira na faixa de encerramento, “A Alma das Coisas”, só evidencia a profundidade de um EP com mais força que muitos álbuns por aí.

Ouça: “Henry Miller Foi Mendigo”




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Tiago Ferreira

Editor do Na Mira desde 2010 – que, além de site, também é canal do YouTube e Embaixador Spotify. Já trabalhei como redator de comunicação interna, produtor de conteúdo da B2W (Americanas, Submarino e afins) e repórter de entretenimento, ciência e tecnologia no Vix.com. Também sou colaborador eventual da Revista da Cultura (da Livraria Cultura).


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