Groovin’ Jazz: 10 lançamentos de fevereiro/2016 que você tem que ouvir

Novos discos de Camila Meza, Ed Motta, Renee Rosnes, The Heliocentrics e mais



Ah, a tradição. Melhor que seguir ela com rigor, honrando os achados de mestres passados, subvertê-la a partir de referências não óbvias para o ouvinte tem sido um exercício que os jazzistas têm feito desde… sei lá, anos 1940?

O jazz de hoje é tudo aquilo que o jazz já foi antes – assimilado, reprocessado, recontextualizado. A busca pelo novo é algo secundário no jazz, por isso ele é erroneamente deixado de lado por muitos ouvintes e críticos que ouvem como se tivesse com uma lupa a todo tempo.

Enquanto uns exploram as brechas infindáveis deixadas por estilos como cool e hard-bop, outros estabelecem suas próprias diretrizes, ora influenciados pelo serialismo, ora pela música experimental de John Cage ou quebrando novos paradigmas a partir da noção de que ritmo e melodia podem, sim, ser atropelados.

O mês de fevereiro mostrou expressões por todos esses lados: dos reverentes ao clã Marsalis, passando pelo pop sofisticado de um certo brasileiro e o brilhantismo de uma canadense pouco conhecida, seguimos com nossa coluna mensal de lançamentos jazzísticos.

Mas o grande lampejo do jazz nesse mês foi o vocal, seja passeando por origens folclóricas ou enchendo o pulmão de soul music

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Em ordem alfabética de artistas, eis os 10 discos de jazz de fevereiro que você tem que ouvir:

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Traces

Camila Meza

Gravadora: Sunnyside Records
Data de Lançamento: 26 de fevereiro de 2016

Guitarra, baixo, voz e bateria: não se trata de uma banda de rock. O fato de Camila Meza ser chilena pouco tem a ver com o que conhecemos de latin-jazz. Ela já tocou com Paquito D’Riviera e interpretou clássicos da música brasileira, mas em seu disco de estreia, Traces, criou um amálgama de referências de seu país de origem e a música norte-americana – desde 2009, ela mora em Nova York. O trabalho de harmonia, pontuação vocal e desprendimento (representado pela guitarra de Camila) são primorosos – fruto de sua colaboração com o experiente produtor Matt Pierson (Brad Mehldau, Joshua Redman). Quando se fala em arranjos de cordas, violoncelo, piano, wurlitzer e órgão também entram na contagem – todos muito bem ponderados pelo faz-tudo Shai Maestro. A execução de Camila no violão ou na guitarra fogem do mero acompanhamento; ela busca acobertar o ritmo dos outros instrumentos, como faz na catedrática “Para Volar”. “Amazon Farewell” parece compilar todas as expressões regionalistas da América do Sul, incluindo a toada e a zapateada – com performance monumental do baterista Kendrick Scott. O disco é tão bom que até vale a pena citar o desfecho do release: “Camila oferece ao ouvinte um presente marcante: sua verdade e seus abundantes talentos, com nada menos que luminosidade, paixão, honestidade e amor”.

Ouça: três faixas


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Connection

Empirical

Gravadora: Cuneiform
Data de Lançamento: 5 de fevereiro de 2016

Encontre via Bandcamp

Desde que recriaram o clássico Out to Lunch (1964), de Eric Dolphy, é tão bom ouvir o vibrafonista Lewis Wright exercendo uma função Bobby Hutcherson no quarteto europeu Empirical, que segue a cartilha de ter um “jazz como meio, e não finalidade”. A estrutura hard-bop é a melhor conexão entre Lewis, Nathaniel Facey (sax alto), Tom Farmer (baixo) e Shaney Forbes (bateria), mas isso não significa que o quarteto se vicie em modelos. Cada instrumentista tem seu quê de destaque, mas a manutenção rítmica parece ser ‘sincronizada’ entre os músicos, o que evidencia um entrosamento superior a quaisquer tentativas estéticas. O frescor é preponderante nas 11 faixas do disco, compostas pelos próprios integrantes – por isso é natural se deparar com momentos ‘mais avant-garde’, como se pode ouvir em “The Maze” e “It’s Out of Your Hands”. O controle e o descontrole rítmicos são parte do funcional do quarteto, por isso ele soa tão original.

Ouça: disco na íntegra


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Perpetual Gateways

Ed Motta

Gravadora: MustHaveJazz/Membran
Data de Lançamento: 5 de fevereiro de 2016

Perpetual Gateways é um álbum dosado. Ed Motta favorece sua forma groovy de fazer música pop com técnica que engloba todos os instrumentos e investidas como algo monumental. Antes de ser absorvido como uma obra criativa, o 12º álbum do cantor e multiinstrumentista é uma obra edificada. Os solos e o acompanhamento de seu piano obedecem lapsos de memória; os metais de Charles Owens (sax) importam menos que a ponderação do baixo de Cecil McBee – mas, quando o trompete de Curtis Taylor entra, entra pra valer, como se ouve em “A Town in Flames”, fusion à lá Spectrum (1973) em que o baterista Marvin ‘Smitty’ Smith capta a magnificência de Billy Cobham. O álbum tem fluência musical tão sofisticada, que as letras de Motta acabam se passando por suaves, quando na verdade criticam o comportamento estandardizado da dança superficial (“Hypochondriac’s Fun”), a manipulação da verdade (“Reader’s Choice”) ou o dedo em riste alheio em relação aos outros (na excelente “Overblown Overweight”, com solo rascante de Owens). Não é um Ed Motta diferente do que se manifesta nas redes sociais – a diferença é que em Perpetual Gateways ele encontrou a linguagem e a forma certa para tocar nos pontos nevrálgicos: a partir da música. Decerto que soa mais interessante assim.

Ouça: “Overblown Overweight”


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Jersey Cat

Freddie Hendrix

Gravadora: Sunnyside Records
Data de Lançamento: 5 de fevereiro de 2016

O trompetista Freddie Hendrix tocou com Alicia Keys e Christian McBride, mas aprendeu mesmo foi com o young lion Wynton Marsalis a reacender a tradição sugerindo um novo lampejo artístico, ao invés de transfigurá-lo. Estão atropeladas as discussões sobre o fator originalidade desse movimento (ou revival?) que já não é novo, e Freddie tem muito a se beneficiar disso. Apesar de começar estrondoso com “St Peter’s Walk”, tema de Tex Allen que Hendrix se fascinou ao ouvir a versão do conterrâneo Woody Shaw, uma de suas principais influências, o álbum deixa claro que a grande parada dele é mesmo o blues. O fato de ter tocado nas últimas formações da Count Basie Orchestra lhe deu a expertise para arrancar o melhor com poucas notas em “You Don’t Know What Love is” e a faixa-título, puxada pelo baixo soul de Corcoran Holt. Passear por estilos como soul, cool jazz e R&B parece ser um dos exercícios favoritos deste trompetista, mais apegado às pontes que aos extensos solos. Quando, porém, ele se dedica a ter os holofotes para si, faz com qualidade, mas sem esquecer os mestres – melhor exemplo disso é a reinterpretação de “Hubtones”, do versátil Freddie Hubbard. Sem dúvidas, ouvir Jersey Cat é como apreciar um amigo que gosta dos mesmos clássicos de jazz que você – ele recria mais do que compõe aqui, e isso pode ser apreciado da maneira mais perene e prazerosa que se possa imaginar.

Ouça: “Jersey Cat”


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Old Growth Forest

Harris Eisenstadt

Gravadora: Clean Feed
Data de Lançamento: 12 de fevereiro de 2016

Old Growth Forest foi concebido após uma temporada de shows com John Zorn. Apesar de o baterista Harris Eisenstadt ser aberto às excentricidades, pensou em fazer um trio com algo mais aberto. Aberto na medida em que tangencia notas e acordes tão soltos quanto os sons que perfazem nosso cotidiano. Os metais de Jeb Bishop (trombone) e Tony Malaby (sax tenor) em faixas como “Pine” e “Fir” são tão distantes um do outro, que é possível visualizar conflitos múltiplos entre eles. O contrabaixo de Jason Roebke exerce função diferente do que pontuar ritmos: ele é tão protagonista (ou seria antagonista?) quanto os demais instrumentos. Suas passagens sonoras lembram um Scott LaFaro rudimentar que passeia pelas escolas do bop e do free-jazz, com garra para tomar a dianteira – algo que realmente faz em alguns momentos, com em “Hemlock” e no estranho modus operandi de “Spruce”. Quanto a Eisenstadt, além de ser o principal compositor dois 8 temas, dirige à distância essa engrenagem de peças conflitantes e, ainda assim, mirabolantes, vide “Big Basin” e “Redwood”, duas das melhores do disco.

Ouça: disco no Spotify


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Signals

LOK 03+1

Gravadora: Trost Records
Data de Lançamento: 5 de fevereiro de 2016

Formado pelos pianistas Alexander von Schlippenbach e Aki Takase e o DJ Illvibe (filho de Schlippenbach), o trio LOK 03 lançou o disco de estreia em 2005, sugerindo improvisações virtuoses que ultrapassam não só as barreiras do free-jazz, mas todas as trincheiras composicionais das vertentes alemãs e japonesas, muito ligadas pelo avant-garde. Neste registro, eles contam com um baterista, Paul Lovens (vulgo +1), também alemão, cuja contribuição fornece mais um aparato estético que um elemento musical em si. Signals é um disco que remete a múltiplos processos em desconstrução, sugerindo uma anarquia de objetos em “The Gift” e uma coordenação afunilada em “Curved”, que parece seguir o movimento de rotação de um pião que, por dentro, faísca muito mais que por fora. Como recurso técnico, os scratches são apenas complementos; Illvibe contribui mesmo é nas ressonâncias sônicas das extremidades e excentricidades de Schlippenbach e da virtuosíssima japonesa Aki Takase. Em alguns momentos, como “Waterrun” e “Chemist Zero”, eles parecem obedecer experimentos de John Cage – talvez porque o monocromatismo de algumas notas remetam a Music of Changes em performance de David Tudor, um dos principais intérpretes das maluquices de Cage. Silêncio, minimalismo? Não, Signals é repleto do que há de mais desafiador e cinético na obra de Cage, e isso é só o começo para explorá-lo.

Ouça: “Messages From Aries” (trecho)


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Mare Nostrum II

Paolo Fresu, Richard Galliano & Jan Lundgren

Gravadora: ACT
Data de Lançamento: 26 de fevereiro de 2016

Falar de acordeão no Brasil é dar pilha pra forró, sertanejo e música gaúcha, mas não deixe que seus limites te impeçam de se maravilhar com as possibilidades harmônicas do instrumento. Nesse quesito, Richard Galliano ruma ao caminho da comoção. No segundo disco ao lado do trompetista Paolo Fresu (natural de Sardenha, ilha da Itália) e do pianista sueco Jan Lundgren, o francês Galliano investe nas longas passagens, criando uma atmosfera melancólica que crava por sua sinceridade. No entanto, não é ele o principal fio condutor de Mare Nostrum II: o trio foca numa mesma paisagem, como companheiros de uma jornada em direção à felicidade mútua. Importante frisar que a serenidade é a grande esfera que conecta estes três europeus. O trompete de Fresu é lindamente tácito, como as belezas das cores de um jardim pela manhã. Lundgren é o catalisador dos espaços: contemplar seu estilo é como contemplar a beleza de uma criança adornando uma linda paisagem. E Galliano… Bem, não é preciso repetir, né?

Ouça: algumas faixas


EM DESTAQUE

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Written in the Rocks

Renee Rosnes

Gravadora: Smoke Sessions
Data de Lançamento: 5 de fevereiro de 2016

A canadense Renee Rosnes é uma das mais habilidosas pianistas de jazz da atualidade. Seu estilo evoca imagens gravitacionais, como se perpassassem por momentos sublimes que jamais acreditaríamos. Essa nuance imagética é o cerne de seu novo trabalho: em Written in the Rocks, ela traz seu ótimo grupo formado por Steve Wilson (sax, flauta), Steve Nelson (vibrafone), Peter Washington (baixo) e Bill Stewart (bateria) numa epopeia que reescreve “a evolução da vida na Terra”, como diz o comunicado oficial. A ventania sonora de “Galapagos” nos leva a locais montanhosos, onde se imagina uma jornada com peregrinos devido às escalas modais de seu piano. A faixa-título parece mergulhar fundo num oceano de beldades, enquanto “Cambrian Explosion” sugere diversas construções deliberadas do que conhecemos como ‘grandes cidades’. O melhor de Written in the Rocks reside se deleitar com a confluência piano/vibrafone, num diálogo melífluo que favorece a entrada dos metais confortantes do experiente Wilson, que já tocou com feras como Don Byron, Chick Corea e Charlie Byrd. Mas, a grande Gaia do disco é Renee, a mediadora titã que estimula vida no acompanhamento e nos solos dos demais integrantes.

Ouça: algumas faixas


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From The Deep

The Heliocentrics

Gravadora: Now-Again
Data de Lançamento: 19 de fevereiro de 2016

Diretamente da Grã-Bretanha, os The Heliocentrics se tornaram um dos mais improváveis coletivos de jazz da atualidade. Eles impressionaram feras como Mulatu Astatke (com quem gravou Inspiration Information Vol. 3) e Melvin Van Peebles (no espacial The Last Transmission, um dos melhores álbuns de 2014), mas não precisam necessariamente estar acompanhados para surpreender. From the Deep mostra o grupo de Malcom Catto (bateria) e Jake Ferguson (baixo) indo ainda mais além que as referências de Sun Ra e Henry Threadgill. As pencas de rótulos que se adequam à banda (krautock, free-jazz, space-funk) continuam firmes, mas as composições parecem surgir como retalhos de ideias fragmentárias que, juntas, parecem anexadas à ideia de atemporalidade da recém-retificada Teoria da Relatividade. As 19 faixas parecem perpassar como um disco produzido por J Dilla. São tantas ‘variações’ de transcendência, que fica difícil se apegar às técnicas utilizadas pelo septeto – embora as claves dos teclados de Ollie Parfitt em “The Pit” e os efeitos de Mike Burnham em “Night and Day” sejam maravilhas à parte.

Ouça: “Night and Day”


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Secret Meeting

Travis Laplante & Peter Evans

Gravadora: NNA Tapes
Data de Lançamento: 4 de fevereiro de 2016

Uma “conexão parecida com cordão umbilical”: um disco que estabelece diálogo entre trompete (Peter Evans) e sax-tenor (Travis Laplante) em mais de 40 minutos de livre improvisação. O termo Secret Meeting sugere algo em comum, mas sonoramente não é bem isso o que acontece. Parece haver uma relação mais complexa que amizade, já que as notas batem umas nas outras, escapam, se encontram, firmam-se, mas, na maior parte do tempo, se convergem. Não se pode negar que há um propósito: Evans e Laplante operam visceralmente, sem deixar lacunas de silêncio, tampouco preenchendo-as em formatos rítmicos padronizados. A preferência pelas high notes denota que o free-jazz dos anos 1960 e 70 habitam o repertório do duo, mas antes de caracterizar-se europeu, báltico, norte-americano ou ocidental, Secret Meeting acerta ao deixar que o ouvinte busque compreender esse diálogo.

Ouça: “After The End”





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Tiago Ferreira

Editor do Na Mira desde 2010 - que, além de site, também é canal do YouTube e Embaixador Spotify. Já trabalhei como redator de comunicação interna, produtor de conteúdo da B2W (Americanas, Submarino e afins) e repórter de entretenimento, ciência e tecnologia no Vix.com. Também sou colaborador eventual da Revista da Cultura (da Livraria Cultura).


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