
Gravadora: Def Jam





Existe uma lógica pela qual o The Roots escolheu contar a história do personagem Redford Stephens de trás para frente, ao invés de optar por uma narrativa mais linear. Ao contrário do que diria o ditado popular, não são os fins que justificam os meios – mas, sim, os meios que justificam a morte trágica de um rapaz que nasceu em condições adversas e acabou caindo para o crime. Tão trágico quanto a morte de Redford é saber que as condições, quando desfavoráveis, são tão horrendas quanto a impossibilidade de um final feliz.
Se com How I Got Over o The Roots estava mais pop e enérgico, em undun tudo parece ter se esvaziado e criado cinzas. E, de lá, ressurgiu um dos melhores discos de 2011
undun inicia com um apagão geral em “Dun”, onde o barulho da máquina que não detecta mais sinal cardíaco algum dá lugar a uma trilha de suspense, que reflete os momentos finais de vida do personagem. “Sleep”, que vem na sequência, já fala de ‘maus sonhos que surgem quando vou dormir’, como canta BlackThought. Quem ouve rap nacional há um bom tempo pode traçar um paralelo com os momentos finais da vida de Mano Brown em “Eu Tô Ouvindo Alguém Me Chamar”, quando ele prevê que será assassinado por amigos que viraram inimigos.
“Make My”, que conta com os parceiros Big K.R.I.T. e Dice Raw, explora o sentimento de pânico e questiona o mesmo ditado que citei no primeiro parágrafo: ‘me disseram que os fins justificam os meios’. E completa: ‘Talvez eu jogue minha toalha e faça minha renúncia ao mundo’. Isso vindo de um rapaz de 25 anos, que tem a vivência de um cara bem mais longevo.
O disco também estabelece um novo paradigma: se com How I Got Over o The Roots estava mais pop e enérgico, com claras referências setentistas em faixas como “Right On” (com belos vocais de Joanna Newsom) e o rap comercial em “The Fire” (com John Legend), em undun tudo parece ter se esvaziado e criado cinzas.
Não há muito diálogo com o trabalho anterior, já que trata-se do primeiro disco conceitual do grupo. Mas percebemos um sincretismo maior na roupagem instrumental; vemos um pouco do tom semi-orquestral do Arcade Fire nas batidas secas de “The OtherSide” e riffs de guitarras mais soltos em “Stomp”, que entram em dissonância com teclados e formam uma anarquia contida. BlackThought chega a citar no início da música o clássico disco Pieces of a Man, de Gil Scott-Heron, só que o garoto não vê a revolução como forma de melhora: o hedonismo é muito mais fácil, mesmo quando achamos que estamos distante dele. É essa a fronteira que Redford quer ultrapassar.
O final do disco, que contaria o início da crônica, é repleto de dramaticidade: ?uestLove, em suas muitas conversas com Sufjan Stevens, o chamou para tocar um piano clássico meio sofrido, como se a criança já estivesse predestinada a sofrer com a miséria herdada de uma família que passa a não fazer mais parte de sua formação.
Em “Possibility (2nd Movement)”, um violino introduz a euforia das baterias. ?uestLove se empolga tanto, que em “Will To Power (3rd Movement)” se inspira nos momentos mais perturbadores de uma sinfonia de Beethoven. Quem diria que o rap um dia iria dialogar com a música clássica? Mais um passo avante do The Roots, quando todos achavam que How I Got Over seria o máximo que a banda poderia atingir depois do excelente Things Fall Apart, de lá de 1999.
Uma das poucas bandas que está numa linha evolutiva, sem sinal algum de retrocesso ou repetição.
Melhores Faixas: é um disco para se ouvir inteiro. Destaques ficam para “Make My”, “Kool On”, “The OtherSide” e “Tip the Scale”.
