G. Álbuns: Ahmed Abdul-Malik | East Meets West (1959)

Um disco essencial para entender os primórdios do cruzamento entre jazz e world-music

Gravadora: Stardust/RCA
Data de Lançamento: Segundo semestre de 1959

A verdadeira origem de Ahmed Abdul-Malik é algo controverso mesmo nos dias de hoje: apesar do músico, que nasceu no Brooklyn (Nova York), ter declarado vir de família sudanesa, o historiador Robin Kelley disse que ele é filho de caribenhos imigrantes. Nascido Jonathan Tim Jr., teve seu ‘segundo’ nome dado pelos pais ainda quando criança.

Sua fama como contrabaixista no jazz teve impulsão em grupos de pianistas. Primeiro, veio com Jutta Hipp. Mas foi depois de tocar com o visionário Randy Weston e o inovador Thelonious Monk que Abdul-Malik passou a ter reconhecimento, nos anos 1950 – década em que chegou a tocar com John Coltrane.

Nesse período, ele estudou o instrumento árabe oud, um tipo de cordofone parecido com o alaúde [ilustrado na capa deste disco].

“O jazz americano é enfadonho”, disse Ahmed Abdul-Malik na época. “É hora de transfundir novas escalas do sangue estrangeiro, linhas melódicas estrangeiras, o aroma da música oriental”

Depois de conhecer o sax-tenorista Johnny Griffin, Abdul-Malik o chamou para fazer um som, tentando mesclar os aprendizados que teve com Jamal Islan e Naim Karacand sobre música oriental, além de ter aprendido música indiana com Dr. Wanamasa Singh. “O jazz americano é enfadonho”, disse o baixista/oudista na época. “É hora de transfundir novas escalas do sangue estrangeiro, linhas melódicas estrangeiras, o aroma da música oriental”.

O primeiro disco desta parceria foi Jazz Sahara (1958). A junção entre elementos da música oriental e ocidental ali teria seu debute, mas seria vigorosamente explorada no disco seguinte, East Meets West (1959), considerado um dos trabalhos pioneiros na fusão world-music e jazz.

A sonoridade da oud de Abdul-Malik é o mantra que percorre o álbum. A habilidade do músico é bem mais desenvolta, portanto, quando entra o trompete de Lee Morgan em “E-Lail (The Night)”, está travada a quintessência dessa conjuntura: não apenas dá certo; temos, ao invés da metalinguagem de diferentes culturas, uma linguagem só, o contato de duas culturas que parecem ter se reencontrado depois de separadas por muito tempo.

Isso não quer dizer que há uma perfeição nesse encontro. Ainda era inédito o fato de jazzistas cruzarem o swing do gênero com as possibilidades da música oriental. Mais que um encontro bem-sucedido, East Meets West prevalece como a suposição, o rascunho, a evidência de que tal entrecruzamento era possível.

Só por isso, o disco já indica um acerto. O grupo de músicos que Abdul-Malik reuniu chegou muito perto de onde ele realmente queria: em “La Ilbky (Don’t Cry)”, a influência bop do trompete de Lee Morgan fortalece o tom contrapontístico do violino de Karacand, cujas notas parecem soar de uma tabla.

Nem sempre, porém, há o entrelace musical desses gêneros: “Takseem” mostra Abdul-Malik numa performance solo com sua oud, fazendo interjeições vocais que parecem extraídas de um rito hindu religioso. Em “Searchin’”, o músico volta ao contrabaixo duplo, à frente de um tema hard-bop que mostra maior confluência entre os músicos, com um solo de flauta do experiente Jerome Richardson, que já havia tocado com Sarah Vaughan, Kenny Clarke, entre outros (depois, ele se tornaria um dos grandes mestres no instrumento).

Importante mencionar que não cabia apenas a Abdul-Malik estabelecer o ponto de fricção oriental no disco. A darbuka de Mike Hamway catalisava a sonoridade percussiva, enquanto o instrumento de corda kanun, de Ahmed Yetman, fornecia um requinte estilístico próximo à cultura árabe. Comparando sons como em “Rooh (The Soul)” e “Mahawara”, o ouvinte consegue perceber o desenvolvimento dessas sonoridades.

East Meets West mostra-se deveras essencial quando faixas como “Isma’a (Listen)” passam a rodar. É na intersecção, na fricção, no diálogo entre o jazz de influência norte-americana – naquela época, muito associado ao hard-bop – e as diversas manifestações de música árabe, hindu e do chifre africano que tornam o combo musical ricamente interessante. O empenho de todos os músicos é reverberado, ainda que muito ainda tivesse que ser desenvolvido nesse campo.

Indubitavelmente, East Meets West antecipou o cruzamento jazz-world-music que se tornaria tendência nos anos 1970, principalmente na obra de Don Cherry, Yusef Lateef e Shakti, de John McLaughlin.

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Tiago Ferreira

Editor do Na Mira desde 2010. Já trabalhei como redator de comunicação interna, produtor de conteúdo da B2W (Americanas, Submarino e afins) e atualmente sou repórter de notícias, ciência e tecnologia no Vix.com. Também sou colaborador eventual da Revista da Cultura (da Livraria Cultura).

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