No Dia Nacional do Samba, relembremos Cartola

Em 30 de novembro de 1980 falecia o fundador da Estação Primeira de Mangueira, Angenor de Oliveira, que durante muitos anos viveu no limbo por não ser reconhecido como poeta e sambista de primeira qualidade.

Após viver fazendo samba-enredos para diversos intérpretes, Cartola só conseguiu gravar seu primeiro trabalho solo com composições próprias aos 65 anos. O LP homônimo, de 1974, trazia canções gravadas com parceiros de longa data, como Carlos Cachaça, Hermínio de Carvalho e Dalmo Castello. Clássicos como “Disfarça e Chora”, “Tive Sim” e “Alvorada” receberam críticas positivas da imprensa e o destacaram como o principal expoente do samba-canção.

Mesmo vivendo em um ambiente agitado como a Mangueira, Cartola é responsável por trazer questões existenciais aos seus temas, com canções que tratam não só de amor, mas também de assuntos recorrentes no morro, como a maturidade, as inúmeras batalhas que a vida lhe pregou e até mesmo o cotidiano de moradores pobres (como em “Ensaboa”, do seu segundo álbum homônimo).



Cartola viveu longos 72 anos de muita produção musical, mas com um reconhecimento praticamente ínfimo – pelo menos em vida. Ganhava pouco por suas composições e já chegou a trabalhar servindo café para servidores públicos e como lavador de carros no bairro do Ipanema.

Ainda assim, Angenor sempre foi boêmio. Depois de ver sua mãe falecer aos 10 anos e ser abandonado pelo pai posteriormente, contou com a ajuda da comunidade e foi morando em diversos locais, conquistando a todos por seu jeito extrovertido e descompromissado com a vida. Recebeu a alcunha de Cartola aos 15 anos, quando trabalhava como servente de pedreiro usando um chapéu-coco para se proteger do cimento.

Entre bares, alegrias e noitadas, Cartola acabou brigando com integrantes da Mangueira e sumiu da cena musical após a morte de sua então esposa Deolinda. Contribuiu para o seu ostracismo a predominância da Estácio nas escolas de samba e da reformulação da Mangueira, que era avessa às composições de Angenor.

Depois de períodos difíceis como enfermo de meningite, o sambista conheceu Eusébia Silva do Nascimento, a Dona Zica, e conseguiu se reerguer da vida errante. Abriu o bar Zicartola com a nova companheira e conheceu o produtor Hermínio Bello de Carvalho, apresentando composições como “As Rosas Não Falam” e “O Mundo é Um Moinho”, que integram o segundo disco homônimo de Cartola, lançado somente em 1976.



Reconhecido como o melhor trabalho solo de Cartola, o segundo álbum é recheado de sambas-canções que até hoje são regravados a rodo por músicos brasileiros, como:

• “Sala de Recepção”: uma ode à Estação Primeira da Mangueira com a frase: “as outras escolas até choram invejando tua posição”, talvez uma alfinetada na Estácio. A cantora Creusa contribui com seu vocal adocicado, em parceria com a solenidade de Cartola.



• “Preciso Me Encontrar”: a viola já soa melancólica logo no início com o trombone de fundo, provocando uma reflexão imediata com os versos iniciais “…vou por aí a procurar, sorrir pra não chorar”. A canção é um questionamento existencial de um rapaz que busca isolar-se temporariamente depois de muito sofrer na vida. Não deixa de ser um retrato biográfico da longa trajetória de Angenor, que passou por muitas dificuldades até tornar-se um dos maiores músicos de nossa terra.



Não dá pra dissociar o Dia Nacional do Samba, comemorado hoje, dia 2 de dezembro, com os 30 anos da morte de um dos seus principais expoentes.

Se me pedissem para fazer uma lista dos maiores músicos brasileiros, Cartola certamente encabeçaria essa lista, por motivos que transcendem sua maturidade como compositor.


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9 Comentários to “No Dia Nacional do Samba, relembremos Cartola”
  1. Beth Muniz disse:

    Maravilha!
    Pena que eu não esteja no meu Rio de Janeiro, para sair e correr gira atrás do ZiCartola (Centro), que não existe mais, subir o morro da Mangueira, descer, seguir rumo a Vila Izabel, de lá subir o Salgueiro, voltar, pegar o de trem do Ramal da Central, descer em Mágno e finalmente chegar a Portela e a Serrinha (Império Serrano).
    Tudo isso na maravilhosa companhia de Cartola!
    Ao final, ouvi-lo cantar: “Ainda é cedo amor…”.
    Valeu!
    Grande abraço.

    • Tiago Ferreira da Silva disse:

      Olá Beth, muito obrigado pelo comentário.

      Não cheguei a conhecer o Zicartola, talvez seja muito novo e não sei há quanto tempo ele está fechado, mas que seria uma experiência do caramba….ah, se seria!
      Ontem eu estava em uma padaria e um senhor de 70 anos estava me servindo um café. Comecei a conversar com ele e lembrei da difícil vida do Cartola, que durante muito tempo viveu como anônimo no mundão.

      Conhecer a história e música do Cartola não é apenas uma oportunidade de conhecer um dos maiores músicos do Brasil. É uma lição de vida.
      Grande abraço!!

  2. Claudia(cacau) disse:

    Lindo e Maravilhoso!
    Vou me acabar de chorar,fã de Cartola de carteirinha,amo ele,pena que os bons sempre nos deixam,mas com certeza num bom e lindo lugar.
    Fez eu relembrar um grande Amor que tive ele fazia serenata e cantava ” As Rosam não falam” ,dizia que essa música era minha,da muitas saudades,e como!
    Obrigado por esse lindo post, você está de parabéns temos que trazer a tona nossas riquezas culturais,ensinar nossos filhos a amarem o que de mais belo e precioso existe em nosso Brasil!
    Trilhões de Parabéns!

    • Tiago Ferreira da Silva disse:

      Cacau,

      Muito obrigado pelos elogios. “As Rosas Não Falam” é linda, não tem nem o que descrever dessa canção. Afinal, Cartola é lindo!!
      Obrigado e volte sempre. Beijos!

  3. Dessa Ortiz disse:

    Oi acho que vai gostar do que acabei de ver um toy ou estatueta do mestre Cartola, até que fim alguém ou alguns estão se prontificando a fazer algo diferente para memorizar ainda mais esses nossos eternos mestres, dá uma conferida no blog do estúdio que está fazendo a produção, ahh espero que goste, eu adorei..rs
    http://www.flickr.com/photos/marquesmize/

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  1. [...] perambulações, chegou a travar contato com Cartola e Carlos Cachaça, compondo alguns sambas descompromissados. Depois de deixar a polícia, Nelson se [...]

  2. [...] bastante para a poeticidade de um dos mais prolíficos sambistas que o Brasil já teve. Com Cartola e Zé Keti, Paulo César Faria obteve o impulso necessário para abraçar de vez a condição de [...]

  3. [...] Ele seguiu à risca os preceitos artísticos de algumas de suas maiores influências: Jimi Hendrix, Cartola e Miles [...]

  4. [...] das letras bossanovistas e, com o tempo, foi se aproximando aos sambistas de morro Zé Kéti, Cartola e Nelson [...]



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