Menos João, mais Schulze

Novos artistas e selos rompem com tradição musical brasileira em busca de experimentos sonoros

Provavelmente três coisas ficarão marcadas para um estrangeiro que vem ao Brasil: a comida, as mulheres e a música.

Tudo bem que as tentativas da organização da Copa do Mundo de exportar música brasileira foram parcas, mas a história nos favorece.

Do caminho bem-sucedido da bossa nova aos garimpos internacionais que chegam a nomes como Som Imaginário, Novos Baianos e Tom Zé, a música brasileira construiu um legado singular e inimitável ao redor do globo.

De Frank Sinatra e Stan Getz a David Byrne e Arto Lindsay, admiradores não faltam da essência que se tornou a música brasileira ao longo das últimas seis décadas.

Por mais singular, por mais que cause motivo de orgulho, por mais complexa que seja, a música brasileira muitas vezes se fecha a um padrão autoimposto por críticos e pela indústria cultural. (A cada tentativa da Rede Globo de criar um programa musical, ouve-se a expressão ‘rica música brasileira’. O fiasco de Superstar é só mais um exemplo.)

Teóricos como Tárik de Sousa e Zuza Homem de Mello – sem deixar de mencionar o produtor-publicitário-simpatizante (menos crítico) Nelson Motta – discursam com o chavão ‘preciosidade da música brasileira’ implícito em cada um de seus textos ou narrações. Não estão errados quando citam gigantes do porte de Clara Nunes, Cassiano ou Milton Nascimento. Mas a música de nossos trópicos se resume a essas referências?

Não aceitar o que não é brasileiro em todas as manifestações artísticas daqui é um troço cultural.

Essa preocupação com o ‘nacional’ é algo histórico, que remonta aos tempos de Getúlio Vargas. Ele patrocinou (alguns anos depois) a ‘turma’ que participou da Semana de Arte Moderna de 1922 justamente por motivos patrióticos. Sabiamente, queria criar uma identidade cultural brasileira, com claros motivos políticos.

O samba penou para obter sua aceitação – até que o Carnaval se expandiu e tornou-se símbolo cultural, tendo o gênero como patrono. Hoje, samba é símbolo de Brasil, mas pergunte a Riachão como eram as coisas nos anos 1950…

Com o rock dos anos 1960 feito no Brasil aconteceu uma negligência discrepante. Não se aceitava a ‘música de exportação’ ou ‘influência estrangeira’. Até que as gravadoras percebessem a fatia de lucro que estavam perdendo ao não financiar bandas que tocavam covers de Beatles, Cream e Rolling Stones, uma geração inteira quase foi relegada ao esquecimento. Se o rock passou a ser aceito no fim da década de 1960, bem, agradeça a Roberto Carlos e ao seu programa Jovem Guarda.

Não aceitar o que não é brasileiro em todas as manifestações artísticas daqui é um troço cultural.

Infelizmente ainda hoje, em pleno 2014, um artista solo ou uma banda do Brasil precisa se agarrar a um quesito ‘nacional’ para obter sucesso comercial, mesmo que mínimo. Ainda que essa relação artisticamente não sustente (tipo Anitta), faz parte do marketing apropriar ou inventar algum termo que conecte a música a algo nacional, seja a música um rock, funk ou pop. Ou, então, tudo se resume a MPB, termo nacionaloide que deveria parar de ser utilizado por especialistas em música.

Essa necessidade de ‘nacionalizar’ existe, mas as coisas estão mudando.

Pode parecer pouco, mas a aceitação de um disco como Antes Que Tu Conte Outra, do Apanhador Só, na Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA), é elementar.

Os méritos do disco estão na inserção da dodecafonia na música pop, resultando em uma obra de caráter experimental em moldes parecidos com o que David Bowie pavimentou em Alladin Sane (1973).

Claro que há divisão de opiniões na qualidade do álbum (e estamos no lado negro da força), mas é raro um disco que foge do conceito ‘nacional’ de canção atingir esmero tão grande.

Seguindo a mesma linha pop-experimental, o grupo pernambucano Mombojó deu um passo adiante: obteve assinatura da Slap, marca da Som Livre (que é da Globo), para o lançamento de seu disco mais ousado, Alexandre (2014).

Nele, as nomenclaturas esquisitas como ‘pós-manguebit’ ainda se firmam mas, se antes Nadadenovo (2004) e Amigo do Tempo (2010) se baseavam numa nova identidade da música nordestina, Alexandre traz na bagagem Radiohead e Stereolab, com muito pouco de herança brasileira em sua estrutura.

“O Brasil descobriu recentemente que pode fazer música sem qualquer tipo de bandeira nacionalista” – Chico Dub, em entrevista ao Monkeybuzz

Desvencilhar dessa obrigatoriedade de ter um elemento que seja de música brasileira tem se tornado usual de alguns anos pra cá. Por mais que Apanhador Só e Mombojó tenham algum destaque nesse círculo (mais pela visibilidade que pela qualidade), ao trafegar na música independente encontramos exemplos bem mais variados. E, acredite, esteticamente mais bem-sucedidos.

Quando o Na Mira revelou a sua lista de 30 melhores discos nacionais de 2013, deixou a intenção bem clara: “procuramos mapear outros termos que ainda parecem inexistentes para a academia e parte da crítica especializada”. Isso inclui o beat futurista de CESRV, o shoegaze do Lupe de Lupe, a MPB torta de Fábrica e Heitor Dantas e a congratulação ao rompimento mais extremo com qualquer tradição brasileira: o doom-jazz/dark-ambient do Bemônio, 1º lugar daquela efeméride com Santo, e que segue firme e forte com uma porrada de lançamentos.

Esses nomes citados tem praticamente zero aceitação no popular. Se comercializarem o disco no iTunes, é muita coisa. Assim, acabam obtendo mais respaldo internacional que nacional.

O último disco do Bemônio, Lágrima de Fezes e Sangue, está sendo comercializado no site gringo Exalted Woe. Os grupos Herod e Lautmusik tiveram que passar pelo crivo de Robert Smith para chegar aos ouvidos de 40 mil interessados em ver o show do The Cure. Gustavo Jobim, cujo trabalho extrai mais de Steve Reich e Klaus Schulze que qualquer outro tecladista ou pianista brasileiro, tem mais aceitação na Alemanha que em sua terra natal, Rio de Janeiro.

Por falar na Cidade Maravilhosa, tem sido justamente ela o palco dos maiores exemplos de rompimento com a estética brasileira pré-fabricada. De lá vem grupos como Sobre a Máquina e Chinese Cookie Poets, um espaço como o Audio Rebel e o importante Festival Novas Frequências, organizado por Chico Dub.

“O Brasil descobriu recentemente que pode fazer música sem qualquer tipo de bandeira nacionalista”, disse Chico em entrevista ao site Monkeybuzz. “Isso tem sido bem notável no campo da música experimental e eletrônica. Ao mesmo tempo, vejo artistas mais ligados à tradição da MPB ousando como nunca, caso de Metá Metá, Passo Torto e Negro Leo. Isso dá um balanço, um mix fantástico”.

Quando falamos da não existência de paralelos nacionais nessa nova produção artística, acredite, ela é bem extrema. Nomes como DEDO e Guerrinha, expoentes da uma nova cena eletrônica que tem muito a ser desvendada, nada tem a ver com o que foi desenvolvido aqui há, digamos, 10 anos atrás.

Pavimentam um caminho arriscado, de pouca audiência tanto em publicações que se dizem atentas à música, como ao público.

Essa nova cena não se reduz apenas a alguns nomes. Há selos que se tornaram especializados em reunir grupos de gêneros usualmente distintos por essas terras.

O paulistano Sinewave, capitaneado por integrantes da Herod, é adepto ao shoegaze e post-rock e, recentemente, tem ampliado sua esfera para o dark-ambient e industrial.

Os gaúchos da Mansarda Records a todo momento lançam discos, splits e encontros de free-jazz – excelente pra quem gosta de Peter Brotzmann, Pharoah Sanders e John Coltrane fase Ascension (1966). Claro que essas ligações são distantes. Ouça com profundidade os sons de Estevão Munhoz, Diego Dias e Peter Gossweiler e divague em suas próprias abstrações.

Isso prova que 2013 e, consequentemente, 2014, são anos de uma geração embrionária que abraça a tecnologia como principal divulgadora.

Não há semelhança alguma no som dos brasilienses do Satanique Samba Trio com o irrequieto Wallace Costa, mas a quebra de tradição é tão latente nesses dois casos, que eles acabam sendo separados em um mesmo nicho.

São beneficiados pela tecnologia, que permite a produção. Mas se prejudicam com a propagação massiva, que ainda bate naquela velha tecla de ‘unidade nacional’ como se estivéssemos nos anos 1940.

 

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Tiago Ferreira

Editor do Na Mira desde 2010 – que, além de site, também é canal do YouTube e Embaixador Spotify. Já trabalhei como redator de comunicação interna, produtor de conteúdo da B2W (Americanas, Submarino e afins) e repórter de entretenimento, ciência e tecnologia no Vix.com. Também sou colaborador eventual da Revista da Cultura (da Livraria Cultura).


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