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“Formation” não é supremacia de Beyoncé; é supremacia pop

Foda-se o marketing; queira ou não queira, uma cantora que adorávamos criticar pode ser a chave da conscientização coletiva

Um dia antes da apresentação na 50ª edição do Super Bowl, o mundo se surpreendeu com Beyoncé: com o clipe de “Formation”, ela sintetizou empoderamento feminino, orgulho das raízes negras e crítica à misoginia na indústria musical de uma vez só.

A mensagem foi forte o bastante para que alguns críticos compreendessem “Formation” como extensão da mensagem do álbum anterior, Beyoncé (2013), atingindo um nível mais extremo, mais urgente.

A bandeira foi fincada e cravada.

No dia seguinte, veio a apresentação no intervalo que concentra a maior audiência televisiva nos Estados Unidos. Ela roubou o momento que deveria ser de Chris Martin e seu Coldplay numa performance acachapante de “Formation”: as dançarinas vestidas de Panteras Negras (que completa 50 anos de existência) e a movimentação em X como referência ao ativista negro Malcolm X, finalizando com um ‘encontro’ com Bruno Mars, atingiu uma dimensão que talvez nem ela calculasse.

Os opositores não demoraram a surgir: há, inclusive, um movimento anônimo pedindo que, durante a transmissão da final da NFL, as pessoas mostrem seu rechaço ao “racismo” de Beyoncé – como se a celebração de uma cultura milenarmente oprimida pudesse ser usada como argumento para um inexistente ‘racismo contra brancos’.

Beyoncé não é a primeira nem será a última a abordar de forma crítica o legado e a vulnerabilidade de ser negro numa sociedade que beneficia e privilegia os brancos. Uma das imagens mais impactantes do clipe de “Formation”, em que uma viatura policial se afunda, tem seus contemporâneos recentes – vide os clipes de “Close Your Eyes (And Count to Fuck)”, de Run the Jewels e Zach de La Rocha; “Alright”, de Kendrick Lamar; e “Baltimore”, de Prince. Todos eles abordam a violência policial que centralizou os debates sobre preconceito racial nos Estados Unidos.

A subversão da mensagem/protesto de uma popstar das proporções de Beyoncé é algo com que iremos nos deparar deliberadamente, seja nas redes sociais ou nas notas de jornal nas semanas a seguir.

E o que surpreende nisso tudo é: Run the Jewels e Kendrick Lamar têm um histórico de composições que combatem o status quo, portanto, é no mínimo de se esperar o comprometimento deles com a ‘causa’. Prince, que talvez mais se aproxima dela por seu largo alcance público, também já não impressiona tanto, afinal, sexualidade, raça e berço também estão intrínsecos em alguns de seus melhores discos.

Nos dois últimos álbuns, Beyoncé incorporou de maneira soberba as mensagens sobre o arquétipo que representa: mulher, mãe, que trabalha com a beleza, de pele negra, de carreira consolidada e arte questionada a todo momento.

“Formation” vem com toda essa discussão na bagagem. Denota que o crescimento de Beyoncé vai além das cifras: ela criou um hit pop pegajoso cujas batidas de synths elevam a relevância do que ela tem a dizer, com repetições, saturações, silêncios e arpeggios.

O que mais impressiona em “Formation”, porém, é perceber como o single está gradualmente ligado à obra dela. Não há nada de novo, de muito diferente: o teor promocional quiçá crie um ‘pacote de relevância’ que poucos perceberiam se o single fosse lançado isoladamente, sem o clipe (que ela dirige) e sem a apresentação no Super Bowl.

Surge a questão: seria “Formation” uma mensagem ativista, ou apenas uma ‘carona’ no assunto espinhoso do momento?

Quando se fala de música, obra e artista se misturam, são parte de um amálgama. É uma lógica simples de entender: não tem como falar de Beyoncé e esquecer de sua trajetória que vai do megahit “Crazy in Love”, passando pelas coreografias ousadas de I Am… Sasha Fierce (2008), a renovação em seu estilo musical, de 4 (2011), e a complexidade de sua persona, destrinchada em Beyoncé.

Nesse sentido, para quem não acompanha ou não é fã da cantora, ler Beyoncé e ativismo na mesma frase soa uma contradição. Porque sua trajetória também inclui canções superficiais e rimas previsíveis, argumentos utilizados para neutralizar a força de sua mensagem.

Beyoncé ter sido a criadora, intérprete e lapidadora desse discurso não diminui o que outros artistas fizeram. A mensagem é a mensagem, e ela não pertence ao indivíduo; depois de lançada, a música pertence ao mundo

Um internauta com quem troquei mensagens dia desses disse que “Formation” é “elogiável, mas longe de ser ativismo”, porque “por outro lado tem um milhão de músicas exaltando ostentação, riqueza e elitismo” de Beyoncé. Ele não está errado.

Mas o que é necessário para chamar atenção sobre assuntos tão polêmicos quanto ser mulher, negra e financeiramente independente? Ficha limpa, coerência artística?

Assim como as proles humanas, a obra artística evolui. Isolar atos superficiais, estratégias de marketing e composições rasas evidenciam a falta de maturidade de nosso raciocínio, não do artista.

A substância de “Formation” é totalmente contestável, mas apegar-se a argumentos que fixem a imagem da artista a estereótipos, como forma de diminuir a relevância de seu conteúdo, mostra um certo receio de admitir que aquela artista que você crítica toda vez que passa na TV seja mais inteligente do que se julgava.

Antes do fator surpresa, existe a defensiva impulsionada por nossos gostos musicais. É como se quiséssemos impor a todo momento que não gostar de Beyoncé por todo esse tempo foi uma espécie de atitude correta de nossa parte. Pois, seguindo essa linha de pensamento, para cada música boa dela, há um fator ruim que ofusca sua possível genialidade artística.

Ou, então, achar que ‘é muito fácil para uma artista como ela’ dizer o que disse em “Formation”. Algo que também é certo, mas que não vale como contra-argumentação. A mensagem é a mensagem, e ela não pertence ao indivíduo; depois de lançada, a música pertence ao mundo.

Beyoncé ter sido a criadora, intérprete e lapidadora desse discurso não diminui o que Kendrick poetizou em To Pimp a Butterfly, o que D’Angelo comoveu em Black Messiah ou o que Billie Holiday, lá atrás, narrou vertiginosamente em “Strange Fruit“. É mais um exemplo de como a música tem o poder de conscientização coletiva, por mais abstrato que isso possa parecer.

Em “Formation”, assim como em outros momentos de sua carreira, Beyoncé fez com que o alcance do broadcasting parasse pra pensar e entender o papel de uma verdadeira popstar. A letra da canção usa a imagem de Beyoncé como forma de ressaltar a riqueza cultural de um povo, uma raça. Pouco importa se ela está certa ou errada – ela levou a discussão adiante, e isso é mais valioso que os milhões que certamente virão depois.

Nesse ramo tão competitivo que é o pop, analisar a música de Beyoncé como um passo adiante do que Taylor Swift enfatizou em 1989 ou estabelecer uma superioridade ao que Rihanna propôs no recém-lançado ANTI paulatinamente fragmenta o poderio feminino que elas tanto endossam.

As mulheres são a salvação atual do pop, e “Formation” não deixa de ser um clamor gritante, uma força arrebatadora desse poder.




Artistas Beyoncé

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Tiago Ferreira

Jornalista bem-humorado. Gosto mesmo é de música torta, amalucada, fora de contexto e ritmo, mas também me emociono com Aretha, Ella, Elis, Nina, Otis, Marley, Bowie, Miles... Além do site Na Mira do Groove, estou à frente, junto com a sócia Beatriz Silva, do serviço Na Mira Assessoria, destinado a novos artistas e bandas musicais.

  1. Messias 12 fevereiro, 2016 at 13:47 Responder

    Interessante post, define bem o conceito da música e traz uma argumentação necessária em termos de gosto musical; Ora, até porque, já que estamos falando de uma cantora pop mainstream, automaticamente teríamos que descartar tal material, sem ao menos analisar sua possível relevância?
    Isso me faz pensar em uma dúvida bem pessoal, que não tem muito a ver com o post, mas que gostaria de questionar mesmo assim (hahahaha): Apesar de eu não ter o costume de louvar obras pop mainstream, tem alguns discos em especial, tais como Thriller (do Michael), Supa Dupa Fly (da Missy), Velvet Rope (da Janet), Ray Of Light (da Madonna), ou até mesmo a trilha do Saturday Night Fever e esse último da Beyonce, os quais eu acho discos bem legais, difíceis de ser ignorados. Mas minha duvida é, tem algum (ou alguns) disco da cultura pop mainstream (incluindo algum dos citados acima) o qual você não hesitaria em dizer que curte mesmo, a ponto até dizer que é um grande disco?.. Enfim, era isso, parabéns pelo trabalho, os textos estão ótimos. Um abraço!

    • Tiago Ferreira 12 fevereiro, 2016 at 14:58 Responder

      Gabriel,
      Não sou lá muito fã dessa separação ‘mainstream’ versus ‘alternativo’, porque põe uma barreira nas cenas como se a popularidade fosse determinante para qualidade. Mas, dê uma fuçada na seção Grandes Álbuns aqui do site, talvez você encontre alguns exemplos.
      Um abraço.

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