BADBADNOTGOOD é ótimo como acompanhamento, mas ainda melhor solo

IV mostra um direcionamento jazzístico, mas não abandona a cozinha sonora que vai do ambient ao hip hop

Gravadora: Innovative Leisure
Data de Lançamento: 8 de julho de 2016

Em apenas 5 anos de atividade o BADBADNOTGOOD tornou-se um dos nomes mais celebrados do acid-jazz. Muito disso deve-se à conexão com o hip hop: a parceria com Ghostface Killah, em Sour Soul (2015), além das ousadas composições geométrico-espaciais agrupados em seus três álbuns anteriores.

Resumo: muita atividade alinhada à muita ousadia ajudaram bastante o quarteto formado por Matthew Tavares (teclados), Chester Hansen (baixo), Alex Sowinski (bateria) e Leland Whitty (sax).

IV é um esforço ainda mais intenso do quarteto de reagrupar e fragmentar referências que vão de Arthur Russell a Weather Report.

A eletrificação já é absorvida com tudo logo em “And That, Too”, que inicia tão explosivo como os discos do Melt Yourself Down. “Speaking Gently” segue uma linha nostálgica de teclados, até que entra a bateria de Sowinski dinamizando o alcance sonoro, expandido ainda mais pelo sax-alto de Whitty.

Vale destacar a importância que o BADBADNOTGOOD deu para o intercâmbio dos sopros neste disco: “Confessions Pt II”, a faixa com colaboração do saxofonista Colin Stetson (Bon Iver, Arcade Fire), valoriza o estilo dele e de Whitty, utilizando a respiração e os espaços como parte do processo composicional.

Em “Chompy’s Paradise”, o espaçamento surge quase como um vendaval, num take bem ambient. Já em “IV” baixa o John Coltrane em Whitty: ele captura os percalços deixados pelo ágil baixo de Hansen, dando peso a cada nota extraída. É por conta de faixas como essa que dá mais vontade de apreciar o lado totalmente jazzístico de BADBADNOTGOOD, mesmo que ele seja apenas parte de sua característica.

Mas, façamos justiça às outras aventuranças musicais de IV: o produtor haitiano Kaytranada joga uma linha house, que o grupo obedece sem fugir de suas modulações. Ela forma um escopo instrumental interessante, mas que parece instigar mais nas canções com vocais – como, por exemplo, na participação do jovem rapper Mick Jenkins, do Alabama (EUA): em “Hyssop of Love”, o BADBADNOTGOOD parece adentrar a imaginação de um J Dilla na produção de um Labcabincalifornia (1995), do The Pharcyde.

Charlotte Day Wilson tem um perfil mais voltado pro R&B, mas isso não muda em muita coisa a forma com que o BADBADNOTGOOD oferece seu aparato musical: o baixo ainda é o grande determinante sonoro do grupo; as entradas dispersas valorizam o canto da canadense e, quando o teclado busca protagonismo, já está tão conectado à cantora, que é como se ela fosse parte da essência do grupo.

Deixar absorver-se pelos músicos com quem toca é recorrente em grupos secundários, mas fazer disso uma forte característica do seu trabalho é o que torna o BADBADNOTGOOD tão requisitado. Fica o gostinho de quero mais das explorações solo do quarteto.

Outros lançamentos relevantes:

The Avalanches: Wildflower (Astralwerks)
Paulo Freire: Pórva (Vai Ouvindo)
Ian William Craig: Centres (130701 / Fat Cat)
Miroslav Vitous: Music of Weather Report (ECM)
Sarathy Korwar: Day to Day (Ninja Tune)


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Artistas BADBADNOTGOOD

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Tiago Ferreira

Editor do Na Mira desde 2010 - que, além de site, também é canal do YouTube e Embaixador Spotify. Já trabalhei como redator de comunicação interna, produtor de conteúdo da B2W (Americanas, Submarino e afins) e repórter de entretenimento, ciência e tecnologia no Vix.com. Também sou colaborador eventual da Revista da Cultura (da Livraria Cultura).


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