Crítica: Shabazz Palaces | Lese Majesty

Segundo disco do duo de hip hop tem um quê de futurista mais pela estranheza do incerto que qualquer suposta ‘previsão’

Gravadora: Sub Pop
Data de Lançamento: 29 de julho de 2014

Pense em um mundo fora do seu tempo. Pode ser na Terra daqui há 222 anos ou em Marte há um quarto de século atrás. Esqueça sonoridade, apenas pense em algo remoto.

Siga o convite deixado em “Dawn in Luxor”: ‘Recupere-nos/Para mais adiante, as formas espaciais’.

Viajar pelas dimensões tornou-se um exercício instigante e desafiador a bordo do Shabazz Palaces. O duo de rap formado por Ishmael Butler e o multi-instrumentista Tendai Maraire trafegou por uma rota ainda mais incerta que a trilhada no excelente Black Up (2011).

Enquanto o anterior carregava indiretamente a bandeira de um hip hop estranho como forma de sobrevivência artística, Lese Majesty se empoeira ainda mais em aventuranças. É mais experimental e de audição ainda mais difícil.

Os beats são enigmáticos, como se nestes últimos três anos a dupla tivesse se distanciado ainda mais de nossa realidade – que já é confusa.

Ao narrar essa nova trajetória, o Shabazz dividiu o álbum em 7 suítes que, se conectadas, pouco dirão sobre os propósitos do disco.

A cada audição o ouvinte fica com a sensação de mais questionamentos, porque pouco da memória sonora de cada um de nós pode ser ativada para estabelecer paralelos com o que a dupla intenta neste trabalho.

Em “They Come in Gold”, o vocoder entra num modular em continuum, enquanto Butler esmiúça algum plano mirabolante. “Harem Aria” tem letra tão alienante quanto os vocais ofegantes em que se sustenta: ‘Não estou perdendo sua mente (mente, mente, mente)’, diz, de maneira praticamente ininteligível.

“Ishmael”, por outro lado, dá um looping em terrenos flertados por DOOM. Tem base que crava na mente, mas seu formato é tão evasivo e infectado por ambiências eletrônicas, que fica fácil prever uma expressão de admiração por parte do ouvinte.

O senso de estranheza já intrínseco a Lese Majesty gera novas discussões sobre como interpretar o hip hop no século XXI. Enquanto alguns nomes forçam a barra para se destacar no gênero, o Shabazz Palaces impõe um modus operandi tão fora de série, que fica impossível prever quais as variadas sensações que passamos ao longo de suas 18 faixas.

Quando parece que vamos ver o duo fixado em algo exploratório em “Down 155th in the MCM Snorkel”, cuja sonoridade é menos estranha do que o título aparenta, nossa bússola se desorienta novamente ao deparar com “#CAKE”, calcada em fragmentos tribais que mostram o ápice da simbiose eletrônico-rap.

“Motion Sickness” é dotada de maneirismos fáceis de perceber em um Jeremiah Jae – suas ondulações programáticas tem um tanto de Schafer, como se o rap estivesse de portas abertas às possibilidades de retrabalhar acústica (como desafia o aclamado trabalho do canadense World Soundscape Project).

Bases, recortes, samplers e programações fluem numa estrutura anárquica dentro do processo criado pelo Shabazz, mas são as reprogramações dos vocais que mais despertam intriga.

Claro que essa intriga tem sua contribuição pois, no meio da palavra cantada a que o rap se associa, formatos vocais têm sido a última das preocupações dos rappers que pululam por aí.

Há uso excessivo de playback, mas aqui o exagero flerta com uma possibilidade fugidia. Em “The Ballad of Lt Major Winnings”, a voz se confunde nos slaps de space-funk. “Noetic Noiromantics” usa a voz como se ela fosse mais um botão no meio de vários deles pressionados durante sua execução. “New Black Wave” sugere um espectro sinistro, conforme Earl Sweatshirt adaptou ao seu estilo, mas é raro exemplo de domínio pela voz de uma forma que provavelmente não nos deparamos antes. Butler foge do lugar-comum e, quando se pensa numa estrutura horizontalizada, logo ele se esconde aos lampejos eletrônicos que prepondera na canção. Some e se mistura aos efeitos.

É irresistível o apreço de classificar Lese Majesty como ‘futuro’ do hip hop, mas vamos ser sinceros, o Shabazz Palaces nasceu isolado e vai permanecer isolado em suas rupturas estéticas.

Por mais elogios que se faça à distinta sonoridade atingida pelo grupo, pouco há que se copiar. Se Butler e Maraire deram um rolê em uma cápsula do futuro, provavelmente vislumbraram uma realidade com pouco ou quase nada de competição. Como Lese Majesty propõe, não dá pra saber se há otimismo ou pessimismo.

A grande sacada do disco é ser tão misterioso quanto nossa imaginação do que deva ser nossa realidade daqui há mais de um século. Certamente, bem estranha.

Muito bom8
Tracklist:

01 Dawn In Luxor
02 Forerunner Foray
03 They Come In Gold
04 Solemn Swears
05 Harem Aria
06 Noetic Noiromantics
07 The Ballad of Lt. Major Winnings
08 Soundview
09 Ishmael
10 Down 155th In The MCM Snorkel
11 Divine Of Form
12 #Cake
13 Colluding Oligarchs
14 Suspicion Of A Shape
15 Mind Glitch Keytar Theme
16 Motion Sickness
17 New Black Wave
18 Sonic Myth Map For The Trip Back

Melhores Faixas: "They Come in Gold", "Noetic Noiromantics", "Ishmael", "#CAKE".
8
Artistas Shabazz Palaces

Share this post

Tiago Ferreira

Editor do Na Mira desde 2010 – que, além de site, também é canal do YouTube e Embaixador Spotify. Já trabalhei como redator de comunicação interna, produtor de conteúdo da B2W (Americanas, Submarino e afins) e repórter de entretenimento, ciência e tecnologia no Vix.com. Também sou colaborador eventual da Revista da Cultura (da Livraria Cultura).


Mais artigos para você:


Sem Comentário

Adicione um comentário