Vincent Ahehehinnou relança clássico perdido do afro-beat: ‘Best Woman’

Raridade originalmente lançada em 1978 foi masterizada pela Analog Africa, com aval do próprio Vincent

Gravadora: Analog Africa
Data de Lançamento: 20 de abril de 2017

Acontecimentos têm o poder de nos fazer repensar como a história seria escrita, e é exatamente isso que vem à mente quando se tem ciência sobre o que aconteceu com o músico do Benim Vincent Ahehehinnou.

Em 1978, ele era o principal vocalista da Orchestre Poly-Rythmo de Cotonou, a maior cidade de seu país de origem. Mas, do nada, ele teve que deixar a big band rumo à outra cidade, em busca de ajeitar a carreira. Por mais que tenha lançado alguns trabalhos solo, Vincent não teve o sucesso e o apoio do público que tinha na orquestra.

Quase 40 anos depois, o selo Analog Africa traz essa história à tona. Para isso, chamou o próprio Vincent para explicar o que aconteceu:

Poly-Rythmo já era popular em sua nativa Benim mas, depois do Festac 77, a banda estava pronta para o estrelato por toda a África. Uma das pessoas que mais se beneficiaram com isso foi o agente da banda, Adissa Seidou, cuja gravadora Albarika Store havia lançado a maioria dos discos da banda. Entretanto, a visão de Adissa para a Poly-Rythmo nem sempre se alinhava com as ideias dos músicos então, com muita frequência, era Vincent quem respondia pela banda.

Os dois homens ficaram cada vez mais distantes, até que um dia – no funeral do pai de Adissa – o agente deu um ultimato a Vincent. Nas palavras do próprio Vincent: “Perguntei a ele se havia uma maneira de resolvermos nossas diferenças, e ele respondeu que a única solução era que eu saísse da banda, acrescentando, ‘senão, vou matá-lo’”.

Afro-beat globalizado

Detalhes mais precisos desse sumiço forçado podem ser vistos no encarte do relançamento de Best Woman, álbum que quase caiu em desgraça quando, ao voltar de Lagos para Cotonou, Vincent se deparou com os militares fazendo revistas violentas no ônibus.

Este álbum, Best Woman, foi idealizado quando ele ainda fazia parte da orquestra de Cotonou, mas recebeu arranjos dos músicos da Black Santiago, liderada por Ignace de Souza. O resultado é um afro-beat globalizado, com pontuações mais demarcadas e presença mais arrojada dos metais.

Alternando entre inglês, francês e as línguas locais mina e fon, Best Woman é um compacto de rica polirritima. Vincent canta como uma estrela que representa o continente inteiro.

Percebe-se a riqueza da justaposição rítmica; o gradualismo sonoro; força intempestiva para baladas (vide “Vi Deka”); e uma característica quase mística, que faz com que a música africana continue soando misteriosa depois de passados tantos anos.

O álbum Best Woman foi lançado originalmente em 1978, com pouquíssimas cópias – tanto que é considerado uma raridade bastante disputada em diversos países da África.

Esta versão masterizada contou com edição de Samy Ben Redjeb, com aval do próprio Vincent Ahehehinnou.

Ouça no player abaixo:

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Tiago Ferreira

Editor do Na Mira desde 2010 - que, além de site, também é canal do YouTube e Embaixador Spotify. Já trabalhei como redator de comunicação interna, produtor de conteúdo da B2W (Americanas, Submarino e afins) e repórter de entretenimento, ciência e tecnologia no Vix.com. Também sou colaborador eventual da Revista da Cultura (da Livraria Cultura).

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