Mesmo se tratando de câncer, Sharon Jones mostrou-se positiva

O adeus de Sharon Jones, a última cantora de soul music

Soul of a Woman foi lançado exatamente um ano após a morte da cantora

Gravadora: Daptone
Data de Lançamento: 17 de novembro de 2017

Sharon Jones talvez seja a última cantora soul. Não, o gênero não morreu: desde que a Motown popularizou o gênero ao direcioná-lo à audiência branca dos Estados Unidos, surgiu a possibilidade de dissociar a soul music de biografias complicadas, que envolvem preconceito, dificuldades financeiras, frustrações, amores perdidos.

Profundas emoções estarão para sempre ligadas ao gênero, é claro, e isso se estende ao R&B: de Kehlani a Solange, por exemplo, há muitos assuntos discutíveis em torno de suas canções sentimentais (ou não).

Entretanto, a vivência é um fator importante quando se fala de soul music. Quando publicou o livro Sweet Soul Music pela primeira vez, em 1986, o autor Peter Guralnick introduziu o assunto com as seguintes palavras: “O que refiro [no livro] é um tipo muito menos controlado, baseado no gospel, um tipo de descobrimento emocional que cresceu junto ao sucesso de Ray Charles, em 1954, e continuou florescendo, ao lado da Motown, nos anos 1960″.

Em seu livro, Guralnick fala de Aretha Franklin, Sam Cooke, Solomon Burke, Otis Redding, Sam & Dave, das gravadoras Atlantic, Muscle Shoals, Stax. É um movimento que, visto pelo olhar histórico, soa como uma cena. Mas, não é bem assim. Sharon Jones e, pouco tempo depois, Charles Bradley, são provas de que a soul music é o espelho mais idôneo dos percalços de dificuldade.

Capa de Soul of a Woman, disco póstumo de Sharon Jones

Do sul ao Brooklyn

Sharon nasceu no Sul dos Estados Unidos e cresceu nos estados de Georgia e Carolina do Sul. Inspirada por Aretha e James Brown, ela tentou uma carreira musical, sem nenhum sucesso, nos anos 1970. Depois, ela e sua mãe saíram escondidas para a região do Brooklyn (Nova York), para escapar do padrasto violento.

Em todo esse tempo, cantou em muitas igrejas, conheceu alguns proprietários de grandes gravadoras, mas o fato de ser mulher com o que muitos consideraram ‘acima do peso’ dificultou ainda mais sua trajetória.

Para se sustentar, chegou a trabalhar como carcereira, onde, inclusive, obteve bons aplausos dos presidiários nos poucos momentos em que se furtou a cantar.

Na região do Brooklyn, ela conheceu o grupo Dap-Kings, com músicos fascinados pelo soul-R&B dos anos 1960. Ali, ela se encaixou perfeitamente: sua firmeza vocal permitia ir do blues ao funk sem economizar nada do importante fator emocional, tão caro à música negra.

A partir do primeiro disco, Dap Dippin’ (2001), parte da crítica especializada gostou do que ouviu. Vieram Naturally (2005), 100 Days, 100 Nights (2007), até que I Learned the Hard Way (2010) finalmente lhe rendeu a projeção que tanto ansiava.

Contra a dor, positivismo

É difícil analisar o trabalho de Sharon por discos isolados. Mas, assim como a vida, a arte tende a ser melhor compreendida em movimentos cíclicos. Por isso mesmo, o disco póstumo da cantora, Soul of a Woman, tem o peso de um adeus. Um adeus um tanto doloroso – afinal, a cantora estava lutando contra o câncer no pâncreas, e muitas canções trazem o peso dessa dor.

Comparado a outros trabalhos, Soul of a Woman é musicalmente mais tocante. Ela começa otimista, em “Matter of Time”, valoriza a biografia repleta de dificuldades em “Come and Be a Winner”, deposita as forças no doo-wop em “Searching for a New Day”. Paz e justiça parecem bandeiras possíveis na voz de Sharon, que não titubeia em nenhum momento.

Mais que um disco de superar a fraqueza, Soul of a Woman é a capacidade plena de fazer da música um mantra de cura. Isso, claro, exige esforços. Sharon arrasta sua técnica vocal do gospel ao funk, às vezes instigando boas danças, como em “Rumors”, com clara influência latina, ou aproximando-se da alma do ouvinte, como na tocante “When I Saw Your Face”.

Na última canção do disco, “Call On God”, ela se volta a um rhythm’n blues puxado por piano e órgão, estreitando ainda mais um forte laço espiritual com Deus, até entregar-se ao poder da música gospel, com coros emocionantes. Ao ouvir a canção, agora, um ano depois de sua morte, imaginamos como seria essa performance em um plano espiritual. É o final de um ciclo com dificuldades do começo ao fim, cujas glórias se materializaram em canções potentemente sinceras e, ao mesmo tempo, positivistas. Esse tipo de soul music foi-se com Sharon Jones.

Confira também uma playlist especial dedicada a Sharon Jones (siga o Na Mira no Spotify):

Artistas Sharon Jones

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Tiago Ferreira

Editor do Na Mira desde 2010 – que, além de site, também é canal do YouTube e Embaixador Spotify. Já trabalhei como redator de comunicação interna, produtor de conteúdo da B2W (Americanas, Submarino e afins) e repórter de entretenimento, ciência e tecnologia no Vix.com. Também sou colaborador eventual da Revista da Cultura (da Livraria Cultura).


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