Graxa canta a epopeia do artista independente

Em 3º disco, A Concorrência é Demais!, pernambucano faz uma ópera-rock sobre as muitas questões culturais por trás do músico

Gravadora: Independente
Data de Lançamento: 17 de julho de 2017

Quando lançou Aquele Disco Massa, em 2015, Graxa contou ao Na Mira que o foco era abordar o consumo cultural e o papel do artista no meio disso tudo.

Uma das maiores barreiras era a insistência nos ícones do passado, os ‘deuses do rock’, que impedem que o novo chegue a um status próximo ao ídolo.

No cenário roqueiro, isso faz bastante sentido. Enquanto o pop coleciona bilhões de visualizações nos sites de streaming, reprocessando os ganchos que dão certo de diversos gêneros musicais, o rock continua preso demais aos clichês que se apegou para sobreviver.

Mas, em vez de fazer mais críticas a esse modelo, Graxa tenta trazer mais soluções em seu novo álbum, A Concorrência é Demais. O título dá a entender uma certa resignação – algo que faz sentido para um músico independente fora do eixo Rio-SP (Angelo Souza é de Recife).

Ópera-rock independente

De cara, o aviso da faixa-título: ‘Eu nunca lhe pedi nada/Se pedi não custa nada lembrar/Vá lá na internet/Procure no google meu fi‘.

Há um bom motivo para que o primeiro tema seja uma introdução. Graxa diz que o objetivo deste trabalho era criar uma ópera-rock, narrando “a história do artista que, após analisar o consumo musical/cultural, volta pra sua terra ao perceber que o mundo externamente, fora do seu, não é/foi condizente com o esperado”.

Ele cita bairros recifenses, como em “Personalidades do Inocoop”, e se mostra bem indignado com o falatório pouco prático que ronda a cena musical. Com muitas guitarras distorcidas, em “Ladainha é Negócio de Padre” ele reclama da má-fé dos outros quando se deparam com sua arte: ‘Você não perde mesmo essa mania/De botar muita fé em encosto/Pela experiência você devia/Evitar bicudo do desgosto‘.

A seguinte, “Las Fofoqueiras”, é uma espécie de continuação: ‘Você sabe que a língua desse povo/É uma trena pra medir seus desgostos‘.

Graxa cita como referência de sua obra o grupo The Kinks, certamente a maior inspiração de “Hare Feito”, que parece ter sido gravada após muitas audições de The Village Green Preservation Society (1968).

Do desestímulo do público, chegando ao isolamento típico do universo hippie até passar pelo que parece uma experiência lisérgica (“Deepest of Soul”), inevitável chegar ao dilema de fazer aquilo que os outros esperam para se obter o mínimo de destaque. Este é o mote de “Pequenos Favores, Grandes Problemas”, certamente a expressão que melhor resume o perrengue de ser músico independente. Nela, Graxa diz: ‘Entre o peço e não levo/Quero e me quebro/Pega no tranco/hum, tá funcionando‘.

Caos no exercício artístico

A trajetória posta em A Concorrência é Demais! revela um conflito eterno entre princípios e divulgação da arte. Essas respostas são colocadas por meio de reações e expressões do personagem de Graxa: em “A Senhora é Destruidora Mesmo”, há uma admiração em relação à atitude de uma mulher, mesmo que seja por meio das vestimentas.

Já na última canção, “Gostei de Ti”, a sonoridade da bateria e um tipo de guitarra pós-punk que vai de encontro com a psicodelia revelam um estranho gosto pela simplicidade – ainda que imbuído de caos, devido aos ecos intermitentes.

“O disco cerceia a ideia de conflitos externos e internos, tendo o ideal de concorrência como um duplo”, explicou Graxa sobre o disco.

Se não tem outro jeito, o ideal é equilibrar a balança. Segundo o músico, essa dualidade pode até ser “sufocante demais”. Mas, “necessário para o exercício artístico”.

Errata:

• Angelo Souza é natural de Recife, e não Jaboatão dos Guararapes, como estava anteriormente.

Artistas Graxa

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Tiago Ferreira

Editor do Na Mira desde 2010 – que, além de site, também é canal do YouTube e Embaixador Spotify. Já trabalhei como redator de comunicação interna, produtor de conteúdo da B2W (Americanas, Submarino e afins) e repórter de entretenimento, ciência e tecnologia no Vix.com. Também sou colaborador eventual da Revista da Cultura (da Livraria Cultura).


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