Armando Lôbo, em foto de Suzanne Heffron e arte de Renée Melo

Contra a miopia, Armando Lôbo injeta convergência estética

Em 3º disco, Myopic Serenade, compositor pernambucano retrabalha as culturas popular e erudita com frenética ousadia

Gravadora: Independente
Data de Lançamento: 21 de novembro de 2017

O que seria uma miopia satírica? O compositor pernambucano Armando Lôbo, estudante PhD de composição musical da Universidade de Edimburgo (Escócia), sugere que tem a ver com o olhar que temos de nossa própria cultura, de nossa própria música.

Laureado com o Prêmio da Música Brasileira em 2010, com o álbum de estreia da Orquestra Frevo Diabo, Lôbo chega a seu 3º disco solo questionando a estética, o folclore e o comportamento da cultura brasileira – e do próprio brasileiro – no intrigante Myopic Serenade.

Clássico e popular são entrecruzados em melodias que extraem influências que vão da psicodelia ao maracatu. Em uma mesma canção, tem-se ecos de Arrigo Barnabé e Lula Côrtes – caso, por exemplo, de “Pindaré Reloaded”, que menciona o boi do Maranhão em meio a barros e muitos fios elétricos, num caso de convergência entre tradição enraizada e traços de cosmopolitismo.

O trabalho de Lôbo é de um multiinstrumentista atento por todos os contornos de sua obra. Ele é responsável por vozes e também toca cavaquinho, guitarra, sintetizador, percussão e realiza algumas programações.

Capa do disco Myopic Serenade, de Armando Lôbo

Do funk ao fusion

A ênfase dos metais vem de uma influência do fusion. Assim, o som do trompete de Cameron Oogabooga Jay soa mais etéreo na homenagem a David Bowie, em “Lady Lazarus” (com participação da cantora Lissa Robertson).

O trombone-baixo de Michael Owers cria interessante contraponto ao cavaco em “The Loner and the Crowd”, que também explora o diálogo com o trompete de Jay.

Das diversas explorações estéticas de Myopic Serenade, Lôbo aventura-se para desfigurar a gafieira, em “Mestre Coriolano”, brinca com as possibilidades do heavy metal, em “Vade Retro”, além de despir totalmente sua obra a uma interessante proposta acústica, em “The Bride Song”.

A última canção do disco, “Tantra (Proibidão)”, cria um triplo processo híbrido: injeta efeitos progressivos e um tipo de som de orquestra minimalista à essência do funk carioca. São mais de 8 minutos sem vocais. Entretanto, os experimentos correm à solta na mais intrigante composição de todo o álbum. Segundo o músico, o tema é “uma catarse elaborada e vagabunda, que faz uma provocação à onda opinativa rasteira da cultura brasileira atual através da combinação de funk carioca com a música de vanguarda eletroacústica”.

Ouça Myopic Serenade na íntegra a seguir:

Artistas Armando Lôbo

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Tiago Ferreira

Editor do Na Mira desde 2010 – que, além de site, também é canal do YouTube e Embaixador Spotify. Já trabalhei como redator de comunicação interna, produtor de conteúdo da B2W (Americanas, Submarino e afins) e repórter de entretenimento, ciência e tecnologia no Vix.com. Também sou colaborador eventual da Revista da Cultura (da Livraria Cultura).


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