Céu: Caravana Sereia Bloom – faixa a faixa

As primeiras impressões do Na Mira sobre o terceiro disco de estúdio da cantora

Que Maria do Céu é uma das maiores cantoras brasileiras de nosso tempo, não resta dúvidas. Além de ser uma ótima compositora, cravou versões notáveis de clássicos de Bob Marley e Jorge Ben em trabalhos anteriores – sem esquecer da versão de “Tempo de Amor” (Vinícius de Moraes/Baden Powell), junto com ninguém menos que Herbie Hancock.

Mas existe um tempero ali que faz com que ela permaneça (ou suba ainda mais) no topo: os arranjos, que reforçam a malemolência e a fineza de seu trabalho. Foi assim quando Beto Villares produziu seu debut, e assim continua se desenvolvendo em sua parceria certeira com o marido Gui Amabis.

Carnaval Sereia Bloom é o aguardado terceiro disco da cantora, que vazou antes do lançamento oficial, dia 14 de fevereiro. Ele veio depois de um hiato de três anos, tempo de Vagarosa, bem influenciado pelo dub e reggae. (Aliás, ela gosta bastante dessa vertente. Lembram de sua versão de “Concrete Jungle”, né?)

O novo disco tem uma duração mais curta que os anteriores: cerca de 35 minutos. Mas carrega uma intensidade e maturidade maior que os outros.

E, claro, o Na Mira não poderia deixar de falar um pouco sobre cada uma das 13 faixas desse álbum que, numa primeira audição, já esbanja beleza estética e poética. Confira:

1. “Falta de Ar”
Já começa com uma bela sincronia entre órgãos e guitarras, com influências do som da Stax Records. A cantora devaneia, diz que anda de foguete, mas traz uma abordagem que vai além de sua respiração. “Ainda não vou [pro espaço]/Porque é osso/Pro ser humano/Viver é pouco”, canta. Ela fala novamente sobre aproveitar a vida, mas de uma forma toda dela. Neste caso, digamos que ela tenha pegado a caneta depois de assistir 2001: Uma Odisseia no Espaço.


2. “Amor de Antigos”
Pode-se dizer que é um brega-sofisticado. Brega porque a cantora arrasta os vocais no refrão, levado por uma ambientação típica de jukebox de boteco decadente. E… sofisticado, por conta deste verso convidativo: “Eis que arde/Na lembrança de outrora/Vem comigo mundo afora/Em qualquer lugar que eu ande”. Coisa antiga, de baile. Sua avó vai adorar essa música – e você, provavelmente, também.


3. “Asfalto e Sal”
Levado por uma pulsação regueira, Céu envereda por caminhos da surf music usando o sal da água do mar como “memórias” que “tenho para abastecer”. Provável novo hino para aqueles que gostam de praia: “O asfalto que te conta a história/A toalha de sal que segura/Mais uma gota do mar”. Que vontade de dar um tchibum!


4. “Retrovisor”
Essa você já deve conhecer, por ser o primeiro single de Caravana Sereia Bloom. A roupagem sonora tem uma forte pegada nordestina, por conta da guitarra de Fernando Catatau e a levada esperta na bateria. Inclusive, o videoclipe da canção foi gravado em Itamaracá, no litoral de Pernambuco. Céu engrandeceu nessa música – muito por conta da produção, por buscar uma crueza tácita. Uma das melhores músicas dela, sem dúvidas.


5. “Teju na Estrada”
Uma vinheta célebre, com referências afro puxadas pela percussão e vocais oníricos que flutuam. Tem menos de um minuto.


6. “Contravento”
Os atabaques pulsantes entram em contraste com trilhas de suspense inusitadas. Elas vão entrando em choque, como se servissem de exemplo prático de “irem contra a parede”, como Céu canta. Como isso acontece, ela já fala logo de início: “Passa na nossa cabeça”.


7. “Palhaço”
É uma música crua levada por voz e violão em um belo dueto com seu pai, Edgard Poças. A versão dessa composição de Nelson Cavaquinho (junto com Oswaldo Martins e Washington Fernandes) é bem nostálgica, puxando mais para a bossa nova que para o samba. Mas Amabis, é claro, não poderia deixar de interpor um arranjo que deixasse a musicalidade ainda mais bucólica que a letra: “Sei que é doloroso pro palhaço/Se afastar do palco por alguém/Volta, que a plateia te reclama/Sei que choras, palhaço”.


8. “You Won’t Regret It”
Mais um cover, só que internacional. A música é de autoria de Lloyd Robinson e Glen Brown. Assim como a versão original, ela é levada por um ska, mas parece que vemos um pouco de Jackson 5 e rhytm’n blues, como se Céu juntasse um caldeirão de referências antigas de uma vez só. Nem parece que é uma cantora brasileira que canta, devido à sua pronúncia impecável (ela já morou por um tempo no exterior).


9. “Sereia”
Mais uma vinheta, desta vez inspirada pela filha, que se chama Sereia Rosa Morena, com Amabis.


10. “Baile de Ilusão”
Outra composição de força de Céu. É bem dançante e tem requintes modernos, mas parece que a cantora tenta te transportar para os anos 1940, para você sentir a atmosfera da sua nostalgia. Acho que todos nós criamos uma espécie de ‘fantasia que fingimos esquecer’, seja para aproveitar a realidade ou seja para esquecê-la completamente. Linda música.


11. “Fffree”
Aqui percebemos que as poucas palavras intimistas de Céu evocam uma procura intensa por liberdade. Teria a cantora encontrado ela?


12. “Streets Bloom”
Mais uma cantada em inglês. Aqui a voz de Céu é sedutoramente hipnótica, tal qual uma sereia do concreto que provoca inveja devido à sua livre poeticidade. Não tenho certeza, mas suponho que Dengue tenha tocado baixo nesta canção. E é o baixo que puxa o suspense dessa letra densa.


13. “Chegar em Mim”
Jorge DuPeixe, do Nação Zumbi, escreveu essa música para Céu. E ela tem um senso dúbio de realidade: afinal, que fã ou admirador de seu trabalho não quis ‘chegar nela’, não? Haha, mas aqui ela fala de ‘fagulha no peito’, um ‘grito que ninguém ouviu’. Fala de como uma mulher encara a timidez de um rapaz que a interessa, mas que não tem ‘coragem’ de chegar nela. Encerra com a serenidade de uma brisa do mar, tal qual uma sereia que não tem medo de se expor.

Não perca: em poucos dias, o Na Mira trará uma crítica de Caravana Sereia Bloom. E você, curtiu o disco?

Artistas CéU

Share this post

Tiago Ferreira

Editor do Na Mira desde 2010 - que, além de site, também é canal do YouTube e Embaixador Spotify. Já trabalhei como redator de comunicação interna, produtor de conteúdo da B2W (Americanas, Submarino e afins) e repórter de entretenimento, ciência e tecnologia no Vix.com. Também sou colaborador eventual da Revista da Cultura (da Livraria Cultura).


Mais artigos para você:


  1. Zé Henrique 15 fevereiro, 2012 at 02:55 Responder

    Pô, Tiagão, sou grande fã de Céu e vc sabe que sendo assim a gente faz força pra gostar do novo trabalho de quem a gente gosta.
    Mas, cara, curti não.
    Abandonar quase que completamente o reggae/dub malemolente pra cair nesse pop/rock a lá Karina Buhr – modernoso, enfeitado e com boa letras – não me pareceu boa idéia.
    É pra frente que se anda, assim nos ensinou nosso caríssimo Chico Science, mas acho que ela deu um passo pra trás.

    Abraço

    • Tiago Ferreira 15 fevereiro, 2012 at 14:23 Responder

      Olha Zé, acho que você deve dar uma chance a mais a esse disco.

      Achei ele, numa primeira audição, muito bom! Tudo bem que ainda prefiro o primeiro, produzido pelo Beto Villares – pelo menos por enquanto.

      Entretanto, achei que houve uma simbiose muito bacana entre a guitarra do Catatau e a voz da Céu que agora está, digamos, um pouco mais revigorada. Achei “Retrovisor” e “Baile da Ilusão” canções lindas – os melhores exemplos de como ela se superou. Mas também o disco é mais efêmero, não chega a ter 35 minutos.

      E os efeitos estão macabros: aquela guitarra de “Retrovisor” é muito f*da, não canso de escutar essa música. E a versão de “O Palhaço” também ficou bacana. Mas, em primeira análise, só posso falar exaustivamente bem dessas três músicas. Ainda vou escutar com mais calma e estou curioso pra ver como será o disco ao vivo, se vai render.

      Abraço!

  2. Zé Henrique 15 fevereiro, 2012 at 15:53 Responder

    Eu vou dá outras chances, claro.
    Acontece muito isso da gente não gostar de um disco à primeira vista e depois o adorar. Como tb acontece com pessoas.
    Mas, sei lá, me pareceu que ela perdeu o rumo influenciada por terceiros.
    Enfim.

    PS: Retrovisor e Baile da Ilusão tb são minhas preferidas.

    Abraço

Poste um novo comentário