As muitas interligações musicais nas correntes de Zé Cafofinho

Mesmo com apenas dois álbuns lançados, Zé Cafofinho e Suas Correntes revisitam a música popular nordestina com a mesma irreverência de seus antepassados

Zé Cafofinho (ao fundo, no violino de arco) e Felipe Gomes (bandolim)

Diversão e muita musicalidade são alguns dos principais aspectos dos grupos nordestinos no cenário alternativo, e com Zé Cafofinho e Suas Correntes não poderia ser nada diferente. Projeto de Tiago Andrade, que assume as rabecas, voz e viola de arco, o grupo tem liberdade de sobra para passear em referências do ska, jazz, funk com muito órgão Hammond e regionalismos sempre mantendo a essência festiva do frevo e do forró.

Toda a intensa musicalidade extraída pelos músicos do Zé Cafofinho e Suas Correntes só enfatizam as composições alegres e muito bem pontuadas

As letras são bem divertidas: “Xirlei”, penúltima faixa do seu último álbum, Dança da Noite, começa com um xaxado abafado dizendo que a mulher vai “preparar café coado na calcinha pra te aguçar”. Tiago busca algumas referências do brega dos bailes de forró pernambucano e puxa para uma dança descontraída e bem gostosa graças ao trompete esvoaçante de Marcio Oliveria, dando aquela pitadinha apimentada de jazz brasileiro.

Além de Tiago e Marcio, as correntes de Zé Cafofinho são interligadas por Felipe Gomes (banjo e guitarra), Claudio Negão (baixo) e Rapha B (bateria). Eles já lançaram dois discos de forma independente: Um Pé na Meia, Outro de Fora (2006) e o Dança da Noite (2009).

A intenção é revisitar o popular com erudição sem perder a essência prazerosa do descompromisso. E quando digo erudição, é muito bom fazer um parênteses: toda a intensa musicalidade extraída pelos músicos só enfatizam as composições alegres e muito bem colocadas. Para se ter ideia da potência do trabalho de Zé Cafofinho e Suas Correntes, o último disco contou com a parceria de Arnaldo Antunes nas produções, e o primeiro, teve um rol de colaborações ilustres do cenário musical pernambucano, como China, Pupilo (Nação Zumbi), Bactéria (Mundo Livre S/A), Chiquinho e Marcelo Machado (ambos do Mombojó).

“Conceição”

“Diké”

Lógico que experimentar múltiplas referências musicais oriundas do nordeste e transportá-las para a cultura ocidental como um todo resultariam em um trabalho icônico. Em “Canabrava”, por exemplo, as baterias jazzísticas dialogam com os synths de dub e o violino de arco, formando uma psicodelia nordestina bem moderna e inovadora.

O samba-rock-forró é um gênero que poderia descrever muito bem “Diké”: o sotaque carregado e as gírias locais do Pernambuco podem fazer da canção um hit de churrasco, fazendo um elo de ligação entre Bezerra da Silva e Dominguinhos.

Em 18 de agosto, o grupo vem para São Paulo se apresentar no Itau Cultural. Grande oportunidade para ver em cena um grupo que mistura festividade e experimentalismo com bastante propriedade, mesmo com apenas dois álbuns. Vai perder?

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Tiago Ferreira

Editor do Na Mira desde 2010 - que, além de site, também é canal do YouTube e Embaixador Spotify. Já trabalhei como redator de comunicação interna, produtor de conteúdo da B2W (Americanas, Submarino e afins) e repórter de entretenimento, ciência e tecnologia no Vix.com. Também sou colaborador eventual da Revista da Cultura (da Livraria Cultura).


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