A voz da Paraíba ecoa no instrumental do Burro Morto

Afro-beat à brasileira? Rock psicodélico? Regionalismo em nova roupagem? Assimile tudo isso: conheça o som do Burro Morto

Banda paraibana lançou seu segundo álbum no início de janeiro deste ano

Se tem um gênero que tem colhido ótimos frutos na música brasileira, esse gênero é o instrumental. Depois de Macaco Bong abrir as portas com Artista Igual Pedreiro, milhares de outros grupos saltaram aos ouvidos com suas experimentações sonoras, principalmente no âmbito do rock. Com o Burro Morto, o contexto é um pouco diferente.

Oriundos da Paraíba, os cinco membros do grupo começaram a tocar juntos por volta de 2008. Depois de um trabalho muito intenso, com gravações em estúdio caseiro que chegavam a durar 12 horas por dia, o Burro Morto conseguiu solidificar uma sonoridade única, que ainda assim mantém as raízes brasileiras. O som poderia ser descrito como afrobeat, mas também há um pouco de psicodelia e até mesmo elementos um pouco roqueiros.

Das referências claras, dá pra citar Lula Côrtes, Fela Kuti e até mesmo as bandas sessentistas de São Francisco. Seria uma mistura estranha, mas o resultado soa profícuo para um grupo que, em pouco tempo de atividade, já carrega no currículo dois álbuns: Varadouro (2009) e Baptista Virou Máquina (2011).

Enquanto o primeiro surgiu mais como uma compilação dos singles lançados, o último criou uma ambientação mais conjuntural, quase um disco conceitual. Por mais que seja instrumental, Baptista Virou Máquina retrata as diversas passagens de um personagem que está começando a descobrir algo novo.

E cada faixa tenta transmitir suas emoções interiores: “Baptista, o Maquinista” mostra algumas características assimiladas pela meteórica transformação; já “Foda do Futuro” tem uma pegada mais industrializada, ganhando uma roupagem mais psicodélica com os teclados de Haley Guimarães. Neste momento, é como se Baptista fosse se mecanizando aos poucos.

Burro Morto: “Foda do Futuro”

Quando se fala em afrobeat, a tendência é sempre reduzi-lo a um movimento saudosista. Burro Morto consegue dar uma roupagem mais exótica e até eletrônica ao gênero, revestindo-o com muito avant-garde (“Navalha”, do primeiro disco), rock (“Foda do Futuro”), experimentalismo (“Tocandira”) e até mesmo algumas melodias regionalistas (se você analisar bem, a canção “Cabaret” tem um ritmo meio forrozeiro, algo intrínseco à região Nordeste. Até dá pra dançar).

Em um contexto cada vez mais difícil de encontrar bandas com sonoridades orgânicas, Burro Morto surge como um dos maiores paradigmas na cena musical brasileira. Eles já passaram por alguns perrengues no passado, como ficar mais de 48 horas em um ônibus para poder se apresentar em São Paulo.

Ficaram extasiados com o resultado positivo que obtiveram, mas ainda caminham na trilha do reconhecimento. A unidade é inconteste. Aceitação, não é difícil garantir. Talvez o que realmente falta é divulgação.

Artistas Burro Morto

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Tiago Ferreira

Editor do Na Mira desde 2010 - que, além de site, também é canal do YouTube e Embaixador Spotify. Já trabalhei como redator de comunicação interna, produtor de conteúdo da B2W (Americanas, Submarino e afins) e repórter de entretenimento, ciência e tecnologia no Vix.com. Também sou colaborador eventual da Revista da Cultura (da Livraria Cultura).


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