Dub 40 anos: Lucas Santtana lista 9 discos influentes

De Colonel Elliott a Dub Colossus, passando por Augustus Pablo, Dreadzone, Laroz…

Fortemente associado ao reggae e à cultura jamaicana, o dub faz uso da base baixo e bateria com sobreposições de efeitos criativos dentro das possibilidades de estúdio.

Mais que um gênero musical, o dub é o retrato fiel de uma época de descobertas sonoras, que de certa forma revolucionaram a gravação em estúdio na Jamaica para logo expandir sua influência por todo o mundo.

Agora, em 2013, comemora-se os 40 anos deste gênero, que se mostra mais influente do que nunca na música brasileira.

Para selar essa data, o músico e compositor Lucas Santtana organizou nos últimos dias 10 e 11 de setembro no Sesc Vila Mariana (São Paulo) o show Dub 40 Anos, que contou com participações de Anelis Assumpção, Thiago França, Bi Ribeiro (Paralamas do Sucesso), Bruno Buarque, Guizado, entre outros (mais detalhes sobre o show, confira esta entrevista para o site Azoofa).

Em meio às correrias com shows e agendas, Lucas Santtana fez uma pequena lista a pedido do Na Mira de 9 álbuns influentes do gênero, que de alguma forma estão condensados em sua produção musical.

Sem ordem de preferência, o músico foi de Colonel Elliott a Dub Colossus, passando por Adrian Sherwood, Rhythm & Sound, Augustus Pablo e mais. Tem bastante raridade aqui: trabalhos que valem a pena conhecer para expandir o conhecimento sobre o gênero.

A lista completa está abaixo em ordem de ano de lançamento, com algumas informações técnicas por conta da gente.

Divirta-se:

Interstellar Reggae Drive

Colonel Elliott & The Lunatics

Ano: 1973
Gravadora: Rhino/EMI

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Lucas Santtana: “Dub doidão, meio George Clinton, Parliament, meio Sun Ra… O [produtor] Buguinha Dub que me aplicou”.

O nome ‘interstellar’ não está ali por mero ocaso. A grande influência do único disco que se tem registro de Colonel Elliott foi a viagem do homem ao espaço. Elaborado entre 1970 e 1973, o disco traz uma incrível injeção de sintetizadores e guitarras em síncope, explorando efeitos extremados que nos remetem à turbulência espacial. Se o termo space-reggae pode ser utilizado, melhor exemplo que este disco não há.

Ouça: “Guns of the Martian Giants”


Forces of Victory

Linton Kwesi Johnson

Ano: 1978
Gravadora: Island

Lucas Santtana: “Um dos meus discos prediletos. Ouço muito, sempre. Poeta maior do dub”.

Injustamente pouco conhecido por nossas terras, o dub-reggae de Linton Kwesi Johnson experimenta as nuances de tempo, com quebradas de bateria e composições muito bem encaixadas que falam de sentimentos e confrontos. Os arranjos de metais são estupendos, vide “Independant Intavenshan” e “It Noh Funny”, cuja sincronia entre letras, produção e justaposição instrumental dentro do gênero ainda não encontra paralelos.

Ouça: “Independant Intavenshan”


Dub, Reggae & Roots From the Melodica King

Augustus Pablo

Ano: 2000
Gravadora: Ocho

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Lucas Santtana: “O mago da delicadeza com sua melódica e seus vibrafones. Dub para sonhar acordado”.

Só a nata do reggae e do dub em mais um dos muitos pontos altos da carreira de Augustus Pablo. Além das participações de Jacob Miller (“Baby I Love You So”), Bongo Pat (“Young Generation”), Norris Reid (“Give Praise”) e Tetrack (“Let’s Get Together”), o disco teve o mestre King Tubby na engenharia sonora e colaborações de Aston Barrett (um dos maiores baixistas do gênero, que tocou com o The Wailers), Robbie Shakespeare (do Sly & Robbie) e a batuta do gênio mais maluco de toda a Jamaica: Lee ‘Scratch’ Perry.

Ouça: “Memories of the Ghetto”


Sound

Dreadzone

Ano: 2001
Gravadora: Ruff Life

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Lucas Santtana: “Gosto de dub eletrônico e essa galera faz um som de pista que se aproxima do electro”.

Uma das forças propulsoras do gênero na Grã-Bretanha, o Dreadzone está na ativa desde 1993 e até hoje continua experimentando com as nuances da eletrônica. Até chegar a este quarto álbum, o Dreadzone se apresentou no Glastonbury, contou com a colaboração vocal de Goldfrapp e foi elogiado pelo lendário radialista John Peel (que citou o álbum Second Light, de 1995, como um de seus preferidos de todos os tempos).

Ouça: “Straight to a Soundboy”


Never Trust A Hippy

Adrian Sherwood

Ano: 2003
Gravadora: Real World

Lucas Santtana: “Foi com esse disco que entendi que o dub era uma técnica de mixagem e que poderia ser aplicada a qualquer estilo de música. Escutei bastante antes de gravar o 3 Sessions in a Greenhouse (2006)”.

Efeitos megalomaníacos flertam diretamente com funk, industrial e trance no primeiro trabalho solo de Adrian Sherwood. Essa ponte com outros gêneros é explicável: o britânico produziu Time Boom X De Devil Dead (1986), de Lee ‘Scratch’ Perry, remixou Einstürzende Neubauten e Primal Scream, trabalhou com Nine Inch Nails e Cabaret Voltaire, além de experimentar alguns sons com Sly & Robbie. Never Trust A Hippy mostra que a ponte entre dub e eletrônico pode encontrar direções imprevisíveis e bem interessantes.

Ouça: “X-Planation”


See Mi Yah

Rhythm & Sound

Ano: 2005
Gravadora: Burial Mix

Lucas Santtana: “Só conheço os compactos deles, nem sei se fizeram LP, mas sou fã do estilo minimal que eles fazem”.

A imagem acima mostra que existe, sim, um disco do duo germânico. Para se ter uma ideia, imagine os efeitos do dub encaixados no IDM matemático de um Aphex Twin em seus primeiros anos. Se formos mais além, diria que ainda se encaixa aí algo de Structures From Silence (1984), de Steve Roach, mas com adequação às pistas. Para chegar a esse som, Mark Ernestus e Moritz von Oswald trabalharam com Cornell Campbell, Jennifer Lara e o lendário Jah Cotton.

Ouça: “See Mi Version”


Laroz Sound System

Laroz

Ano: 2006
Gravadora: Larozmusic

Lucas Santtana: “Eles fazem um dancehall que não deixa ninguém parado”.

Há muitas cenas entrelaçadas no som do israelita Laroz Haim. Ele tocou em grupos pop, foi um dos primeiros de seu país a experimentar com a eletrônica nos anos 1990, teve influência do drum’n bass e trouxe para sua música elementos do reggae jamaicano e do hip hop. O que se tem é um dancehall inspirado pela linha Cutty Ranks, mostrando que o diálogo no gênero é mais universal do que o eixo Grã-Bretanha/Jamaica/América Central. Perfeito pra quem gosta de Damian Marley ou Congo Natty.

Ouça: “Bit Box Dancing”


Memories of the Future

Kode9 + The Spaceape

Ano: 2006
Gravadora: Hyperdub

Lucas Santtana: “Clássico seminal do dubstep”

Quando se fala das origens do dubstep, invariavelmente voltamos lá pra Untrue (2007), do Burial, que seria lançado pouco depois. Não que o gênero manipulado por Skrillex deva tanto a este trabalho, mas uma coisa é certa: Memories of the Future é o disco que melhor liga as inovações futurísticas musicais do passado com as possibilidades de um futuro que, naquele tempo, era mais incerto que agora. A BBC estabeleceu um link esperto entre a música do mencionado Linton Kwesi Johnson e a fase Sign O’ The Times (1987), de Prince, envoltos no espectro de uma paranoia urbana – que parece ser ainda mais obsessiva com os vocais temerosos sobre batidas misteriosas.

Ouça: “Backward”


A Town Called Addis

Dub Colossus

Ano: 2008
Gravadora: Real World

Lucas Santtana: “Descobri faz pouco tempo. Eles fazem uma mescla de dub com a cultura musical árabe, coisa fina”.

Estabelecendo pontes entre a música azmari, o ethio-jazz de Mulatu Astatke e, claro, o dub, o grupo egípcio Dub Colossus é uma cria do experiente Nick Page, que começou sua carreira tocando com Mykaell Riley (ex-membro do Steel Pulse) e, em 1990, formou o Transglobal Underground fundindo western com elementos da música africana. A Town Called Addis é o primeiro disco do grupo. Uma das grandes marcas de sua sonoridade também reside na exuberância vocal de Sintayehu ‘Mimi’ Zenebe.

Ouça: “Azmari Dub”

 

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Tiago Ferreira

Editor do Na Mira desde 2010 - que, além de site, também é canal do YouTube e Embaixador Spotify. Já trabalhei como redator de comunicação interna, produtor de conteúdo da B2W (Americanas, Submarino e afins) e repórter de entretenimento, ciência e tecnologia no Vix.com. Também sou colaborador eventual da Revista da Cultura (da Livraria Cultura).


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