Cardi B, a rapper que causou em 2017, tinha que estar na lista

30 melhores músicas de 2017 (nacionais e internacionais)

Cardi B, BaianaSystem, Kendrick Lamar e mais na seleção. Tem vídeo explicando os 10 melhores e playlist no Spotify com todas as músicas

Assim como fizemos com a lista dos melhores discos, aqui aplicamos: nacionais e internacionais tudo junto.

Quando se trata de singles e músicas avulsas, essa junção chega até a fazer mais sentido. O pop brasileiro tem disputado com o pop americano e britânico quando o assunto é visualização no YouTube – vide os exemplos de MC Fioti, Anitta e Pabllo Vittar, embora apenas um destes três apareça em nossa seleção.

Essa lógica também se aplica à música alternativa: grupos como Boogarins, BaianaSystem e RAKTA têm ampliado o debate sobre a estética do rock em publicações estrangeiras importantes. De certa forma, eles representam um salto da magnitude da nova sensação britânica do HMLTD ou do avant-folk de Richard Dawson.

A seguir, apresentamos as 30 melhores músicas de 2017. Antes, a seleta dos 10 primeiros em vídeo do nosso canal do YouTube:

Melhores de 2017 no Na Mira do Groove

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Veja a seleção completa abaixo. Ao clicar no nome da música, você será redirecionado a um link para ouvi-la (na maioria dos casos, via YouTube). No final do post, tem playlist no Spotify com todas as músicas.

Concorda com a lista? Diz pra gente nos comentários que música faltou ou aproveite para divulgar a sua lista de melhores singles do ano. Divirta-se:

30. “To the Moon and Back”


Fever Ray

Gravadora: Rabid
Álbum: Plunge

Plunge mostra dois direcionamentos possíveis do projeto de Karin Dreijer Andersson: a eletrônica mimetizada do The Knife e um estranho poder de sedução raramente apresentado pelo gênero. “To the Moon and Back” traz essas duas características numa composição caleidoscópica. As melodias circulares, os efeitos que lembram gatinhos, a percussão tribal, mas, acima de tudo, a voz pegajosa de Karin são a prova de que o Fever Ray tem tudo para apontar as direções que o gênero têm a seguir daqui em diante. É um tipo de som vibrante, mas que não se reduz às pistas. Ela te leva a imaginar os possíveis lugares em que você foi ou gostaria de estar, numa experiência de sair totalmente do próprio casulo.


29. “LESS THAN”


Nine Inch Nails

Gravadora: The Null Corporation
Álbum: Add Violence

Add Violence poderia muito bem ser uma continuação do disco Hesitation Marks (2013), trabalho que hoje estimo muito mais na carreira do Nine Inch Nails do que na época do seu lançamento. Trent Reznor se especializou na arte de fazer do rock industrial a tradução de anseios, apreensões e outros sentimentos extremados. “LESS THAN” potencializa essa técnica: guitarras a ponto de explodir e um tipo de percussão que acompanha a reverberação massiva. Não podemos esquecer o papel de protagonismo que Trent tem costumado dar aos teclados e sintetizadores. A forma com que eles se destilam faz de “LESS THAN” uma de suas peças mais catárticas em muitos anos. Quem acha que o NIN se fechou no clube das soundtracks está enganado: eis a prova definitiva de que o grupo tem muito a explorar. E provocar.


28. “Capim Guiné”


BaianaSystem part. Titica

Gravadora: BS
Álbum: Single

“Capim Guiné” é título de uma divertida canção do Raul Seixas. Entretanto, o que os conterrâneos de Raul criaram aqui é algo totalmente diferente. Nesta “Capim Guiné”, o BaianaSystem menciona a ‘erva sobrenatural’ dentro de uma tribo que tem tudo para ser enquadrada pela polícia: ‘Oito caboclo dançando com a boca espumando com a boca espumando de amor/Oito caboclo dançando com a boca espumando com a boca espumando de ódio‘, diz a letra. Os flows de Russo Passapusso e da angolana Titica misturam a embolada com soundsystem, dub e axé de forma tão intensa quanto a brisa do mencionado ‘capim’. De fato, o single mostra admiração pelo senso coletivista e pela forma ritualística com que tratam a erva sacra. O que importa, porém, é o fato de estarem todos juntos: ‘Povo sem cultura é um povo vazio/A pior escravidão é a mental/Sozinho ninguém vai distante/Tropeça na vida e depois/Cai na real‘.


27. “Ostentação à Pobreza”


Rincon Sapiência

Gravadora: Boia Fria
Álbum: Galanga Livre

Esta música é uma crítica à classe média que tem cobrado cada vez mais dos governantes para melhorar suas situações de vida. Muitas dessas reclamações vêm de gente chorando de barriga cheia – enquanto muitos outros estão em condições miseráveis. Ultrapassamos os 12% de desempregados no país, a fome volta a assombrar regiões castigadas pela seca e muitos não podem sequer contar com as três refeições diárias. Como diz o rapper paulista Rincon Sapiência, infelizmente a pobreza não morreu – o que acontece é que muitos ignoram o retrocesso social nos lugares mais carentes do país, seja nas áreas de risco da favela ou em regiões longínquas onde o ‘luxo é andar de cavalo‘. A disputa pelo poder, intrínseca ao capitalismo, tem ampliado a concentração de renda em todas as regiões do país. Se tudo continuar como está, “Ostentação à Pobreza” terá um papel cada vez mais alarmante em nossa sociedade. Infelizmente.


Capa de The Desecration of Desire, novo disco de Dave Clarke

26. “Plasmatic”


Dave Clarke

Gravadora: BMG
Álbum: The Desecration of Desire

O barão do techno voltou com tudo com o álbum The Desecration of Desire, interligando o som das pistas londrinas ao pós-punk e industrial. O disco trafega mais pela obscuridade de sentimentos ligados ao desejo. Quando se entrega à energia da eletrônica, porém, vemos Dave Clarke atualizar o que já desenvolveu muito bem lá em meados dos anos 1990. Por sua improbabilidade e, ao mesmo tempo, por seu groove irresistível, “Plasmatic” certamente é a faixa que mais prenderá no ouvinte. Em tempos em que discutimos a força do single como potência para alavancar carreiras, “Plasmatic” soa como a essência do que caras como Skream gostariam de acrescentar à discografia. Suas progressões encurtam possíveis barreiras entre acid-house e trilhas de filme de ficção científica – essa arte é para poucos, e Clarke sabe disso.


25. “Rodeados pela Beleza”


RAKTA

Gravadora: Iron Lung
Álbum: Oculto pelos Seres

O trio RAKTA já ganhou consagração internacional com o disco IIIum dos melhores de 2016 – e com o EP Oculto pelos Seres expandiu ainda mais sua audiência, arrancando elogios da prestigiada The Wire Magazine. A melhor faixa do EP é esta “Rodeados pela Beleza”, um rock sci-fi de espírito punk que fala sobre as incertezas de nossos tempos. Carla Boregas, Paula Rebellato e Nathalia Viccari enfatizam o poder da individualidade ao ressaltar que a ‘beleza se revela em nós mesmos‘, ainda que estejamos cercados de indícios de podridão, por todos os lados. A sonoridade construída remete a algo utópico, um teletransporte direto para uma realidade de nossos sonhos. Essa realidade, porém, também é repleta de caos, de vibrações à flor da pele e muita catarse. Isso porque o RAKTA aprimorou a forma de se fazer rock sensorial em uma das melhores faixas já apresentadas de seu repertório.


24. “Ogre”


Richard Dawson

Gravadora: Domino
Álbum: Peasant

Para o britânico de Newcastle Richard Dawson, o folk serve como conexão espiritual com um longínquo passado – pelo menos é isso que ele faz, com maestria, em Peasant, certamente seu trabalho mais acessível até agora. Cada música do álbum foca em rótulos sociais da Idade Média anglo-saxã: há músicas inteiras sobre mendingos, prostitutas, tecelões. Mas a melhor porta de entradas para Dawson é “Ogre”, um folk-spiritual que se revela uma narrativa fantasiosa. Dawson sabe como dar clímax à história, impondo gravidade às cordas e alterando tons vocais de um jeito que deixa o ouvinte preso. O ‘ogro’, no caso, é a alegoria de um monstro terrível que forma o arquétipo de uma população inteira que habita um pobre vilarejo. Eles são entregues a uma fantasia sustentada pelas elites, mas o que interessa a Dawson não é bem isso. O compositor cria uma narrativa a ponto de trazer à tona o que há de mais empático no ouvinte. Por isso ela é dramática, vil, intensa.


Capa de Okovi, disco de Zola Jesus

23. “Exhumed”


Zola Jesus

Gravadora: Sacred Bones
Álbum: Okovi

A volta à gravadora Sacred Bones fez muito bem à cantora Zola Jesus. Ela deu continuidade ao som gótico-tremeluzente – algo que, em “Exhumed”, reflete-se em arcos musicais que brincam com a gravidade e dão ainda mais peso à já marcante voz de Zola. A cantora do Arizona (EUA) revelou que “Exhumed” rompeu com um bloqueio criativo que durou mais de dois anos em sua trajetória. Cheia de raiva, ela emula o que parece ser um ambiente de batalha espartano, cheio de galopes, efeitos, percussões que acompanham a gana de vencer. Aqui está a essência do ótimo Okovi, um álbum que aborda pressões individuais e sociais com a voracidade que parece emanar após um longo tempo de reclusão. “Exhumed” é aquela canção que cuida do processo de elevar pessoas cabisbaixas, reservando a devida gravidade das desilusões passadas e dando impulsão para encarar as obscuridades que o futuro nos guarda.


22. “You Look Certain (I’m Not So Sure)” (Kelly Lee Owens Remix)


Mount Kimbie

Gravadora: Warp
Álbum: Single

Tanto a Kelly Lee Owens, como o grupo Mount Kimbie lançaram discos em 2017 que valem a pena a audição. Mas o tratamento que a londrina de 27 anos deu ao single “You Look Certain” estabeleceu uma linha de diálogo entre techno, house, disco e industrial de forma empolgante. Perceba que esta versão tem um duplo caminho para mexer com os sensos do ouvinte: de um lado, a batida do eletro; do outro, reverbs que vão transformando o tema num projeto lo-fi, até que tudo se dissipe e permaneça a impressão de uma música que brinca com diferentes intensidades a ponto de confundir. De qualquer forma, não se trata de uma confusão intrigante; a confusão aqui pode ser entendida de um sentido diferente. Como uma canção positiva, como a versão original (com participação de Andrea Balency), tornou-se tão adequada às pistas? Mais uma prova de que o talento de Kelly Lee Owens nos reserva muitas surpresas.


21. “Wait in the Car”


The Breeders

Gravadora: 4AD
Álbum: Single

“Wait in the Car” já surgiu com um gostinho especial para os fãs do grupo da vocalista/guitarrista Kim Deal (ex-Pixies). Pela primeira vez, desde o clássico Last Splash (1993), o The Breeders voltou com a formação original, complementada por Kelley Deal (guitarra, vocal), Jim MacPherson (bateria) e Josephine Wiggs (baixo). Isso representa uma baita diferença: o grupo voltou à velha forma de arrancar ótimos riffs numa estrutura ágil, totalmente punk, que caracterizou o grupo lá nos anos 1990. Um riff que pende entre a sedução e a catarse, alternância de vocais que resulta num punch viciante… Resultado: um dos rocks mais viciantes do ano, com força para cativar e cravar na mente em apenas dois minutos de duração. Que venham mais singles assim dos Breeders!


20. “Satan, Luella and I”


HMLTD

Gravadora: Sony
Álbum: Single

Uma primeira olhada no look do grupo HMLTD dá a entender que os New York Dolls continuam influentes mais de 40 anos depois. O fato é que o som vai muito além do glam-rock; new-wave, goth e power-pop entram na contagem das referências da banda liderada pelo britânico Henry Spychalski. Como já é comum na cena de rock da Grã-Bretanha, o HMLTD integra o invejável rol de grupos de alta projeção, mesmo com poucos singles na bagagem. Esse tipo de impulsão, que conta com respaldo da imprensa musical britânica (de publicações como NME e Dazed, por exemplo) costuma apresentar grupos ainda imaturos para os palcos. Por enquanto, Spychalski e cia têm surpreendido as audiências lotadas de pequenos cubículos, e parte dessa habilidade é devida à grandiosa composição de “Satan, Luella and I”, a melhor porta de entradas para conhecer o grupo. Ela inicia em tom melódico abafado. Henry oferece um interlúdio apocalíptico, até que a canção é entregue a um indie-rock estranho que alia riffs a notas soltas de sax. É na progressão de acordes que o HMLTD se agiganta.


19. “Chegando de Assalto”


ABRONCA

Gravadora: Heavy Baile Sounds
Álbum: Single

Junte o que há de mais pesado no rap com o que há de mais pesado no funk. Some a isso letras de empoderamento feminino, e já dá pra ter uma vaga ideia do que o grupo ABRONCA (ex-Pearls Negras) apresenta no single “Chegando de Assalto”, produzido por Allan Felix e Leo Justi. Jay, Slick e May surgem com força total, trabalhando a característica que une a força vocal de cada uma delas de forma diferente. É um som gangsta que retoma o ar de ‘perigo’ do rap anos 1990, com batidas que lembram sirenes e a agilidade típica da cultura freestyle. Tudo isso interligado pela estética trap, que pairou de vez na influência do rap nacional. A diferença é que, em “Chegando de Assalto”, ele funciona como um elo da música dos morros cariocas. Influência estrangeira que ressalta o poder de união da música periférica brasileira – eis a essência de “Chegando de Assalto”.


18. “Question Time”


Dave

Gravadora: Independente
Álbum: Single

Há pelo menos dois meses o grime voltou com força no Reino Unido, mas poucos soltaram um single tão impactante quanto Dave. Tudo bem, 2017 foi o ano de estreia de Stormzy, mas este jovem de 19 anos dedicou os versos mais ácidos possíveis à primeira-ministra Theresa May, que tem seguido um caminho tortuoso em conduzir o país ao Brexit e aproximar-se de Donald Trump num ambíguo ato de relações internacionais. Mas o verdadeiro alvo dos versos de “Question Time” é David Cameron, que preferiu abandonar o posto de primeiro-ministro após o resultado de referendo popular que dividiu a Grã-Bretanha: ‘Você nos fodeu, pediu demissão e depois saiu da linha de fogo‘. Ou seja, não quis assumir a responsa depois que o bicho pegou.


17. “Sangue de Free”


Black Alien

Gravadora: Independente
Álbum: Single

Comparado a MCs atuais, Gustavo Black Alien tem pouco material disponível. Seus trabalhos ao lado de Speed e Planet Hemp estão entre os mais consagrados do rap nacional, mas o grande clássico solo, Babylon By Gus Vol. 1: O Ano do Macaco (2004), o colocou no panteão. “Sangue de Free” remonta ao começo de sua carreira, quando participava de eventos de freestyle. O baixo cambaleante por trás das rimas do rapper carioca criou uma estética já propícia à improvisação – embora se trate de uma composição bem burilada. O ‘free‘ da canção se aplica ao estilo de vida de Black Alien – hoje um pai de família, com objetivos demarcados e muita garra para continuar surpreendendo seu público cada vez mais vasto.


16. “Nostalgia”


NAO

Gravadora: Little Tokyo/Sony
Álbum: Single

NAO é um projeto de música eletrônica da Neo Jessica Joshua, de Londres. O escopo sonoro lembra bastante a chillwave de Toro y Moi, com a diferença de que a música é muito mais cheia de groove, envolvimento, charme. Na verdade, NAO é o melhor exemplo de como o R&B tem sido o gênero mais influente nas pistas: cheio de loopings, trejeitos vocais e batidas viciantes, “Nostalgia” brinca com o robótico e o humano com bastante desenvoltura. Apesar de tudo isso, é bem difícil descrever o poder que essa música tem de cativar. É nostalgia, sim, mais por seus vários elementos clássicos: techno nostálgico, soul nostálgico, R&B nostálgico. Delícia de som.


15. “A Faca”


Kmila CDD

Gravadora: Independente
Álbum: Preta Cabulosa EP

Demorou para Kmila CDD, irmã de MV Bill, surgir com seu EP de estreia. Preta Cabulosa é composto de um disparo atrás do outro, mas nenhuma música me soou tão impressionante quanto o relato que ela traz em “A Faca”, com produção de DJ Caique. É a crônica de uma mulher que passa por um relacionamento cheio de violência. Como já é comum da característica de Kmila, ela se mostra corajosa e vai pra cima – algo que não é bem um conselho para as mulheres que também passam por isso. Felizmente ela consegue sair viva depois de uma tentativa de estupro, mas a lição que fica é: as mulheres precisam de força para lidar com isso. E, para quem não tem a oportunidade de evitar o confronto, às vezes precisa recorrer à força física mesmo. Questão de vida ou morte.


14. “call the police”


LCD Soundsystem

Gravadora: Columbia
Álbum: american dream

Quem ouviu “call the police” pela primeira vez, certamente imaginou: o LCD Soundsystem tá com um clássico aí! american dream não é bem um álbum de corresponder expectativas – embora seja um disco à altura de seus melhores trabalhos e fez por merecer boa posição na nossa lista dos melhores álbuns de 2017. Mas, vamos dar a “call the police” o crédito de ser um dos hits de eletrônica que reúnem tudo aquilo que James Murphy provou ser mestre. Mestre em adequar o pós-punk às pistas, mestre em fazer de suas elucubrações uma música potente, mestre em usar a repetição como meio de chegar à catarse. Se você não gostou de american dream, tudo bem, nós entendemos. Mas não dá pra negar que “call the police” é uma baita canção, uma das melhores já feitas pelo LCD Soundsystem.


13. “The Future is Female” (Shiva Remix)


Madame Gandhi

Gravadora: Independente
Álbum: Voices EP Remixed

Antes de se destacar como uma ativista pelo feminismo e por direitos humanos, Madame Gandhi participou de uma turnê de M.I.A. Inclusive, dá pra perceber a influência da singalesa em sua proposta sonora – algo plastificado, a ponto de encontrar algum buraquinho improvável de nossas mentes para atingir o subconsciente. Em outubro de 2016, ela lançou o EP Voices, com destaque para o single “The Future is Female”. Em outubro de 2017, ela lançou um EP só com remixes. Dele, vale ressaltar essa versão que a britânica Shiva preparou. A canção foi totalmente absorvida pelo espectro do trance. Ela deu aos vocais um tratamento de meros transmissores de algo futurista. As percussões tribais ligam o minimalismo ao gênero que Shiva tem se dedicado tanto nos últimos anos. Mais que uma prova de que o trance está longe de morrer, este remix dá nova perspectiva à mensagem feminista de Madame Gandhi. Não de um jeito óbvio, claro.


12. “Minha Mulher Acha que Eu Sou o Brad Pitt”


niLL

Gravadora: D’sgueio
Álbum: Regina

Jamais imaginaria que linkar “Ashes to Ashes” (David Bowie) a um tipo de produção seca, lo-fi, tema para um rap que fala com bom humor sobre relacionamentos daria tão certo. O paulista niLL costura suas rimas já pensando nos beats, e poucos deles deram tão certo quanto o que ele propôs em “Minha Mulher Acha que Eu Sou o Brad Pitt”, a música que convence seus argumentos de que rap e vaporwave têm mais coisas em comum do que se imaginaria. A sonoridade pega o ouvinte de primeira, e é impossível deixar de arrancar uns risos quando ele diz coisas como ‘E ela acha que na rua da minha casa/Todas as mulheres caem de amor por mim/Que no estúdio tá cheio de mulher pelada/E fazem massagem com óleo na minha barba, tipo assim’.


Capa do disco Utopia, de Björk

11. “Losss”


Bjork part. Arca

Gravadora: One Little Indian/Weelhart
Álbum: Utopia

Utopia é um disco que usa as flautas e melodias pacíficas em busca de um senso positivista. Isso não quer dizer que Björk tenha abandonado as palhetas caóticas, usualmente abordadas sob diferentes prismas em sua obra. Em “Losss”, vemos a estética niilista do parceiro Arca bater como um tsunami no discurso filosófico da cantora. O resultado disso não poderia ser melhor: “Losss” vem para nos lembrar de que ainda podemos perder muitas coisas das quais não imaginamos, a partir de uma cortina destrutiva que vai ‘limpando’ tudo aquilo que é deixado para trás. Essa ‘limpeza’ representa o contraponto de todo o paraíso estético que a cantora pincelou para o disco. A execução disso soa não apenas como música – e que música! Ela representa o perigo eminente de ficar sempre atento. Afinal, não se chega à paz ou à felicidade sendo ingênuo.


10. “Pre Dawn”


Burial

Gravadora: Nonplus
Álbum: Pre Dawn/Indoors

Pelo menos desde o EP Rival Dealer (2013) o produtor Burial focou no lado mais melancólico da eletrônica, testando vocais soturnos e uma progressão musical mais lenta, mais emotiva. O lançamento do 7” Pre Dawn/Indoors, porém, mostrou um novo interesse do britânico pela música eletrônica dos clubes. “Pre Dawn” tem influências do jungle e drum’n bass, embora seja um dubstep com ares de techno, com muitos resquícios de ficção científica. É uma música empolgante, sem perder aquele tipo de estranheza espiritual que parece se manifestar em todas as suas composições. Percebemos o barulho de uma cidade adormecida, como se o produtor operasse contra a movimentação urbana de Londres. Dez anos depois de Untrue (2007), Burial continua revelando novas formas de fazer com que a eletrônica notívaga continue soando surpreendente.


9. “Menino Mimado”


Criolo

Gravadora: Oloko Records
Álbum: Espiral de Ilusão

Quem não vive em verdade, meu bem, flutua’. É essa impressão que temos ao ver nossos representantes políticos hoje: estão todos flutuando, em seus interesses – e dos interesses de quem se beneficia com certos políticos (ou gestores) no poder. O Brasil passa por uma complicada crise política e, nesse meio, crescem os outsiders: figuras que se comportam como empresários, vendendo a falsa ideia de que não estão no meio da política. O desalinhamento no discurso também reflete um desalinhamento de suas funções. Afinal, a ambição move carreiras, mas deixa muita coisa paralisada lá atrás. É por isso que a canção de Criolo foi tão certeira: ‘Não aceito tanta indisciplina’, diz, ocultando o teor político da melhor faixa de Espiral de Ilusão. ‘Eu não quero viver assim/Mastigar desilusão/Este abismo social requer atenção’. Acredite. Nas eleições de 2018 não faltarão exemplos para direcionar esta composição.


8. “Esse Calor”


BEL

Gravadora: Sagitta
Álbum: Quando Brinca

Ao lado de Mahmundi, BEL tem feito ressurgir o interesse da MPB carioca pela música eletrônica, criando um amálgama mais ousado e sintético que a conterrânea. Na faixa “Esse Calor”, a timbragem musical favorece a brincadeira que a cantora faz com sensualidade, trazendo um ar psicodélico, perigoso e, ao mesmo tempo, misterioso. A paisagem emoldurada na canção é uma redescoberta do seu corpo feminino. E essa redescoberta é influenciada pelo céu, pelo clima, pelas pessoas ao redor, culminando num resultado que parece dançante, mas não é; parece MPB, mas não é; parece eletrônica, mas não é. O álbum Quando Brinca, de BEL, é repleto de muitas discussões sociais importantes, mas é a exploração do indivíduo contida em “Esse Calor” que faz com que o termo intrigante tenha a acepção mais positiva possível.


7. “The Teachers Within”


JAI/MAHL

Gravadora: TV Showw
Álbum: The Message of Zipf

Quem acha que o house está morto, precisa urgentemente ouvir este single. “The Teachers Within” abre o EP The Message of Zipf de uma maneira que nem dá vontade de prosseguir com as demais faixas – só dá vontade é de ficar colocando esta viciante canção em eterno repeat. Jamal Moss, o cara por trás do projeto, desde os anos 1990 injeta groove na cena eletrônica de Chicago. O que ele faz com o projeto JAI/MAHL vai muito além de atualizar esse importante gênero da eletrônica. Ao mesmo tempo em que há ecos de 808 State, tem-se a predominância de reverbs que se multiplicam, dominam e atropelam o padrão harmônico da canção. O groove dos pianos e a multiplicação das batidas formam uma estética que Moss chama de “cubismo rítmico”. Mesmo com toda essa conceituação artística, o resultado é um dos singles eletrônicos com mais força nas pistas lançado em 2017.


6. “Liga nas de Cem”


Aláfia

Gravadora: Agogô Cultural
Álbum: São Paulo Não é Sopa

A primeira música revelada de São Paulo Não é Sopa, melhor disco do ano, reforça o que caras como Mano Brown, Criolo e Emicida têm dito insistentemente: estamos diante de um capitalismo selvagem que foge do óbvio. “Liga nas de Cem” assimila essa selvageria em seu formato musical: é um funk afro-brasileiro com influência do rap, do jongo e do samba. A trinca formada por Xênia França, Jairo Pereira e Eduardo Brechó reflete a raiva de quem menos ganha nesse jogo todo. Por isso, a reação: ‘Não encosta em mim, playboy, eu sei que tu quer o meu fim’. Vivemos uma intensa guerra social, e a música tenta encarnar na pele de quem é mais prejudicado em tudo isso. Afinal, como já dizia MV Bill, não dá pra pensar em paz sem justiça. E enquanto retrocedemos em termos políticos, econômicos e sociais, os clamores continuam a ressoar. Poucas músicas lançadas este ano têm essa força de identificação como “Liga nas de Cem”.


5. “Bodak Yellow”


Cardi B

Gravadora: Atlantic/WEA
Álbum: Single

O hit de rap do ano não é de Migos, Future ou Gucci Mane, e fico tão grato a isso, que só o fato de ter uma mulher no protagonismo desse jogo já é algo a se comemorar. A referência ao rapper Kodak Black é apenas nota de rodapé: o flow de Cardi B é denso, representando um polo oposto ao de Nicki Minaj (e pra quem se esforçou em sustentar uma treta entre as duas deve ter ficado quietinho ao ouvir a parceria “MotorSport”). Curioso também é o papel que Cardi B exerce: ela peita o machismo que persiste no gênero e dá uma perspectiva feminina ao falar sobre sexo, dar um rolê, conhecer pessoas. Nenhum single foi tão pé na porta quanto “Bodak Yellow”: uma ex-stripper de 25 anos cheia de jovialidade, bom humor e criatividade. E que som pegajoso, viu!


Capa do disco DAMN, de Kendrick Lamar

4. “HUMBLE”


Kendrick Lamar

Gravadora: Interscope/Aftermath/Top Dawg Entertainment
Álbum: DAMN.

Kendrick Lamar é um dos maiorais porque domina a arte de fazer rap. Simples assim. Da mesma forma que é bem simples o escopo que ele apresenta em “HUMBLE”: a produção de Mike WiLL Made It valoriza o grave do baixo, com o peso da bateria de acompanhamento. Tão cru como se esperaria de um rap old School, Kendrick aposta no single clássico: 3 minutos de muita destreza, narrando suas vivências como se fosse um pastor das ruas. ‘Ouça minha alma falar, você deixa que as drogas falem por você’, diz. ‘Eu sou o negro mais verdadeiro, na real’. Quando a música saiu, muito se comentou sobre uma possível treta com o rapper Big Sean – e que o ‘fica quietinho’ seria direcionado a ele (essa treta começou quando Kendrick participou de uma música dele, “Control”, desafiando a maioria dos rappers desta geração, inclusive Big Sean). Mas não é o fato de ser ou não ser uma diss track que faz de “HUMBLE” uma grande canção. É o ar de simplicidade, embora estejamos cansados de saber que o dom de Kendrick é das coisas mais complexas a pairar no rap nos últimos anos.


3. “Te Amo Disgraça”


Baco Exu do Blues

Gravadora: Cremenow
Álbum: Esú

Dos muitos exemplos de love songs de rap lançadas ao longo do ano, de longe Baco Exu do Blues lançou a mais sincera, mais leve e mais pegajosa de todas. Realmente, “Te Amo Disgraça” tem o potencial de um meme por sua simplicidade. Quando ouvi a música pela primeira vez, fiquei me perguntando se não se tratava de uma composição machista – principalmente quando ele diz: ‘Oral na minha mulher é minha oração’. As referências ao sexo explícito respondem ao desejo de lembrar e querer estar a todo momento do lado da companheira. ‘Tá, e o termo disgraça?’. Embora pareça um termo negativo, é a forma carinhosa que Baco recorre para mencionar a mulher com quem divide o maço de cigarros, as taças de vinho e a quebradeira por toda a casa. ‘Sou seu amor ou seu Nero?’, diz o cantor, dimensionando a força desse fogo todo. Um claro exemplo de que não é preciso ser piegas para falar de amor, sexo e romantismo, como muitos rappers têm feito, em busca de tornar seu som mais radiofônico.


2. “Bum Bum Tam Tam”


MC Fioti

Gravadora: Warner
Álbum: Single

Pouco importa se as flautas sampleadas são de Sebastian Bach. Ou se MC Fioti decidiu fumar um baseado antes de tomar a decisão de transfigurá-la para a composição que fez repensar o funk no Brasil. “Bum Bum Tam Tam” tornou-se o maior hit do ano por um detalhe pouco enfatizado: o feeling. É o tipo de música que causa estranhamento na primeira audição. Seu poder está justamente naquela característica mais forte do funk: o poder de envolvimento pelo batidão. Nenhum outro funk foi como “Bum Bum Tam Tam”, mas não podemos esquecer seu appeal: a capacidade de criar um bordão pegajoso, o bom humor por trás da proposta do hit e, lógico, como tudo isso cai muito bem na festa de arromba com os amigos ou numa reunião despretensiosa com os mais chegados. Ao lado do feminejo, o funk é o que temos de melhor na gênese ultrapopular da música brasileira atual. E “Bum Bum Tam Tam”, atualmente, é o principal divisor de águas.


1. “Green Light”


Lorde

Gravadora: Universal
Álbum: Melodrama

Melodrama é um disco cheio de altos e baixos, mas em uma coisa ele acertou muito bem: fez de Lorde a maior porta-voz da complexidade da juventude. Talentosa compositora, essa jovem australiana de 21 anos soube como transparecer suas ânsias e vontade de brilhar de forma cativante. “Green Light” é aquele hit hipnotizante: ela joga o holofote sobre você, e a única reação possível é contemplar, contemplar e contemplar.

O pano de fundo da música é o fim de um relacionamento. A constante lembrança dele, porém, não gera uma reação negativa na cantora. Pelo contrário: ela quer bradar, cantar, deixar que os sons em sua mente a levem por aí.

A tal ‘luz verde’ que ela se refere menciona um novo começo, um novo ponto de partida. Se não deu certo, tudo bem, vida que segue. O que realmente surpreende é que Lorde não prega o desprendimento. Em “Green Light”, inclusive, ela assume que o passado está intrínseco ao que ela é neste exato momento, e projeta ser no futuro.

Sem rancor, sem muito drama, a vida segue. Estamos todos em busca da ‘luz verde’.

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Tiago Ferreira

Editor do Na Mira desde 2010 - que, além de site, também é canal do YouTube e Embaixador Spotify. Já trabalhei como redator de comunicação interna, produtor de conteúdo da B2W (Americanas, Submarino e afins) e repórter de entretenimento, ciência e tecnologia no Vix.com. Também sou colaborador eventual da Revista da Cultura (da Livraria Cultura).


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