Nicole Mitchell, a brilhante flautista que lançou um dos melhores álbuns de jazz de 2017

30 melhores discos de jazz de 2017 (nacionais e internacionais)

Da orquestra afrofuturística de Nicole Mitchell ao jazz conceitual de Logan Strosahl, os álbuns que foram destaque no jazz no ano

O universo pop é bem mais disputado que o terreno do jazz, mas, devo confessar uma coisa: nenhuma lista é tão complicada de fazer quanto esta!

Vide a demora: ela sai com mais de duas semanas de diferença comparada às demais (listadas abaixo). Isso porque, além da nossa coluna Groovin’ Jazz, que traz 10 discos do gênero mensalmente (o que já dá um pente fino de, pelo menos, mais de 100 discos por ano), álbuns de jazz não costumam ter a mesma celebração de discos pop.

Tudo bem, já bato nessa tecla desde o comecinho de 2016, quando começamos com essa seção. Mas alguns discos excelentes acabam perdendo o timing num universo que parece restrito, mas é muito mais complexo do que se imagina.

Quer uma prova? Entre no gênero “Jazz”, do serviço de streaming Apple Music, ou faça um filtro temporal de “Jazz” no BandCamp. Estas duas plataformas entregam uma infinidade de lançamentos de diversos países, cenas, movimentos artísticos.

Outras plataformas também têm esses discos hospedados, mas não se dedicam a uma organização efetiva para pesquisadores como nós, do Na Mira. Além disso, visitamos dezenas de sites de selos, blogs especializados e, claro, o Discogs, para se informar o quanto possível.

Melhores de 2017 no Na Mira do Groove

Os 30 melhores discos de 2017 (nacionais e internacionais)
As 30 melhores músicas de 2017 (nacionais e internacionais)
Os 10 melhores relançamentos/redescobertas de 2017

Por outro lado, a graça está justamente aí. Em ser um trabalho árduo e compensatório, que resulta nesta lista a seguir. (No fim do post, tem uma playlist especial no Spotify.)

E aí, concorda com a nossa seleção de melhores? Qual foi o álbum de jazz que mais se destacou em 2017 para você? Faça a sua lista nos comentários.

30. Book I of Arthur

Logan Strosahl

Gravadora: Sunnyside
Data de Lançamento: 25 de agosto de 2017

Ouvir no Spotify

Parece capa de um disco de metal progressivo, mas a verdade é que se trata de um jazz conceitual. O pano de fundo histórico é a época em que Rei Arthur comandava o território onde hoje fica o Reino Unido, no século V. Logan Strosahl assume o sax-alto e a difícil tarefa de direcionar o enredo para aventuras, batalhas, explorações e descobertas. Em temas como “Battle of Bedegraine”, ele chamou Julia Easterllin para as narrações. Para o disco como um todo, Logan montou um septeto, complementado por Michael Sachs (clarinete), Sam Decker (sax-tenor), Aquiles Navarro (trompete), Nick Sanders (piano), Connor Baker (bateria) e Henry Fraser (baixo). Em uma jornada musical de quase 1h, Book I of Arthur soa edificante. O tratamento com os metais é valorizado: quando ele impõe alternância entre a força dos saxofones com a tranquilidade do clarinete e a consistência do piano, ele atinge o seu melhor. Em “Proof: The Round Table”, o grupo cria uma espécie de música camponesa melancólica, que retrata esperança numa época cheia de improbabilidades.


29. Proyecto Reutemann

Proyecto Reutemann

Gravadora: Discos ICM
Data de Lançamento: 21 de julho de 2017

Ouvir no BandCamp

Liderado pelo trompetista Matias Rivara, o Proyecto Reutemann é um quinteto argentino que mistura suas referências entre o hard-bop e, em menor grau, free-jazz. Isso porque os temas são abertos, como se Rivara, ao lado do saxofonista Hernan Torres, estivesse a todo momento estendendo o convite para deixar-se deleitar em sua obra. E esse convite também se aplica à entrada dos demais músicos: em “Mole”, Gaston de la Cruz entrega um inspirado solo de guitarra que lembra os bons anos de John Cipollina (Quicksilver Messenger Service). Em “Farenhitys”, Rivara e Torres ensaiam uma linha bop, até que diminuem o ritmo e impõem um tom mais melancólico. Em muitos momentos, parece que o grupo extrai referências do rock progressivo, mas o apreço por sopros mais espaçados e, muitas vezes, eletrificados, também não deixa escapar a influência do cool-jazz e do funk. É na dosagem de todas essas escolas que o Reutemann encontra seu perfil musical.


28. Peregrino

La Pingos Orquesta

Gravadora: Ropeadope
Data de Lançamento: 28 de julho de 2017

Ouvir no Spotify

Formada em 2012 por diversos instrumentistas talentosos da região de Aguascalientes, no México, a La Pingos Orquesta brinca com tudo quanto é som clássico, fantasioso, popular: do tango à música dos bálcãs, o líder do grupo, Gerardo Castmu (guitarra), é a principal ponte para chamar os demais integrantes a encorparem suas composições, muitas delas cheias de pegadinhas que nos lembram distintas referências. O tango de “Enero” tem algo da trilha de O Poderoso Chefão e “Ojos Secos” parece ser inspirada no ícone argentino Astor Piazzolla. O estilo de composição de Castmu é pertinente a uma big band, mas a real é que o hibridismo sonoro é resultado de um trabalho em sexteto. Além de Castmu, a La Pingos Orquesta é formada por Yarib Bautista (violino), Claudio Gardea (bateria), Marco Gregoire (baixo), Jose Lara (trompete) e Edgar Estrada (clarinete). Como é comum no jazz latino, a musicalidade ferve em Peregrino, um disco que parece ter transportado a energia vibrante de New Orleans ao rico contexto musical das Américas.


27. A Mil Tons

Amilton Godoy & Léa Freire

Gravadora: Maritaca/Tratore
Data de Lançamento: 2 de junho de 2017

Ouvir no Spotify

Na música, é comum aluno e professor se encontrarem para projetos quando a relação está bem amadurecida. Geralmente o convite vem da parte do aluno, que reverencia os ensinamentos. É o que se pode dizer de A Mil Tons, disco em que Léa Freire revisita alguns temas do pianista Amilton Godoy. Léa assume a flauta e a difícil missão de transpor a peculiaridade das melodias sentimentais do ex-integrante do Zimbo Trio. Em “O Batráquio”, a dupla se diverte num encontro entre as escalas modais de Amilton e a desenvoltura de Léa em intercalar melodia em suas notas espaçadas. “Seus improvisos têm uma força musical surpreendente e absolutamente perfeitos”, diz Amilton sobre a ex-aluna. Acompanhar o mestre é algo que ela faz bem em “Santa Cecília”, dando outra ramificação sentimental ao tema. É ao prover mais intensidade a ideias que inicialmente parecem singelas que percebe-se a maestria da dupla: em “Quem Diria”, contemplamos uma deliciosa jornada de amizade, onde Léa Freire nos entrega alguns de seus melhores solos na flauta. E não podemos deixar de mencionar a honrosa homenagem ao choro na primeira faixa do álbum, onde a nostalgia nos entrega algo belo, apreciável, pacificador.


26. Cross My Palm With Silver

Avishai Cohen

Gravadora: Deutsche Grammophon
Data de Lançamento: 6 de maio de 2017

Ouvir no Spotify

O Avishai Cohen trompetista faz jus ao meio-termo entre grandes mestres, como Miles Davis e Wadada Leo Smith. Assim como o reflexivo Into the Silence, Avishai conta com o formato quarteto ao lado do baterista Nasheet Waits, o baixista Barak Mori e o pianista Yonathan Avishai em construções harmônicas que surgem como reflexo dos perigos da globalização. A quietude, comportamento associado ao individualismo, é um elemento que pode ser usado a favor da resolução de problemas, de fazer o bem. “Will I Die, Miss? Will I Die?”, que abre o disco, se refere à pergunta que um jovem sírio fez a uma enfermeira, na região de Aleppo, hostilizada por ataques de rebeldes e retaliações do governo. As pausas de Avishai são breves momentos que não demoram a ser preenchidos pelo combo, que dá amplitude às suas ideias dando um sentido de clamor, de busca pela verdade. Em “Shoot Me in the Leg”, por exemplo, ocorre um movimento contrário: Yonathan e Nasheet emolduram um groove rígido, para que Avishai impressione em um de seus solos mais inspirados. Conhecido por seus tons poéticos, em seu 9º disco o trompetista de origem israelense optou por tons mais concretos, expressando a turbulência, o desespero e a intensidade de nossos tempos.


25. Nubya’s 5ive

Nubya Garcia

Gravadora: jazz re:freshed
Data de Lançamento: 9 de maio de 2017

Ouvir no Spotify

Em seu disco de estreia, a saxofonista britânica Nubya Garcia é mais um exemplo do aquecimento da cena jazzística de Londres. Ter tocado com grupos como Congo Natty e Melt Yourself Down garantiu-lhe a experiência de trafegar do drum’n bass ao acid-jazz. Ao lado do (excelente) baterista Moses Boyd, o baixista Daniel Casimir e o pianista Joe Armon-Jones, que tocam em todos os temas, Nubya vai do hard-bop ao free-jazz com a naturalidade de quem desenvolveu seu próprio estilo pegando um pouquinho de cada escola. Nos dois takes de “Hold”, a tuba de Theon Cross dá um peso rítmico alicerçado pelas notas tangentes de Nubya. Outra participação valiosa é a da trompetista Sheila Maurice-Grey em “Lost Kingdoms”, que abre o disco, em mais um exercício de angulação sonora. Mas, se for para escolher uma faixa de Nubya’s 5ive, vá direto em “Fly Free”. A dinâmica do quarteto é elevada à quarta potência, criando um som multidimensional que joga os holofotes para os solos de Nubya. Moses, Daniel e Joe são ótimos instrumentistas, mas cumprem a função de eclipsar uma jazzista que tem tudo para destacar Londres na cena.


Capa de Terra, novo disco do Pó de Café (2017)

24. Terra

Pó de Café

Gravadora: Independente
Data de Lançamento: 1º de junho de 2017

Ouvir no Spotify

Meu primeiro contato com o grupo Pó de Café, de Ribeirão Preto (SP), foi via segundo disco deles, Amérika (2015), focado em repertório autoral que cruza latin-jazz e hard bop. A música popular brasileira também faz parte das referências de Bruno Barbosa (baixo), Marcelo Toledo (sax-tenor), Duda Lazarini (bateria) e Murilo Barbosa (piano), e este é o grande foco de Terra, que reinterpreta vários clássicos caipiras de nossas terras. “Rei do Gado” (Tião Carreiro & Pardinho), que abre o disco, tem seu peso melancólico reforçado, enquanto o tema de “Rio de Lágrimas” (Tião Carreiro, Piraci e Santos) enaltece a habilidade de Marcelo em criar solos inspiradores que revolvem a um sentimento positivo. O clássico “O Menino da Porteira” (Teddy Vieira, Luís Raimundo) é singelamente levada pelo baixo de Bruno, num esquete de pouco mais de um minuto que, naturalmente, deixa a brecha para o pout-pourri “A Juriti/Toada de Samba” (Caçula e Mariano), que ganha um aspecto free-jazzístico acompanhado por uma bateria que evoca a ligeireza do ritmo do bumba-meu-boi. É comum ver canções de MPB reinterpretadas por grupos de jazz, mas são raros exemplos em que os instrumentistas se dedicam exclusivamente à música caipira e sertaneja. Só por isso, Terra sedimenta a originalidade do Pó de Café ao dedicar-se às raízes culturais brasileiras.


23. Planetary Prince

Cameron Graves

Gravadora: Mack Avenue
Data de Lançamento: 24 de fevereiro de 2017

Ouvir no Spotify

O saxofonista Kamasi Washington mostrou ao mundo a força do jazz da Costa Oeste norte-americana. Da mesma forma que acontecia no rap dos anos 1990, eles se ajudam mutuamente, tocando um no disco do outro. Além dos metais, The Epic (2015) muitas vezes impressionou pelas notas virtuoses de piano. Essas notas são de Cameron Graves, que neste disco revela um pouco dos segredos de sua potência: a busca de uma sonoridade futurista, que une elementos da Sun Ra Arkestra às explorações acústicas de Keith Jarrett. Planetary Prince se fortalece com a presença de Kamasi, vide as valiosas contribuições em “El Diablo” e “The End of Corporatism”. O baixista Thundercat, também conhecido no mainstream, é quem mais entra em sintonia com Graves. Em “Satania Our Solar System”, suas linhas são concomitantes aos clusters de piano. Em “Andromeda”, ele nos dá a grande prova de seu talento, solando com a intensidade de quem tem sede de exploração.


22. Arise

Zara McFarlane

Gravadora: Brownswood
Data de Lançamento: 29 de setembro de 2017

Ouvir no Spotify

É soul, world-music, música caribenha. É jazz também. E, sim, um dos grandes discos de 2017. Arise, de Zara McFarlane, é daquelas obras que cativam pela justaposição musical. Faz parte desse estratagema musical sua voz soar como detentora de sabedoria da natureza, vide “Pride” e “Peace Begins With”, que arrasta o ouvinte para dança num slow-funk delicioso. Zara é natural de Londres, mas não esconde a influência da música jamaicana e africana em sua obra. Reggae e calypso fazem parte do cardápio, mas o grande guarda-chuva estético de sua obra é o spiritual, que lhe dá autoridade para transmitir conhecimento numa roupagem psicodélica, como faz lindamente em “Stoke the Fire”. Zara mantém calma e serenidade no seu canto e, nesse aspecto, não tem parceiro melhor que o baixista Neil Charles. Percebemos a idoneidade da cantora nas repetições em escala (“Allies or Enemies”) e na maturidade ao relacionar amor e liberdade, em “In Between Worlds”. Em “Silhouette”, ela conta com a participação de Shabaka Hutchings no clarinete-baixo, que garante peso melancólico em um tema de pouca interferência de Zara. Quando ela surge, lá pros últimos minutos… ela dá ainda mais grandiosidade espiritual a ele.


21. Morphogenesis

Steve Coleman’s Natal Eclipse

Gravadora: Pi Recordings
Data de Lançamento: 23 de junho de 2017

Ouvir no Apple Music

O genial saxofonista Steve Coleman costuma trabalhar com grupos de diferentes nomes. O fato é que boa parte dos instrumentistas têm algum tipo de ligação com o movimento M-base, que traz referências da música computadorizada, hip hop e improvisação livre em seu conceito. Para o Natal Eclipse, ele conta com o trompetista Jonathan Finlayson, a sax-tenorista Maria Grand, a vocalista Jen Shyu, o pianista Matt Mitchell, além de instrumentistas formados em música clássica: Rane Moore (clarinete), Kristin Lee (violino), Greg Chudzik (baixo) e Neeraj Mehta (percussão). Se a música de Morphogenesis formasse um desenho, ela certamente teria traços geométricos. Mas não é bem a matemática que inspirou o músico de Chicago nesta empreitada. Na verdade, é algo um tanto distante disso: o boxe. Desde a primeira música, “Inside Game”, os temas são compostos por punchs sonoros que se intensificam a partir da conjunta movimentação dos instrumentistas. “Pull Counter”, por exemplo, se fortalece na alternância dos metais com as belas passagens do piano de Matt. A rapidez com que os metais se desencontram em “Morphing” remete a um treinamento pra lá de pesado e “Dancing and Jabbing” encara o pugilismo com ares artísticos. Neste tema, os choirs de Jen Shyu criam um senso de encantamento, ambiente mais que propício para Coleman nos entregar um solo no sax-alto de múltiplas escalas em convergência.


20. Free of Form

Sarah Elizabeth Charles

Gravadora: Ropeadope/Stretch Music
Data de Lançamento: 6 de outubro de 2017

Ouvir no Spotify

Falar em canto no jazz é já ter algum clichê em mente. Por mais que talentosas como Jazzmeia Horn e Cécile McLorin Salvant mereçam destaque, elas de certa forma dão continuidade à tradição histórica do blues. Em seu segundo disco, Sarah Elizabeth Charles pega carona nos metais esvoaçantes de Christian Scott, que é coprodutor do álbum, mas empenha uma jornada estilística que vai ainda mais longe. Ela é melancólica como Diana Krall, crua como a contemporânea Yazz Ahmed e dotada de sutil técnica experimental. A riqueza de Free of Form está nos detalhes, e por mais que dê vontade de bradar que “Taller” seria um tema recusado por Esperanza Spalding, a verdade é que ela é dotada de poderosa individualidade. Sarah minimiza o tom e devaneia com os teclados de Jesse Elder. O termo jazz-pós-punk até ajuda a explicar a vibe da confessional “Learn How to Love” ou da profunda “I Will Wait”. Só uma mente que processa Billie Holiday e The xx na mesma intensidade criaria algo assim. Essa atualização se reflete nas composições: Free of Form é uma crítica aos padrões estéticos e sociais. Em “March of Revolution”, ela clama para repensar o conservadorismo radical das democracias. Esse discurso político também toma conta de “Change to Come”, que detrata violência, e “Zombie”, dedicada às questões raciais.


19. The Art of Perelman-Shipp

Ivo Perelman & Matthew Shipp

Gravadora: Leo Records
Data de Lançamento: 3 de março de 2017

Ouvir no Spotify

O saxofonista brasileiro Ivo Perelman formou com Matthew Shipp um dos melhores duos da atualidade, e a força dessa irmandade sonora está mais que bem posta na coleção de discos que forma The Art of Perelman-Shipp. São 7 discos que mostram essa dupla trabalhando suas verves musicais sob diferentes formatos. A série começa com o disco Titan, um tipo de improvisação livre corpórea, com importante adição de William Parker no baixo. O segundo, Tarvos, é azeitado pela presença do baterista Bobby Kapp, e o terceiro, Pandora, mostra Ivo no comando de um quarteto (com Shipp, Parker e o baterista Whit Dickey). O quarto, Hyperion, é complementado por Michael Bisio no baixo e mostra um Ivo mais etéreo em suas passagens sonoras. O quinto volume, Rhea, retoma o formato quarteto, desta vez com Bisio no lugar de Parker. O sexto, Saturn, mostra uma das melhores integrações no duo com Shipp num total de 10 temas, enquanto o sétimo e último volume, Dione, coloca o experiente Andrew Cyrille nas baquetas na linha de frente, suscitando numa potência criativa que pode, facilmente, ser colocada entre os grandes trabalhos de Ivo Perelman, um dos maiores nomes da improvisação livre neste momento.


18. North Wind

Giuliana Soscia & Pino Jodice 4tet com Tommy Smith

Gravadora: Cose Sonore
Data de Lançamento:
28 de abril de 2017

Ouvir no Spotify

Nos últimos anos, houve uma boa ascensão no acordeom dentro do jazz. No Brasil, por exemplo, temos Toninho Ferragutti, dono de uma potência indescritível. Na Escócia, Giuliana Soscia também considera importante o conhecimento de música popular. Ela, que integrou a Scottish National Jazz Orchestra, reveste a música celta com força descomunal. Neste disco, ela conta com uma ajuda arrebatadora: a do sax-tenorista Tommy Smith, que também alterna entre o shakuhachi e o sax-soprano. Esse encontro soa explosivo logo no primeiro tema do disco, “Body or Soul”, mas também nos entrega baladas complexas, como em “The Old Castle” e “Lands of Heroes”. Outro músico importante em North Wind é o pianista Pino Jodice: é ele quem mantém o swing em “Freedom’s Sword” e gera todo o encantamento em “Alba”, com belíssimo interlúdio. Giuliana é craque em usar o acordeom em meio a thrillers. Em “Lu Scottis”, ela surge arrebatadora ao lado de Smith. Essa parceria é intensificada em “Rabbit’s Fugue”, que impressiona pela improbabilidade e pelos efeitos.


17. Trip

Mike Stern

Gravadora: Heads Up International
Data de Lançamento: 8 de setembro de 2017

Ouvir no Spotify

É o primeiro disco do guitarrista Mike Stern após um acidente em que quebrou o braço. Isso deve ter mexido com sua técnica: ele soa ainda mais versátil, mais catártico e mais jovial em seus riffs e solos. Trip é um disco de fusion-rock, mas a singularidade do subgênero faz com que todo o balanço seja menosprezado. Seus solos mais excitantes fazem as pistas flamejarem. Se duvida, apenas ouça temas como “Whatchacallit” ou a faixa-título, que falam por si só. Stern conta com diversos colaboradores – todos eles autoridades em seus instrumentos, pois o groove do guitarrista demanda gente do porte de Dennis Chambers (baterista que toca em três temas do álbum), o baixista Victor Wooten (na faixa-título) e o trompetista Randy Brecker (que dá uma suavizada no tom, imprimindo cool-jazz em meio ao caos em “Blueprint”). Com clima de jovialidade dos discos dos anos 1970 e aquele tipo de virtuosismo em que o puro fazer garante qualidade indubitável no que seria descontraído, Mike Stern supera a dor física e deixa a seguinte mensagem: ninguém vai derrubá-lo!


16. Ruler Rebel / Diaspora / The Emancipation Procrastination

Christian Scott

Gravadora: Ropeadope/Stretch Music
Data de Lançamento: 17 de outubro de 2017

Ouvir no BandCamp

O trompetista Christian Scott lançou três discos este ano, e eles não podem ser dissociados um do outro – tanto que a trilogia tem nome: The Centennial, em comemoração aos 100 anos da primeira gravação de jazz. O que realmente une Ruler Rebel, Diaspora e The Emancipation Procrastination é a atmosfera reflexiva. Christian toca com expressividade, e tem pegado gosto por notas longas de efeitos agudos – enquanto seus grupos de apoio pegam referências do fusion, da música de New Orleans e do hip hop. Nesse quesito, destaque para o baterista Corey Fonville e o pianista Lawrence Fields, presente na maioria das faixas (total de 31, pra ser mais exato). Essa base sonora permite a Christian uma característica exploradora, onde cada detalhe revela pontos importantes de uma rica história. Alguns temas trazem solos de destaque, como “Desire and the Burning Girl” (de Diaspora) ou “Michele with One L”, mas nessa trilogia funciona melhor a proposta de diálogo com instrumentistas de alto calibre, como a flautista Elena Pinderhughes (vide “Diaspora”), o sax-altista Braxton Cook (“Lawless” é um bom exemplo) e a protegida cantora Sarah Elizabeth Charles, que colabora com voz suave em “The Walk”, dando ainda mais peso antropológico à obra. É a potencialização da narrativa que faz de The Centennial um divisor de águas na carreira de Christian Scott, decerto um dos maiores nomes do jazz desta geração.


15. Latency

Kathrine Windfeld

Gravadora: Stunt
Data de Lançamento: 7 de julho de 2017

Ouvir no Spotify

Trabalhar big bands com melodias delicadas é algo complexo, coisa que líderes da envergadura de Christian McBride e Maria Schneider têm feito sob diferentes prismas. A dinamarquesa Kathrine Windfeld chega ao seu segundo disco, Latency, com a pompa de conseguir traduzir sentimentos como deixar uma cidade querida (“Leaving Portland”) ou manter a serenidade em um mês tão conturbado como dezembro (“December Elegy”). Em sua música, piano e flauta dividem o protagonismo. Mesmo se tratando de instrumentos tão ligados à sutileza, eles dão angulações para efusiva sincronia entre baixo e metais. Em “Double Fleisch”, por exemplo, ela exercita um tipo de dinâmica que revolve à orquestra de Fletcher Henderson. Já “Elak” possui todo requinte moderno, porque se baseia em escalas oriundas do hard-bop, com saxofone e piano sustentando o ritmo do tema. Isso prova que big band, para Kathrine, não significa explorar um tipo de som massivo. Em muitos momentos, ela não tem receio de soar econômica e tangencial, priorizando sensações ante a musicalidade ostensiva.


14. Entremundos

Nômade Orquestra

Gravadora: Far Out Records
Data de Lançamento: 23 de junho de 2017

Ouvir no Spotify

É inegável a força do afro-beat na música instrumental brasileira, mas a Nômade Orquestra toma o cuidado de não soar como cover dos grupos de Fela Kuti. Em seu segundo disco, Entremundos, o grupo liderado pelo saxofonista e flautista André Calixto fez com que a naturalidade de seu som englobasse características mais típicas de nossa música atual: a influência da psicodelia, a percussão marcada que parece extraída de uma tribo amazônica e composições mais progressivas, que caminham para um jazz mais próximo da linguagem latina como um todo, mas sem perder a essência da música africana. Logo no primeiro tema, “Jardim de Zaira”, percebe-se o compromisso de trazer as influências do ocidente e oriente em seu caldo híbrido. “Terra Fértil” parece ter sido idealizada após uma viagem pela Índia e pelo Oriente Médio, tamanha a intensidade da viajeira pro lado direito do mapa. Calixto soube muito bem como aproveitar a força do brass sonoro, vide a instigante “Travessia”. O guitarrista Luiz Galvão também exerce grande influência nas direções musicais do grupo, seja optando por riffs com grandes efeitos (“Vale da Boca Seca”) ou mantendo o loop sonoro da psicodélica “Deliriuns”.


13. Umbrella Weather

Led Bib

Gravadora: RareNoise
Data de Lançamento:
20 de janeiro de 2017

Ouvir no Spotify

O jazz continua forte como sempre na Europa, e um dos locais que melhor representam o poder de renovação do gênero é o Reino Unido. De lá, o Led Bib é um dos grandes destaques por conta da intensa energia que faz valer o rótulo de punk-jazz. O grupo chegou a fazer barulho em 2005, mas acabou sumido. Graças ao baterista Mark Holub, que convidou os demais integrantes para uma sessão em sua casa, em Viena (Áustria), o Led Bib voltou com força total. As sessões resultaram num álbum cheio de musculatura sonora: os sax-altistas Pete Grogan e Chris Williams dosam notas longas e ágeis, arrancando vibrações em “Lobster Terror” e criando intensa dinâmica de riffs na memorável “Women’s Power”. O baixista Liran Donin faz de seu instrumento uma espécie de máquina instigadora, permitindo que Holub desenvolva uma função mais de protagonista em seus loopings. (Completa o grupo o tecladista Toby McLaren.) São tantas energias que emanam de Umbrella Weather, que nem cabe muito bem apontar quem tá na linha de frente ou não. A integração sônica, que pega referências do free-jazz, do rock e da cena downtown de Nova York, mostra que a potência do Led Bib continua em alta voltagem. Baita retorno.


12. Cubafonía

Daymé Arocena

Gravadora: Brownswood
Data de Lançamento: 7 de março de 2017

Ouvir no Spotify

Em seu segundo disco, Daymé Arocena prova por que é uma das melhores cantoras de Cuba da atualidade. Da rumba à música da Santería, ela canta com demasiado fervor, seja brincando com scats e metais, em “Mambo Ná Má”, ou na influência do tango e da cumbia que exibe em “Lo Que Fue”. Logo na primeira canção Daymé sabe como prender o ouvinte: em “Eleggua”, o baixo de Gastón Joya introduz com groove desestabilizador o afro-beat dos metais. Coros vocais dão um pathos espiritual, e quando Daymé surge, vem com potência total. A introdução grandiosa, então, é sucedida por uma cantora grandiosa, que a cada canção de Cubafonía prova que as ramificações da música cubana são mais amplas do que imaginamos: tem um modo peculiar de revisitar o jazz vocal clássico, em “Maybe Tomorrow”, passeia com desenvoltura pela música popular africana, em “Negra Caridad”, e se entrega ao sentimentalismo na acústica “Todo por Amor”. E não pense que é isso: em “It’s Not Gonna Be Forever”, ela convida o ouvinte para o que parece uma música de roda, adornada por notas soltas do piano de Jorge Luis Lagarza e a percussão criativa de Yosvany Díaz. Longe de ser uma cartilha jazzística, Cubafonía mostra o efetivo poder polifônico não só no jazz de Cuba, mas em toda a música popular latina.


11. Far From Over

Vijay Iyer Sextet

Gravadora: ECM
Data de Lançamento: 25 de agosto de 2017

Ouvir no Spotify

Vijay Iyer integra o top 3 dos melhores pianistas da atualidade (eu deixo que você escolha os outros 2), principalmente por seus trabalhos em duo e em trio, com suas notas arrebatadoras no epicentro de suas composições. Em seu trabalho como sexteto, o renomado instrumentista elaborou temas com mais espaço para os metais. E os saxofonistas Steve Lehman (sax-alto) e Mark Shim (sax-tenor), além de Graham Heynes, que toca flugelhorn, respondem aos chamados com criatividade à altura do bandleader. Em “Poles”, eles surgem com demasiada acidez, impulsionada pela inteligente forma com que o baterista Tyshawn Sorey mantém o ritmo. Ao todo, Vijay apresenta uma versão mais econômica de si mesmo no disco – vide “Nope”, em que opta por notas cristalinas. Por ser um disco mais inclusivo, Far From Over divide os holofotes sonoros. Mas, os que apreciam a sublime técnica de Vijay podem se deleitar à vontade com temas como “Down to the Wire”, em que leva a técnica do stride a um patamar elegíaco. O hard-bop é a principal influência de “Into Action”, e “Good On the Ground” destaca-se como um dos melhores exemplos do disco de como a coletividade comandada por Vijay soa tão agradável como vê-lo sozinho diante de um piano.


10. Last Kind Words

Roots Magic

Gravadora: Clean Feed
Data de Lançamento: 7 de julho de 2017

Ouvir no Spotify

Desde final dos anos 1950 Ornette Coleman mostrou que o free-jazz está diretamente interligado ao blues, portanto o grupo italiano Roots Magic, em seu segundo disco, nem perde muito tempo ‘educando’ o ouvinte a essa conexão. Em Last Kind Words, eles chegam, fazem, impressionam e pronto. Dizendo assim, parece algo reverencial, mas a tessitura sonora por trás do disco é arrojada. Por mais que o fraseado dos temas aticem a nossa memória para a harmonia do blues, Alberto Popolla (clarinete e clarinete-baixo) e Errico De Fabritiis (sax-alto e sax-barítono) são ousados em criar a urgência de um som mais temperamental. Quando isso acontece, prepare-se para a dodecafonia, como em “Old” ou a faixa-título. A volatilidade rítmica do disco é resultado de muitos estudos da evolução da música negra norte-americana. De Charley Patton a Roscoe Mitchell (de onde vem a influência do minimalismo tonal, vide “November Cotton Flower”) e Henry Threadgill, o Roots Magic faz update ao som harmlódico de Ornette. Mas, ao contrário do saxofonista, que primou por essa técnica em aspecto individual, o Roots Magic ensaia sincronias e assincronias nos cruzamentos entre harmonia e melodia, entregando uma obra de devoção e, ao mesmo tempo, de originalidade.


9. Cherry-Sakura

Aki Takase & David Murray

Gravadora: Intakt
Data de Lançamento: 17 de fevereiro de 2017

Ouvir no Spotify

A experiência exala de Cherry-Sakura, álbum em que a pianista Aki Takase, 69, e o saxofonista David Murray, 62, reforçam uma conexão já amadurecida desde os anos 1990 (mais precisamente em Blue Monk, de 1993). Neste disco, eles abordaram momentos específicos da Idade Média para revelar sentimentos extremados. “To A. P. Kern” é uma linda balada que nos transporta a um ambiente de solidão e reflexão. Num temperamento anacrônico, a dupla desenvolve o escopo de hormônios em ebulição na criativa “Stressology”, faixa em que o sax-tenor de Murray atinge notas gritantes, como se fossem a expressão de um indivíduo irascível. A angular “A Very Long Letter”, que abre o disco, é prova de que a idade só tem melhorado a técnica de Murray, excelente instrumentista que soube como poucos fazer a ponte entre o clássico e o avant-garde moderno com o passar dos anos. Mais uma vez a dupla celebra a influência partilhada de Thelonious Monk, em “Let’s Cool One”, que permite a Takase conectar o modal ao blues com a irreverência do mestre (lembrando que Aki Takase é uma das maiores jazzistas do Japão).


Capa de Fly or Die, disco de estreia de Jaimie Branch

8. Fly or Die

Jaimie Branch

Gravadora: International Anthem
Data de Lançamento: 5 de maio de 2017

Ouvir no Spotify

É um título bem forte para uma trompetista que acaba de lançar seu primeiro disco. E nada como o selo International Anthem para mostrar a força de duas cenas muito fortes para o jazz norte-americano: Chicago e Los Angeles. Jaimie Branch já compôs ao lado de feras como o baixista William Parker e a saxofonista Matana Roberts, além de colaborar com as bandas de rock Spoon e TV On The Radio. Seus “sopros fantasmagóricos”, como bem definiu o The New York Times, carregam uma ventania que impulsiona a agilidade em instrumentos pesados, como o violoncelo de Tomeka Reid e a guitarra de Matt Schneider. Em “Theme Nothing”, por exemplo, seu trompete soa como aquele sopro que vem de uma extensa base, mantendo o clímax sonoro a todo o tempo. “Leaves of Glass” lembra Miles Davis na fase Sketches of Spain (1960), mas é em temas como “Jump Off”, “Theme 001” e “Theme 002” que sacamos como Jaimie alia intensidade com riffs arrastados. Mal dá pra perceber quando a manutenção do ritmo é entregue aos solos, e nesse quesito Tomeka surge como aliada importante, principalmente quando está em sinergia com o baixista Jason Ajemian. Jaimie precisa de poucos segundos para levar sua música à transcendência, e o que realmente impressiona em Fly or Die é sua habilidade de manter o ouvinte em sentido de alerta, em pouco mais de 30 minutos.


7. La Saboteuse

Yazz Ahmed

Gravadora: Naim Records
Data de Lançamento: 10 de fevereiro de 2017

Ouvir no Spotify

Um dos grandes nomes da cena do jazz de Londres tem descendência balinesa. E isso tem grande influência na música da jovem trompetista Yazz Ahmed. No ambicioso La Saboteuse, ela utiliza efeitos wah-wah, passeia por escalas da música árabe e usa o silêncio a seu favor numa característica que, quando não é minimalista, soa extremamente rica em detalhes. De Terry Riley ao post-rock de Talk Talk, existe um limiar jazzístico que, se parece invisível, finalmente dá as caras com La Saboteuse. Ela usa a atmosfera a seu favor em “The Space Between the Fish and the Moon”, e conta com colaborações importantes, como o saxofonista Shabaka Hutchings no clarinete-baixo (que forma uma dupla transcendental com Yazz em “Al Emadi”) e, principalmente, a presença de Naadia Sheriff no piano Rhodes. É ela quem forma a ligação com o Oriente em suas notas, seja na beleza sublime de “Jamil Jamal” ou na intercalação com os metais em “The Lost Pearl”. Ah, e a tonalidade escolhida para o cover de “Organ Eternal” deu ainda mais profundidade ao tema do These New Puritans. Antes de lançar o disco completo, Yazz Ahmed fragmentou-o em três atos que, juntos, formam um dos álbuns mais deliciosos de todo 2017.


6. No Mundo dos Sons

Hermeto Pascoal & Grupo

Gravadora: Scubidu Records/Selo Sesc
Data de Lançamento: 28 de julho de 2017

Ouvir no Spotify

Naquele dia, Hermeto Pascoal estava tão seguro, que deixou seu grupo à vontade com seus temas tão coloridos, quanto vibrantes. Em uma apresentação no Sesc Pompeia (São Paulo), o tal Grupo de Hermeto – formado por Itiberê Zwarg (contrabaixo), André Marques (piano), Ajunirã (bateria), Jota P. (sax) e Fabio Pascoal, seu filho, na percussão – exibe desenvoltura para exibir parte do legado do bruxo alagoano de 81 anos. O repertório de No Mundo dos Sons conecta a maestria de Hermeto em inúmeros ritmos populares brasileiros com o jazz norte-americano de mestres, como os trompetistas Miles Davis e Thad Jones, o pianista Chick Corea e o argentino Astor Piazolla. Nossos compositores também são homenageados pelo grupo. “Para Tom Jobim” alterna entre as fases do renomado compositor carioca, dos tempos de bossa nova aos experimentos com música indígena. Outro homenageado é Edu Lobo, num arrojo musical que, se fosse posto em palavras, diria algo como: ‘obrigado pela ousadia’. São 18 músicas para quem sentia falta de novidades de Hermeto. Ah, e vale lembrar que 2017 foi um ano especial para fãs do alagoano: pelo Natura Musical, ele lançou o álbum Natureza Universal, onde apresenta arranjos mais orquestrais; e o disco perdido de 1976, The Lost Tapes, uma das melhores redescobertas do ano passado.


Capa do disco Aluê, de Airto Moreira, lançado em 2017

5. Aluê

Airto Moreira

Gravadora: Selo Sesc
Data de Lançamento: 1º de dezembro de 2017

Ouvir no Spotify

Em 50 anos de carreira, é a primeira vez que Airto Moreira, percussionista mundialmente conhecido, lança disco em seu país. O Selo Sesc deu aval para que ele convidasse músicos com quem tem grande afinidade – incluindo sua filha, Diana Purim, que parece carregar a força de um canto coletivo em sua voz. É possível sentir a vibração de felicidade que paira em Aluê, que reúne alguns de seus clássicos como a faixa-título (do disco Natural Feelings, 1970) e a especialíssima “Lua Nova” (de The Sun is Out, 1989), repaginadas com maior carga elétrica. A afinidade é importante em Aluê. Em “Não Sei pra Onde, Mas Vai”, o baixista Sizão Machado, o guitarrista José Neto e o saxofonista Vitor Alcântara entendem bem a direção dodecafônica instigada por seus diversos apetrechos percussivos. As interferências rítmicas do piano elétrico de Fabio Leandro têm herança de In A Silent Way (1969), do colega Miles Davis, com quem Airto juntou-se no ano seguinte, no embrionário Bitches Brew. Nesse caldo estético, claro, Airto faz questão de celebrar a música popular brasileira, no groove de “Misturada” e nos mistérios amazônicos de “Rosa Negra”. Tomara que seja apenas o start de um comprometimento discográfico em nossas terras.


Capa de Najwa, disco do trompetista Wadada Leo Smith

4. Najwa

Wadada Leo Smith

Gravadora: TUM
Data de Lançamento: 20 de outubro de 2017

Ouça a faixa-título no YouTube

Poucos instrumentistas têm a autoridade de Wadada Leo Smith para revisitar John Coltrane, Ornette Coleman ou o baterista Ronald Shannon Jackson. A abordagem deste genial trompetista do Mississipi, cada vez mais necessário mesmo aos 76 anos, é reflexiva. Dessa reflexão, ele extrai ensinamentos obtusos, fazendo de seu instrumento âncora para assimilação dos antepassados. Najwa é um disco eletrificado, bastante influenciado pela guitarra. De fato, Wadada conheceu bem a evolução do instrumento: seu padrasto, Alex “Little Bill” Wallace, foi um dos pioneiros na transição do blues tradicional para a guitarra elétrica. Nos últimos anos, Wadada tem se dedicado a complexificar o passado. Discos como Ten Freedom Summers (2012) e America’s National Parks (2016) são envoltos de mistério: em sua música, o ambiente está em sintonia com a naturalidade de suas notas – algo que se percebe na faixa-título deste disco, por exemplo. Suas notas abertas sugerem um olhar à nossa volta, uma verdadeira análise diante do que presenciamos. Não que Wadada seja político – direção que muitos músicos têm tomado erroneamente, inclusive. Ele é intelectualmente expansivo: seja nas notas pausadas ou em solos inspiradores que têm repensado a estética avant-garde, o trompetista cria um gigantesco campo imaginativo em que lembranças e inovações do passado têm a chance de serem re-compreendidos, sob um olhar particular, inclusivo, expressivo. A cada lançamento, Wadada Leo Smith dá mais provas de que está em sua melhor forma.


3. Radio Diaspora 2

Radio Diaspora

Gravadora: Sê-lo Net Label
Data de Lançamento: 21 de agosto de 2017

Ouvir no BandCamp

O projeto Radio Diaspora é formado pelo trompetista Romulo Alexis e o baterista Wagner Ramos. Eles levam a sério o termo ‘rádio’: com colagens sonoras, passam a mensagem de sentimentos difusos e clima político tenso no Brasil. Colocado em um plano global, dá pra dizer que, assim como o antecessor homônimo, Radio Diaspora 2 dialoga com o free-jazz de cunho antropológico ao lado de nomes como Matana Roberts e Nicole Mitchell. O material que forma a transmissão radiofônica é totalmente extraído de polifonias e discursos que falam sobre a herança da cultura africana. Elas se mixam ao som reflexivo do duo naquele bom e velho diálogo com o hip hop. É essa a impressão da primeira faixa, “Poesia Sonora”, que vai assimilando fragmentos estéticos como o forte uso de percussões, efeitos viscerais da improvisação livre radicalizada e a dodecafonia, simbolizando caos, revolta e, principalmente, reflexão sobre tudo que está acontecendo a nosso redor. As ressonâncias de temas como “Blackbird” e “Meninos” dão o tom de raiva e desespero que a revisão de temas como a diáspora têm suscitado. Que venham mais sequências de Radio Diaspora.


Capa de Mandorla II, novo disco de Nicole Mitchell

2. Mandorla Awakening II: Emerging Worlds

Nicole Mitchell

Gravadora: NPE Records
Data de Lançamento: 5 de maio de 2017

Ouvir no Spotify

Se você acha que flauta é sinônimo de calmaria, repense. Pelo menos 3 artistas remodelaram o instrumento em 2017, sob diferentes formas: na música popular, MC Fioti criou o jargão da ‘flauta envolvente’ com sampler de Bach; no avant-garde, Björk fez do instrumento porta-voz de um protesto pacifista. E, mais importante que eles, Nicole Mitchell colocou-o na dianteira de um som afrofuturístico que também soa como protesto, só que com mais peso. Com a Black Earth Ensemble, ela faz da livre improvisação o exercício ideológico de um discurso libertador. É diaspórico, é científico. Tem Last Poets (vide “Staircase Struggle”, com vocais de Avery R. Young), Ornette Coleman, Art Ensemble of Chicago e, obviamente, Sun Ra no caldo de referências. Para Nicole, a flauta é mais que libertação; é a salvação, a busca de uma vivência com respeito, ecoada por outros instrumentos de diferentes tons de expressão, como o shakuhachi de Kojiro Umezaki (que ramifica o magnífico arranjo de sopros do disco), a guitarra feroz de Alex Wing e o violoncelo de Tomeka Reid, cujo objetivo de arquear até onde não dá mais o instrumento desperta urgência para uma resposta à seguinte pergunta posta por Nicole: “O que seria de um mundo realmente igualitário, com a tecnologia avançada em sintonia com a natureza?”. A intensidade do disco dá a entender que seria um mundo mais inteligente e coabitável, em que as ideias tomariam o protagonismo das atrocidades. De tão forte que é essa mensagem, Mandorla Awakening II dá a entender que tal mundo é possível.


1. Irreversible Entanglements

Irreversible Entanglements

Gravadora: International Anthem
Data de Lançamento: 26 de setembro de 2017

Ouvir no Spotify

Já no desvanecer da era Obama, a música norte-americana servia de protesto aos assassinatos de negros por policiais brancos. Ao mesmo tempo em que Run the Jewels e J Cole falavam sobre esse tipo de violência, Camae Ayewa, conhecida por seu projeto Moor Mother, mobilizou-se para criar, em 2015, o Irreversible Entanglements, ao lado do sax-altista Keir Neuringer e o baixista Luke Stewart. Pouco tempo depois, o trompetista Aquiles Navarro e o baterista Tcheser Holmes ajudaram a tornar a sonoridade do grupo mais corpórea. Camae fornece uma narrativa jornalística e, ao mesmo tempo, pedagógica, falando sobre como sonhos e utopias são destroçados pelo preconceito, pelo nacionalismo doentio e pela matança diária de jovens negros nos Estados Unidos.

São músicas fortes, que questionam a ação individual das comunidades diante de algo que não tá nada bem. Em “Fireworks”, ela provoca: ‘Você está com medo’. Os metais evocam uma sonoridade de lamento e condescendência, mas se apoiam um no outro, dando o exemplo subjetivo de que dar as mãos é o melhor a se fazer neste momento. A busca de forças resulta em bem-sucedidas buscas de criatividade. Mesmo ao expressar cansaço e desespero, em “Enough”, free-jazz, afrofuturismo e space-funk ajudam Camae a atingir um ethos espiritual, que busca cooptar o ouvinte.

Poucos gêneros têm sido transmissores de mudanças como o jazz nos últimos anos, e o Irreversible Entanglements não poupa elementos, energia, ira e veracidade para chacoalhar a mente e as convicções dos ouvintes.

Share this post

Tiago Ferreira

Editor do Na Mira desde 2010 - que, além de site, também é canal do YouTube e Embaixador Spotify. Já trabalhei como redator de comunicação interna, produtor de conteúdo da B2W (Americanas, Submarino e afins) e repórter de entretenimento, ciência e tecnologia no Vix.com. Também sou colaborador eventual da Revista da Cultura (da Livraria Cultura).


Mais artigos para você:


  1. Ricardo Pereira 18 Janeiro, 2018 at 10:52 Responder

    A minha ficaria assim, a maioria conheci por aqui, via Groovin’ Jazz.

    1. The Centennial Trilogy – Christian Scott
    * The Emancipation Procrastination > Diaspora > Ruler Rebel
    2. A Rift In Decorum: Live at the Village Vanguard – Ambrose Akinmusire
    3. Harmony of Difference – Kamasi Washington
    4. Dark – Hornstrom
    5. Antiphon – Alfa Mist
    6. Ephemera Obscura – MiND GAMeS
    7. Last Kind Words – Roots Magic
    8. No Mundo dos Sons – Hermeto Pascoal
    9. Hizuru – Hizuru
    10. Dreams and Daggers – Cécile McLorin Salvant
    11. Free of Form – Sarah Elizabeth Charles

Poste um novo comentário