30 Melhores Discos Nacionais de 2014

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10. Mamãe Quero Ser Pop


Strobo

Gravadora: Independente
Gênero: Música paraense instrumental
Data de Lançamento: 14 de outubro de 2014

Download via site oficial

A cena da música instrumental brasileira é principalmente tomada pelo rock. Não que não tenhamos vocalistas: diante do rechaço de uma indústria segregacionista, o que tinha pra falar talvez já foi falado. Há muitas bandas boas neste sentido: Huey, Testemolde, a extinta Pata de Elefante, Burro Morto, Herod, Sobre A Máquina e uma porrada de outras. Fora de todo esse contexto, o que Strobo nos apresenta é uma variante da música paraense que tanto critica, como ironiza. O título é elementar, mas as canções são ainda mais: em “Ostentação”, o Miami bass dialoga com acordes que lembram cavaquinho. Nessa jogatina, o duo insere o eletrônico que costuma explorar, fincando possibilidades não testadas. “Latino” é dançante como uma música de Felipe Cordeiro; “Amazônia Bang Bang” é espécie de vitrine para se conhecer a nova produção eletrônica nacional; e “Minimal”, a junção que deu certo entre ritmo paraense em timbragens experimentais, dialogando com o Psilosamples. Mamãe Quero Ser Pop certamente não estará em nenhuma parada da Billboard, porque não interessa a nenhuma gravadora ou canal de TV. Mas, no mínimo, deveria despertar curiosidade de quem se diz estudioso da música brasileira atual.

Ouça: “Amazônia Bang Bang”


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9. Quarup


Lupe de Lupe

Gravadora: Independente
Gênero: Rock
Data de Lançamento: 12 de novembro de 2014

Esses mineiros são ambiciosos, e é essa força que faz de Quarup um álbum consistente. Há muitas direções musicais: shoegaze (“Ao Meu Verdadeiro Amor”, “Ágape”), pop rock (“O Futuro é Feminino”), dark-ambient (“Jurupari”, com participação de Cadu Tenório) e até drum’n bass (“Eu Já Venci”). São 21 faixas, diversas ideias, muitos perrengues e uma vontade sem fim de abraçar o mundo. Citando o ritual de celebração da morte enquanto vida, Quarup é independente até o osso. Em alguns momentos chega a ser tosco por conta de sua produção, e é isso que dá sustentação e graça à brincadeira (séria!). Entre a difícil caminhada e uma barulheira das boas, o Lupe de Lupe convence, ainda que tome 2h de seu tempo (nada perdidos, diga-se): é uma das grandes bandas de rock nacional.

Ouça: “Ao Meu Verdadeiro Amor”


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8. Almejão


Matheus Mota

Gravadora: Ubu Records
Gênero: Alternativo
Data de Lançamento: 29 de setembro de 2014

Ouvir via Soundcloud

Fala se não é o melhor título de disco em 2014? O pernambucano Matheus Mota compõe via piano de forma multidimensional, dando abertura melíflua para entrada de instrumentos como sax e bateria. Suas composições trazem a natural herança que abrange dos arranjos inovadores do Som Imaginário às colagens sonoras de caras como CESRV. A impressão é estarmos diante de um solitário nerd que sabe dosar melancolia, bom humor e rica musicalidade. Ele cria uma paisagem sonora pacífica como se vê na capa, feita por ele mesmo. Aqui, temos o termo lapidação em seu auge.

Ouça: “Gafanhotos Caramujos”


Trummer Super Sub América

7. Trummer Super Sub América


Trummer SSA

Gravadora: Independente
Gênero: Rock
Data de Lançamento: janeiro de 2014

Download via site oficial

Os brasileiros precisam ler mais Eduardo Galeano, e não há convite melhor que o projeto Trummer SSA, tocado pelo líder da banda Eddie e integrantes do Vivendo do Ócio. O clássico As Veias Abertas da América Latina é a bíblia, mas isso não quer dizer que o ouvinte precisa ser versado no livro para ouví-lo. Na verdade, muito pelo contrário: Fábio Trummer faz um convite à integração dos países dessa região tão truncada entre si e contextualiza, como poucos fizeram, os momentos de incerteza política que pairaram como nuvem desde as manifestações de junho de 2013 (“Medo da Rua” é um dos melhores hinos sobre aquele momento).

Ouça: “SAS (Salve a América do Sul)”


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6. Wooden


Wallace Costa

Gravadora: Acácio Records
Gênero: Folk/Lo-fi
Data de Lançamento: 19 de maio de 2014

Download via Bandcamp

A qualidade de Wallace Costa segue pau a pau com sua produtividade: além dos trabalhos solo, ele cuida de quatro projetos paralelos, quase sempre conciliando o compromisso de lançar, pelo menos, um disco por ano de cada um deles. Como Wallace Costa mesmo, Wooden é o segundo trabalho de 2014 (ainda haveria um terceiro, 3:33, cujos detalhes ele deu em entrevista exclusiva ao Na Mira), e é a obra em que melhor sentimos sua profundidade de isolacionista e levemente esperançoso. Wallace não entrega muito de si nos discos mas, quanto mais o sentimos ocultar em suas curtas faixas, percebemos o quanto ele é influenciado pelo microcosmo de uma cidade pequena (Cruzeiro, interior de São Paulo). É como um haicai, com a habilidade de dizer muito com pouco, que Wallace desperta sorrisos em “Cafuné Cósmico”, nos convence de sua tranquilidade em “Transborda” e nos deixa apaixonados pela simplicidade em “Pulmão”. Com Wallace, o pacato e imperceptível é essencial enquanto filosofia. Eis a melhor sugestão de encontrarmos a felicidade (ou a melancolia, e isso não é algo ruim).

Ouça: “Pulmão”


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5. Cores & Valores


Racionais MCs

Gravadora: Boogie Naipe
Gênero: Rap
Data de Lançamento: 25 de novembro de 2014

Adquirir via Google Play

O que deu nos Racionais MCs para frustrar assim, do nada, expectativas de quem esperava um sucessor à altura de Nada Como Um Dia Após o Outro Dia (2002)? Para o bem ou para o mal, Cores & Valores surpreendeu, e o maior choque foi perceber que as letras de Mano Brown e Ice Blue mais se aproximam do conteúdo dum funk ostentação, que seguir uma suposta linhagem do rap. Então, vem o contexto: os tempos são outros, as classes C e D ascenderam e os interesses da periferia, mais incrustados no som do grupo do que qualquer consciência social sobre o tema, também mudaram. A suíte “Cores & Valores” e “Eu Compro” sentenciam essa idoneidade dos Racionais, mas isso não quer dizer que eles não são mais os mesmos. “O Mau e o Bem” e “Quanto Vale o Show” estão lá para lembrar os ouvintes disso. Quer goste ou não, tudo que os Racionais lançam provoca discussões afloradas. Cores & Valores não haveria de ser diferente.

Ouça: “Quanto Vale o Show”


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4. a vida eh breve


llOVNI

Gravadora: Independente
Gênero: Shoegaze/Krautrock/Rock
Data de Lançamento: 16 de julho de 2014

Download via Bandcamp

Sem delongas, a vida eh breve é shoegaze, pós-punk, rock do submundo, sujo, fétido, flamejante. Há muitos exploradores dessa vertente no Brasil. Permanecem ignorados como sempre – e assim há de ser – mas pouquíssimos conseguiram estabelecer tão bem-sucedido acabamento como o llOVNI. A primeira coisa a notar é que as letras são em português e a postura é de intriga e revolta de músicos que sabem que precisam forçar com brutalidade o menor espaço que seja para propagar o que querem. Muitos podem dizer que a banda tá presa aos anos 1980, mas então vem o argumento: desde quando houve espaço para bandas esfumaçadas pós-punk que rejeitam qualquer inibição de major? “Doce Vida” e “Surfista Cromado” são exemplos desse possível ressentimento coletivo: nem nas rádios, nem na TV, nem em blogs indies você verá o llOVNI. Há experimentações com outros gêneros – como a falível soundtrack de um filme que parece perdido por aí em “Pobre Rapaz” e a diferente perspectiva do que poderia ser rock adolescente em “Leonel”. Pô, a vida é breve, por que deixar a criatividade desses caras que gostam de se esconder sob efeitos de guitarra esvair assim? Aumente o volume, esqueça que década está e deixe rolar.

Ouça: “Alívio”


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3. Cruz


Elo da Corrente

Gravadora: Independente
Gênero: Rap
Data de Lançamento: 2 de setembro de 2014

A fluência do trabalho de Caio, PitzanDJ PG impressionou logo de cara, em 2000, gerando certa expectativa antes do primeiro álbum de fato: Após Algumas Estações (2007). O Elo da Corrente não é de decepcionar quando se espera algum trampo novo, e Cruz não só cumpre tal façanha, como supera qualquer preconcepção. As bases do disco são baseadas em profundas pesquisas e o time de participantes impressiona: Danilo Caymmi (“Memórias”), Célia (“Ave Liberdade”), orquestra de Arthur Verocai em algumas faixas… Ah, também tem espaço para a nova geração: Márcia Castro canta na faixa-título e, em “Salutaris”, quem faz a vez é Rodrigo Brandão (Zulumbi). No entanto, o grande protagonismo de tudo isso parte das rimas do grupo. Possuem a melancolia da maturidade e, ao mesmo tempo, a assertiva de quem capta a essência de nossos tempos. Em “Naja”, o sax de Thiago França acompanham a lucidez diante de uma realidade de pouco oásis e muito deserto. “Batucada Fantástica” menciona a ‘fantástica transa brasileira‘ celebrando a diversidade de forma não-convencional. E a fé versada em “Ave Liberdade” é tão inspiradora quanto a música brasileira como um todo que bate no som do Elo.

Ouça: “Memórias”


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2. Encarnado


Juçara Marçal

Gravadora: Independente
Gênero: MPB/Música Torta Brasileira
Data de Lançamento: 18 de fevereiro de 2014

Download gratuito pelo site oficial

A demanda de intérpretes no Brasil é tão alta quanto o número de barzinhos para que se apresentem. Chega ano, passa ano, e sempre voltamos aos mesmos clichês quando nos deparamos com artistas que cantam repertório alheio. Portanto, o risco de Juçara Marçal pertencer a este injusto balaio existe, mas logo se esvai. Basta ouvir a canção de abertura de seu primeiro álbum solo, “Vermelho Amarelo”, composição do parceiro Rodrigo Campos (que também toca cavaquinho e guitarra, ao lado de Kiko Dinucci, no disco). Quem começaria um disco falando da morte tão escancaradamente? Das inúmeras canções de Tom Zé, por que a opção por uma recente e, até então, pouco notável, como “Não Tenha Ódio no Verão”? (Agora já era: a música é dela.) Como ela tornou exercício fácil entoar a dificílima “E o Quico?”, de Itamar Assumpção? Cada canção é uma quebra de paradigma. O que se entende por intérpretes no Brasil não deve mudar por um longo período de tempo, justamente porque o que Juçara Marçal consegue em Encarnado é imbatível. Mas, uma coisa não podemos negar: há muito repertório de música nacional a ser explorado. Que Encarnado passe a ser uma cartilha para evitarmos que os caixões de Renato Russo, Cazuza, Raul Seixas e Tim Maia continuem a se revirar.

Ouça: “Não Tenha Ódio no Verão”


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1. Ilhas de Calor


Negro Leo

Gravadora: Quintavant
Gênero: Música Torta Brasileira
Data de Lançamento: 16 de junho de 2014

Download via Bandcamp

Sempre há remanejamento na loucura‘: a repetição que se perpetua em “Underground Impossible Hit” parece vir de um maquinário velhaco, de uma mente doente que não se curou com o tempo. Negro Leo não tem nada a ver com essa analogia, mas, digamos, essa é apenas uma das muitas divagações que se pode fazer ao se deparar com a estreia Ilhas de Calor. Guitarras fritadíssimas, composições que não escondem o lado contestador diante de uma sociedade cada vez mais unilateral. Do baixo freaky-funk de Felipe Zenícola às letras niilistas do compositor, Ilhas de Calor é prática excêntrica de se propagar ideias tortas.

O disco é como um quebra-cabeças desmontado, cujas peças se embaralham ainda mais a cada audição. Isso garante uma complexidade ímpar a Ilhas de Calor, ao mesmo tempo que nos sugere que o enigmático e quase ininteligível pode sugerir respostas convincentes de que a música brasileira ainda tem muito a ser explorada. Nesse quesito, Ilhas de Calor não apenas é sua maior prova. Diante de um wurlitzer claudicante (vide “O Voluntário da Coluna de Marte”), guitarras com cordas prestes a se arrebentar (“O Céu dos Otários é Neutro”), um free-rock-jazz instrumental de estourar os amplificadores, com uma linha de bateria excepcional de Thomas Harres, e uma letra tão depravada e doidivanas quanto “Xereca Satânica”, Ilhas de Calor é inatingível em seu experimento, ousadia e unicidade.

A cada audição a certeza aumenta.

Ouça: “O Céu dos Otários é Neutro”




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Tiago Ferreira

Editor do Na Mira desde 2010 – que, além de site, também é canal do YouTube e Embaixador Spotify. Já trabalhei como redator de comunicação interna, produtor de conteúdo da B2W (Americanas, Submarino e afins) e repórter de entretenimento, ciência e tecnologia no Vix.com. Também sou colaborador eventual da Revista da Cultura (da Livraria Cultura).


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  1. Igor França 27 dezembro, 2014 at 17:28 Responder

    engraçado que você deu 8.5 na crítica tanto pra ‘cores & valores’, ‘lupe de lupe’ e ‘encarnado’ quanto pra ‘sobre noites e dias’, e deixou este lá atrás na lista.

    adorei. alguns não tinha ouvido ainda (inclusive o primeiro da lista). na minha lista alguns aí não entravam, mas suas referências são ótimas, sempre considero.

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