30 Melhores Discos Nacionais de 2014

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20. Convoque Seu Buda


Criolo

Gravadora: Oloko Records
Gênero: Rap/Afrobeat/
Data de Lançamento: 3 de novembro de 2014

Download gratuito pelo site oficial

Nó na Orelha (2011) foi um marco por conta das junções estéticas a favor de um rap que não deixava a consciência social de lado. Convoque Seu Buda tem o mesmo escopo; partindo do pressuposto que o anterior abriu as brechas sonoras, neste álbum os produtores Daniel Ganjaman e Marcelo Cabral lapidaram timbres de samurais (“Esquiva da Esgrima”), com mais Don Cherry, Arthur Verocai e RZA na receita. As letras de Criolo continuam afiadas, o que, convenhamos, não é nenhuma novidade. As participações de Tulipa Ruiz (“Cartão de Visita”) e Juçara Marçal (“Fio de Prumo”) são significativas, mas poucos momentos são tão inspiradores quanto o arranjo que o saxofonista Thiago França concebeu para “Casa de Papelão”, deixando fluir toda a liberdade trabalhada com o MarginalS. ‘Olhos na multidãããoo!’, crava Criolo. Era o melhor que ele poderia ter feito ali.

Ouça: “Casa de Papelão”


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19. A Banda Solitária do Inspetor Figueiredo


Nosso Querido Figueiredo

Gravadora: Independente
Gênero: Rock/Eletrônico/Experimental
Data de Lançamento: 31 de janeiro de 2014

Download via Bandcamp

Figueiredo faz um som doidivanas, mal produzido, estranho e humorístico. Este produtivo portoalegrense é toscamente ácido. Nenhuma gravadora jamais o aceitaria. O público do The Voice o lincharia se o visse na TV. Há quem ache insípido um som como “A Arma e o Band-Aid”. No entanto, não haveríamos de ter melhor exemplo da divertida influência de Juca Chaves em nossos tempos como em A Banda Solitária do Inspetor Figueiredo. A referência beatlemaníaca é mera quimera pois, por mais que o rock ecoe em “Blues da Felicidade” e “Morfina”, estamos diante de um exercício de “deleite do próprio criador”, como o próprio Figueiredo entrega: “É um senso de humor muito estranho, um romantismo que às vezes assusta”. No fim, é diversão pura.

Ouça: “Terra de Sonhos”


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18. Corpo e Alma


Inquérito

Gravadora: Independente
Gênero: Rap
Data de Lançamento: 27 de outubro de 2014

Download via site oficial

A maturidade com que Renan Inquérito trata temas como fé, sonhos, correria e, principalmente, educação, é algo raro mesmo no rap nacional, cenário que já pôs esses debates em pauta muitas e muitas vezes. O título Corpo e Alma poderia sugerir alguma busca pessoal, mas o que acontece é justamente o contrário: Inquérito quer ser a boa influência, pois sente o peso da responsabilidade que é cantar, fazer poesia e se comprometer em projetos sociais (ele ministra oficinas de literatura em escolas e presídios). As participações de Alexandre Carlo (do Natiruts, em “Carrossel”), KL Jay (em “Sonhos”) e o surpreendente refrão entoado por Arnaldo Antunes em “Versos Vegetarianos” fornecem uma dinâmica mais diversa ao trabalho, acompanhando a transformação que o rap tem passado ao longo dos anos.

Ouça: “Versos Vegetarianos” (part. de Arnaldo Antunes)


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17. Lodo


Bemônio

Gravadora: Quintavant
Gênero: Dark-ambient/Experimental
Data de Lançamento: 22 de maio de 2014

Download via Quintavant

Paulo Caetano, o principal mentor do Bemônio, deu início a diversos projetos paralelos em 2014 – a maioria deles tomados pela recente morte de seu pai (vide Adeus), que já deve completar 1 ano. No entanto, foi com Lodo que percebemos esse vazio se alastrar. Claro, a devolutiva é um dark ambient arregimentado em drones infecciosos. Logo na faixa inicial, “João 9:6-16”, vemos que algo pútrido corrói o andamento da faixa. Ainda que não seja dedicado a esta perda, Lodo exibe mais resistência emocional que estouros. Impera-se como continuidade de SANTO (melhor disco nacional de 2013 pelo Na Mira), com algumas diferenças: as referências sacras invariavelmente interligam-se mais às vicissitudes pessoais do criador, que a um possível contexto de crítica. Ainda que de forma reversa, João, Jesus e Siloé habitam o universo musical (quiçá pessoal) de uma das melhores contravenções artísticas a brotar em nosso solo. Das lamas, o Bemônio se fortifica e galga longevidade.

Ouça: “cuspiu na terra, e com a saliva fez lodo, e untou com o lodo os olhos do cego”


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16. Rasura


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Gravadora: Sinewave
Gênero: Rock instrumental
Data de Lançamento: 27 de setembro de 2014

Download via Sinewave

Já que muito se fala do cenário post-rock no Brasil – ainda que esteja preso a um nanomercado – digamos que os curitibanos do ruído/mm sejam um deles. Acredite: sua projeção lhe dá quase a alcunha de indie, o que não deixa de ser bobagem. Não é por ter Mark Kramer (Galaxie 500, Butthole Surfers) na produção ou receber incentivo da Fundação Cultural de Curitiba que garantiram ao ruído/mm o escopo necessário para um disco. Faixas como “Eletrostática”, “Cromaqui”, “Transibéria” nada fogem do que a banda tem proposto nos últimos 11 anos. O que muda é a lapidação, claro, mas isso só ocorre por conta da melhor infraestrutura que tiveram à disposição. Rasura não é um disco que deva ser comparado aos trabalhos anteriores justamente por isso. Como explicou o guitarrista Ricardo Pill, em entrevista ao Na Mira, o álbum é resultado de “deliberações nossas, naturais”. Anti loudnesswar, como definiu Kramer.

Ouça: “Cromaqui”


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15. Século Sinistro


Ratos de Porão

Gravadora: Tentacles
Gênero: Hardcore/Crossover
Data de Lançamento: 2 de setembro de 2014

Séculos apaixonados? Enquanto houver tiozinho trocando comida por pinga, jovens pseudorrebeldes achando que uso compulsivo de drogas é a melhor forma de se rebelar contra os pais, gente continuar fazendo dívida a rodo pra lucrar bancos e outras instituições financeiras; enquanto homem continuar espancando mulher por aí, enquanto políticos continuarem aumentando seus salários todo ano, tudo vai permanecer uma bosta. E não há melhor remédio contra isso que a pancada sonora dos Ratos de Porão. Oito anos após Homem Inimigo do Homem (2006), a banda de crossover liderada por João Gordo detrata o vício da galera que não tira o olho do smartphone (“Viciado Digital”) e fala um monte pros policiais repressores que propagam uma ideia de proteção que inexiste (“Conflito Violento”). Motivos não faltam pras cusparadas roqueiras dessa banda que permanece essencial no cenário musical cada vez mais frufru e alienado. Pogo neles!

Ouça: “Conflito Violento”


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14. Maximalista


André Frateschi

Gravadora: Warner/Chappell
Gênero: Rock
Data de Lançamento: 26 de junho de 2014

Nem André Frateschi pode acreditar que Mike Garson, o grande pianista por trás das músicas do clássico Alladin Sane (1973), de David Bowie, fosse aceitar o convite para gravar no seu disco de estreia solo Maximalista. Aqui, Garson é tão protagonista quanto Frateschi em suas delineações melódicas – vide “Outra Segunda” e a divertida “Eu Não Tenho Saco”. Todavia, notável mesmo é a habilidade de André em construir boas faixas pop. “Todo Homem é Uma Ilha” e “A Máquina Preenche” são sintomáticas de nosso tempo; um influente DJ colocaria fácil no circuito radiofônico. Mas é em “Queda” que percebemos a perfeita junção entre a dupla, numa letra que vai conquistar corações apaixonados/derretidos.

Ouça: “Maximalista”


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13. Ace


Huey

Gravadora: Sinewave
Gênero: Stoner-rock
Data de Lançamento: 14 de abril de 2014

Download via Sinewave

Usam tanto o termo stoner-rock para definir bandas de rock pesado que apostam na força dos riffs, mas creio que nenhuma, nenhuma mesmo, assimile tão bem o termo quanto os paulistanos da Huey. Suas faixas instrumentais são fortes como locomotiva: de “Sex & Elephants” a “Samuel Burns”, passando por petardos como “Baby Monstro”, “Pedregulho” e “Valsa de Dois Toques”, a Huey segura o ouvinte por trabalhar a usual estrutura roqueira num andamento cativo e criativo. Eles não precisam falar nada para supormos que são bons caras. A despeito da força bruta, prevalece a forte identificação com o que procuramos dentro do rock.

Ouça: “Valsa de Dois Toques”


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12. Zerima


Luiz Melodia

Gravadora: Som Livre
Gênero: MPB/Samba
Data de Lançamento: 16 de junho de 2014

Luiz Melodia esteve ocupado há alguns anos atrás, quando se dedicou a gravar um disco de sambas dos anos 1930 e 40 (Estação Melodia, de 2007) e conquistou novos fãs após o bonito registro no MTV Ao Vivo. Após algumas turnês e participação no disco Vagarosa, da Céu (em “Vira Lata”, devolvida aqui em “Dor de Carnaval”), Melodia tirou um tempo para compor novamente – algo que não fazia desde Retrato do Artista Quando Coisa, de 2001. Zerima reflete mais calmaria nos trabalhos do compositor. Habituado a transitar por Jovem Guarda, Tropicalismo e MPB, o novo álbum soa bem mais tranquilo. “Do Coração de Um Homem Bom” é pra quem procura paz interior e solenidade. “Cheia de Graça” é pra quem se encanta ao ver aquela moça bonita no samba. A interpretação de “Nova Era”, de Dona Ivone Lara e Délcio Carvalho, é transcendental. Sem esforço, Melodia segue seu caminho sem pressa e sem firula.

Ouça: “Nova Era”


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11. Paraíso da Miragem


Russo Passapusso

Gravadora: Oloko Records
Gênero: MPB/Alternativo
Data de Lançamento: 2 de setembro de 2014

Download via site oficial

Russo Passapusso é baiano, mas parece unir grande contingente de sotaques musicais. Tem frevo (“Relógio”), rock’n roll (“Remédio”), swing (“Anjo”), chill-out (“Devagar”) e um samba com cara de século XXI – caso da bela “Sangue do Brasil”. Não há um rótulo óbvio para o disco solo de estreia de Passapusso, e é isso que o torna tão abrangente, tão brasileiro. Quiçá ele represente a nova cara da MPB, com todos os clichês que podem lhe vir ao caso. Paraíso da Miragem, todavia, é mais que isso. É múltiplo, diverso e, principalmente, feito com amiúde qualidade que, se por um lado abre brechas para possíveis cópias daqui pra frente, por outro nos apresenta um compositor astuto e um músico de rara fineza em nossos trópicos.

Ouça: “Anjo”



 

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Tiago Ferreira

Editor do Na Mira desde 2010 – que, além de site, também é canal do YouTube e Embaixador Spotify. Já trabalhei como redator de comunicação interna, produtor de conteúdo da B2W (Americanas, Submarino e afins) e repórter de entretenimento, ciência e tecnologia no Vix.com. Também sou colaborador eventual da Revista da Cultura (da Livraria Cultura).


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  1. Igor França 27 dezembro, 2014 at 17:28 Responder

    engraçado que você deu 8.5 na crítica tanto pra ‘cores & valores’, ‘lupe de lupe’ e ‘encarnado’ quanto pra ‘sobre noites e dias’, e deixou este lá atrás na lista.

    adorei. alguns não tinha ouvido ainda (inclusive o primeiro da lista). na minha lista alguns aí não entravam, mas suas referências são ótimas, sempre considero.

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