10 melhores relançamentos/redescobertas de 2017 (nacionais e internacionais)

Soul, joias da África, avant-garde e, claro, muitas (re)descobertas brasileiras

A música nem sempre é pautada por novidades. Tudo é notícia, e isso chega a ser bastante favorável para redescobrir coisas obscuras do passado, sejam discos perdidos, trabalhos masterizados, artistas que não conseguiram lançar seus álbuns por entraves burocráticos ou até mesmo por risco de vida – como é o caso de Vincent Ahehehinnou.

Essas redescobertas são importantes, porque permitem reinterpretar o passado de forma mais complexa do que as intermináveis listas de Pitchfork e Rolling Stone de melhores discos de décadas passadas.

Isso porque memória no meio musical depende um pouco de sorte: o que aconteceria, por exemplo, se uma integrante da banda de Ike Turner e Tina Turner exibisse talento equiparável numa era tão competitiva como nos anos 1970? E se as grandes gravadoras brasileiras dessem chance para a cena, até então desconhecida, de música eletrônica experimental nos anos 1980?

Tudo bem, não vale a pena ficar na neura com questões hipotéticas. Mas não podemos deixar muitos pontos do passado em notas de rodapé na história. Por isso mesmo, relançamentos e redescobertas são tão importantes.

Demoramos para fazer uma lista dessas – afinal, é a primeira em mais de 7 anos em atividade – mas o que temos a apresentar vale a pena.

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Concorda com a seleção? Diz pra gente nos comentários quais relançamentos que ficaram de fora deveriam integrar a lista. Divirta-se:

10. Best Woman

Vincent Ahehehinnou

Gravadora: Analog Africa
Data de Lançamento: 20 de abril de 2017

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A Analog Africa surgiu com vários relançamentos importantes que ajudaram a recontextualizar as descobertas da música africana ao longo das décadas de 1960 a 1980. Nesse caso, a história do músico beninense Vincent Ahehehinnou é daqueles casos clássicos de: ‘e se não fosse assim?’. Por volta de 1978, ele era o principal vocalista da maior big band do país, a Orchestre Poly-Rythmo de Cotonou. No entanto, o grupo tinha algumas rusgas com o empresário, Adissa Seidou, que ameaçou Vincent de morte se ele não saísse. Antes de seguir uma carreira solo, infelizmente de pouca repercussão, Vincent gravou os temas de Best Woman com alguns integrantes da orquestra. São apenas quatro faixas, mas dá pra perceber o peso que elas teriam se tivessem a devida projeção naquele longínquo 1978. “Vi Deka” e “Maimouna Cherie” dão um aspecto mais globalizado à música regional de seu país, unindo diversos dialetos. O responsável por essa reedição é Samy Ben Redjeb, com autorização de Vincent. Eis mais um motivo para redescobrir a riqueza da música da África.


9. Outro Tempo: Electronic And Contemporary Music From Brazil 1978-1992

Vários Artistas

Gravadora: Music From Memory
Data de Lançamento: Fevereiro de 2017

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Quando se deparou com uma edição japonesa do disco Brasileira, de Maria Rita, o produtor e DJ John Gomez viu que havia muito a explorar nesse limiar entre tropicália e new-wave. Então, decidiu vir ao Brasil para investigar esse lastro pouco explorado do que seria o começo da música eletrônica por aqui – na verdade, um tipo de MPB com instrumentações pioneiras, entrecruzamentos com música indígena (como é o caso de Priscilla Ermel) e muitos, mas muitos nomes desconhecidos mesmo para os que se dizem entendidos de música brasileira. Em “O Sol na Janela”, Piry Reis flutua em timbragens cristalinas numa linda composição de Geraldo Carneiro. Ao lado de Egberto Gismonti, Nando Carneiro dá longos passos rumo a um eletro-jazz tupiniquim que deságua em lindos encontros harmônicos. A banda pioneira Os Mulheres Negras, de André Abujamra e Maurício Pereira, surge em dois temas: a reinterpretação experimental de “Só Quero Um Xodó”, clássico de Dominguinhos; e a multipolifônica “Mãoscolorida”, que reúne influências de dub, acid-jazz e eletrônica.


8. The Original Sound of Mali

Vários Artistas

Gravadora: Mr. Bongo
Data de Lançamento: 10 de março de 2017

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Dizem que a origem sonora do blues tem sua raiz no Mali. Pelo que dá a entender da compilação The Original Sound of Mali, organizada por Vik Sohonie, Florent Mazzoleni e o chefe do selo Mr. Bongo, David Buttle, o Mali também tem lá sua importância no funk e no afro-beat. Órgãos cheio de groove, vocais e maracas em prol de um som dançante, guitarras soltas que flertam com jazz e blues, mas acabam em pura festança… Nos anos 1970 e 80, músicos do Mali estavam testando novas tecnologias em estéreo dentro do estúdio. Por isso que, além do groove nativo, a qualidade das gravações é muito boa. Foram mais de três anos para que ‘Mr. Bongo’ e os demais produtores burilassem singles de nomes como Idrissa Soumaoro, Super Tentemba Jazz, Sory Bamba, entre muitos outros, num LP que parece a cápsula de um tempo que adoraríamos ter vivido. Além desta compilação, a Mr. Bongo lançou outra igualmente importante este ano: The Original Sound of Burkina Faso.


7. Tauhid / Jewels of Thought / Deaf Dumb Blind (Summun Bukmun Umyun)

Pharoah Sanders

Gravadora: Anthology
Data de Lançamento: 9 de novembro de 2017

Ouvir no YouTube: Tauhid / Jewels of Thought / Deaf Dumb Blind

A gravadora Impulse! esteve na hora e momento certos em que o free-jazz estourou nos anos 1960. Embora muito reconhecido como instrumentista virtuose, Pharoah Sanders geralmente é colocado em um plano inferior quando mencionado ao lado de nomes como Albert Ayler, Archie Shepp e John Coltrane. Com essa trinca de discos, a Impulse deu a possibilidade de conhecer melhor o saxofonista que melhor relativiza os polos Coltrane-Coleman no free-jazz. Tauhid (1967) é exemplo de como Pharoah põe seu sax-tenor a serviço de um encontro pacifista. Há arroubos sonoros, principalmente no tema que encerra o disco, “Pillars Latino”, com diferentes angulações do saxofone. Mais elementar é Jewels of Thought (1969), onde o músico deixa mais claro seu estilo musical: um simpatizante do free que sabe muito bem interpor os silêncios. Já Deaf Dumb Blind (1970) é influenciado pela música africana. Nele, Pharoah assume o sax-soprano e enfatiza a intensidade com o afrofuturismo, gênese com quem trabalhou ao lado do mestre Sun Ra. O sax-altista Gary Bartz forma um baita contraponto sonoro nesse que é um dos melhores discos de Pharoah. É intermitente o trabalho das percussões que, de tão efusivas, dão ao disco uma aura de ‘free-jazz dançante’.


6. Soul Possession

Annie Anxiety

Gravadora: Dais
Data de Lançamento:
6 de janeiro de 2017

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Existem diversas vertentes do que se configurou como pós-punk, mas vamos deixar que o contexto dê algumas pistas sobre o que representaria o álbum Soul Possession, de 1984. Frequentadora do Max’s Kansas City, importante casa de Nova York dedicada ao punk, Annie Bandez formou o efêmero grupo Annie and the Asexuals. Pouco tempo depois, ela se mudou pra Londres e lançou o primeiro single como Annie Anxiety em 1981, “Barbed Wire Halo”, no mesmo selo da banda Crass (que adorava tirar sarro do punk britânico, principalmente do The Clash). Por volta de 1983, ela trabalhou neste Soul Possession, disco que parece ter aberto um portal para a cena proto-industrial que seguiria, com nomes como Coil, Cabaret Voltaire e Nurse With Wound. Em “Turkey Girl”, por exemplo, ela ensaia uma voz meio de bruxa, em meio a efeitos esparsos de sintetizadores, teclados e um baixo intrépido. Se houvesse computadores naquela época, daria pra dizer facilmente que Soul Possession tratava-se de um projeto lo-fi. Mas o fato é que a produção de Adrian Sherwood, expert em dub e na club music londrina, deu um ar seco que contrasta com o liquidificador de emoções, experimentos e anseios por trás da voz de Annie.


5. Spiritual Jazz Vol. 7: Islam

Vários Artistas

Gravadora: Jazzman
Data de Lançamento: 6 de abril de 2017

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Não se trata de uma compilação dedicada exclusivamente a músicos de países em que o Islã predomina, mas de jazzistas que se comprometeram a interseccionar as influências de Oriente e Ocidente. Dentre eles, claro, teria que haver espaço para Ahmed Abdul-Malik, pioneiro nessa fusão com o importante East Meets West (1959). Do baixista, a compilação traz o tema “Nadusilma”, do também importante Sounds of Africa (1962). Outro nome proeminente dessa seara é Yusef Lateef, representado pelo tema “Morning”, um cool-jazz marcado pela instrumentação percussiva do rabat, de Ernie Farrow. “Uhuru”, do Creative Arts Ensemble, é tão espiritual como os temas mais consagrados de Pharoah Sanders. E, em “Africanos/Latinos”, o Ritual Trio, liderado pelo percussionista Kahil El’Zabar, desenvolve a conexão do free-jazz com vocais pop africanos pela via da soul-music, de forma parecida com que o Art Ensemble of Chicago fez anteriormente. Uma das grandes joias da série Spiritual Jazz – que já focou em Europa, jazz vocais, música esotérica etc – é apresentar artistas pouco conhecidos. Pelo menos três merecem destaque aqui: Idrees Sulieman, com o avant-garde de “The Camel”; a progressão de “Kalahari Suite”, de Emmanuel Abdul-Rahim; e a força da fé expressada em um som frenético, como é o caso de “All Praises to Allah”, de The Lightmen.


4. Anos 70 Ao Vivo

Gilberto Gil

Gravadora: Discobertas
Data de Lançamento:
13 de setembro de 2017

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No exílio da Ditadura Militar, entre 1971 e 73, alguns dos músicos hoje considerados ‘medalhões’ gravaram seus maiores clássicos. Gilberto Gil, por exemplo, surgiu com Expresso 2222 (1972), falando da saudade do Brasil, das pessoas e do sentimento de tristeza diante das atrocidades cometidas pelos militares. No começo de 1973, ele voltou ao Brasil, e o registro do que seria seu primeiro show desse retorno está neste importante registro: Anos 70 Ao Vivo. O tal show, Back in Bahia, começa com a antológica faixa de mesmo nome. No show, ele é acompanhado pelos grandes instrumentistas que tocaram com ele no disco, como o guitarrista Lanny Gordin e o baterista Tutty Moreno. O segundo registro, Umeboshi, já traz temas que Gil estava testando em shows, como é o caso de “Doente, Morena”, do recém-lançado Cidade do Salvador (1973). Quanto ao registro na USP, de 1973, o show acústico de Gil teve importante papel social: serviu para acalmar os ânimos após o assassinato do estudante Alexandre Vanucchi Leme, torturado pelos militares. Era pra ser um show de cerca de 40 minutos, mas Gil dedicou 3h, repassando por um repertório de sambas, forrós e, claro, alguns de seus clássicos impagáveis, como “Domingo no Parque”, “O Sonho Acabou” e “Cálice”, onde ele pega o encarte emprestado de um dos alunos, por não lembrar a parte de Chico Buarque. Todo esse trabalho foi compilado pelo pesquisador Marcelo Fróes ao lado de Bem, filho de Gil, que organizou os shows de 40 anos do álbum Refavela (1977).


3. The Turning Tide

P. P. Arnold

Gravadora: Kundalini
Data de Lançamento: 6 de outubro de 2017

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P. P. Arnold foi uma das integrantes das Ikettes, de Ike & Tina Turner, nos anos 1960, e chegou a embalar um hit ao lado de Cat Stevens, “The First Cut Is The Deepest”. Um dos sonhos dela era gravar com Barry Gibb: o problema é que ele era ocupado demais, afinal, era líder dos Bee Gees. Ainda assim, ele ajudou a produzir as primeiras sessões de The Turning Tide, um trabalho que pode ser considerado soul-disco pela vivacidade musical. Por conta da turnê com os Bee Gees, ele teve que deixar o trabalho incompleto. Então, veio Eric Clapton para ajudá-la com o disco. Ele chamou parte da banda que excursionou, com o Derek & The Dominos, além das vocalistas Rita Coolidge e Doris Troy. Essa adição foi importante, porque deu ao álbum uma aura que compacta soul, blues, piano-jazz e R&B, principalmente em músicas como “Born” e “Spinning Wheel”. Infelizmente, o disco ficou engavetado por questões contratuais. Se fosse lançado, certamente integraria boa parte das listas dos melhores álbuns da década de 1960, por sua híbrida produção mas, principalmente, pela originalidade vocal de P. P. Arnold, um mix de Betty Davis e Tina Turner.


2. Viajando com o Som (1976 Lost Tapes)

Hermeto Pascoal & Grupo Vice Versa

Gravadora: Far Out
Data de Lançamento: 3 de novembro de 2017

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Foi um ano excelente para os fãs de Hermeto Pascoal. Primeiro, veio o ótimo disco No Mundo dos Sons, que certamente vai aparecer na lista que estamos preparando de melhores álbuns de jazz de 2017. E também esta pérola, Viajando com o Som, lançada pelo selo britânico Far Out Recordings. Este álbum foi gravado em 1976, no estúdio de Rogério Duprat, e traz o frescor de Hermeto com os experimentos que uniam música folclórica ao fusion-jazz dos anos 1970. Mauro Senise, Raul Mascarenhas e Nivaldo Ornelas completavam uma sessão de metais que surpreendia com a forma de retrabalhar arranjos considerados brazucas. Muito do que se tem no disco é embrionário da fase pré-Slaves Mass: em “Natal (Tema das Flautas)”, por exemplo, Hermeto dá os primeiros passos criativos para o ápice que chegaria em “Cannon”. Um dos grandes dons do mago alagoano é criar temas mágicos que parecem histórias extraídas da Amazônia, algo que mostra com destreza em “Dança do Pajé”. Esta grande obra ficou engavetada porque Hermeto se dedicou à carreira internacional no ano seguinte. O irmão do baterista Zé Eduardo Nazário (das sessões de Viajando com o Som), Lelo Nazário, guardou as tapes originais e entregou-as ao estudioso Joe Livingston, do selo britânico Far Out Recordings, que tem ampliado cada vez mais seu acervo de clássicos perdidos brasileiros.


1. World Spirituality Classics 1: The Ecstatic Music of Alice Coltrane Turiyasangitananda

Alice Coltrane

Gravadora: Luaka Bop
Data de Lançamento: 5 de maio de 2017

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O mundo aos poucos vai saldando o alto débito que tem com Alice Coltrane. De uns anos pra cá, clássicos como Universal Consciousness e Journey in Satchidananda, ambos de 1971, têm levado cada vez mais pessoas a conhecer sua aventura musical. Mas, ainda há uma grande lacuna de sua obra – principalmente quando se vai mais a fundo, nos anos 1980 e 90, período em que ela explora mais chants, mais vocais, ou seja, uma outra faceta da espiritualidade musical tão associada a ela. Quatro discos são compreendidos numa compilação que, para 8 músicas, parece bem curta. São eles: Turiya Sings (1982), Divine Songs (1987), Infinite Chants (1990) e Glorious Chants (1995).

O primeiro tema, “Om Rama”, é de inexplicável progressão espiritual. Nela, Alice assume órgão e colabora nos backings. Em “Rama Rama”, o órgão leva a uma jornada mais individual, e a própria Alice opta por vocais litúrgicos. Já em “Er Ra”, é a intimidade da jazzista com a harpa que estimula intensa apreciação.

Espiritualidade é um tema muito caro aos Coltrane. Só que, diferente do consagrado saxofonista que era seu marido, Alice apresenta-se ainda mais versátil. No importante texto de encarte, a historiadora Ashley Kahn conta que não havia uma religião específica que ela, seus filhos, ou até mesmo John Coltrane seguisse. Alice chegou a comprar uma propriedade em Agoura Hills, pequeno condado da Califórnia, em busca de fazer com que mais pessoas seguissem seu aprendizado filosófico e musical, independente da crença de cada um. Os dois discos mais recentes desta compilação, na verdade, são frutos de tapes gravadas por lá, que pouca gente teve acesso.

Pela raridade, pela beleza, pela inovação e por seu pathos espiritual, The Ecstatic Music of Alice Coltrane é mais que uma descoberta. É uma divindade, que finalmente ganha a projeção que merece.

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Tiago Ferreira

Editor do Na Mira desde 2010 - que, além de site, também é canal do YouTube e Embaixador Spotify. Já trabalhei como redator de comunicação interna, produtor de conteúdo da B2W (Americanas, Submarino e afins) e repórter de entretenimento, ciência e tecnologia no Vix.com. Também sou colaborador eventual da Revista da Cultura (da Livraria Cultura).


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