Susana Santos Silva, trompetista de Portugal que é considerada uma das melhores de sua geração

Groovin’ Jazz: Susana Santos Silva, Obasquiat e mais discos de 2018

Novos álbuns de Alfredo Dias Gomes, Dr. Lonnie Smith, Sylvie Courvoisier e mais na seleção; ouça playlist

O primeiro Groovin’ Jazz de 2018 vem com a missão de dar um start nas produções jazzísticas que já causaram de janeiro pra cá.

Na seara brasileira, o baterista Alfredo Dias Gomes comemora 25 anos de carreira solo com um disco que celebra o fusion. Os paulistanos de Obasquiat, no louvável Strugatsky, recobram a importância do baixo, sugerindo novos rumos estéticos para as vibrações.

Dois anos depois de voltar à Blue Note, o organista Dr. Lonnie Smith lança poderoso registro ao vivo. A trompetista Susana Santos Silva (foto), uma das melhores de sua geração, surpreendeu todas as expectativas em performance solo na gigante Igreja Santa Engrácia, na capital portuguesa.

Confira a seleção dos 10 melhores álbuns de jazz desde o começo de 2018. Antes, tem uma playlist:

Jam

Alfredo Dias Gomes

Gravadora: Independente
Data de Lançamento: 1º de janeiro de 2018

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Guitarra, baixo e, principalmente, bateria a serviço do jazz-rock. O baterista Alfredo Dias Gomes já tem mais de 25 anos de carreira. Tocou com nomes como Ivan Lins, Hermeto Pascoal e até Kid Abelha, mas decidiu seguir carreira como bandleader, majoritariamente inspirado pelo fusion de Jaco Pastorius e Mahavishnu Orchestra. Em seu novo disco, Jam, Alfredo conta com os solos flamejantes do guitarrista Julio Maya e o contrabaixo funkeado de Marco Bombom.

A primeira faixa, “The Night”, situa o ouvinte nessa jornada, como se o fusion fosse uma descoberta recente. Em “Spanish”, Marco brilha, guiando os demais instrumentistas no que parece uma estrada livre e gigante, sem nenhuma interrupção. Nela, Alfredo dá um sentido multidimensional às pratadas. Já em “Experience” fica mais fácil captar o virtuosismo do baterista, principalmente quando a composição delineia para seus solos. Alfredo cria diferentes paredes sonoras que se movimentam em conjunto, até que crie um sentido uníssono. No quesito habilidade, Julio também não fica atrás, vide os solos de “High Speed” e “The End”.


Capa do disco Chinese Butterfly, de Chick Corea e Steve Gadd

Chinese Butterfly

Chick Corea & Steve Gadd Band

Gravadora: Concord
Data de Lançamento: 19 de janeiro de 2018

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São mais de 40 anos de parceria, mas o fato é que o pianista Chick Corea e o baterista Steve Gadd não tocavam desde os anos 1970. Muitas coisas podem ter acontecido nesse ínterim, mas o apego pelas referências da música latina, ibérica e africana reencontraram os eixos nessa surpreendente parceria. Gadd sabe dosar elementos explosivos e espaciais nas baquetas, como mostra em “Like I Was Sayin'”. Corea, por outro lado, volta a dar uma tonificação elétrica ao seu piano, algo que remete à fase em que ajudou a estender a influência do fusion-jazz, com o Return to Forever – inclusive, ele homenageia o grupo na faixa de mesmo nome, com participação de Philip Bailey.

Além dos bandleaders, Chinese Butterfly é rodeado de craques: temos o guitarrista Lionel Loueke, que não só compreende, como complexifica a linguagem estabelecida por Corea (vide a faixa-título); o saxofonista Steve Wilson, experiente em alternar os sopros marcantes do cuban-jazz (“Chick’s Chums) e formatar um clima ambient cheio de mistérios e interferência da natureza com a sua flauta (“Wake-Up Call”). Completa o grupo o baixista Carlitos del Puerto e o percussionista Luisito Quintero que, além de serem profundos conhecedores do jazz latino, sabem como direcionar o grupo a uma proposta multidirecional, que se sustenta pela rara simbiose de todos eles.

Leia também: Jazz latino, ibérico e oriental em sintonia em Chinese Butterfly, de Corea e Gadd


Chris Dave and The Drumhedz

Chris Dave and The Drumhedz

Gravadora: Blue Note
Data de Lançamento: 26 de janeiro de 2018

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Ao lado do pianista Robert Glasper, o baterista Chris Dave soube como encontrar o eixo perfeito que ligasse jazz e hip hop. Seu talento vai além da marcação; ele sabe, como poucos, exercer uma função integralista. É exatamente este o foco de seu projeto The Drumhedz, que reúne um total de quase 50 músicos, incluindo nomes como o guitarrista Isaiah Sharkey, o baixista Pino Palladino, o saxofonista Keyon Harrold – e o próprio Glasper em algumas canções. A abrangência de Chris Dave & The Drumhedz remete ao importante Organic Music Society, disco de 1972 de Don Cherry que cruzou o jazz com inúmeros elementos da world-music. Soul, hip hop e rock são as referências que mais sobressaltam, principalmente nos temas em que os feras Anderson .Paak (“Black Hole” e “Clear View”) e Bilal (“Spread Her Wings”) participam.

A ambição estética do baterista já é estampada em “Universal Language”, espécie de rádio que conecta as inúmeras referências das raízes musicais negras, sob vocais ofuscados. O R&B de compasso jazzístico, que ajudou a emoldurar em Black Messiah (disco de D’Angelo de 2014), é retomado em “Whatever”. Em “Sensitive Granite”, Dave alça longínquo voo psicodélico, a bordo da voz de Kendra Foster, e aterrissa no space-funk em “Cosmic Intercourse” (com Stokley Williams). Pelo envolvimento de tantos artistas, é difícil pensar em como Chris Dave vai estruturar os shows, ou até mesmo uma turnê. De qualquer forma, não se pode negar o feito memorável do álbum: conectar e, além disso, sugerir estranhezas e novos caminhos que interligam pop e jazz.


C O R

Christian Lillinger’s GRUND

Gravadora: PLAIST
Data de Lançamento:
19 de janeiro de 2018

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O percussionista alemão Christian Lillinger é mais um daqueles muitos exemplos de jazzistas ocupadíssimos. Ele construiu bom portfólio como um dos mais instigantes nomes do avant-garde europeu, tocando em projetos como Amok Amor, KUU! e diversos outros. Com o GRUND, septeto com Robert Landfermann (baixo), Achim Kaufmann (piano), Tobias Delius (sax-tenor, clarinete), Pierre Borel (sax-alto), Christopher Dell  (vibrafone) e Jonas Westergaard (baixo), ele chega ao 4º disco, com influências que se esticam de Stockhausen ao drum’n bass. O ouvinte pode não perceber, mas a estrutura da eletrônica orgânica favorece bastante o andamento do avant-garde do grupo, abrangente como a Globe Unity Orchestra e cheia de ebulição criativa, como se fizesse parte, também, da cena downtown de Nova York.

Em “Hiatus”, piano, percussão e as ranhuras de cordas remontam à música experimental dos anos 1970 da Scratch Orchestra. “Dralau” já é imbuída da força do free-jazz noventista, de propulsão controlada nos metais e uma cozinha percussiva temperadíssima. Em “Narrat”, os metais tomam o protagonismo de assalto, com loopings de bateria interferindo nos entrecruzamentos de Delius e Borel. Geralmente quando nos referimos ao avant-garde, é comum englobarmos experimentações da eletrônica, do jazz, da música de câmara e música clássica. C O R vem com a difícil missão de unir todos esses elementos, firmando-se como uma das peças mais originais nesse campo.


All in My Mind

Dr. Lonnie Smith

Gravadora: UMG/Blue Note
Data de Lançamento: 12 de janeiro de 2018

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Em seu segundo disco pela Blue Note, o organista Dr. Lonnie Smith quis fugir da tradição do estúdio e partir para um trabalho ao vivo. Não se trata de uma obra de inéditas; na verdade, ele passeia por um repertório peculiar, onde exercita o aspecto mais soulful de seu instrumento. Ele abre o disco com “JuJu”, tema de Wayne Shorter (do disco de mesmo nome, de 1965) que ganha um contorno mais espacial. A emblemática “50 Ways to Leave Your Lover”, de Paul Simon, deve ter sido um desafio para o baterista Johnathan Blake, por sua difícil escala de tempo (quem assume as baquetas da versão original é Steve Gadd). “On a Misty Night” é um blues de autoria de Tadd Dameron, perfeita para os momentos mais relaxantes do dia.

O segredo das versões de Smith está na forma com que ele enfatiza o poder melódico dos temas. Nesse quesito, o guitarrista Jonathan Kreisberg é um parceiro valioso, porque insere com beleza suas notas, enquanto Smith chega com a carga elétrica do órgão. Essas justaposições também funcionam muito bem em temas do próprio Dr Lonnie Smith, como a faixa-título, gravada originalmente nos álbuns Afrodesia (1975) e Funk Reaction (1977), e a reflexiva “Alhambra”, tema inédito que propõe uma jornada de deleitar qualquer ouvinte.

Leia também: Evolution (2016), de Dr. Lonnie Smith, no primeiro texto da seção Groovin’ Jazz


Capa do disco The Hands, do Fire!

The Hands

Fire!

Gravadora: Rune Grammofon
Data de Lançamento: 26 de janeiro de 2018

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O saxofonista Mats Gustafsson encontrou uma linguagem própria para o sax-barítono dentro dos preceitos do free-jazz, e embora a robustez do instrumento provoque sensações de incerteza, ele encontrou uma possibilidade para tornar o gênero mais acessível. Para isso, inspirou-se no que há de mais ácido em power-trios como Cream e The Jimi Hendrix Experience ao lado do baixista Johan Berthling e o baterista Andreas Werliin. É bem por essa linha que segue The Hands, 6º disco do grupo (sem contar os trabalhos com a Fire! Orchestra).

Duas premissas básicas são seguidas à risca em busca dessa acessibilidade: a brevidade, afinal, o disco tem 7 músicas e 36 minutos; e a progressão das composições, que não demoram para revelar o virtuosismo dos músicos, principalmente Gustafsson, que sabe emular riffs de guitarra ao mesmo tempo em que rompe com a barreira do som grave do instrumento, solando como se domasse um sax-tenor. Mais que uma boa opção para convidar os mais jovens a curtirem free-jazz, The Hands é o Fire! em sua melhor forma, dosando a habilidade de compor com a habilidade de fazer improvisação livre dentro de um mesmo raciocínio.

Leia também: A linguagem acessível no free-jazz de The Hands, do Fire!


Strugatsky

Obasquiat

Gravadora: Independente
Data de Lançamento: 8 de janeiro de 2018

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Em resumo, Strugatsky trata de valorizar o protagonismo do baixo na improvisação livre. Obasquiat é um grupo de São Paulo formado por Jeferson Peres (bateria e guitarra), Jeff Dias (bateria), Bruno Urbano (efeitos de voz, monotribe) e o líder Marco Antônio, que toca todos os tipos de baixo imagináveis (5 cordas, baixo elétrico, acústico, cello etc). Para este projeto, eles convidaram o trompetista Romulo Alexis e o baterista Carlos Eduardo, que criam uma fornada intensa e repleta de ranhuras dodecafônicas, que lembram aqueles sons da eletrônica cheio de interferências, como Beaver & Krause.

De fato, Strugatsky é um álbum que reprocessa vibrações com descompromisso técnico: o grupo permite algumas melodias, como em “Thalassophobia”, que parece um som do Massacre mais acelerado, ou “Makuna Track”, com um pézinho no post-rock. Por mais que seja uma obra quase toda instrumental, o Obasquiat coloca o jazz num pêndulo que encontra e deixa-se domar por ambient, doom e psicodelia, encapsulando muito bem a abrangência de um instrumento que tende a ser deixado em segundo plano.


All the Rivers – Live at Panteão Nacional

Susana Santos Silva

Gravadora: Clean Feed
Data de Lançamento: 31 de janeiro de 2018

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Tocar jazz é muito mais que conectar-se ao instrumento. É preciso perceber o ambiente e dialogar com o público, principalmente em apresentações ao vivo. Em uma performance estonteante no Panteão Nacional, a trompetista portuguesa Susana Santos Silva usa as reverberações desta secular instalação, que fica dentro da belíssima Igreja de Santa Engrácia, em Lisboa. Seu estilo neobarroco favorece a acústica; assim, a extensão dos solos de Susana adquirem reverberação fantasmagórica, como se ela estivesse se comunicando com as muitas almas sepultadas no local – do presidente Teófilo Braga (1843-1924) ao ex-craque Eusébio da Silva Ferreira (1942-2014).

Desde que lançou seu primeiro disco, em 2011, Susana passou a integrar inúmeros projetos, como a Fire! Orchestra, LAMA, além de ter tocado com Carla Bley, Maria Schneider, entre outros. Esta performance solo brilha como um de seus melhores trabalhos porque vemos a instrumentista confrontando as limitações do trompete. Cada sopro carrega uma vitalidade poderosa. Logo, o ouvinte percebe que os diversos fragmentos apresentados se assemelham a expressões do ser humano: uma reação positiva à nostalgia, um breve clamor de desespero, a tranquilidade de tempos brandos. Pela improvisação livre, Susana criou um enredo próprio que representa a jornada diária de cada um. A abrangência de suas notas permite que o ouvinte se identifique e se emocione.


D’agala

Sylvie Courvoisier Trio

Gravadora: Intakt
Data de Lançamento:
19 de janeiro de 2018

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O título do álbum, D’agala, é o nome de uma faixa que homenageia a pianista Geri Allen, que faleceu ano passado poucos dias após completar 60 anos. “Ela mudou a minha forma de enxergar música e também foi um modelo a perseguir, sendo uma mulher, uma pianista”, confessou a também pianista Sylvie Courvoisier, da Suíça, ao Village Voice. Portanto, ela é a primeira a ser homenageada, num take de acordes soltos (com slaps ao léo do baixo de Drew Gress) que revela o quanto ela aprendeu no quesito liberdade e adequação espacial com Geri.

Há, também, outras homenagens no disco: em “Éclats for Ornette”, ela brinca com o modelo que une harmonia e melodia pelo piano, como ensinou o pai do free-jazz, Ornette Coleman. O guitarrista John Abercrombie, que também faleceu ano passado, ganhou uma homenagem crepuscular em “South Side Rules”, onde Sylvie tensiona com batidas percussivas e, repentinamente, dá leveza a imprevisíveis sequências de acordes. Nela, o baterista Kenny Wollesen alterna entre as escolas Sunny Murray e Art Blakey, deixando que o senso de continuum mantenha o ouvinte sempre alerta. O jazz nórdico e a cena downtown de Nova York são influências de Sylvie, mas alguns aspectos composicionais remetem a escolhas de Carla Bley anos 1970 e, claro, Geri Allen, que certamente se orgulharia – e muito! – com o esplendor de D’agala.


Vortex

Wayne Escoffery

Gravadora: Sunnyside
Data de Lançamento: 26 de janeiro de 2018

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Existe um bom motivo para Wayne Escoffery optar por notas mais pungentes em seu sax-tenor. Ele é britânico, filho de jamaicanos e mora nos Estados Unidos de Trump – país que tem revelado suas garras racistas de forma despudorada, vide o caso recente de Charlottesville (Virginia). Por isso, ao lado de David Kikoski (piano), Ugonna Okegwo (baixo) e Ralph Peterson Jr. (bateria), Wayne fez um manifesto contra a intolerância. Nada de pacifismo quando não há diálogo.

Já na faixa-título, ele multiplica as vozes, com um solo angular do sax. Nela, cada músico decide expressar à própria maneira, resultando numa linguagem de free-jazz que parece duplicar o número de integrantes executando-a. “February” é um blues que enfatiza o mês que lembra a luta dos escravos negros na América do Norte, enquanto “Acceptance” remonta às danças antigas do final do século XIX, dando beleza a um momento repreendido pelos donos das terras, que proibiam que seus servos se expressassem artisticamente. A indignação diante de um momento cheio de intolerância também inspira poesia nos fraseados de Wayne, vide a bela simbiose com o baixo de Ugonna, em “The Devil’s Den”, ou a ode cristalina de “Tears For Carolyn”, dedicada à esposa Carolyn Leonhart, também jazzista. Por fim, Vortex conclui uma das obras mais eloquentes de Wayne com “Baku”, um hard-bop enérgico que reforça a potência do jazz como um dos gêneros mais antenados à contemporaneidade.

Leia também: Os 30 melhores discos de jazz de 2017

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Tiago Ferreira

Editor do Na Mira desde 2010 - que, além de site, também é canal do YouTube e Embaixador Spotify. Já trabalhei como redator de comunicação interna, produtor de conteúdo da B2W (Americanas, Submarino e afins) e repórter de entretenimento, ciência e tecnologia no Vix.com. Também sou colaborador eventual da Revista da Cultura (da Livraria Cultura).


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