Groovin’ Jazz: Nômade Orquestra, os melhores trompetistas de agora + Steve Coleman e Roscoe Mitchell

Confira os 10 melhores discos de jazz lançados em junho de 2017

Dois dos maiores trompetistas desta geração lançaram álbuns, só que com direções diferentes: enquanto Ambrose Akinmusire se alinhou com o clássico ao tocar em uma das casas mais famosas de jazz, Christian Scott mostrou contato espiritual com um passado mais longínquo, num trabalho com requintes tão antropológicos quanto o da contemporânea Matana Roberts.

Só esses dois nomes já fariam de junho um ótimo mês para o jazz. Mas quando se tem na lista discos de Roscoe Mitchell (do Art Ensemble of Chicago e AACM) e do genial Steve Coleman, a coisa é séria: dedique-se um bom tempo para os discos apresentados a seguir.

Além disso, esta edição do Groovin’ Jazz traz o funk enérgico do grupo de Nils Landgren, a consagração da big band de Santo André (SP) Nômade Orquestra, os muitos estudos de Silke Eberhard, as referências do mundo inteiro no novo álbum do alemão Volker Goetze

Confira a playlist atualizada com alguns dos melhores sons de jazz lançados em 2017 (para seguir o perfil do Na Mira no Spotify, clique aqui):

A Rift in Decorum: Live at The Village Vanguard

Ambrose Akinmusire

Gravadora: Blue Note
Data de Lançamento: 9 de junho de 2017

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O Village Vanguard é um terreno sagrado do jazz, e Ambrose Akinmusire faz por onde ao por seu nome ao lado de lendas como Bill Evans, Sonny Rollins, Thad Jones/Mel Lewis Orchestra, entre outros nos mais de 60 anos de história de uma das casas mais lendárias do jazz, que fica em Nova York. Para este set, o trompetista da Califórnia (EUA) optou por liderar um quarteto. Se por um lado o som se mostra mais compacto, por outro temos a prova de que o avant-garde é mais presente em seu estilo do que se imaginaria. A dinâmica com o baterista Justin Brown continua fervorosa, como vemos em “Umteyo” (um tipo de jazz tribal escalonado que flerta com a eletricidade do fusion), mas o pianista Sam Harris prova, ao mesmo tempo, ser um solista (“Piano Sketch”) e um arrematador rítmico de primeira na intensa “Brooklyn (ODB)”. (Segundo Akinmusire, Harris domina um tipo de ‘Dixieland moderno’.) O disco mostra uma preocupação de Akinmusire em estabelecer uma conexão espiritual com as muitas almas lendárias que tocaram ali. Sua versatilidade ao tocar impressiona ainda mais que a pulverização de referências mostradas nos discos anteriores (e principalmente em The Imagined Saviour is Far Easier to Paint), já que as quase 2h do álbum se tratam do típico continuísmo de um ao vivo, com dedicação a momentos silenciosos (“A Song to Exhale”), momentos arrebatadores (“Trumpet Sketch”) e momentos altamente integrados com o quarteto. Quiçá A Rift in Decorum atraia um público mais velho e tradicional do jazz. Isso só dá mais autoridade a um dos músicos que melhor representa a nova geração do gênero.


Diaspora

Christian Scott

Gravadora: Stretch Music
Data de Lançamento: 23 de junho de 2017

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Desde que lançou Stretch Music (2015), Christian Scott apresentou distinto conhecimento etnomusical. Antes de serem entendidas como herança estilística, as notas de seu trompete surgem como interlocutoras de um passado que ele não viveu – mas que estão ali vivas em sua música. Christian é a prova de que os genes carregam séculos de história, e o que ele fez em Ruler Rebel (2017) e neste recente Diaspora foi se aprofundar mais naquilo que o ajudou ser quem ele é. As aulas de comunicação dizem que a mensagem muitas vezes precisa de dinamismo para cativar atenção, e Diaspora está bem munido dessa técnica com a presença da flautista Elena Pinderhughes (que rasga na faixa-título e nos leva a flutuar pelo conforto típico do prazer que se tem diante do conhecimento, em “Completely”) e o saxofonista Braxton Cook (que se assemelha a Scott na forma de dar peso às notas, em “IDK”). Scott é de Nova Orleans, mas a pulsação daquele local tão importante para o jazz bate de forma diferente em sua música: o swing virou eco e a corpulência musical das big bands dissolveu-se numa conjuntura mais estática. Porque o peso histórico não resulta numa necessidade de repetição, e continuidade é diferente de continuísmo: eis uma das grandes marcas dessa fase de Christian Scott, que mostra de um jeito inovador e reflexivo que, para seguir adiante, não é preciso se intimidar pela riqueza histórica dos antepassados. Afinal, ele também é o passado, e precisa assimilá-lo completamente para protagonizar o futuro.


Dark

Hornstrom

Gravadora: Double Moon
Data de Lançamento: 2 de junho de 2017

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Em quase 10 anos de carreira, o Hornstrom mostrou que um quarteto de jazz não precisa dos velhos vícios sonoros. Pra começar, são dois trombones, um baixo e uma bateria, e essa diferença é sentida logo na primeira faixa, que dá aquele tom de big band incompleta. Se o ouvinte sentir falta de uma guitarra ou um piano, logo essa carência será suprida pelo arrojo do baixo de Markus Braun. “Optimistic” serve como um pêndulo entre as escolas do hard-bop e avant-garde: de um lado, a força do ritmo e, por outro, as quebras impostas. Todas as 8 faixas de Dark são de autoria dos trombonistas Klaus Heidenreich e Tobias Wember, que contrastam o peso do instrumento com notas bem delimitadas. Mas, quando eles seguem o caminho da virtuosidade, segura o rojão, meu amigo! Em “Restive Region”, os trombones parecem entrar em chamas. Já em “Snug”, o baixo de Braun parece chicotear os metais, resultando num som esparso – com todas as honras ao baterista Silvio Morger. Ainda há muita coisa sobre o trombone que não ouvimos – boa parte delas, inclusive, tá aqui em Dark, tamanha riqueza sonora.


Unbreakable

Nils Landgren Funk Unit

Gravadora: ACT Music
Data de Lançamento: 30 de junho de 2017

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Trombone tem tudo a ver com funk, e se por um lado o sueco Nils Landgren não tem Nova Orleans na raiz, por outro doma o groove como se fosse de lá. Com o grupo Funk Unit, ele traz um vigor que contrasta com seu estilo mais melancólico (sua última colaboração refaz um tipo de procissão jazzística em New Eyes on Martin Luther, lançado em maio). Conhecido como big red trombone, Landgren leva as raízes do funk a sério: há muitos traços da originalidade de Maceo Parker, e podemos imaginar como daria certo uma turnê de seu grupo ao lado de Ed Motta, por exemplo, ao ouvir “Soulchild”. Para Unbreakable, ele conta com a importante presença do guitarrista Ray Parker Jr., que apimenta as coisas em “Get Down on the Funk” e reitera a força dos riffs ao lado do arrojado trompetista Randy Brecker em “Rockin’ After Midnight”. Além de ser responsável pelo metal mais pesado do combo, Landgren também é o principal vocalista, e ele não tem medo de brincar com vocoders ou seguir uma linha mais obtusa de um funk cósmico em “Nlfu Funk”, com colaboração do trompetista Tim Hagans. Se o que você procura é um jazz pra deixar o volume no talo, Unbreakable tem o necessário pra encher o ambiente de boas vibrações e arrancar uns bons passos nas pistas de dança.


Entremundos

Nômade Orquestra

Gravadora: Far Out Records
Data de Lançamento: 23 de junho de 2017

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O 2º disco deste grupo do ABC é prova de que as big bands brasileiras estão em alta – e não precisam recorrer ao passado para isso. Entremundos exala modernidade, com força de arranjos que atualiza o que grupos como a Banda Mantiqueira faz de melhor. As guitarras rítmicas de Luiz Galvão mostram que o afro-beat é uma das influências – e não praticamente a totalidade da influência, como é o caso do Bixiga 70 e Abayomy, por exemplo. As variações são mais dinâmicas, e o que se percebe é uma investigação por uma brasilidade que abarca influências de todo o mundo: dos traços orientais de “Terra Fértil” ao estouro eletrônico do que parece ser uma influência europeia, em “Vale da Boca Seca”. A manutenção rítmica é importante para a Nômade Orquestra, mas mais importante ainda é a desconstrução do que se convém chamar ‘força dos metais’. Em “Estrada para Camomila”, eles soam retraídos, ao passo que “Deliriuns” deixa bem delimitado o percorrer da flauta do bandleader André Calixto (que também toca sax tenor, soprano e gaita no disco) com o brass sonoro.


Bells for The South Side

Roscoe Mitchell

Gravadora: ECM
Data de Lançamento: 30 de junho de 2017

Encontre pelo site oficial da ECM

Temos uma tendência a achar que a uniformidade está em tudo. Na religião, é a prova de que Deus é perfeito. Nas artes, a consistência de uma ideia. Desde que começou a tocar ativamente na AACM e no Art Ensemble of Chicago, há mais de 50 anos, Roscoe Mitchell rompeu com qualquer padrão de uniformidade, seja em solos rascantes de sax-alto ou complementando um elemento especial perdido com efeitos de algum outro instrumento. Imagine um campo de 10 hectares. Por mais que as cercas definam um limite, dentro desse campo há um conjunto de elementos que não necessariamente obedecem a mesma ordem. As formigas não se movimentam conforme os ventos. A grama não cresce na mesma proporção que as folhas das árvores caem. É mais ou menos assim a música de Bells for The South Side. Na música de Roscoe, uniformidade é um limite, tanto que sua ideia não é bem transgredir a suposta ordem das coisas; parece que sua intenção é captar alguns desses elementos e amplificá-los, distorcê-los e infringir momentos caóticos. Essa intenção, por si só, desencadeia em outras avalanches caóticas – todas elas controladas pelo compositor. Em “The Last Chord”, por exemplo, o contemplativo resulta num free-jazz fervoroso, com o sax-soprano de Roscoe, o piano de Craig Taborn e um tipo de fervor cerebral da bateria de Tyshawn Sorey arrebatadores (com quem fez um ótimo trabalho em Duets, de 2013). “EP7849”, por outro lado, se apoia em ecos destrutivos, sugerindo um caminho rumo ao industrial, com ponderação de drones e reverbs aflitivos que se agravam com os efeitos nos bumbos e chimbais de Sorey. O clima de tensão que prepondera na primeira faixa, “Spatial Aspects of the Sound”, parecem o prelúdio de uma sonata de piano-percussão à lá John Cage. Seu desdobramento, porém, invade uma esfera silenciosa que faz com que cada entoar de nota surja como uma surpresa.


The Being Inn

Silke Eberhard Trio

Gravadora: Intakt
Data de Lançamento: 16 de junho de 2017

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As chamadas de “Wake-Up Call” e “Last Order” lembram a composição “Coisa nº 4”, de Moacir Santos, mas são apenas enxertos da vasta coleção memorial de Silke Eberhard, estudiosa de história do jazz. Ela não chega a mencionar o maestro brasileiro em seu novo disco, The Being Inn, ao lado do baixista Jan Roder e o baterista Kay Lübke. Isso porque Moacir é uma das muitas referências fugidias do disco. Na primeira faixa, “Ding Dong”, o trio segue um distinto free-jazz com diferentes escalas de tempo. Silke doma o sax-alto com entrecortes à lá Albert Ayler: quando parece que ela se aproxima do ofegante, mais notas agudas surgem. Com 18 minutos, “Willisau Suite” é o único tema longo do disco (as demais mal passam de 5 minutos). O tema funciona como um laboratório: se em um momento o baixo de Roder ulula como se tivesse caçando alguma coisa perdida com a pressa do desesperado, não demora para que Silke surja com ensaios rítmicos do sax ou momentos arrebatadores do clarinete-baixo. Todas as composições são de Silke, que parecem improvisação livre do tanto que são afeitas à liberdade. Em outros temas, como “In Drei” e “Versteckter Kitsch”, ela revolve aos lapsos temporais e entrecortes. Parece avant-garde, tem traços do hard bop e ensaiam um free total, mas na real são distintos exemplos de um repertório apurado e invejável.


Morphogenesis

Steve Coleman’s Natal Eclipse

Gravadora: Pi Recordings
Data de Lançamento: 23 de junho de 2017

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O exemplo mais conhecido da proximidade entre boxe e jazz surgiu com o álbum Jack Johnson (1971), quando Miles Davis dosou inteligência rítmica, peso e eletricidade vibrante como elementos que vêm do esporte que ele mais amava. O saxofonista Steve Coleman também buscou a inspiração no boxe em seu novo disco, Morphogenesis, mas não centrou em nenhuma figura em específico. Em tempos em que o MMA e a popularização da luta livre dominaram o mainstream, falar de boxe é praticamente buscar uma abordagem nostálgica, quando não melancólica. Talvez Coleman tenha isso em mente neste trabalho. Os temas de Morphogenesis têm mais a ver com a movimentação do esporte do que os golpes em si. Em “Inside Game”, Coleman nos dá uma perspectiva geral da intensidade que vai do treinamento ao dia de combate. O violino de Kristin Lee dá um diferente tom de dramaticidade, enfatizando a importância do que parece ser controle emocional. Quando teve a ideia de fazer o disco, Coleman obviamente pensava em um baterista – como ele não estava disponível, deu cabo de Morphogenesis assim mesmo. Essa ausência fez com que Coleman buscasse um diferente tipo de síncope, com tortuosas pontuações que envolvem toda a dinâmica do grupo – do baixo meio atordoado de Greg Chudzik ao piano camerístico de Matt Mitchell. Resulta-se, disso, diferentes abordagens de um som repleto de tensão (como em “Pull Counter”, com scats de Jen Shyu) e de meditação (“Noh”). De qualquer forma, não é preciso ser fã ou profundo conhecedor do boxe para captar a profundidade de Morphogenesis. O esporte traz implicâncias filosóficas para a vida de qualquer pessoa, e o disco de Coleman soa como total absorção dessa inspiração.


Bridges

Volker Goetze Quintet

Gravadora: Must Have Jazz
Data de Lançamento: 9 de junho de 2017

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O trompetista alemão Volker Goetze fez de sua música uma ponte para tudo aquilo que lhe fascina. Da beleza do Senegal às construções de Paris, o resultado é uma fusão de ocidente e oriente que celebra a intersecção cultural. Conhecedor da música do oeste africano, Goetze traz cuban-jazz, música nigeriana e bastante funk às suas harmonias vibrantes. Na primeira faixa, “African Child”, o som que parece de uma tabla entra num clima espiritual de suas linhas seriais no trompete. A flauta e a percussão de “Fulani Dance” parecem levar a música africana de encontro ao Tibete. O que acontece, porém, é um tipo de releitura pessoal de uma dança da Gâmbia conhecida como kundum. Já o som de “Funky One” tem suas raízes no Headhunters de Herbie Hancock, com efeitos arrepiantes do pianista estoniano Kristjan Randalu. A grande preciosidade de Bridges, porém, é ver como Goetze se comporta diante de uma variedade de ritmos e culturas. Ele explora o trompete com a intensidade que suas explorações pedem. Se em “Funky One” ele praticamente rasga as notas, na faixa-título o som de seu flugelhorn é mais espacial, como se tivesse na mesma flutuação que os pianos fusion de Randalu. Ele compara a música do instrumento à “migração de pássaros”. “Será que nós, como seres humanos, conseguiremos alcançá-los, ou somos escravizados pelo nosso passado, incapazes de aceitar?”, questiona-se o trompetista. A depender de Bridges, existem diversos caminhos para a liberdade. Só precisamos trilhá-los.


Spirits

Zem Audu

Gravadora: Origin Records
Data de Lançamento: 16 de junho de 2017

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Se David Murray e Steve Coleman formassem uma escola própria, o saxofonista nigeriano Zem Audu seria seu melhor aluno. Mas, claro, seus ensinamentos não restringem a eles: Audu, que cresceu em Londres e circulou por Nova York, tocou com músicos do calibre de Hugh Masekela, Jason Moran e a grande lenda viva japonesa Sadao Watanabe. E, para seu novo disco, contou com outra colaboração de peso: o guitarrista de fusion Mike Stern, famoso por tocar na fase dos anos 1980 de Miles Davis (notável por The Man With The Horn, de 1981). Tantas referências impedem qualquer tipo de amarra, e é justamente isso que se percebe ao ouvir Spirits. Ele tem a dinâmica oitentista, muito sustentada pelo baixo de Ben Williams, gerando mais limpidez aos solos arrojados. Em “Big Qi” percebe-se um ar meio prog-rock – pela simbiose lenta, mas elétrica, de Stern e o Rhodes de Benito Williams. Se “Bird” tinha a intenção de homenagear Charlie Parker, então podemos dizer que Audu é apreciador das baladas do grande saxofonista do bebop. O groove de “Flow” é parte do que se tornou característico do jazz dos anos 1980 e “Arcade” leva o ouvinte a um cenário tridimensional, com as poucas pratadas de John Davis totalmente certeiras.

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Tiago Ferreira

Editor do Na Mira desde 2010. Já trabalhei como redator de comunicação interna, produtor de conteúdo da B2W (Americanas, Submarino e afins) e atualmente sou repórter de notícias, ciência e tecnologia no Vix.com. Também sou colaborador eventual da Revista da Cultura (da Livraria Cultura).

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