Groovin’ Jazz: a dupla Heather e Brötzmann + Alice, Avishai Cohen, Zé Bigode

Confira os 10 melhores discos de jazz lançados em maio de 2017 (com um deslize)

Não deu pra evitar: o Na Mira tinha que falar de alguns relançamentos, contrariando uma bandeira que instituímos, no começo de 2016, quando iniciamos a seção Groovin’ Jazz. Mas, é para o bem de sua audição.

O selo Luaka Bop permitiu ampliar as discussões sobre a importância da obra de Alice Coltrane ao lançar a primeira edição de World Spirituality Classics. Na maior parte das vezes que se refere a ela, centra-se sua espiritualidade na harpa. Isso nos faz esquecer o quanto sua produção foi rica na composição para órgão, piano e em choirs que dão uma nova perspectiva aos spirituals gospel do começo do século XX.

Além dela, relembramos o tempo em que a Vibration Society estava a todo vapor dando novas abordagens às composições do excelente saxofonista Rahsaan Roland Kirk, que morreu em 1977. Spirits Up Above foi registrado em 1986 e mostrou mais uma vez por que Steve Turre se tornaria um dos maiores trombonistas do jazz.

Da seara nacional, falamos da estreia em disco do guitarrista Zé Bigode, que juntou uma banca numa abordagem total brazuca, e do free-jazz da dupla FLAC. O disco mencionado tinha saído no ano passado; por um lapso esquizofrênico, o autor destas linhas achou que o maio era de 2017, e não de 2016. Mesmo assim, por não ter tido muito alcance (infelizmente algo comum quando se fala em livre improvisação no Brasil), o Na Mira optou por mantê-lo nesta coluna. Porque é assim que é: não nos prendemos muito à regra. Afinal, os melhores sons de jazz não têm essa característica?

Confira os 10 melhores discos de jazz lançados em maio – antes, claro, tem a nossa playlist no Spotify (aliás, segue a gente por lá!):

World Spirituality Classics 1: The Ecstatic Music of Alice Coltrane Turiyasangitananda

Alice Coltrane

Gravadora: Luaka Bop
Data de Lançamento: 5 de maio de 2017

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O nome de Alice Coltrane tem se desvinculado cada vez mais da imagem do genial marido John. Esse relançamento da Luaka Bop estabelece uma distância ainda maior: se antes Alice estava associada à harpa em seus discos dos anos 1970, a necessária compilação World Spirituality Classics 1 chama atenção aos tempos em que a compositora estava mais comprometida com a própria comunidade Ashram que criou, nos anos 1980. Esta compilação traz apenas 8 faixas de 4 discos sintomáticos dessa fase: Turiya Sings (1982), Divine Songs (1987), Infinite Chants (1990) e Glorious Chants (1995). A seleção é divina. O disco proporciona uma paz espiritual desprendida de qualquer ideia de religião ou dogma (relatos dos filhos dela dizem que tanto Alice quanto John não seguiam uma religião em específico). “Om Rama” mostra a riqueza do som coletivo, “Om Shanti” mostra Alice cantando como se estivesse ajudando o ouvinte a entrar em contato consigo mesmo, enquanto “Rama Rama” é mais litúrgica, devido aos efeitos que evocam um senso romântico em meio a uma tribo. Você não ouvirá nada mais espirituoso que este disco em muitos anos…


We Know Not What We Do

Amok Amor

Gravadora: Intakt
Data de Lançamento: 19 de maio de 2017

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Aos 36 anos, Peter Evans tornou-se um dos maiores trompetistas dos nossos tempos por ser um expoente da “técnica estendida”, que busca timbres e escalas diferentes a partir de alterações no próprio instrumento. Só por isso, Evans já se fixou no terreno do avant-garde, mas é importante notar que ele também tem experiência com temas blueseiros e música clássica. Com o projeto Amok Amor, ele se junta aos músicos alemães Wanja Slavin (sax), Petter Eldh (baixo) e Christian Lillinger (bateria). Da emoção blueseira à abstração dos timbres intrincados, We Know Not What We Do é um free-jazz preciso repleto de energia, inventividade e integralismo. O álbum traz enorme peso estético, porque dá a impressão de ser uma viagem pelo Oriente, trafegando pelo Bali, música russa, europeia, até cruzar o Atlântico para ir de encontro às raízes do jazz de Nova Orleans. Evans é a estrela, claro, mas em We Know Not What We Do ele parece finalmente ter encontrado os parceiros certos para engrenar em uma viagem multiestilística que vai além de qualquer conceito academicista. O trompetista chegou a afirmar que não gosta do conceito de “técnica estendida” por ser eurocêntrico demais. Não é ironia da parte dele tocar com europeus aqui; seu argumento ganha, na verdade, é mais peso quando se percebe que diversos cantos do mundo formam parte da expressão de um quarteto. A única extensão, no caso, é do universo de referências.


Cross My Palm With Silver

Avishai Cohen

Gravadora: Deutsche Grammophon
Data de Lançamento: 6 de maio de 2017

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Quando se associa o trompete à sutileza, logo imaginamos peças de alguma fase de Miles Davis sendo revistas. Aos 38 anos, o trompetista israelense Avishai Cohen já ultrapassou essa barreira (há outro jazzista que também se chama Avishai Cohen, é israelense, mas toca baixo). Seu tipo de sutileza é mais integralista ao grupo, e mesmo quando ele percorre uma via solitária, percebemos que se trata de uma jornada mais melancólica, dele próprio com o instrumento – e não da quietude como forma própria de expressão, como Miles explorou em diversas de suas fases. Cross My Palm With Silver já é o 9º disco do trompetista. Com o pianista Nasheet Waits, ele alterna entre o atmosférico e o principal interlocutor, ora trazendo belos solos (“Will I Die Miss? Will I Die?”), ora ensaiando uma linha modal mais reflexiva (“50 Years and Counting”), tornando ainda mais complicada a tarefa de classificar sua obra. É pelos detalhes que se capta a grandiosidade de Cross My Palm, e a vantagem é que eles se revelam naturalmente, sem exigir qualquer tipo de conhecimento prévio do ouvinte, a não ser, claro, a sensibilidade.


1974

FLAC/Dias

Gravadora: Zumbidor
Data de Lançamento: 30 de maio de 2016*

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FLAC é a sigla para a dupla Flávio Lazzarin (bateria) e André Calixto (sax-tenor), duo paulista que se notabiliza por uma pegada free-jazz meteórica. Para o novo trabalho, eles chamaram o baixista Alex Dias. Sua presença é sentida de cara: suas passagens são repletas de elasticidade, campo fértil para que a simbiose entre sax-bateria se intensifique ainda mais. 1974 ganhou esse título porque foi registrado no 74Club, localizado no ABC Paulista, há um ano. Dividido por dois lados, como se fosse uma fita cassete, o álbum soa monumental desde o início porque dá pouco espaço para a sonoridade atmosférica, comum em combos de improvisação livre (afinal, todos somos humanos e precisamos de respiração). Calixto extrai um timbre agudo do sax-tenor e ensaia diversos momentos de transe, enquanto a sustentação baixo-bateria passa pela música industrial e parece invadir até mesmo a esfera do metal. Nessa exploração, o sax ora soa como riffs, ora puxa efeitos que lembram de um teclado Roland – quando não toma a dianteira de assalto rumo a uma experiência rascante. Um termo só define 1974: extrapolação. No free-jazz, isso é mais que elogio; é prova de idoneidade.

*Por uma confusão, este álbum foi incluído na seção Groovin’ Jazz de maio de 2017, mas foi oficialmente lançado em 2016. Como já havíamos destrinchado o disco, e não comentamos à época de seu lançamento, decidimos mantê-lo.


Sex Tape

Heather Leigh & Peter Brötzmann

Gravadora: Trost
Data de Lançamento: 20 de maio de 2017

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Álbuns de duo em free-jazz são altamente desafiadores porque exigem que a técnica individual de cada um sirva de background nos momentos em que a improvisação livre tende a cair na repetição. Mestre desde os anos 1970 nesse formato, Peter Brötzmann deu ares a outra categoria na parceria com a guitarrista Heather Leigh, um ás na microfonia: a separação entre a incumbência atmosférica de um lado e a verve solista de outro. Sabemos muito bem de que lado cada um está, o que não diminui o peso individual de Sex Tape. Entre os drones e o prog-rock, Heather é o pilar de sustentação que deixa a melodia flutuante a todo o momento. Brötzmann é o cara dos entrecortes, e nem precisa de solos arrebatadores para fazer deste registro algo memorável. Gravado no no Festival Unlimited, na pequena cidade de Wels (Áustria), em 2016, Sex Tape é a manutenção do domínio a todo momento, prova de que a improvisação livre não precisa necessariamente ser um embate do músico com o seu instrumento. Há solos estarrecedores e distorções arrepiantes em todo o registro, mas é a manipulação humana que prevalece.


Pivot

Hendrika Entzian Quartet

Gravadora: Traumton
Data de Lançamento: 26 de maio de 2017

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Com notável carreira acadêmica em Berlim, a contrabaixista de 33 anos Hendrika Entzian impôs um desafio: compor para quarteto. Foi uma mudança e tanto, já que ela estava acostumada a trabalhar com arranjos para grandes orquestras, como a de Cologne (da Alemanha). Tal trajetória lhe relegou a ser o efeito dinamizador do grupo. Em seu novo disco com quarteto, Pivot, ela é responsável por alinhar o sax hard-bop de Matthew Halpin à bateria descortinada de Fabian Arends (jovens que têm, respectivamente, 26 e 27 anos). O piano de Simon Seidl é cavaleiro solitário que oferece conforto (Périphérique”) e segue a jornada da melancolia, ora lacônico (“Hike”), ora impulsionado pela agilidade percussiva, como em “Phasen”. Pivot é um disco de composição e arranjos que deixa o ouvinte atento aos detalhes minuciosos. O sax de Halpin é clássico como Sonny Rollins e despojado como Joe Lovano em sua estrutura. Mas é no baixo, na maioria das vezes tímido, que está o segredo do disco. Ele é o ponto de ligação, a justificativa do elo intrincado e parte importante de uma pulsação que parece tímida, mas que soa deliciosamente original.


A Social Call

Jazzmeia Horn

Gravadora: Concord
Data de Lançamento: 12 de maio de 2017

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Vencedora do prêmio Thelonious Monk, de 2015, não deve demorar para que Jazzmeia Horn tome o mainstream de assalto, principalmente com o lançamento do disco de estreia, A Social Call. Se isso realmente acontecer, não se pode negar os traços originais de seus scats e preenchimentos vocais harmônicos. Como intérprete, essa cantora do Texas (EUA) injeta a alma soul num corpo musical propício ao cool-jazz (vide “East of The Sun (and West of the Moon)”, famoso na voz de Ella Fitzgerald) e parece se transformar pra era pré-bebop, no medley entre “Lift Every Voice and Sing” e “Moanin”. Num tipo de swing econômico do piano de Victor Gould, em “Tight” Jazzmeia mostra que pode ser tão rápida nos scats quanto o acompanhamento de um grupo de swing que toca Count Basie. É uma faixa poderosa por promover intercalações em séries entre os instrumentos, com solo inspirado do sax-tenor de Stacy Dillard. Tomara que seja um caminho mais perseguido numa carreira que tem tudo para ocupar largo espaço no jazz atual.


Encore!

Sadao Watanabe Orchestra

Gravadora: Victor Entertainment
Data de Lançamento: 24 de maio de 2017

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Responsável pelo boom da bossa nova no Japão com o disco Jazz & Bossa (1967), após tocar no grupo bop de Toshiko Akiyoshi e passar um frutífero período de estudos em Berklee, o saxofonista e flautista Sadao Watanabe também trouxe elementos do cuban-jazz, da música africana e do Tibete num tipo de sonoridade difícil de ser catalogada. Com quase uma centena de discos e mais de 60 anos de carreira, Sadao consegue criar thrillers e peças cheias de vivacidade com big bands, alternando entre o sax-alto, soprano e a flauta. Seu novo álbum, Encore!, foi gravado ao vivo no belo teatro Bunkamura Orchard Hall, em Tóquio. Baseado no mesmo repertório de How’s Everything (1980), o álbum Encore! traz produção e execução mais límpida e retoma a parceria com o pianista Dave Grusin, que submeteu os arranjos a Yoic Hi Murata. O baixista Ben Williams é uma estrela notável no álbum ao servir como complemento distante, mas importante dos arranjos. Há um motivo especial para que Watanabe retome, 36 anos depois, o repertório de How’s Everything: quando foi apresentado pela primeira vez, o show atraiu 30 mil espectadores, tornando-se um dos discos mais celebrados de sua carreira. Mesmo com todo esse sucesso, ele não tinha levado esse repertório aos demais palcos do mundo, já que estava comprometido com diversos projetos. Em Encore!, a impressão é que a passagem do tempo deixou incólume as melodias, baladas e solos, entre arranjos grandiosos e minimalistas. Sadao é um mestre do meio-termo, pois sabe como poucos agrupar a multiplicidade de influências jazzísticas como expressão única – característica cada vez mais demandada dos instrumentistas de nossos tempos.


Spirits Up Above

Vibration Society

Gravadora: Squatty Rio
Data de Lançamento: 26 de maio de 2017

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Não é costume do Na Mira trazer gravações antigas e relançamentos na seção Groovin’ Jazz, mas no caso da Vibration Society vale a exceção. Em 1977, o saxofonista Rahsaan Roland Kirk morreu no seu auge. Cego, ele ficou famoso por tocar dois sax ao mesmo tempo, mas se tornou célebre por adaptar os instrumentos a diversos estilos, que iam dos spirituals ao free-jazz. Depois de sua morte, grandes feras que tocaram com ele, como o trombonista Steve Turre e o pianista Hilton Ruiz, formaram a Vibration Society, relembrando e complexificando a obra deste gênio nada pomposo. Gravado na cidade de New Jersey, em 1986, Spirits Up Above reitera a importância de conhecer com profundidade a história do jazz – uma das marcas indeléveis do estilo de Kirk. Turre é um dos maiores trombonistas do jazz, e prova isso ao perpassar pelo blues (em “Steppin’ into Beauty”, com belo solo do sax-tenor de Junior Cook) e elevar o fervor do hard-bop em “A Handful of Fives”. É de Turre também os growls catárticos da faixa-título, que apesar dos vocais lembram muito uma composição de Duke Ellington (que fez do uso desses growls pilar para a sua jungle-music). Ainda na faixa-título, Ruiz soa como o membro corporal que sustenta a vivacidade da música, enquanto os choirs dão carga de seu aspecto espiritual (não é à toa que a canção integrou a ótima coleção Spirituals Jazz recentemente). “The Inflated Tear” é uma espécie de conexão post-mortem com Kirk, enquanto “Bright Moments” remonta ao delicioso jazz dos anos 1950.


Fluxo

Zé Bigode

Gravadora: Independente
Data de Lançamento: 3 de maio de 2017

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Exatamente um ano após lançamento do EP homônimo, o guitarrista Zé Bigode chamou uma boa galera para sua estreia em álbum. De Fluxo, os instrumentistas mais expressivos são o saxofonista Victor Lemos (que alterna entre o alto e o tenor) e o pianista/organista Pedro Guinu. O músico cita as paisagens do Rio e de Havana como algumas das referências – dois pontos que mostram a vibe positiva que impera em Fluxo. Em “7 Caminhos”, já mostrada no EP, o grupo segue um latin-jazz com breves efeitos espaciais ao fundo. “Domingo no Centro” é o bop querendo ser funk, com riffs pesadões de guitarra nas intercalações que passam até pelo baião. O passeio estilístico do disco mostra o quão aberto Zé Bigode é a distintas referências, indo do metal ao choro, pegando resquícios da música psicodélica, hard-bop e funk. Como bem diz, o “idioma musical é poliglota”. Todas as composições são de autoria de Zé Bigode, prova de que ele tá mais próximo às jams de rua da música instrumental do que à errônea sacralização que tentam impor ao jazz.

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Tiago Ferreira

Editor do Na Mira desde 2010 - que, além de site, também é canal do YouTube e Embaixador Spotify. Já trabalhei como redator de comunicação interna, produtor de conteúdo da B2W (Americanas, Submarino e afins) e repórter de entretenimento, ciência e tecnologia no Vix.com. Também sou colaborador eventual da Revista da Cultura (da Livraria Cultura).

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