Groovin’ Jazz: Hermeto Pascoal, orquestra folclórica e ótimas estreias

Na seleção dos 10 melhores discos recentes de jazz, a parceria de Amilton Godoy e Léa Freire, um excelente álbum italiano de free-jazz e mais

Aos 81 anos, o mago da música brasileira, Hermeto Pascoal, continua surpreendendo ao mostrar lados do nosso folclore que jamais imaginaríamos. Com No Mundo dos Sons ele retoma os trabalhos com seu antigo grupo (com algumas modificações), surpreendendo com sua inventividade e energia.

Há outro disco brasileiro na seleta deste mês do Groovin’ Jazz: a dupla Amilton Godoy e Léa Freire, que rompe com o serialismo da academia num dueto repleto de beleza.

Ambos são experientes, mas fizemos questão de trazer algumas novidades, como a trombonista canadense Audrey Ochoa, o talentoso saxofonista Benny Rubin Jr. e o versado guitarrista E. Scott Lindner que, apesar da experiência em estúdio, só agora lança disco homônimo.

Você também pode conferir como um sexteto soa como uma orquestra divagando por diversos gêneros e conferir um quinteto italiano que reprocessa de forma magnânima a essência da música norte-americana.

Ah, uma ressalva: nas colunas anteriores, o Na Mira mantinha cuidado meticuloso com a questão temporal. Por mais que a ideia seja acompanhar as novidades do mês que se passou, sempre tem um disco lançado há semanas ou meses que foi ignorado. Portanto, por mais que esta edição, por exemplo, seja de álbuns lançados em julho, haverá um ou outro lançado antes.

Cada disco mencionado tem a data de lançamento especificada, então você saberá quando mencionarmos um lançamento nem tão recente assim.

Antes, a playlist com alguns dos melhores sons de jazz lançados em 2017 (atualização em breve). Pra seguir o perfil do Na Mira no Spotify, clique aqui.

Confira as 10 melhores novidades recentes do jazz:

A Mil Tons

Amilton Godoy & Léa Freire

Gravadora: Maritaca/Tratore
Data de Lançamento: 2 de junho de 2017

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Talvez você não conheça nem Léa Freire, nem Amilton Godoy. Amilton por muito tempo agraciou os ouvintes do que poderíamos chamar de ‘cool-jazz-samba brasileiro’ com o Zimbo Trio, também fundador da escola CLAM (Centro Livre de Aprendizagem Musical). Léa Freire foi uma das melhores alunas do pianista. Além de tocar o mesmo instrumento, ela também assume a flauta. Este novo disco em duo, A Mil Tons, retoma uma parceria iniciada em Amilton Godoy e a Música de Lea Freire, lançado em 2013 pelo selo dela, Maritaca. A diferença é que, neste novo registro, o foco é a composição de Amilton. Além do amadurecimento de ambos, o disco transcende as possibilidades de um duo piano-flauta, algo não muito recorrente (nem mesmo na música brasileira). Em “Choro”, o secular gênero é repassado com riqueza melódica, enquanto “O Batráquio” tem maior preocupação com o ritmo que, embora melancólico, busca um senso de otimismo que permanece. Em “Pouca Encrenca” dá pra entender por que Amilton é considerado um dos melhores pianistas brasileiros em atividade. “Estudo em Bb” evidencia um tipo de técnica circular na flauta de Léa. Suas notas ligeiras dão cor ao que seria um clima azulado. “Gostei demais do resultado final”, conta Amilton em texto do encarte do disco. “Eu fiz o que pude, mas Léa se superou”. Talvez o pianista tenha sido humilde demais. É bem claro que, em A Mil Tons, a supremacia é mútua.


Afterthought

Audrey Ochoa

Gravadora: Chronograph
Data de Lançamento: 5 de maio de 2017

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Trombones são robustos, mas podem oferecer uma variedade imensa de sentimentos, impressões, técnicas. A jovem canadense Audrey Ochoa mal estreou, em 2014, e já foi considerada uma das 5 melhores do instrumento pela revista Earshot. Afterthought é seu segundo trabalho, novamente como trio (complementado pelo baixista Mike Lent e o baterista Sandro Dominelli). Ela começa o disco com duas baladas: “Low Interest Rate” e “Ant and the Grasshopper”, que mostram como o blues é importante em seu desenvolvimento como instrumentista. A Audrey compositora leva o instrumento para paisagens idílicas, muitas vezes lembrando o talentoso Bob Brookmeyer (que, nos anos 1970, aproximou o trombone do jazz clássico). Em “Call Me”, ela alterna entre o acompanhamento e um lado rítmico bastante caro ao hard-bop, com notas cheias de firmeza. Com esse formato em trio, Audrey se diz influenciada também pela psicodelia e pelo hip hop, algo mais evidente na faixa-título, um thriller com solos bem delimitados e muitos pontos de tensão. No final, ela chega a um som saturado, num tipo de produção que certamente cativaria caras como Kanye West e Mike WiLL Made It.


What’s Next?

Benny Rubin Jr.

Gravadora: Independente
Data de Lançamento: 16 de julho de 2017

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É preciso fazer um estudo para traçar a influência do hard-bop no jazz da atualidade. Embora se tenha um volume considerável de produções que exploram a desenvoltura de acordes dos instrumentos, com poucos solos em destaque, discos como What’s Next? se destacam por trazer a essência de Art Blakey & The Jazz Messengers para um outro nível estilístico. Benny Rubin Jr. é um saxofonista que faz das brechas harmônicas um encantamento por si só – não é à toa que passou a integrar o seleto grupo dos Young Lions, de Wynton Marsalis, talvez o maior responsável por prolongar a vida do bop desde os anos 1980. Com um noneto, a estreia do saxofonista de Detroit se destaca mais pelo requinte que oferece, em temas como “Tyreek” e “Sorrento”. Em “7-15”, os tenores de Xavier Bonner e Rafael Statin formam o elo de ligação para que o vibrafonista Peyton Miller recobre a importância do instrumento numa passagem com ares do movimento Romântico. Mas, se Benny realmente deseja seguir uma linha repleta de originalidade, precisa perseguir mais o que nos entrega com “Pain For Generations”, cujos momentos bombásticos de cruzamento com o free-jazz refazem parte do ardor de anos de preconceito e escravidão sofridos pelos negros nas Américas (e em todo o mundo, na verdade).


Vivid

Daniel Arthur Trio

Gravadora: Independente
Data de Lançamento:
7 de julho de 2017

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Ao olhar a foto de três jovens brancos de vinte e poucos anos, pensamos tratar-se de um grupo indie do Brooklyn. Mas, a imagem de divulgação nada diz sobre o potencial do trio de Daniel Arthur que, pra começo de conversa, é de Quebec, em Montreal, um dos polos mais jazzísticos do Canadá. Inspirado na música clássica do começo do século, o pianista injeta acidez no que seria considerado sacro por ouvintes conservadores. A presença do baixo de Ethan Cohn é importante: em “DSFCA”, ele eleva o piano do plano melancólico para o excêntrico. Em “You’re Not in Anything”, os músicos buscam um tipo de ondulação sonora que serviria muito bem como trilha de um filme dos anos 1920, com perseguições e crises de personalidade. Neste tema, Daniel Arthur toma a dianteira intercalando entre um som massivo e dramático. Em “Holland America”, o trio emula escalas modais, fazendo um louvável trabalho de convergência de cordas. (É no trabalho de arranjo de cordas, na verdade, que o trio se supera.) Mas, façamos justiça ao baterista Eric Maillet. Na homenagem ao compositor russo Dmitri Shostakovich (“Shostakovich (Le Suicidé)”), Maillet é o instrumentista que melhor representa a fugacidade dos prelúdios de um dos maiores compositores do século passado. Se ainda perdura um muro entre o jazz e o clássico, Vivid é mais um exemplo de quebra dessa trincheira.


E. Scott Lindner

E. Scott Lindner

Gravadora: Infinity Gritty
Data de Lançamento: 28 de julho de 2017

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Existe uma característica inerente de músicos considerados ‘ratos de estúdio’. Percebe-se a meticulosidade de arranjos, justaposições melódicas, aquele senso de ‘som certo no lugar certo’. O álbum de estreia de E. Scott Lindner, guitarrista, produtor e engenheiro de som de Nova York, tem disso. Mas a ordenação serve apenas como um método. Com influências do rock progressivo, krautrock e diversos elementos da world-music (vide as percussões do norte africano perceptíveis em “Aggrandize”), a escola de Lindner é a excelência rítmica. Mesmo em um tema lento, como “Repletion”, ele pondera um tipo de versatilidade baseada na vibração (esta canção, por exemplo, tem ecos do Shakti, de John McLaughlin). Os efeitos do órgão de Adam Ahuja, em “Thing With Feathers”, tem toda a textura do som do Can dos anos 1970. Só que, onde haveria fragmentos de rock, aqui há fragmentos de fusion, tanto que até seus solos pendem para um lado psicodélico mais jazzístico que roqueiro. Lindner contou com a colaboração de 10 músicos em seu disco de estreia. Foram necessárias apenas três sessões em estúdio para o resultado final, prova de que a expertise de ficar por trás da mesa de som ajudou bastante na busca do apuro técnico.


No Mundo dos Sons

Hermeto Pascoal  & Grupo

Gravadora: Scubidu Records/Selo Sesc
Data de Lançamento: 28 de julho de 2017

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Antes de duas concorridas apresentações nos dias 12 e 13 de agosto no Jazz na Fábrica, um dos maiores eventos do gênero, que acontece no Sesc Pompeia (São Paulo), Hermeto Pascoal preparou um retorno em grande estilo ao lado dos parceiros Itiberê Zwarg (contrabaixo), André Marques (piano), Ajunirã (bateria), Jota P. (sax) e o filho do maestro, Fabio Pascoal, na percussão. No Mundo dos Sons é um álbum duplo que homenageia grandes nomes, como Sivuca, Astor Piazolla, Miles Davis, Tom Jobim – todos eles conhecidos de Hermeto. Só que uma homenagem deste alagoano arretado não tem nada a ver com covers, reprocessamento de melodias ou coisas assim. A memória destes mestres, na verdade, faz com que ele busque novas inspirações para compor. Assim temos, em canções como “Para Thad Jones”, “Forró da Gota para Sivuca” e “Viva Edu Lobo!”, por exemplo, um caldo inesgotável de inventividade, explorando a narrativa noir, seguindo aventuras pelos pântanos, fazendo crossover entre folclore brasileiro e fusion-jazz… Inspirado como sempre, Hermeto exala energia nas 18 músicas deste álbum duplo. Se em “Para Miles Davis” a técnica do modalismo se mistura ao xaxado, em “Entrando pelos Canos”, que introduz o CD2, a percussão caseira dá ares de um forró lo-fi de garagem (e você entenderá melhor essa conexão da música popular com o jazz na instigante “Salve, Pernambuco Percussão!”). Outro homenageado no disco é o saxofonista/flautista Vinícius Dorin, que integrava o grupo de Hermeto (ele morreu em janeiro do ano passado, aos 53 anos). O som do sax-soprano em “Vinicius Dorin em Búzios” perpassa com boniteza por uma melodia reconhecidamente brasileira, que assimila e enriquece todas as expressões estéticas com as quais entrecruza. Sendo direto e reto? Se tiver que escolher um disco de jazz de 2017, agora, vá sem medo em No Mundo dos Sons. Aos 81 anos, Hermeto permanece como autoridade máxima quando se fala de criatividade musical.


Peregrino

La Pingos Orquesta

Gravadora: Ropeadope
Data de Lançamento: 28 de julho de 2017

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A história da La Pingos Orquesta lembra a formação das big bands de New Orleans no século XX. Mude o ano e o cenário: em 2012, nas ruas de Aguascalientes, no México, diversos instrumentistas se reuniram para por em xeque as referências que tinham. Aí entra a riqueza da música latina no jogo: tango, música dos bálcãs, jazz cigano, som camerístico, rock, swing, folk. Tudo isso está canalizado com naturalidade, o que por si só surpreende. O tango puxado em “Enero” parece uma marcha fúnebre que até lembra a trilha de O Poderoso Chefão. Chega os 3 minutos, e o tema se transforma num tipo de celebração à vida – principalmente após a entrada do solo de guitarra de Gerardo Castmu, que responde pelo sexteto. Há momentos de festança geral no disco, como na fanfarra de “La Fiesta de Las Cochinillas” e num tipo de bop dos bálcãs de “La Huida”, puxado pelo baixo intermitente de Marco Gregoire. As construções musicais da La Pingos parece de orquestra mesmo, com começo, meio e fim. Mas é na execução que se percebe o frescor do grupo: o formato em sexteto permite alinhar a versatilidade de estilos e o diálogo de improvisação. Eles começam sutis e se intensificam com o avançar do tema, vide “Tio Gustavo” (que põe o violino de Cristian Bautista no epicentro) e “Ancianos”, que parece um tema amazônico de tão pacífico. Um dos maiores orgulhos dos integrantes é regenerar os estilos abordados em cada apresentação. Sua vivacidade e riqueza estilística rendeu centenas de participações em festivais, e Peregrino está aqui para provar que todo esse exercício fez muito bem ao grupo.


Serious Play

Laszlo Gardony

Gravadora: Sunnyside
Data de Lançamento: 14 de julho de 2017

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Professor de uma das escolas de música mais renomadas do mundo, a Berklee, Laszlo Gardony aprendeu que, com o piano, a busca intensa pela emoção é muito mais valiosa que a busca técnica – algo que, claro, ele tem de sobra. Serious Play é uma aventura solo dele no instrumento, uma experiência de abordar temas como “Georgia in My Mind” (Hoagy Carmichael) e “Naima” (John Coltrane) assimilando todas as escolas que domina: post-bop, folk norte-americano e música mediterrânea. Em “Night Light”, Laszlo nos entrega uma balada de se contemplar em teatros municipais. Já na seguinte, “Forward Motion”, ele leva a técnica de tocar 5/4 (famosa a partir do grupo de Dave Brubeck) a algo que pende entre o sublime e o divertido. O músico disse que o grade propósito do álbum era dar novos sentidos à música soul – neste caso, o sentido que mais aproxima a música da alma, não necessariamente presa ao gênero homônimo. Em “Folk at Heart”, a ideia é soar como a voz de uma comunidade esperançosa, enquanto a interpretação de “Over the Rainbow” toca no âmago, sem necessariamente remeter aos vocais de Judy Garland. “A música tem efeito direto nas nossas emoções e no nosso bem-estar”, disse o músico, que nasceu na Hungria. “O álbum veio para eliminar qualquer fadiga, dúvida ou desespero que possamos sentir”.


Proyecto Reutemann

Proyecto Reutemann

Gravadora: Discos ICM
Data de Lançamento: 21 de julho de 2017

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A Argentina vive um momento de ebulição do gênero, principalmente quando se fala em free-jazz e improvisação livre (vide nomes como Damián Allegretti e Guillermo Klein). Mas, outras expressões ululam. Este é o caso do Proyecto Reutemann, quinteto formado por Matias Rivara (trompete), Hernan Torres (sax), Gaston de la Cruz (guitarra), Maxi Castillo (baixo) e Joaquin Waiman (bateria). Com referências que vão do funk ao hard-bop, o quinteto aposta em timbres eletrificados que esbanjam arrojo. Em “Juliand”, os metais se espaçam e contraem com grande proximidade ao free. “Robocoop” mostra que a simbiose baixo-guitarra é muito mais diversa do que se imagina. É uma das faixas com potencial para agradar neófitos por brincar com possibilidades do rock – principalmente pelas viradas de Joaquin na bateria. O quinteto gosta de desenvolver os temas com enredos próprios. As intros costumam pegar o ouvinte aos poucos, mas o grande potencial é mostrado quando o clímax é atingido. Esse clímax pode ser o desenrolar de um jazz próximo ao hip hop, como acontece em “Dale Weiju”, ou partir para um avant-garde acelerado, como se ouve em “Pasos”, a melhor música do disco.


Last Kind Words

Roots Magic

Gravadora: Clean Feed
Data de Lançamento: 7 de julho de 2017

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Não vou mentir: quando ouvi pela primeira vez Last Kind Words, fiquei estremecido. É um grupo da Itália, formado por Alberto Popolla (clarinete e clarinete-baixo), Errico De Fabritiis (sax alto e barítono), Gianfranco Tedeschi (contrabaixo) e Fabrizio Spera (bateria). A proposta é trazer a inventividade do delta-blues lá do começo do século XX, de caras como Charlie Patton e o obscuro Geshie Wiley, a um som inventivo de free-jazz, com arrojo nos metais e uma integração magnânima entre os músicos. Dizendo assim, nem parece que se trata do segundo disco do Roots Magic (importante notar: quando se trata de jazz, primeiros discos são vistos como uma etapa de amadurecimento, não é como no pop ou no rock, que geralmente traz o lado mais enérgico das bandas). Logo na primeira faixa, “Down the Dirt Road Blues”, o diálogo entre Alberto e Errico transporta o ouvinte lá para aquelas plantações de algodão do sul dos EUA, num trem que faz questão de revisitar o passado. Como o blues pode estar tão conectado ao free? Ora, trata-se de duas legítimas expressões da música negra. Ouça temas como “Oh Hush” e “November Cotton Flower” e dá pra perceber o quanto estes músicos aprenderam ouvindo Art Ensemble of Chicago, Henry Threadgill, Albert Ayler e afins. “Talvez apenas músicos que não sejam norte-americanos podem estar a uma distância certa para imaginar algo dessa dimensão”, diz o texto de divulgação. Honrosa homenagem.

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Tiago Ferreira

Editor do Na Mira desde 2010 - que, além de site, também é canal do YouTube e Embaixador Spotify. Já trabalhei como redator de comunicação interna, produtor de conteúdo da B2W (Americanas, Submarino e afins) e repórter de entretenimento, ciência e tecnologia no Vix.com. Também sou colaborador eventual da Revista da Cultura (da Livraria Cultura).


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