Os 30 melhores discos de jazz de 2016

Letieres Leite entre os experientes Carla Bley e João Donato, além de Hiromi, Hurtmold, Theo Croker e mais


No ano passado, estreamos a coluna Groovin’ Jazz, trazendo mensalmente 10 lançamentos jazzísticos que consideramos que se destacam.

Ao longo de 2016, 110 discos foram destrinchados nesta coluna (novembro e dezembro viraram um post só, por conta das listas de fim de ano, que dão um trabalhão).

Outros surgiram aleatoriamente em faixas, disco da semana, streaming e afins.

Embora trata-se de um bom volume, tentamos ir ainda mais além nesse compilado dos melhores. O Na Mira foi atrás daqueles discos que fugiram de nossa audição – algo bem trabalhoso, já que muitos álbuns não saem nas plataformas digitais, nem têm uma agenda específica.

Mais difícil do que montar uma seleta de discos nacionais e internacionais de 2016, organizar os melhores do jazz implicou em tirar do pente fino lançamentos que mereciam pelo menos uma menção honrosa, como é o caso dos enérgicos BADBADNOTGOOD e Melt Yourself Down, o experiente Charlie Hunter, o grandioso Toninho Ferragutti…

Se 2015 foi o ano das big-bands jazzísticas, com destaque para Kamasi Washington e Maria Schneider Orchestra, 2016 representou meio que o contrário: há um volume imenso de trios e de música improvisada.

A compactação musical é atrativa em tempos em que o gênero vai adquirindo novos fãs: permite ser convidado para mais turnês, colaborar em mais projetos e ter menos trabalho na afiação sonora. Mas, se isso é realmente uma tendência, não tem ainda como explicar – mesmo porque algumas big bands também se destacaram neste ano, caso dos brasileiros Lourenço Rebetez e Letieres Leite, que dão pistas a um novo interesse que pode ser observado na música brasileira como um todo: o cuidado com os arranjos.

Destaque também para as mulheres: dos scats exasperadores de Linda Sharrock às histórias de antepassados de Jane Ira Bloom, elas mostraram que a expressividade pode seguir caminhos distintos.

Uma das melhores coisas de listas como esta é poder ter uma vaga ideia do que acontece em todos os cantos do mundo. O jazz permite esse diálogo, porque está liberto dos limites da fala, das divergências culturais e da intolerância com aquilo que não conhecemos.

Antes de prosseguir, tem uma playlist do Spotify, com alguns nomes que não aparecem aqui. Foi uma forma de compensar alguns artistas que não deixam seus trabalhos disponíveis em plataformas de streaming.

Veja também:
Os 20 melhores discos nacionais de 2016
Os 30 melhores discos internacionais de 2016
As 30 melhores músicas nacionais de 2016
As 30 melhores músicas internacionais de 2016

Aventure-se sem medo pelos 30 melhores álbuns de jazz de 2016:

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30. Beauty & Truth

Joachim Kühn New Trio

Gravadora: ACT
Data de Lançamento: 18 de março de 2016

Possivelmente o maior pianista de jazz da atualidade, o alemão Joachim Kühn é um septuagenário cheio de estilo. Seus temas têm um pouco de Liszt, de Carla Bley e até mesmo de Thelonious Monk. Claro que não é só isso. Na versão de “The End” (do The Doors), ele faz com que a melancolia se sustente de uma forma rítmica intrincada. Para isso, conta com o apoio de dois músicos jovens: o baixista Chris Jennings e o baterista Eric Schaefer. “Transmitting” traz a elasticidade jazzística à típica música de câmara, enquanto “Machineria” atesta que o vigor de Kühn perpassa por cenas, estilos e climas sentimentais de diversos tempos. A técnica do alemão, assim como a história do piano como um todo, é atemporal. Vê-lo criar com músicos mais novos prova que sua experiência ainda há muito a ser compartilhada.


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29. Emily’s D+Evolution

Esperanza Spalding

Gravadora: Concord
Data de Lançamento: 4 de março de 2016

A premiada contrabaixista Esperanza Spalding tinha tudo para não se aventurar em álbuns experimentais. Seu 5º álbum, Emily’s D+Evolution, seguiu uma linha mais elétrica, obscura e bagunçada. Totalmente diferente das referências da soul-music e do pop, o álbum tem mais guitarras, explosões e estouros vocais. Em “Good Lava”, ela cria um diálogo com ela mesma, como se estivesse em processo de mitose durante sua execução. O acústico de “Judas” é contraposto por um eletromagnetismo que parece vir de outro mundo, enquanto “Funk the Fear” é Sly Stone indo de encontro a Led Zeppelin. Menos Norah Jones e mais Janelle Monáe, Emily’s D+Evolution é a materialização de uma epifania que a cantora teve dois anos atrás, pensando nos efeitos da lua cheia em sua musicalidade. Talvez este novo lado seja bem mais interessante do que Esperanza mostrou até Radio Music Society (2012).


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28. Clockwork

Victor Gould

Gravadora: Fresh Soundsystem/New Talent
Data de Lançamento: 15 de maio de 2016

Aos 28 anos, este pianista do Brooklyn mostrou que gosta do som amalgamado. Victor Gould declarou que gosta de trabalhar no arranjo dos temas depois de prontos. Tudo isso de um jeito orgânico: se ele se depara com os instrumentos de corda soltos, como em “Blue Dales”, trata de sobrepor um estilo que confunde ritmos com solos, meio Jason Moran e Thelonious. É isso que instiga o som explosivo da bateria de E.J. Strickland. “Apostle John” foi composta após conversas sobre as escrituras sagradas com o sax-altista Goldwin Louis. Nela, percebe-se mais uma vez o tato para o arranjo: uma cortina de percussões e baixo, até que o piano de Gould surja como se tivesse lendo a mensagem desses escritos a partir de notas. Elas são pausadas, o que reflete o cuidado de transmití-la da melhor forma (quanto a Goldwin, contrapõe com um solo rascante, tornando “Apostle John” um exercício de elegia). O currículo da Berklee College pesa na técnica do pianista, e é importante que seu álbum de estreia capte isso. Admirável, porém, é a busca por um diálogo universalizado e espiritual. Victor Gould foi feliz em descobrir que o arranjo é base essencial para chegar onde quer.


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27. Risc

Full Blast

Gravadora: Trost
Data de Lançamento: 31 de maio de 2016

Peter Brötzmann faz free-jazz como nenhum outro instrumentista. Arrebatador, cáustico, estrepitoso, cheio de ruídos, somente caras da cena downtown de Nova York se comparam a ele quando se trata de levar o gênero às últimas consequências. Atomic e Fire! Orchestra não são nada perto do armistício que ele fornece com o Full Blast, projeto que mantém ao lado de Marino Pliakas (baixo elétrico) e Michael Wertmüller (bateria). Risc foi gravado ao vivo em Viena (Áustria), em 2015, e a programação elétrica desconcertante é colaboração de Gerd Rische, que infelizmente não viveu para ver o álbum pronto. Os solos do sax-alto de Brötzmann continuam tão vigorosos quanto sua estreia, há mais de 40 anos. Ele é irrequieto e só dá espaço à pausa quando se cansa de seus sopros intermitentes – algo bem difícil de acontecer mesmo em longos temas, de mais de 10 minutos. Se você acha que o free-jazz esfriou com o passar dos anos… Basta ouvir um trechinho disso aqui pra mudar de ideia.


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26. Convergence

Warren Wolf

Gravadora: Mack Avenue
Data de Lançamento: 10 de junho de 2016

Mais de 80 anos depois do primeiro registro do vibrafone no jazz, em “Memories of You” (de Louis Armstrong, com Lionel Hampton), ele continua sendo ignorado pela audiência. Isso é difícil de entender, ainda mais porque as possibilidades do instrumento estão longe de serem esgotadas. Warren Wolf prova que o preenchimento dos espaços e o diálogo com o piano (aqui assumido por Brad Mehldau) podem ser uma nova via. Mais quieto e reflexivo, o vibrafone de Wolf capta o som de brechas em “New Beginning”, mas se é balanço que você procura, vá direto em “Havoc”, em que a guitarra do experiente John Scofield leva o ouvinte a uma espiral de regozijos. Outro experiente que toca no disco é o baixista Christian McBride, que desenrola a potência das cordas alternando entre o frenético e o rítmico. São muitos feras reunidos, mas se tem algo que Convergence deixa claro é que os arranjos de cordas perdem muito quando deixam o vibrafone de lado.


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25. Curado

Hurtmold & Paulo Santos

Gravadora: Selo Sesc
Data de Lançamento: 8 de setembro de 2016

Disco na íntegra via YouTube

O multi-instrumentista Paulo Santos trouxe uma adição importante aos paulistanos do Hurtmold: estranho preenchimento dos espaços. Como isso pode ser bom? Kalimba elétrica, saxtubo, tubo de PVC e teclados estranhos se entremeiam a riffs, pontes e melodias sônicas. O som de “Pastel de Pixo”, por exemplo, vai se ramificando para algo mais aberto, até que o grupo todo entra numa coesão que reforça a característica do Hurtmold. Os temas são mais experimentos frios, algo que remonta às descobertas de Cornelius Cardew com a Scratch Orchestra. O grupo fornece a base, torcendo para ser desconstruída por Santos, que sabe chegar com o instrumento e o tipo perfeito de som para mantê-lo coeso e linear.


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24. Alma

Michel Leme

Gravadora: Tratore
Data de Lançamento: 20 de abril de 2016

Nada de “segundo take ou correções de qualquer natureza”. O novo disco do guitarrista Michel Leme foi gravado de uma vez só, em dezembro de 2015, com as faixas na ordem em que aparecem no disco. São 5 temas, entre 13 e 15 minutos cada, de improvisação comendo solto. Leme estipula quebras rítmicas que atravessam toda a historiografia musical brasileira em que as cordas são protagonistas. Besteira enumerá-las. Felipe Silveira (piano), Bruno Migotto (baixo) e Bruno Tessele (bateria) estão lá para ajudar a desconstruir ainda mais a noção de pré-concepção. A extravagância toma conta em momentos como “Nave” e “Os Biltres”, obedecendo mais ao clima momentâneo que a integração entre os músicos. Alma tem a ver com experiências; o compartilhamento de todas elas, em sua forma mais libertadora, só poderia resultar em algo majestoso – principalmente por se tratar de um músico do porte de Michel Leme, certamente um dos maiores guitarristas hoje em atividade.


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23. Escape Velocity

Theo Croker

Gravadora: DDB Productions/Sony
Data de Lançamento: 6 de maio de 2016

Theo Croker representa a modernidade do jazz, acompanhando a linha evolutiva de Ambrose Akinmusire, Kamasi Washington e Christian Scott. Já em seu 4º disco, o trompetista faz das experiências espirituais de faixas como “A Call to Ancestors” e “Transcend” um rito jazzístico próprio. As notas de seu trompete funcionam como a contribuição de Theo em busca de um bem-estar emocional. Os músicos que tocam com ele – com destaque para o baterista Kassa Overall, o saxofonista Irwin Hall e o tecladista Michael King – ajudam a fazer de Escape Velocity uma obra multidirecional. Em “In Orbit”, Sun Ra é a referência, principalmente pelos teclados intergalácticos. Já “Meditations” é guiado por ligeiras simbioses: começa com o cross entre sax e trompete, passa por piano e baixo e volta para os solos de metais, numa dinâmica total Dizzy Gillespie. A única faixa com vocais, “Love From The Sun”, traz a cantora Dee Dee Bridgewater num ambiente meio M-base, meio J Dilla, com forte proximidade da soul-music. Dizendo assim, Escape Velocity parece um amontoado, mas existe coesão. Atente para as transições, a forma com que Croker toca em meio às aventuranças estéticas, a estrutura dos temas… É jazz século XXI.


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22. Cantos Invisíveis

São Paulo Underground

Gravadora: Cuneiform
Data de Lançamento: 14 de outubro de 2016

Ouvir via BandCamp

O grupo que traz o free-jazz de Chicago à perspectiva citadina de São Paulo mostra que ritmo e pulsação são coisas mais abstratas do que se imagina. O trompetista Rob Mazurek adotou um estilo mais observacional, algo que os demais músicos – o baterista M. Takara e o tecladista Guilherme Granado – já haviam desenvolvido como a alma do São Paulo Underground desde Sauna: Um, Dois, Três (2006). Em “Cambodian Street Carnival”, eles captam a multidão das ruas num aspecto tribal, com a colaboração dos eletrônicos de Thomas Rohrer, importante adição ao grupo. As programações eletrificadas permeiam o disco inteiro e alguns arroubos no trompete ajudam a dinamizar o som, como em “Fire and Chime”, com os growls sobressalentes de Mazurek. Menos rítmico que o antecessor Beija Flors Velho e Sujo (2013), Cantos Invisíveis é mais AACM, mais difuso, mais caótico. Menos impactante, é verdade, mas mais verossímil ao industrial cinzento, como estampa a capa.


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21. Andando El Tiempo

Carla Bley

Gravadora: ECM
Data de Lançamento: 6 de maio de 2016

No ano em que completou 80 anos, a pianista e bandleader Carla Bley lançou um álbum introspectivo e acinzentado, cuja beleza é evocada após um tempo de solidão. Ao lado dos também experientes Steve Swallow e o saxofonista Andy Sheppard, ela recria passagens de um local tranquilo, como se estivesse visualizando um ambiente para descansar, relaxar a vista, curtir as coisas que a correria do dia a dia não permite. Em “Sin Fin”, o sax-tenor aveludado é contornado por notas lacônicas de Carla. “Potación de Guaya” é dotada de uma progressão harmônica que admira a beleza, o silêncio, a emoção. A compositora que alterna suas influências entre a linha evolutiva pós-Gil Evans (e pré-Maria Schneider) e seus trabalhos cristalinos em trio deixa pistas de que a mensagem é melhor transmitida pela emoção do que pela linguagem. A dimensionalidade da obra de Bley é mais contemplativa que estrutural, e Andando El Tiempo é mais uma amostra de como o impacto disso para o ouvinte ainda é precioso.


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20. Wisdom of Elders

Shabaka & The Ancestors

Gravadora: Brownswood
Data de Lançamento:
16 de setembro de 2016

Especialmente no Brasil, vivemos uma cena intensa de afro-beat. Ao ouvir Wisdom of Elders, gravado por um músico que nasceu em Barbados, aprofundou seus conhecimentos em Londres e foi gravar um disco na África do Sul, a primeira coisa que surge é: pronto, mais um influenciado por Fela Kuti – principalmente pela pontuação dos pianos, das percussões e do spoken-word de temas como “The Observer”. Wisdom of Elders, porém, é muito mais que isso: percebe-se o respirar de Pharoah Sanders no sax de Shabaka (vide a confluência dos metais em “Natty”), mas também uma herança latina, como ele nos brinda na caribenha “Joyous”. Shabaka já tocou com a Sun Ra Arkestra e o lendário Mulatu Astatke, mas conseguiu encontrar um estilo que faz com que continentes inteiros sejam absorvidos pelas notas de seu sax-alto. Ele diz que tudo que viveu e presenciou é expresso de maneira subjetiva, “porque o inglês é limitado como língua”.


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19. Culcha Vulcha

Snarky Puppy

Gravadora: GroundUp Music LLC
Data de Lançamento: 28 de abril de 2016

Três coisas que não têm nada a ver: o nome da banda, que parece fofinho, mas é um vulcão; a cadeira no meio de uma encruzilhada na capa, que dá falsa ideia de tranquilidade; e o nome latino, que contrasta com o fusion globalizado proposto pelo grupo. Fãs de Budos Band vão perceber na hora que Culcha Vulcha é um disco feito para o ao vivo. As guitarras flamejantes, os metais funky e o órgão arrebatador em temas como “Tarova” e “Grown Folks” são vívidos. Se deixar este álbum tocando perto de uma bomba, pode ter certeza que ela irá explodir. Mas, nem só de chamas se sustenta o grupo, liderado por Michael Lange. “Beep Box”, por exemplo, é um exercício tântrico, enquanto “The Simple Life” pega o afro-beat em sua raiz mais tranquila. Para quem sentia falta de algo arrebatador, Culcha Vulcha é uma pancada cerebral, pra ouvir em volume alto.


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18. Plim

Sérgio Machado

Gravadora: Pomm_elo
Data de Lançamento: 2 de dezembro de 2016

Começa como Free-Jazz (1960), de Ornette Coleman, em “Floresta”. Logo em seguida, passa pelo Black Rio na perspectiva de um vibrafone (“Cha Cha Malícia”) e chega a um spoken-word futurista, com a narrativa escatológica de Juçara Marçal, em “Delírio”. O álbum de estreia de Sérgio Machado (famoso por ser percussionista/baterista do Metá Metá) realiza recortes indeterminados de diversas expressões. É possível captar o nível de concentração em cada um dos takes de Plim. Há conexão entre o arqueamento oblíquo de “Mãe da Vertigem” e o som espacial de “Aerolitos”. Não se trata de um disco sob a perspectiva percussiva. Plim, na verdade, tem mais a ver com visão – uma visão aguda das interações sonoras e pessoais do que aconteceu, acontece e pode acontecer.


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17. Donato Elétrico

João Donato

Gravadora: Selo Sesc
Data de Lançamento: 13 de março de 2016

Encontre via YouTube

João Donato, 81 anos, é um dos mais talentosos instrumentistas que o Brasil preserva. De acordeom a piano Rhodes, ele doma do samba ao fusion-jazz em quase 70 anos de carreira. Em Donato Elétrico, porém, ele seguiu a via de clássicos como A Bad Donato (1970) e Quem é Quem (1973), repletos de energia jovial que ligam o que caras como Wayne Shorter e Miles Davis faziam do lado de lá com o que Eumir Deodato e Sivuca faziam por aqui. Para a jam eletrificada do disco, Donato assume Rhodes, clavinet, Farfisa e o clássico teclado Moog, contando com alguns dos instrumentistas responsáveis por propagar os caminhos atuais do jazz brasileiro, caso de Marcelo Fleury (guitarra), Guilherme Kastrup (percussão), Marcelo Cabral (arranjo de cordas), entre outros. O resultado é pulsante: um groove que transcende qualquer tipo de fronteira geográfica e estilística. Ao todo são 24 músicos na ficha técnica, com destaque para… Nenhum deles! Sim, pois Donato Elétrico é imbuído de uma corrente positivista e vibrante, um som coletivo em que cada ponderação é marcante demais para ser ignorada.


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16. Palm Psalms: A Light to Resolve All Darkness

Low Leaf

Gravadora: CreatorDiY
Data de Lançamento: 11 de novembro de 2016

Low Leaf é nome do projeto de Angelica Lopez, filha de filipinos que mora em Los Angeles. O ritmo de sua harpa possui forte compulsão elétrica de batidas de hip hop, canto soul e vultos estéticos que unem R&B ao avant-garde por uma via estranha, mas bela e bastante original. Palm Psalms é tribal, naturalista, uma interpretação do mundo a partir de um misticismo que encampa descobertas digitais e vivência em ambientes distanciados. É uma experiência libertadora ouvi-la em seu contato espiritual em “Dreaming Awake”. “Cleasing Incantation”, então, é o aprofundamento de todo esse requinte misterioso. O som da harpa é só mais um elemento mágico na música de Low Leaf, que não poderia contribuir de jeito melhor para acabar com a escuridão e a incerteza que se avolumaram em 2016.


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15. Astral Progressions

Josef Leimberg

Gravadora: World Galaxy Records
Data de Lançamento:
7 de outubro de 2016

The Epic (2015) rendeu um sucesso tão estrondoso no ano passado, que Kamasi Washington já é tido como influência precoce no jazz. O trompetista Josef Leimberg, parceiro do cultuado saxofonista, o chamou para construir sua própria jornada espiritual no disco de estreia, Astral Progressions. Tanto Kamasi quanto Josef têm passagens pelo hip hop e pelo soul, mas, ao contrário de Kamasi, mais afeito ao soul e R&B, Leimberg também agrega em seus hibridismos o hip hop. Em “Celestial Visions”, dá pra imaginar Yasiin Bey (Mos Def) no meio daquele amálgama meio Flying Lotus, enquanto na faixa-título o rapper Kurupt dá pistas de uma nova perspectiva de produção, mostrando que o futuro do gênero está no orgânico, não nos samples. Leimberg revelou que o disco possui forte aura espiritual, conexão que muitos fizeram para interpretar The Epic. Se for para fazer um comparativo, digamos que ele está no meio exato entre Kamasi e Robert Glasper. É daí que o jazz deve prosseguir nos próximos anos.


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14. America’s National Parks

Wadada Leo Smith

Gravadora: Cuneiform
Data de Lançamento: 14 de outubro de 2016

Ouvir via BandCamp

Mais de 1h30min de contemplação. O título do álbum do trompetista Wadada Leo Smith é dedicado aos parques nacionais dos Estados Unidos, mas pense na experiência sensorial. Como a vastidão do espaço e algumas das árvores mais altas do mundo podem nos inspirar? Da forma mais pacífica possível, pelo que aponta America’s National Parks. Os temas são longos – especialmente “The Mississipi River: Dark and Deep Dreams”, que toma mais de meia hora do álbum. Uma vez que o ouvinte entra no estado de espírito longe de impurezas, Wadada penetra em nossas mentes com sons fragmentários, passagens e acompanhamentos rítmicos escapistas. Ele conta com o Golden Quintet, formado por Anthony Davis (piano), Ashley Walters (cello), John Lindberg (baixo) e Pheeroan akLaff (bateria). De sons arqueados a teclas soltas, solos rasgados de trompete ao ritmo desprendido da bateria, America’s National Parks é limpidez e expressionismo, mostrando que a complexidade está na nossa capacidade de ver, ouvir e admirar.


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13. Perpetual Gateways

Ed Motta

Gravadora: MustHaveJazz/Membran
Data de Lançamento: 5 de fevereiro de 2016

Se a qualidade da música for capaz de absolver as besteiras disparadas nas redes sociais, Ed Motta seria beneficiado. Perpetual Gateways é, de longe, um de seus melhores discos nos últimos anos. Ele se entregou às influências da soul-music e do hard-bop com um estilo sofisticado como nunca. “Hypochondriac’s Fun” traz um belíssimo solo de piano após uma divertida observação na dança de salão, como diz a letra. A balada “Reader’s Choice” dialoga com o repertório de Poptical (2003) – especialmente “The Rose That Came to Bloom” – mas apenas por conta de um exercício nosso de interligá-lo ao passado. Perpetual Gateways mostra a expansão referencial de um músico talentoso que costuma estar atrelado a declarações polêmicas. Ed Motta é bem mais que isso.


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12. ArtScience

Robert Glasper Experiment

Gravadora: Blue Note
Data de Lançamento: 16 de setembro de 2016

Poderíamos ter colocado ArtScience na lista dos 30 melhores discos internacionais do ano, porque trata-se de uma obra que dialoga com o universo pop. O pianista Robert Glasper ajudou Kendrick Lamar na produção de To Pimp a Butterfly (2015) e trouxe diversos convidados do universo do R&B e do hip hop em seus últimos álbuns. Mas é assim que o jazz tem rumado ultimamente: o crossover entre as improvisações rítmicas e melódicas com a música pop do século XXI tem possibilitado um diálogo bem-sucedido, e Glasper merece as honras por estar no meio disso. “Day to Day” lembra o último álbum do Daft Punk e “You and Me” tem algo de Maxwell. Se alguém questiona o lado jazzístico de Glasper, deveria ir direto na releitura de “Tell Me a Bedtime Story” (Herbie Hancock) ou deixar-se agraciar pelo free-jazz de “This is Not Fear”. Este ano, Glasper também lançou uma releitura de Miles Davis, Everything’s Beautiful, também com a participação de vários ícones pop, como Erykah Badu e Stevie Wonder. Mas é em ArtScience que a originalidade de suas aventuras entrecruzadas se tonifica.


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11. Evolution

Dr. Lonnie Smith

Gravadora: Blue Note
Data de Lançamento: 28 de janeiro de 2016

O organista Dr. Lonnie Smith voltou pra Blue Note 45 anos depois de lançar Drive. As melodias confortantes dão uma profundidade serena, facilmente transferível ao ouvinte. Evolution é como se deparar com a filosofia de Santo Agostinho: o conhecimento é parte de um profundo olhar interno. Somos apresentados a isso na belíssima parceria com o saxofonista Joe Lovano, em “For Heaven’s Sake”. Mesmo quando refaz clássicos como “Straight No Chaser” (Thelonious Monk) e “My Favorite Things” (John Coltrane), Smith nos apresenta uma verdade própria, homenageando e ao mesmo tempo elevando ensinamentos passados a partir de novas ramificações – no caso dele, estéticas. Diferente do uso no rock psicodélico, na música de câmara e na cultura oriental, o órgão de Lonnie Smith é caminhante solitário da sabedoria. Os demais instrumentos vêm com ele, porque os músicos que os conduzem sabem que a evolução tem que ser encabeçada por quem realmente manja do assunto.


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10. Written in the Rocks

Renee Rosnes

Gravadora: Smoke Sessions
Data de Lançamento: 5 de fevereiro de 2016

O diálogo entre o piano da canadense Renee Rosnes e o vibrafone de Steve Nelson pega fogo nos temas “Cambrian Explosion” e “Galapagos”. Surge, então, uma sucessão de imagens: com o sax e a flauta de Steve Wilson, o baixo de Peter Washington e a bateria de Bill Stewart, o quinteto leva o ouvinte para uma bem-humorada jornada de aventura. Impossível não se admirar com as notas que misturam beleza e tensão de “Lucy From Afar” e na faixa-título, que começa quietinha, mas logo deixa-se levar pela beleza da confluência entre Renee e Steve. É essa interação que conduz a riqueza de Written in the Rocks, um álbum em que a naturalidade e a aventura estão intrínsecos à beleza.


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9. O Corpo de Dentro

Lourenço Rebetez

Gravadora: Tratore
Data de Lançamento: 22 de julho de 2016

O jazz brasileiro vive um momento de valorização dos arranjos. O guitarrista paulistano Lourenço Rebetez, em seu primeiro disco, usou menos o instrumento e mais a cachola para estruturar O Corpo de Dentro, onde samba, música afro-brasileira e sons orquestrados que lembram trilhas de ficção se aglomeram, convergem e potencializam a experiência do ouvinte. Rebetez é formado na renomada Berklee College, mas aprendeu mesmo foi com o melhor jazzista brasileiro da atualidade: Letieres Leite. Os temas de Rebetez se destacam pela confluência entre cordas e metais. Em “Ozu”, por exemplo, guitarra, sax e baixo atingem picos criativos que se dialogam. Quando entra a percussão, porém, o silêncio faz as honras, e parece que estamos diante de um ritual que exige o nosso respeito. Dizendo assim, parece coisa de músico chato, mas o fato é que O Corpo de Dentro é bem elástico e, principalmente, vívido.


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8. Expansions (Live)

Dave Liebman

Gravadora: Whaling City Sound
Data de Lançamento: 14 de outubro de 2016

Dave Liebman é daqueles tipos de saxofonista que não se importam muito pro que é clássico – mesmo tendo sido escolado nele. Sim, ele tocou com Miles Davis e respira sua influência até hoje, mas o que ele extrai de melhor do trompetista é a sua passagem do acústico para o elétrico, com o fulgor de seu sax-soprano. Seu diálogo com o sax-altista Matt Vashlishan (que também assume flauta e clarinete) vai do naturalismo (”Love Me Tender”) ao arrojado (vide a versão de “India”, de John Coltrane). Além de ser nome de um disco ao vivo focado nos dois últimos álbuns (Samsara, 2014, e The Puzzle, 2015), Expansions também é o nome do grupo de Liebman que, além de Vashlishan, conta com o experiente pianista Bobby Avey, o baterista Alex Ritz e o baixista Tony Marino. Expansions é um álbum duplo que põe à prova a energia conduzida por Liebman. Clássico e moderno se entrelaçam num registro em que o estilo é o grande endosso. São dois discos em mais de 2h de uma música impossível de enjoar.


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7. Perfection

Murray, Allen & Carrington Power Trio

Gravadora: Motéma
Data de Lançamento: 15 de abril de 2016

Se tem uma coisa que o saxofonista David Murray aprendeu com Ornette Coleman foi a buscar sua própria originalidade. O distinto sax-altista se tornou um dos instrumentistas mais influentes das últimas décadas por fazer do free-jazz, hard bop e bebop uma escola só em notas de alta intensidade. É mais do que vindouro que ele conduzisse uma homenagem ao lendário Coleman, que morreu em 2015. Em Perfection, Murray se baseia nos power-trios do homem que inventou o free-jazz – especialmente aqueles com David Izenzon e Charles Moffett. Para isso, ele chamou duas grandes instrumentistas: a pianista Geri Allen, que aponta soluções criativamente ligeiras nas composições, e a baterista Terri Lane Carrington, funcional na maioria das vezes, mas também arrebatadora quando precisa, como em “Geri-Rigged”. A faixa-título do álbum é de Coleman, mas nunca foi gravado por ele. O tratamento dado por este trio é intenso e confluente. A expressividade é mútua, embora cada um apresente soluções diversas em seus momentos solos. Cientes de que fazer algo simplesmente parecido com Ornette Coleman é a pior forma de rememorá-lo, o trio se uniu para uma catarse coletiva. O resultado, claro, faz jus ao título.


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6. André Mehmari & Antônio Loureiro

André Mehmari & Antônio Loureiro

Gravadora: Tratore
Data de Lançamento: 31 de julho de 2016

André Mehmari é daqueles músicos ocupadíssimos que arranja tempo para diversos projetos: entre composições com OSESP, trilha da série 3% e projetos pessoais, o pianista também nos brindou com esta joia, em parceria com o multi-instrumentista Antônio Loureiro. Alternando piano com vibrafone, acordeom e clavinet, a dupla delineia as passagens com uma sonoridade tão rica quanto nossa biodiversidade. Em “Ná!”, imagina-se uma peça teatral lúdica com pinceladas de intensa dramaticidade. “Laginha” faz um trânsito progressivo entre o piano de câmara, ritmo da bossa, até chegar ao som naturalista de Villa-Lobos. Mehmari é bastante conhecido no círculo da música clássica, mas junto a Loureiro inspirou-se em improvisações que refletem um traço cultural híbrido. Trata-se de música indianista, com elementos do Romantismo, da técnica de Eliane Elias, a herança de Caymmi, a beleza enraizada na terra do Clube da Esquina… É algo tão complexo, que o duo precisou externar em 17 temas. Você nem vai sentir o tempo passar.


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5. Time/Life

Charlie Haden Liberation Music Orchestra

Gravadora: Impulse!
Data de Lançamento: 16 de setembro de 2016

O antológico baixista Charlie Haden começou a carreira tocando com Ornette Coleman e na Thad Jones/Mel Lewis Orchestra nos anos 1960. No final daquela década, porém, formaria uma big band própria, a Liberation Music Orchestra, que selou uma robusta parceria com a arranjadora e pianista Carla Bley. A música do norte-americano de Iowa sempre esteve associada à espiritualidade. A conexão com o próprio ser é predominante, por mais que mantivesse forte discurso politico. Haden morreu em 2014, mas Carla Bley, com 80 anos, mantém a força da Liberation, sugerindo um exame do ouvinte com ele próprio em sublimes passagens, como “Útviklingssang” e a faixa-título. Time/Life começa com um take ao vivo de “Blue in Green”, de 2011, com um momento solo de finura beleza (que arranca aplausos). O outro tema que Haden toca (ele só toca em 2 das 4 canções do álbum) é “Song For the Whales”, um experimento com ecos e arcos de corda em fricção, antes de revelar enigmática passagem por um avant-garde progressivo (Tony Malaby e Chris Cheek formam uma estupenda dupla de saxofonistas!). É um dos melhores registros de Haden com a Liberation, prova de que seu legado deve continuar, de qualquer maneira.


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4. Early Americans

Jane Ira Bloom

Gravadora: Outline
Data de Lançamento: 13 de maio de 2016

A expressividade do sax-soprano é intensa, porque permite conectar o ouvinte a um multiculturalismo sem que seja necessário o conhecimento inicial. Ciente disso, a experiente Jane Ira Bloom chega ao 16º álbum dando uma interpretação de como se deu a chegada dos europeus e a constituição de um Estado até hoje dividido por conta dos interesses de outrora. Early Americans é o primeiro disco de Jane em trio (completado pelo baixista Mark Helias e o baterista Bobby Previne). Com exceção de “Somewhere” (de Leonard Bernstein), as demais 13 músicas foram compostas por ela, num ritmo de eloquência pulsado pela versatilidade linguística. “Dangerous Times” é regida sob um suspense: enquanto a bateria supõe um cotidiano de trabalho, os solos de Jane perfazem momentos obscuros de captura de escravos, recriando um clima de apreensão que nos remete à série Raízes e ao filme 12 Anos de Escravidão. “Singing The Triangle” cria um cenário imagético domado pelo espaço; quando ela o contorna, sentimos uma espécie de câmera dando zoom num protagonista que, aos poucos, revela seus desejos mesmo durante uma corriqueira atividade. Jane faz riffs, dá espaço para o baixo (um dos mais expressivos que ouvi este ano) e dosa seus solos entre a densidade e o fulgor. Seu timing é perfeito, porque, para ela, interessa mais levar o ouvinte a repensar sobre um passado em específico do que em sua técnica – esplêndida como nunca, diga-se de passagem.


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3. A Saga da Travessia

Letieres Leite & Orkestra Rumpilezz

Gravadora: Selo Sesc
Data de Lançamento: 10 de agosto de 2016

Encontre via YouTube

Como deve ter sido seguir rumo a algo desconhecido, com destino incerto? Para compor seu segundo álbum, A Saga da Travessia, o maestro Letieres Leite disse ter se questionado: “por que havia pouca produção baseada nos ritmos afro-brasileiros?”. Junto à Orkestra Rumpilezz, ele recompôs as apreensões e a riqueza cultural daquele povo que se aproximou à costa da Bahia. Em vez do ardor da escravidão, o álbum foca nessa transição, em que as expectativas se melindravam à forte expressão cultural africana, determinante na riqueza da música brasileira. Letieres trabalha os arranjos já no momento de sua execução: primeiro, ele organizou as percussões, para depois abrir espaço às cordas e metais. O som é corporificado, retrato de uma simbologia que põe o ouvinte num ambiente de frenesi. Atabaques, metais intercalados, sons pulsantes: A Saga da Travessia é uma viagem antropológica que nos faz sentir o passado como nenhum livro de história pode explicar.


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2. Live, Vol.1: Bab-Ilo, 2016.08.25

The Linda Sharrock Network

Gravadora: Improvising-Beings
Data de Lançamento: 1º de setembro de 2016

Encontre via BandCamp

Conhecida como a voz impactante da mulher do guitarrista Sonny Sharrock, que se ouve no clássico Black Woman (1970), Linda Sharrock não teve uma carreira de muito destaque. Quando sofreu um AVC, em 2009, muitos já nem se lembravam dela. Felizmente em 2014 ela voltou, e mostrou que sua voz e o free-jazz são ainda mais necessários hoje que outrora. Seus gritos parecem procissões, e a banda que a acompanha parece estar em chamas!

São temas sepulcrais, em que o saxofonista Mario Rechtern, o baterista Makoto Sato, o sax-tenorista Lucien Johnson, além de Claude Parle (acordeom) e Yoram Rosilio (baixo), se esforçam para que a intensidade não diminua nem um pouco durante um take único de 48 minutos, fruto de uma apresentação em Paris de agosto de 2016. A voz exasperadora de Linda ora se confunde com o agudo do acordeom, ora se arregaça no rasgo dos saxofones. As fragmentadas extensões desses gritos são provas chacais de que a emoção, por mais incômoda que possa parecer, continua preponderante no jazz. Não é de hoje que Linda Sharrock prova isso.


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1. Spark

Hiromi

Gravadora: Telarc/Concord
Data de Lançamento: 1º de abril de 2016

Aos 37 anos (com rosto de 22), a fenomenal pianista Hiromi deu luz e vida ao que muitos considerariam um dos formatos jazzísticos mais crus: o trio. Spark já é o 6º álbum desta instigante instrumentista, e a sensação que ele deixa é arrebatadora: clusters de seu piano se misturam a experimentos rítmicos. As modulações palpitam e desconstroem tanto avant-garde quanto a jungle music arrepiante de Duke Ellington, desenvolvida no final dos anos 1920.

Spark é um disco multidimensional. Dialoga com a sociedade cada vez mais interessada na realidade virtual, sem se apegar ao referencial dos clássicos. Perceba no volume sônico de temas como “Wonderland” e a faixa-título: é como se ela criasse a forma das projeções num estágio acelerado, já pensando na perspectiva e na movimentação dos objetos.

A técnica de Hiromi é dotada da lógica de Vijay Iyer e da agilidade de Toshiko Akiyoshi. Antes do problema ser percebido pelo ouvinte, eles já são solucionados e levados pra outra dimensão pelo trio – complementado pelo baixista Anthony Jackson e o baterista Simon Philipps. É o jazz compreendendo as novas gerações a partir daquilo que tanto os caracteriza: a agilidade.


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Tiago Ferreira

Editor do Na Mira desde 2010. Já trabalhei como redator de comunicação interna, produtor de conteúdo da B2W (Americanas, Submarino e afins) e atualmente sou repórter de notícias, ciência e tecnologia no Vix.com. Também sou colaborador eventual da Revista da Cultura (da Livraria Cultura).

  1. Ramon Lourieri 18 março, 2017 at 23:59 Responder

    Parabéns pela escolha, todos excelentes, mas como você destacou ROBERT GLASPER EXPERIMENT, é FANTÁSTICO, PONTO FORA DA CURVA.

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