Jazzmeia Horn: scats, standards e sentimentos

Com técnica comparável a Betty Carter, cantora do Texas estreia com A Social Call

Disco da Semana: Jazzmeia Horn | A Social Call

Gravadora: Concord
Data de Lançamento: 12 de maio de 2017

Os scats voltaram com tudo. Não que isso represente bem uma novidade no jazz. Nos anos 1960, Linda Sharrock impressionou os fãs de free-jazz ao tocar no importante disco do marido, Sonny, Black Woman (1969). Quatro décadas depois, ela continua na ativa – tanto que no ano passado lançou o 2º melhor álbum do gênero.

Outro nome recorrente dos scats é Betty Carter, uma das grandes preciosidades da era bebop. A cantora número 1 de jazz, segundo a colega talentosa Carmen McRae, morreu em 1998, mas sua influência segue firme e forte. Taí a estreia de Jazzmeia Horn para comprovar.

Vencedora do Prêmio Thelonious Monk em 2015, a jovem de 25 anos faz um misto do clássico com aquelas deliciosas vozes ininteligíveis com naturalidade semelhante a Betty. Mas, vale lembrar: Betty é apenas um rumo estilístico para entender o que a jovem nos entrega em A Social Call.

O crítico do Jornal do Brasil Luiz Orlando Carneiro deu a melhor definição possível para essa comparação:

“A influência de Betty Carter na arte de Jazzmeia é patente na “instrumentalização” vocal boppish dos solos improvisados e nas trocas de compassos com os instrumentistas propriamente ditos. Carter foi uma contralto originalíssima, dona de um vozeirão às vezes roufenho, enquanto a nova estrela que tem jazz até no nome pode ser classificada como mezzo soprano, embora seu range vocal atinja notas altíssimas”.

A reverência é tão perceptível que logo a primeira música, “Tight”, trata-se de um tema de Betty Carter. Sua voz carrega mais doçura, o que faz com que ela perca a agilidade tão característica do bop. Ainda assim, temos uma homenagem à altura, principalmente quando entram os scats, que dialogam com o som entrecortante do sax-tenor de Stacy Dillard.

Instrumentos a seu favor

O som de Jazzmeia Horn é arrojado, tanto que a instrumentação é um complemento importante de sua obra.

Em “People Make The World Go Round”, o baixo de Ben Williams cria um ambiente descontraído, em que ela discorre sobre múltiplos exemplos de descaso no mundo. Logo a bateria de Jeromy Jennings e o piano de Victor Gould geram tensão para que os metais de Dillard e Josh Evans (trompete) musiquem o caos da atualidade.

“East of The Sun (and West of the Moon)”, tema de Brooks Bowman famoso na voz de Ella Fitzgerald, é prova de que os standards são revalorizados na voz de Jazzmeia.

Ela nasceu no Texas e estudou em Manhattan e, como vantagem, aprendeu a extrair um som límpido. Perceba como ela faz os scats: eles carregam um tipo de técnica acadêmica, de tão límpidos que são.

Originalidade nos standards

O que Jazzmeia faz é potencializar o senso estético do jazz a partir da volatilidade vocal. Seu canto tem uma tessitura ágil e, ao mesmo tempo, intensa. Mesmo num som considerado tradicional, como a faixa-título (de autoria de Gigi Gryce e Jon Hendricks), a voz demanda um tipo de esforço que exige rigorosa técnica de respiração. E a música sai como um atropelo.

Nas canções mais lentas a originalidade de Jazzmeia ganha um contorno de suavidade que nos faz repensar os próprios scats que ela produz. Como assim? Ao ouvir “The Peacocks (A Timeless Place)” (de Jimmy Rowles/Norma Winstone), o ouvinte percebe que se esqueceu de um elemento perdido nos temas mais ágeis: a implícita sensibilidade.

Esse sentimento está presente em todas as canções de A Social Call, e só nos damos conta disso quando nos afastamos das comparações e passamos a analisar as próprias características de Jazzmeia Horn.

Sim, ela é um caso à parte – mesmo que parta de uma estreia em que refaz clássicos do jazz.

Outros lançamentos relevantes:

Juliana Vargas: Pop Banana (Biscoito Fino)
Paul Weller: A Kind Revolution (Parlophone)
Don Bryant: Don’t Give Up on Love (Fat Possum)
Micah Gaugh: Stars Are a Harem (Sê-lo Net Label)

Artistas Jazzmeia Horn

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Tiago Ferreira

Editor do Na Mira desde 2010 - que, além de site, também é canal do YouTube e Embaixador Spotify. Já trabalhei como redator de comunicação interna, produtor de conteúdo da B2W (Americanas, Submarino e afins) e repórter de entretenimento, ciência e tecnologia no Vix.com. Também sou colaborador eventual da Revista da Cultura (da Livraria Cultura).

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