Groovin’ Jazz: 10 lançamentos de março/2016 que você tem que ouvir

Novos discos de Joachim Kühn, Melissa Aldana, a parceria entre Vijay Iyer e Wadada Leo Smith, e mais



Tem sido um exercício cada vez mais difícil mapear os discos de jazz que saem a partir de suas datas de lançamento. Embora ferramentas como Allmusic ou Bandcamp ajudem bastante, elas ainda são muito desorganizadas na assertividade das reais datas.

Por isso, antes de se deparar com um lançamento há uma pesquisa prévia pra ver se o disco se encaixa no requisito mínimo: ser lançado no mês em questão, para figurar entre os lançamentos de jazz recomendados por aqui.

Neste caso, os serviços de streaming pouco ajudam. O Spotify, ainda que tenha bons recursos, é a pior plataforma para agrupar lançamentos jazzísticos: eles ainda me dão, em abril, o ótimo Doni Doni, de Erik Truffaz, como novidade do gênero – sendo que o Na Mira já falou sobre o disco na seção mensal de… janeiro!

De todas as plataformas de streaming que testei, a melhor para os fãs de jazz é o Apple Music. Ele filtra bem os lançamentos e traz muita novidade impressionante, embora tenha que melhorar em muitos aspectos. (Ainda preciso ir mais a fundo com o Deezer, o que menos testei.)

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Confira 10 discos de jazz lançados em março que você precisa ouvir:

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I’ll Have What I’m Having

Drama Section

Gravadora: Independente
Data de Lançamento: 16 de março de 2016

Encontre via BandCamp

Divididos entre o Brooklyn (Nova York) e Oberlin (Ohio), o quarteto Drama Section não tem o som caracterizado por suas localidades. Do Masada, de John Zorn, ao som elétrico dos primeiros anos de Wayne Shorter, I’ll Have What I’m Having é um disco que surpreende pelo delinear dos arranjos. Mesmo numa canção calma, como “Song of Song”, os sopros soltos de Nate Mendelsohn podem ser lentos, mas não escondem uma vontade de destrinchar com tudo. Já em “Control Z”, depois do start sentimos o flamejar arrebatador impulsionado pelos equipamentos eletrônicos de Mendelsohn e Stephen Becker, que também assume as guitarras.

Ouça: disco na íntegra


EM DESTAQUE

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Beauty & Truth

Joachim Kühn New Trio

Gravadora: ACT
Data de Lançamento: 18 de março de 2016

Blues e avant-garde têm tudo a ver, e se Ornette Coleman já provou isso no sax-alto (e no trompete e no violino), o alemão Joachim Kühn é o exemplo que se aplica ao piano. Aos 72 anos, estilo, fluência e arrojo técnico se misturam tanto quanto as referências que ele relativiza com um ‘novo trio’ – complementado por Chris Jennings no baixo e Eric Schaefer na bateria. Essas referências estão bem guardadas em nosso imaginário, tanto que “Riders On The Storm” e “The End” nos remete ao The Doors pela via que menos associamos: seu teor paisagístico. O reggae de Stand High Patrol em “Sleep On It” revela-se um campo aberto para o compasso de Schaefer, enquanto o tema famoso de Gil Evans, “Blues For Pablo”, é edificado pelas nuances de notas de piano que parecem lentas – quando percebe-se o tom de suas abstrações, pum!, elas já sumiram no ar. Quatro temas de Beauty & Truth são originais; destaque para as notas de um serialismo em continuum em “Because of Mouloud”. Taí uma canção que atesta: Joachim Kühn é o melhor pianista de jazz vivo.

Ouça:Because of Mouloud


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Arclight

Julian Lage

Gravadora: Mack Avenue
Data de Lançamento: 11 de março de 2016

O guitarrista disse ser obcecado pelo período do American Quartet, do pianista Keith Jarrett. Este novo álbum, com Kenny Wollesen (bacteria/percussão) e Scott Colley (baixo), traz um panorama de como Julian Lage processa essa influência: incorporando a estética do blues-rock à lá John Cipolina (Quicksilver Messenger Service) com as explorações de Wes Montgomery em sua afiada Fender Telecaster. Lage tem um estilo improvisador que valoriza os acordes, algo que ele diz ser influência do jazz antes do bebop. Não à toa, ele refaz W.C. Handy em “Nocturnal” e “Harlem Blues”. As canções originais, como “Activate” e “Prospero”, mostram que o moderno tem muito do passado. Se ele já era reconhecido com seu violão, com a guitarra mostra ser um jazzista sem trincheiras musicais – nem mesmo o rock é uma barreira pra ele.

Ouça: “Nocturne”


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Back Home

Melissa Aldana

Gravadora: 11 de março de 2016
Data de Lançamento:

Ah, o sax-tenor. Com ele, Melissa Aldana faz blues, colcheios, dá arrancadas, arremata solos incríveis. Essa chilena de apenas 27 anos doma o instrumento inspirada em Sonny Rollins, mas com a força de um Lester Young. O formato em trio, complementado pelo baixo de Pablo Menares e a bateria de Jochen Rueckert, sempre foi favorável ao instrumento. Nesse caso, Melissa sabe como soar tão abrasiva (“Obstacles”), quanto certeira em notas nevrálgicas (“Time”). O estilo entrecortado e matematizado muito lembra Steve Coleman – e o baixo de Menares faz questão de fortalecer esse enlace abstrato, vide a conexão entre o lamento e a essência da música latina em “En Otro Lugar”. Por si só, Back Home sugere uma infinidade de possibilidades rítmicas: em “Alegria”, ela sola fixada no cool-jazz, enquanto o baterista envereda na destreza dum Al Foster. “My Ship” é puro Lester, “Desde La Lluvia” tem seus resquícios de Coleman Hawkins e “Servant #2” é de pegada avant-gardesca, deliciosamente torta. Eis uma grande expoente do sax-tenor de nossos tempos!

Ouça: trechos de uma apresentação


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Abutbul Music

Omer Avital

Gravadora: Jazz Village
Data de Lançamento: 18 de março de 2016

A carreira solo do contrabaixista israelense Omer Avital completa 15 anos carregada da vitalidade que une o oriental ao ocidental. Abutbul Music é apegado aos grooves do funk, da soul-music e da música sefardita (cultura judaica com elementos ibéricos). O contraponto estilístico do sax-soprano de Asaf Yuria e o túrgido sax-tenor de Alexander Levin dão uma carga fusion a um som bastante calcado no bop moderno. Ao lado do pianista Yonathan Avishai, Avital joga a corda em brasa para que os demais músicos respondam ligeiramente, sem muito espaço pra respirar – seja no modal de “Afrik” ou no baile formidável de “Me and You Tonight”. A crueza da técnica do baixista fica bem exposta em “Bass Hijaz”: o controle da relativização é bem arraigado na cultura musical judaica; ele toca como se obedecesse mais a um ritual que a uma progressão de acordes.

Ouça: “Bed-Stuy”


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Maria Radna

Petre Ionutescu

Gravadora: Independente
Data de Lançamento: 10 de março de 2016

Encontre via Bandcamp

O jazz romeno é uma incógnita para muitas pessoas. O trompetista, organista e flautista Petre Ionutescu não responde a possíveis perguntas sobre as características particulares de uma escola que vem de Johnny Raducanu e Gheorghe Zamfir em seu novo disco, Maria Radna, mas deixa claro que é possível um encontro estético entre a música europeia, asiática e soviética em sons espaçados. Dá pra perceber um tantinho de Hermeto Pascoal em “Ecouri” e o minimalismo cristalino de Philip Glass em encontro a um som ‘naturalista’ em “Rogoday”, com vozes de Andra Ioanas. Maria Radna é um álbum relaxante, paisagístico e belo, mas tão belo, que vai te transportar por um lugar calmo cheio de cores e completamente entregue à natureza.

Ouça: disco na íntegra


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Between Brothers

Raul Agraz

Gravadora: OA2 Records
Data de Lançamento: 18 de março de 2016

Raul Agraz é equivalente ao cubano Paquito D’Riviera no sax, só que no trompete. O venezuelano tem extenso conhecimento da música latina, dos brass sections nova-iorquinos, além de um feeling musical que ora parece advir de um quarteto, ora parece ser de uma orquestra. Nas autorais “BossAgraz” e “On a Sentimental Day”, suas notas iniciam melancólicas e deixam-se fluir pelos arranjos clássicos de metais. A faixa-título, de Luis ‘Papo’ Marquez, tem toda uma ginga brasileira, enquanto “FDB” invariavelmente carrega o peso modular do hard-bop, permitindo múltiplas entradas dos graves do trombone e belos delineares de saxofone. Agraz contou com um time de mais de vinte músicos para conceber seu primeiro lançamento por uma gravadora norte-americana: o resultado não é nada menos que exuberante.

Ouça: “Between Brothers”


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Volume 3

Trio Corrente

Gravadora: Tratore
Data de Lançamento: 10 de março de 2016

É normal recorrer aos clássicos medalhões da nossa música antes de citar o ‘jazz à brasileira’, principalmente nomes como Tom Jobim, Pixinguinha e Moacir Santos. Fábio Torres (piano), Paulo Paulelli (baixo) e Edu Ribeiro (bateria) perpassam por todos eles no álbum Volume 3, com a diferença de contribuir com uma versatilidade técnica que parece abranger toda multiplicidade estilística latente no jazz em todos os cantos do mundo. Assim, “Maracangalha” (Dorival Caymmi), “A Rã” (João Donato/Caetano Veloso) e “Mambembe” (Chico Buarque) soam musicalmente rejuvenescidas, instigando entrecortes, clusters no piano, notas rasgadas no baixo e um aspecto urgente na bateria. É como se o Trio Corrente adequasse a beleza desses clássicos à pressa dos tempos de hoje. O repertório autoral do trio – especialmente “Nívea”, de Edu, e “Samba de Retalhos”, de Paulo – faz incrível interligação entre gêneros brasileiríssimos, como samba e bossa nova, às influências da diáspora africana e à elasticidade da música caribenha. Fábio, Paulo e Edu faturaram um Grammy em 2014, além de terem excursionado com o lendário Paquito D’Riviera. Sabem muito bem o que fazem.

Ouça: “Nívea”


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A Cosmic Rhythm with Each Stroke

Vijay Iyer & Wadada Leo Smith

Gravadora: ECM
Data de Lançamento: 11 de março de 2016

Adquirir via ECM Records

O trompetista Wadada Leo Smith era um dos membros da Association for the Advancement of Creative Musicians (AACM), coletivo de Chicago responsável por alargar o alcance do free-jazz a partir dos anos 1960. Explorador das longas notas, Smith faz da paciência uma virtude estilística. Suas notas dissonantes compreendem blues, música europeia e o mencionado free-jazz como uma coisa só, e isso é magnífico. Ao lado do ‘jovem’ e talentoso Vijay Iyer, erroneamente associado ao academicismo por sua alta graduação (o indiano dá aulas em Harvard), Smith encontrou um ótimo parceiro para ajudá-lo a ‘desenhar’ com traços meticulosos uma espécie de jazz cerebral em A Cosmic Rhythm with Each Stroke. Não é um álbum para se ouvir enquanto se pega um ônibus ou anda pelas ruas; os obstáculos no meio do caminho atrapalham o alto nível de concentração que o disco não exige, mas certamente capta. Em “All Becomes Alive”, o solo inicial de Smith parece prenúncio de guerra (os efeitos ambient são de Iyer). “Labyrinths” é pautado por uma desconfiguração rítmica que quebra todo tipo de alicerce padronizado. “Marian Anderson” homenageia a contralto considerada ‘voz do século’ numa bela simbiose que nos transporta a um tempo que não conhecemos, mas, por sua beleza, se mostra maravilhoso.

Ouça: teaser do disco


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Spirit Catcher

Wayne Rex & Ross Taylor

Gravadora: Independente
Data de Lançamento: 28 de março de 2016

Encontre via BandCamp

O baterista Wayne Rex, de 35 anos, já trabalha com improviso há mais de 20. Natural de Throwbridge, no Reino Unido, ele valoriza o dinamismo dos kits compactos, evocando sons em marcha e percussões tribais abafadas. Ao lado do ‘faz-tudo’ Ross Taylor, que assume os metais, leituras e maluquices sonoras, o duo carrega traços do avant-garde com o jazz japonês – tudo na base do improviso. “Booze Crooze”, por exemplo, parece o rito de uma sociedade que nunca teve contato com o ‘homem branco’. “Emergence” é o tipo de jazz intrépido com agudez extremada do sax-barítono – tanto que a canção integra uma compilação do Harsh Noise Movement (HNM), Death On Life Support, que reúne a embrionária cena de dark-ambient, noise e drone que envolve músicos da Espanha (Jose A. Ortega Gonzalez), Japão (King Kong Japan), entre outros. E não pense que Rex e Taylor param por aí: ainda em abril eles lançam um álbum pela HNM: The Danger of Being Subjective.

Ouça: disco na íntegra




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Tiago Ferreira

Editor do Na Mira desde 2010 - que, além de site, também é canal do YouTube e Embaixador Spotify. Já trabalhei como redator de comunicação interna, produtor de conteúdo da B2W (Americanas, Submarino e afins) e repórter de entretenimento, ciência e tecnologia no Vix.com. Também sou colaborador eventual da Revista da Cultura (da Livraria Cultura).


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